quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Os 8 Escolhidos - Capítulo 6

Novamente sem revisões, avisem caso acharem erros, por favor. =x 


Capítulo 6 – Histórias e Escolhas

O grande veículo de três rodas – Que Hórus chamava de Benny – parou depois de algumas horas, perto de um lago. Cenário não tão raro, não em Michigan. Gal havia adormecido; merecia, após tanta coisa que teve de enfrentar e ouvir numa noite só. Era impossível prever o quanto haviam andado, visto que Benny era diferente de qualquer outro automóvel já inventado.
- Bom, o que fazemos agora? - Disse Hórus, esticando-se na cadeira de motorista.
- Precisamos entrar em contato com outros Buscadores. Espero que aja mais deles, alias.
- É. E também, precisamos ver o que o garoto aí tem de especial.
- Isso podemos deixar para depois. Fomos bem rápidos desta vez.
- Não muda o fato que todo tempo é precioso.
- ... - Khalador acomodou-se melhor em seu lugar.
Enquanto isto, Hórus mexeu em alguns comandos do painel frontal. Estava começando a clarear, e o silêncio parecia reinar por ali.
- Que tal contarmos logo tudo para ele, Khal?
- Acho que ainda não está preparado.
- Eu acho que está.
- O que te faz pensar assim?
- Bom, ele já viu uma Sombra. E, tipo, ela matou o pai dele.
- Ainda sim é um garoto.
- E continuará sendo quando as Sombras estiverem à solta por aí. - Hórus tinha uma expressão séria na velha face. Ele também conhecia o terror daqueles monstros. Khalador soltou um longo suspiro e levantou-se de seu assento, indo em direção ao adormecido Gal.
- Tudo bem, acorde-o.
O velho desmanchou a face enrugada e sorriu para Khalador, saindo de seu assento para ir chacoalhar o garoto. Gal abriu os olhos lentamente, e relutante. Por um instante até imaginou se tudo que havia visto pudesse ser apenas um sonho. Sua esperança se desfez quando viu Hórus sorrindo para ele. O velho motorista era realmente bem mais baixo que qualquer outro idoso que já havia visto.
- O que há, garoto? Não queria saber de tudo? Aqui está sua chance!
Gal saltou no banco, tentando parecer mais acordado. A fala de Hórus havia atiçado sua curiosidade ao extremo. Khalador sentou-se ao lado do garoto, enquanto arrumava seu cabelo para que não ficasse na frente do rosto.
- Podem falar. Estou pronto para ouvir.
- Perfeito. Antes de tudo, qual o seu nome, garoto?
- Gal.
- Apenas isto?
- Não. Meu nome completo é Galahad Broadcase.
- Hm. Galahad. É um nome bem incomum por aqui, não é?
- É... Foi o nome de um dos cavaleiros da Távola Redonda.
- Távola Redonda? - Khalador disse, mais interessado.
- É. Sabe? O Rei Arthur, Lancelot? A espada na pedra e tudo mais?
- Não sou... daqui. Por isso não sei de nada sobre sua cultura.
- Bom, não importa mesmo. É só uma lenda boba.
- Não deveria subestimar lendas, Garoto. - Hórus intrometeu-se, enquanto virava o banco do motorista para trás para poder sentar-se de frente para ele.
- Não acredito nestas coisas. De qualquer forma, vão me explicar ou não?
O ar de Gal soava ainda mais ácido que antes. Se ele já era frio, agora ele praticamente parecia ter um coração de pedra. Khalador e Hórus se entreolharam por um segundo, para voltarem a fitar o garoto.
- Escute, Gal... - Começou Hórus. - Para escutar nossa história com atenção. É preciso que acredite em tudo que dissermos, por mais estranho que seja para você.
- Fale logo.
- Calma, garoto. Se não estiver calmo, não irá compreender tudo que falarmos... Veja bem, aquilo que o atacou algumas horas atrás, era uma Sombra. É assim que o chamamos. Eles são criaturas feitas de puro Caos e Destruição, e para isto são feitos. Para causar caos e para destruir.
- Certo, isso eu notei.
- Com o tempo, vários outros deles começarão a aparecer pelo mundo. Causando diversos imprevistos.
- Mas, eu não entendo... De onde eles vem? Nunca apareceu nada do tipo nos documentários de animais, quero dizer.
- Lógico que não. - E Hórus pareceu vangloriar-se por conter a informação correta. - Aqui começa o lado mais complicado de toda a história. As Sombras vem de uma energia negra, que apelidamos de Impiedoso Conquistador e...
- “Impiedoso Conquistador”? Vocês são bem criativos para nomes, heim?
- ...Vai me deixar continuar a história?
- Claro, claro. Prossiga.
- Perfeito. - E Hórus ajeitou-se na cadeira.
Khalador continuava calado, apenas observando toda a cena.
- Continuando da onde parei... hah, claro, Impiedoso Conquistador. Nós nunca conseguimos definir ao certo o que é ele, nunca tivemos nenhuma chance contra ele. Mas podemos confirmar que ele se alimenta de uma coisa: Dimensões.
- Espere. Espere. Dimensões?
- Sim. Já chego lá, calma. O Impiedoso viaja por entre dimensões e começa a destruí-las, pouco a pouco. No início, apenas parece que estão passando por uma série de acidentes. Como os que estavam ocorrendo até pouco tempo atrás; tsunamis, tornados, terremotos e essas coisas mais. Entretanto, conforme os dias passam, as Sombras vão começar a surgir para aterrorizar vocês. Pelo que vi de seus governantes, eles provavelmente vão tentar ocultar tudo o máximo que puderem, mas chegará a hora em que mais nada poderá ser feito para esconder a presença das Sombras. Elas irão logo levantar um grande exército negro e marcharão pela destruição desta dimensão. E, quando tudo estiver em ruínas, o Impiedoso irá aparecer para destruir o que sobrou.
- E onde vocês entram nessa história toda?
- Entramos nessa parte agora: Para cada nova dimensão que o Impiedoso toma para si, parte dele sobrevive e se anexa à energia negra do Impiedoso. Pode considerar esta energia negra como sendo um Planeta Sombrio, ou algo do tipo, que tem partes de vários restantes de dimensões destruídas. E junto disto, vem os sobreviventes. Pessoas que aguentaram a destruição das Sombras e foram pegas pelo Impiedoso para viver miseravelmente e nas sombras das sombras de sua energia negra. Não vou conseguir descrever para você o que é por lá, só te digo que o inferno parece fichinha perto dele. Mas o fato é que; nós sobreviventes, montamos pequenas alianças e tentamos, sempre que o Impiedoso se dirige a uma nova dimensão; salvar esta.
- Hah. Vocês.
- Exato. Viemos de mundos completamente diferentes. Khalador veio de um lugar onde a Magia e a Espada reinavam. Já eu, vim de um mundo onde tecnologia e telepatia eram a fonte de tudo. Mas ambos temos uma coisa em comum, nós sobrevivemos ao impiedoso e vivemos nele, na esperança de que algum povo algum dia possa derrotá-lo com nossa ajuda. -E Hórus se ajeitou no banco do motorista, tendo certeza de observar o garoto de frente.
- Certo. Certo. Agora esperem para ver se eu entendi. Vocês vieram de um comedor de planetas que...
- Dimensões.
- Que seja. Vocês vieram de um comedor de dimensões, para salvar este planeta da destruição total. Ambos vieram de dimensões diferentes e tem tradições diferentes. Mas estão aqui.
- Resumindo tudo, é, mais ou menos isto. Bingo! - Disse Hórus. - Sim, onde eu vivia também havia bingo.
- Perfeito. E como vou acreditar em tudo isso?
- Não é preciso que acredite para já estar acontecendo. - Cortou Khalador no mesmo instante. Rompendo de seu silêncio.
- Mesmo assim, ainda não compreendo... Porque vocês vieram justamente me salvar? Ora, deveriam usar desta missão para falar com o presidente, ou algo assim.
- Nós não podemos fazer nada se não for da nossa sina. Apenas uma pessoa deste mundo pode fazê-lo. E este, não é ninguém de outro. É um escolhido, uma pessoa que sua dimensão escolheu para protegê-la.
- E porque não foram buscá-la?
- Já buscamos, Gal. Você é o escolhido.
- Eu?
- Exato. O Escolhido é alguém único numa dimensão, pois que tem a capacidade de decidir o próprio destino, diferente dos outros, que já tem o destino traçado desde o momento em que a vida habita em seus corpos.
- Não, espera. Eu? Porque eu?
- Isso nem nós podemos explicar. As dimensões escolhem seus representantes, sejam eles garotos ou idosos. Já tentamos salvar uma dimensão onde o escolhido era um bebê.
- Não compreendo... E como vocês sabem que sou eu?
- Isto é simples. As primeiras Sombras que surgem numa dimensão vão atrás de um único ser. Do escolhido, e sempre foi assim. Temos Buscadores por todo o mundo, e nenhum obteve sucesso como nós. O que indica que você é o escolhido.
- E como tem certeza disto? Haviam tantas pessoas comigo! Gary, Ann, Meu Pai, Sr. E Sra. Walles... Todos eles foram atacados! - Gal parecia aflito, tanto que mal podia permanecer sentado naquele banco, observando Hórus e Khalador.
- Neste ponto você tem razão, garoto. Mas... - E Khalador o olhou com uma expressão séria. - Você tem outro sinal de ser o Escolhido.
- Qual?
- Sonhos, Gal. Nos últimos dias, você tem sonhado com o ataque das Sombras contra várias dimensões que já foram dominadas. Vendo várias batalhas finais e cenas de pessoas morrendo pelas mãos de vultos negros.
- ... - E daquela fez o garoto ficou em silêncio.
Khalador sentiu o que ele estava sentindo, ou pelo menos pensou ter sentido e o deu tempo para pensar. Enquanto se acomodava em seu lugar. Gal respirou fundo, tentando se controlar e olhou para os dois, novamente frio como sempre.
- E o que diabos eu vou poder fazer pela dimensão? Sou só um garoto. Tenho só 16 anos. Não tem como eu fazer algo.
- É aí que você se engana, Gal. Todo escolhido nasce com a capacidade de mudar o mundo. E tem várias características para o fazê-lo. Você apenas ainda não as notou dentro de si. Mas nós faremos isto acontecer.
- Então quer dizer que é só eu contra um comedor de dimensões? - Khalador abriu um sorriso e olhou para Hórus.
- Prossiga daqui, Cabeçudo.
- Cabeçudo é a senhora sua mãe, rapaz! - Respondeu automaticamente o velho motorista para voltar-se para Gal. - Bom, aqui vem a segunda parte de nossa missão, Gal.
- Missão?
- Exatamente, a missão dos Buscadores e do Escolhido. Veja bem, pequeno... Você é o único que pode mudar seu curso do destino, e assim, salvar a dimensão. Entretanto, existem alguns que tem a aptidão a lhe dar ajuda nos momentos mais críticos. Estes, são Sete, que também chamamos de escolhidos. Estão espalhados por todo este mundo, e precisamos reuni-los antes de fazer qualquer outro movimento. A morte de apenas um deles pode resultar na falha de toda a luta contra o Impiedoso.
- Ótimo. Então, vamos percorrer o mundo perguntando para cada pessoa que nós vermos: “Me desculpe, mas você é um escolhido?”. Excelente, adorei a idéia.
- Você é uma graça quando quer, Gal. - Disse Hórus, visivelmente ofendido. - Os Escolhidos também são os primeiros a serem perseguidos pelas Sombras. Só não possuem sonhos. Mas para isso, temos você.
- Eu?
- Exatamente. Agora que já está ciente de sua missão; com o tempo, alguns sinais irão aparecer para você. Mostrando para onde seguir até encontrar o próximo escolhido.
- Que tipo de Sinais?
- Isso varia muito. Houve um escolhido que, quase sempre causava um acidente sem querer. O primeiro a lhe socorrer era um outro Escolhido. Também, o Bebê que chorava mais a partir do momento em que chegávamos mais próximo de um deles. Você pode ter diversas visões ou sinais. Sonhos, Dicas, Vozes. Tudo é possível neste sentido, Gal.
- Certo, então, eu sou obrigado a ir com vocês, agora?
- Não. Isto é sua escolha, Seu caminho a trilhar. - Disse Khalador, interrompendo. - Mas vale lembrar que quanto mais tempo se passar, mais riscos você poderá correr. As Sombras sempre optarão por um escolhido, e sentem sua presença de longe.
- Grandioso, assim você me dá muitas escolhas.
- Não é nossa culpa, pequeno. - Voltou a falar Hórus com um sorriso na face. - E então, o que vai decidir? Precisa tomar uma decisão rápida.
- Por enquanto, nada. Posso ir lá para fora um pouco? Gostaria de um pouco de ar fresco pra pensar. Ou corro riscos fora desse triciclo?
- Benny.
- Certo, Benny.
- Pode ir. Estamos seguros por um tempo. - E Hórus virou-se para o painél, puxando a alavanca mais afastada. E logo depois olhou para Gal saindo do veículo.

Gary acordou com uma dor de cabeça matante. Abriu os olhos lentamente, apenas para sentir a dor de cabeça aumentar pela luz do Sol entrando pela janela aberta. Gemeu, e fechou os olhos, colocando as mãos sobre eles. Ficou assim por alguns segundos para fazer uma segunda tentativa.
- Onde diabos estou? - E abriu os olhos. Estava vestindo uma roupa azul-bebê bem folgada. E estava deitado numa cama branca, num quarto quase todo branco. Um hospital.
De súbito, todas as imagens da noite passada lhe vieram em mente, como um turbilhão de memórias esquecidas. Levantou da cama num salto, e só aliviou-se ao ver a Irmã na cama ao lado, ainda dormindo, calma e tranquilamente. Não lembrava como tinha chegado ali, só tinha certeza que havia desmaiado enquanto fugia com a irmã, após ouvir altos rugidos vindos de dentro do quarto. Tinha sido uma noite difícil, mas parece que agora tinha se acalmado. Voltou para a cama e respirou fundo. Ele não tinha mais pais. Eram só ele e a irmã agora. Foi quando um súbito pensamento lhe passou pela cabeça e ele olhou para o outro lado.
- Gal! - Mas do outro lado da cama dele, só havia a janela.
Talvez esteja em outro quarto, pensou ele. E direcionou seu olhar para a porta, mas sua visão foi uma bem diferente. Pela pequena janela retangular da porta, viu do outro lado um homem grandalhão de terno preto e óculos escuros, visivelmente olhando para ele. Paralisou na hora, não era para ter um grandalhão de terno preto, e sim, o velho Delegado Ryan. Ficou alguns instantes olhando para ele, até sua atenção ser desviada.
- Gary?... - Veio a baixa voz da cama ao lado.
- Ann! - E saltou da cama indo até ela. - Que bom que acordou! Está tudo bem com você?
- Sim... - Disse, quase inaudível.
Para logo depois entrar num silêncio desconfortável.
- Gary, o que aconteceu ontem... Não foi um sonho, não é?
- Eu... acho que não.
- Então, papai e mamãe.
- Sim. Só somos nós dois agora, Ann.
- E Gal? Onde ele está?
- Não sei. Não o vi depois que saltamos pela janela. Espero que esteja vivo. Mas eu realmente não imagino o que pode ter acontecido lá depois de nós fugirmos.
- ... - Ela suspirou. - Entendo.
- Não se preocupe! Ele deve ter ficado bem, Ann. Agora você só precisa se preocupar com você mesmo e...
Mas não terminou a frase. A porta do quarto se abriu, e dela entraram cinco homens de terno preto, igual ao que estava vigiando na porta. Eles se posicionaram enfileirados em frente aos irmãos, e logo uma última figura entrou na sala.
Vestia também um terno negro, só que este era visivelmente mais caro que os outros. Tinha rugas que mostravam sua idade avançada, e era o único que não usava óculos escuros, mostrando assim seus olhos castanhos que combinavam bem com o cabelo grisalho. O homem tinha uma leve feição rígida, e Gary sentiu arrepios ao vê-lo.
- Dormiram bem? - Soou a voz grossa do homem.
Gary e Ann apenas assentiram com a cabeça.
- Ainda bem. Acho que preciso me apresentar. Sou o Agente Federal Winston, e estou aqui pelo que aconteceu ontem na casa de vocês.
- Agente Federal? - Indagou Gary.
- Exato. Mas não se assustem. É só que... - E pareceu pensar um pouco. - É só que a polícia local não tem experiência o suficiente para lidar com uma situação deste porte.
- Espere, Espere, o que você quer dizer com “deste porte”?
- Ora, vocês sabem, o que aconteceu ontem na casa de vocês. Lamento muito pelos seus pais, mas nós precisamos de detalhes sobre o que aconteceu. Os vizinhos nos relataram sobre rugidos altos e selvagens. Vocês confirmam isto?
Gary e Ann se entreolharam por um segundo, e logo depois confirmaram com a cabeça.
- Ótimo. E vocês viram o que aconteceu?
- Nós...
Ann já ia falar sobre todo o incidente, mas Gary a interrompeu antes.
- Não. Nossos pais apenas disseram que estávamos em perigo e nos fez saltar do segundo andar.
- Hm. - Ryan não pareceu acreditar. - Tem certeza de que foi isto?
- Sim.
Gary trocou alguns olhares com Ann. Coisa de irmão, logo entenderam.
- E você, Ann? Foi isto mesmo que aconteceu?
- Sim.
Ann pareceu até mais convicta que Gary. Ryan deu um longo suspiro enquanto dava alguns passos pelo quarto. Como se estivesse tentando manter a calma. Puxou a cadeira do canto até o centro do quarto e sentou-se nela.
- Tudo bem. Vamos para a próxima pergunta. Havia mais alguém na casa? Fora vocês dois e o Sr. E a Sra. Walles?
- Sim. O Sr. Jeorge iria passar a noite conosco, por causa de um incêndio na casa dele.
- Apenas o Sr. Jeorge.
- Pelo que eu saiba, sim. - Continuou Gary.
- E o filho dele? Han... Galahad?
- Não sabemos dele. Parecia que também viria, mas não apareceu por lá na hora.
- Entendo. - E Ryan pareceu novamente desapontado.
- O que aconteceu? Digo, com meus pais e com o Sr. Jeorge? Eles realmente...
Gary já sabia da resposta, mas por mais doloroso que poderia ser ouvi-la oficialmente, ele queria. Só assim teria certeza de que seus pais realmente estavam mortos. Ryan confirmou com a cabeça.
- Sim. Estão os três mortos.
E Gary não precisou estar fingir para ficar com uma face abatida.
- Havia mais algum corpo lá? - Ann rompeu do silêncio.
- Mais algum? Porque haveria? - Ryan pareceu interessar-se no que Ann dizia.
- Por nada. A minha irmão só estava pensando se talvez Gal pudesse ter aparecido em casa.
Gary a interrompeu, antes que pudesse dizer mais alguma coisa que revelasse sobre seu amigo.
- Hah. Claro. Entendo. - E Ryan suspirou. - Bem, em breve serão levados para um orfanato. Mas até lá, ainda precisaremos fazer mais algumas perguntas durante as próximas semanas. Vocês não se importam, não é mesmo?
- Não. Tudo bem. - Ann disse.
- Ótimo. Então, vou deixar vocês descansarem. Até mais.
E o Agente Ryan mal fechou a porta e se afastou pelo corredor para Ann fuzilar Gary com seu olhar. Seu irmão estava tramando alguma coisa e ela sabia muito bem disto.
- O que foi aquilo, Gary?
- Não. Não tive um bom pressentimento sobre esses caras. Algo me diz que não podemos confiar neles. Ainda mais contar sobre Gal. Você ouviu, não foi, Ann? Ele está vivo! Não acharam o corpo dele lá em casa. Significa que podemos encontrá-lo.
- Gary, não me diga que...
- Claro. Estou saindo daqui agora mesmo para achá-lo. Você vem comigo ou vai para o Orfanato?


Assim que a porta se fechou atrás de Gal, ele finalmente pôde respirar. Recebeu informação um dia do que jamais tinha recebido a vida toda. E além disto, só agora ele parou para pensar na sua perda. Olhou para trás, certificando-se que os dois não o espiavam, e logo depois sentou-se escorado na roda de Benny, enquanto retirava seu tesouro do bolso.
Olhou a pequena bolsa por alguns segundos enquanto refletia sobre o que havia acontecido. É, agora estou sozinho de verdade. Foi o que pensou. E logo depois abriu lentamente o zíper. Ali dentro, havia uma foto da família inteira. Jeorge, Mancy, Gal... e Sarah. A Mãe tinha oito meses de gestação na foto, e a eles não poderiam estar mais felizes naquela época. Mesmo com tudo que tinham para se preocupar, fora o mês que mais aproveitaram. Era a única foto que havia sobrevivido, todas as outras já não existiam mais, e por isso Gal a prezava tanto.
Junto da foto, um pequeno pingente. Havia uma bailarina em cima de um único pé toda graciosa em seu dourado que a recobria. Aquele seria o primeiro presente que Gal daria para sua irmã. Olhou para ele por um instante e logo depois o pôs de volta na bolsa. E ficou a olhar para a foto. Seu Pai tinha morrido por ele. Gal juntou os joelhos para a face e abaixou a cabeça, começando a choramingar baixinho. E assim ficou por alguns bons minutos.
- Dói, não é? - Veio a voz de cima.
Gal rapidamente secou o rosto e levantou-se para ver quem falava. Khalador estava sentado sobre Benny, apoiado sobre as mãos para observar o dia clarear aos poucos.
- Como?
- Dói. Dói quando alguém dá a vida por você sem pedir nada em troca. Não é?
- ... - E Gal voltou-se a sentar em seu lugar. - É.
- Eu... Já vivi disto tantas vezes que cheguei à beira do suicídio. - E suspirou. - Mas parei para pensar. Eles jogaram suas vidas fora pela minha, não devia me desfazer da minha de um jeito tão estúpido. E é por isso que estou aqui hoje. Por eles.
O garoto pensou bastante antes de falar.
- Aquele seu Comandante, grande, com a marreta. Foi um deles, não foi?
- Como você...
- Os sonhos. Você mesmo disse, Lorde Khalador.
- Claro. Me esqueço deste detalhe.
- Você... Era um escolhido?
- Sim. Todo meu mundo dependia das minhas ações. Mas eu falhei. - E suspirou. - O General com a Marreta grande, se chamava Langus. Ele era um escolhido. Deu a vida para salvar a minha, quando a Sombra apareceu entre nós na nossa última batalha.
- Imaginei que era isso.
Gal se levantou sem pressa alguma e espreguiçou-se enquanto guardava a foto dentro da bolsa novamente. Khalador permaneceu quieto olhando o horizonte, um belo e grande lago se projetava na frente de Benny. Se aquela fosse outra ocasião, poderiam ter aproveitado melhor a vista.
- Pode me responder mais uma dúvida? - Gal rompeu o silêncio.
- Diga.
- Porque... Porque apenas a terra está sofrendo com isso? Quero dizer, a dimensão também inclui o sistema solar e tudo mais, não é?
- É uma boa pergunta. - Khalador disse sem voltar o olhar para o garoto. - Toda Dimensão tem uma alma. Viva e pulsante. A alma desta dimensão é a Terra e seus habitantes. Por isso, o Impiedoso domina primeiro aqui, para depois ir para outros lugares. Proteger a terra é o ponto chave de tudo.
- Hm. - Conformou-se Gal. - E... E como vocês sabem de tudo isso? Quero dizer; dos Escolhidos e tudo mais.
- Bom. Existem algumas dimensões, onde a profecia e o destino são consagrados. Eles previram tudo, e, após serem destruídos, os sobreviventes nos ensinaram sua sabedoria. Alias, nosso grande Líder é um deles. Se chama Rhurgon.
- Nome estranho.
- Sim. Todos da dimensão dele tem nomes parecidos com estes. Foi ele quem primeiro levantou o braço para se opor ao impiedoso após a destruição de seu planeta. Nós apenas o seguimos, até formarmos a Grande Oposição...
- Grande Oposição? Deixe-me adivinhar, este é o nome que vocês deram para a aliança.
- Exato.
- Feh. Vocês realmente não tem criatividade alguma para nomes.
- Não é culpa minha. - E Khalador esboçou um pequeno riso. Gal apenas o correspondeu com outra pequena risada. Para logo depois seguir-se um silêncio acalmante.
- Então, o que vai fazer? - Khalador rompeu o silêncio
- Não é óbvio? - Gal olhou para o horizonte. - Vamos, temos de encontrar outros sete escolhidos.
Leia até o fim...

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Os 8 Escolhidos - Capítulo 5

Capítulo 5 – O inesperado e O impossível


- Não diga besteiras! - Gal respondeu de impulso, enquanto começava a chorar. - E pare de se culpar por algo que não foi você quem fez! Eu nunca o culpei! E nunca teria esse direito! Você só queria salvar minha irmã!
- Gal... - E por um instante, ambos se esqueceram da figura grotesca que estava se aproximando lentamente deles. - ...Obrigado.
- Idiota.
- Pois é, nunca pensei direito, né? - E sorriu para o filho.
O último que ele veria, em meio a sangue e na hora da morte.
- Agora, você precisa ir.
- ...
- Apenas vá. Senão, meu sacrifício aqui foi em vão. E tente descobrir o que é isso. Depois, se afaste de tudo isso, meu filho. Viva uma vida normal e feliz, por mim. - E com isto, ele lançou seu olhar encorajador para o filho. Um que Gal não via por muitos anos, e que, da última vez, levou Mancy a decisão mais fatal de sua vida. Aquele olhar movia montanhas com sua força.
Movido por esta força de vontade, o garoto levantou-se, deixando o pai com um sorriso na face. O grande monstro agora estava praticamente em cima dele, mas a janela ainda estava ao seu lado. Lançou-se por ela segurando com as duas mãos a pequena bolsa de couro, mas foi tarde demais: O monstro agiu mais rápido que o esperado e seu longo braço se moveu para agarrar a perna de Gal, o parando antes que seu corpo ficasse completamente fora do quarto. Ele pôde ver Gary e Ann saindo do colchão com olhares assustados na direção dele, para logo em seguida ser jogado para dentro bruscamente.

- Argh! - E seu corpo se chocou contra a parede do quarto com força.
Por um leve momento o garoto pensou que ia perder a consciência, mas revelou-se mais forte que o esperado. Rapidamente levantou-se para analisar a situação: Agora a criatura estava no caminho entre ele e a janela, e não havia muita coisa a se usar como arma contra ela. De modo que, tudo que Gal fez, foi guardar a bolsa no bolso e se preparar para esquivar-se do monstro. Apostava que ele seria lento para reagir caso esquivasse, era sua única saída.
Não teve de esperar muito, a investida veio pela direita com toda força e velocidade possíveis. Gal se jogou para o chão e rolou por debaixo do braço do monstro quando este passava por cima dele. Mal teve tempo de se levantar antes que o monstro recuasse um passo e já avançasse para cima dele com o outro punho, agora frontalmente. Não haveria tempo para rolar novamente, mas o corpo de Gal agiu antes que ele mesmo pensasse. O jovem correu na direção do punho e usou os braços para se apoiar na mão do monstro, usando-a como apoio para saltar por cima do soco, antes que o atingisse. Se jogou na direção da cama e caiu sobre ela, já levantando-se no mesmo instante. Talvez tivesse alguma chance de escapar. A criatura virou-se para ele e soltou um urro disforme, como se sua presa estivesse escapando demais de seus golpes. E assim ela partiu para cima dele desferindo uma sequencia interminável de socos com os braços enormes, Gal agiu novamente com uma precisão incrível, se lançando ao chão novamente para passar por debaixo das pernas dele. Porém, neste instante, a criatura afastou-se um passo virando em direção a ele, e como resultado, acabou chutando Gal sem querer. O chute o lançou contra a parede novamente, fazendo ele perder todo o ar e sentir toda a dor que tentava ignorar com a adrenalina. E agora, o monstro vinha para cima dele com tudo, o braço direito já arqueado acima da cabeça, pronto para esmagá-lo ali.

Gal recolheu-se, não havia tempo para esquivar-se e seu corpo não respondia aos seus comandos por causa da dor. Seria seu fim, ele apenas fechou os olhos e pôs os braços a frente do corpo. E assim, passaram-se os próximos segundos. Um silêncio repentino tomou conta do quarto por alguns segundos e Gal abriu os olhos para ver porque ainda não havia morrido.
A frente dele, estava um homem de cabelos negros compridos e esfarrapados, vestia uma calça bege cheia de bolsos e uma camiseta preta justa. Na cintura, haviam duas espadas presas em suas devidas bainhas, e em suas mãos havia mais uma espada. Esta, estava trespassada no punho da criatura. Até ela demorou para entender o que estava acontecendo.

- Saia daqui agora, garoto! - Esbravejou o homem.
Mas Gal estava perdido demais para fazer qualquer coisa. O monstro urrou e repeliu o homem com o outro braço enquanto recolhia o ferido para perto do corpo. Ele apenas sacou outra espada enquanto saltou para trás para esquivar-se do braço. E antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa, a criatura investiu contra ele.
Gal seriamente pensou que agora ele também estaria perdido, visto a veracidade com a qual a criatura havia avançado. Mas estava enganado. O homem saltou por cima do punho quando este passou horizontalmente contra ele, e logo depois abaixou-se e rolou quando o braço ferido investiu contra ele, ainda com a espada fincada nela. Mal terminado o golpe da criatura, o homem rolou mais uma vez, agora chegando assustadoramente perto da criatura, como se ela não lhe botasse medo algum, e fincou a segunda espada na cintura dela, fazendo questão de colocar toda a lâmina para dentro do corpo monstruoso.
Daquela vez a criatura tombou para trás, fazendo toda a casa tremer e fazendo também algumas boas rachaduras surgirem no chão do quarto. O desconhecido se afastou e olhou para mim mais uma vez.

- Já não disse!? Saia daqui!
Mal podia ele imaginar que Gal agora estava mais confuso que antes e por isto continuou parado observando a cena. Ele reclamou consigo mesmo enquanto sacava a terceira espada da cintura, sabia que ainda teria de lutar. Mas agora, o monstro estava completamente desestruturado, levantou-se com muita dificuldade e deu passos cambaleantes na direção de Gal.
E antes que puder fazer mais qualquer coisa, o homem saltou contra ela e fincou a terceira e última lâmina no meio do peito. A criatura urrou, e logo depois, se desfez no meio de uma grande massa negra que começou a se dissipar como fumaça no ar. Como podia ser tão fácil para ele? Era o que Gal pensava.

Enquanto isto o desconhecido foi até ele e o fez levantar-se a força, o puxando pelos braços.
- Escute, mais deles virão. Então, precisamos ir.
- Quem é você?
- Não há tempo para explicações agora. Apenas vamos.
- Gary e Ann?
- Eles vão ficar bem, os Negros vem atrás de você. E de mais ninguém.
- Negros?
- É. Vamos.
E cortou o assunto, puxando o garoto por um braço pela porta. Gal teve a infelicidade de ver tod o caminho traçado pelo monstro pela casa enquanto seguia imponente o desconhecido de cabelos compridos. Viu o Senhor e a Senhora Walles mortos pelo caminho, mas tentou ignorar a cena enquanto descia as escadas. O homem abriu a porta de entrada e saiu para o meio da rua.
Ali fora, tudo parecia normal ainda. Uma leve brisa de madrugada passou por Gal quando ele observava se mais alguma coisa anormal acontecia. Várias casas em volta já estavam com luzes acesas, e provavelmente não demorariam mais cinco minutos até abrirem as portas para olharem o que acontecia na casa dos Walles. Gal também não duvidava que já tinham chamado a polícia.

Gal foi arrastado até o meio da rua, quando o homem o soltou, e pegou algo no bolso, colocando no ouvido.
- Onde está me levando?
- Por enquanto é melhor não saber de nada, garoto. - Foi a cortada que levou.
- O que eram aquelas coisas, pelo menos diga isso!
- Não.
- Elas mataram meu pai! Diga algo!
- ... - E pareceu pensar por um instante. - Elas são...
Mas neste exato instante, um ronco de motor altíssimo surgiu, interrompendo a fala do homem. Na esquina, virou um grande veículo de três rodas em alta velocidade. Ele parecia com um tanque de guerra cinza-escuro com um motor de avião embutido. Tinha três enormes rodas, quase do tamanho das rodas de tratores, uma na frente e duas nas extremidades traseiras, fazendo ele ter uma forma triangular. Ele freou com tudo a frente da casa e então a parte da frente do veículo. se abriu e uma voz e coou lá de dentro.
- O que estão esperando!? Vamos, logo a polícia vai aparecer!
E antes que algo mais pudesse ser dito, o homem empurrou Gal para dentro do triciclo-de-guerra, e entrou em seguida. Ali dentro haviam quatro lugares, Gal se acomodou no mais ao fundo, enquanto o homem sentava ao seu lado. Na cadeira mais a frente, onde haviam diversos controles e painéis, estava sentado um homem de short marrom, camisa florida e chinelos de dedo. Ele parecia ter entre cinquenta e sessenta anos e tinha no máximo um metro e meio de altura. Também teve tempo para analisar, o homem que o salvou. Ele tinha um ar sério e grandes cicatrizes na face e em partes do corpo, como nos braços, não tinha mais de trinta e cinco anos, e parecia bem familiar para ele. Então a porta se fechou e o veículo acelerou pela rua numa velocidade impressionante, que fez o corpo de Gal ser lançado contra o banco.

Pelas poucas janelas do veículo era possível ver que se moviam rapidamente, e que haviam saído da rua. Bluesky era uma cidade pequena e cercada de campos abertos. Por isso, não foi difícil para eles saírem do perímetro da cidade, ainda mais num veículo super potente como aquele, que fazia tudo virar borrões pela janela. O velho que pilotava-o parecia ter uma prática incrível com ele, pois apertava botões e acionava alavancas com uma precisão e rapidez fora do comum. Simplesmente parecia uma só com a máquina.
E foi quando o admirava que ele virou os olhos na direção dele, encarando-o.

- Este é o escolhido?
- Sim, tenho certeza absoluta. - O homem respondeu.
- Ora! Porque diabos um garoto!? Olhe só para ele, não pode fazer nada!
- Tudo tem seu tempo, Hórus. Vamos ver o que ele é capaz de fazer outra hora. Por enquanto precisamos apenas nos afastarmos para conseguir alguma segurança. É melhor um escolhido imprestável vivo do que um útil e morto.
- É, tem razão. Tem razão. - Disse Hórus, e apertou mais uma sequencia de botões do painél.
O veículo responde com alguns sons baixos que soaram perto dos controles e em seguida acelerou. Gal achou que seria uma boa hora para perguntar algo.

- Será que agora poderiam me dizer alguma coisa?
- ... - O homem o observou. - O que acha, Hórus?
- É uma boa falar algo para ele. Vai que ele fica doido?
- Tudo bem. Diga o que quer saber. - E virou-se para Gal.

- Primeiramente, quem são vocês?
- Enviados para te salvar. Prefiro não entrar em detalhes sobre isso agora. Quando lhe explicar toda a história, entenderá tudo. Prossiga.
- Tudo bem... O que é aquele... Monstro?
- Nós os chamamos de Negros. São grandes criaturas formadas de uma personificação de caos e destruição. Em breve, vão começar a surgir muitos deles pelo mundo, e não conseguiremos mais escondê-los.
- Existem mais?
- Sim. Infinitos. E está encerrado, prefiro não lhe dizer mais nada por enquanto.
- Só mais uma pergunta, então.
- ...
- Posso?
- Diga logo.
- Quem é você?
- Eu sou Khalador.

Não fiz revisão. Podem haver erros de português. Me avisem caso acharem algum deles.

Leia até o fim...

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Os 8 Escolhidos - Capítulo 4

Capítulo 4 – Memórias de um passado sofrido

- Cheguei! - Gritou Gal ao chegar em casa. A nova escola era realmente incrível, ainda mais quando se estava entrando para o mundo da adolescência. Deixou a mochila ao lado da porta de qualquer jeito e descalçou o tênis antes de ir para a cozinha. O cheiro do almoço já estava dando embrulhos volumosos em seu estômago.
- Ora! Quanta animação. - Veio a voz feminina da cozinha. - Parece que tudo ocorreu bem por lá, não é, querido?

A mulher tinha não mais que trinta e cinco anos e esbanjava felicidade em cada gesto. Os cabelos negros e volumosos, sua marca mais famosa, estavam presos num coque para que a gordura não espirrasse neles. Gal surgiu na porta e sentou-se no seu lugar na mesa.

- É! Tudo é demais por lá! Sabia que eles tem até pistas de skate, mãe?
- Verdade? Ora, isso é ótimo. - Disse ela, enquanto colocava um ovo frito direto da panela para um prato na mesa. - Mas não muda o fato que não vou deixar você andar de skate, menininho.
- Mas mãe! É no colégio!
- Sim. Mas você continuaria em cima de algo que considero perigoso. Então, nem pensar!
- Eles tem supervisores de pátio!
- Depois que você cair, de nada vai adiantar. - E mesmo discutindo, ela não perdia o bom humor de sempre.
- Mas...
- Sem mas, Gal. Você não vai contrariar o pedido de uma mulher grávida, não é? - Disse, fazendo um leve bico. Com aquilo Gal desviou o olhar e travou para não segurar o riso.
- Apelar para isso é golpe baixo. - E logo depois escapou uma risada gostosa de se ouvir. Neste mesmo instante, o carro estacionou na garagem. Jeorge estava na porta da cozinha, colocando as chaves sobre o balcão. Ele sorriu ao ver o garoto e a mãe ali. Caminhou até a esposa e a beijou rapidamente, para depois ir até o menino, e enchê-lo com um belo cafuné.

- E como foi lá, Gal? Gostou?
- Claro, Amei! Mas a mamãe não está deixando eu andar de skate!
- Como é? - E fez uma cara de assustado pela metade.
- Pois é. Mas não tem perigo algum! Afinal, é dentro do colégio e tudo mais...
- Hm... Verdade. Verdade. - E Jeorge virou-se para a mãe. - Que tal, Mancy? Porque não dá uma chance para seu querido filho? Ele anda se comportando bem, afinal.
- Sim! Nunca mais atrasei em limpar meu quarto ou em cortar a grama! Por favor, mãe! - E fez uma cara de coitado para ela. Mancy se virou para encarar os dois homens da casa fazendo a mesma cara para ela. A início, enfrentou-os com uma expressão inflexível. Mas não resistiu dois segundos para apoiar a testa na mão e soltar um suspiro, seguido de um sorriso. - Tudo bem. Mas apenas se usar joelheiras e cotoveleiras!
- Claro, Mãe! Claro! - Disse Gal imediatamente.
- E também, só quando fiscais de pátio estiverem olhando!
- Sim senhorita! Obedecerei!
- E você, Senhor Jeorge, devia parar de ir contra sua esposa! - E finalmente voltou para o fogão. Jeorge levantou-se e foi até ela. A abraçou e apoiou de leve o queixo sobre o ombro dela para beijá-la em seguida.
- Não fui contra você, querida. Só fui a favor de meu filho!
- E não deu quase na mesma? Ora! - E riram.

Assim foi o almoço, como sempre. Risadas a parte, conversas sobre responsabilidade no novo ano e as histórias de como o trabalho de Jeorge eram divertidas. O tempo passou num instante, e logo, Gal já estava no seu quarto, fazendo as primeiras lições de casa, enquanto os pais se preparavam para sair. Ele ouviu leves batidas na porta para logo depois ver seu pai abri-la.
- Estamos indo ao médico. Voltamos mais tarde, sim?
- Tudo bem. E pai...
- Sim?
- Eu ainda aposto que é uma menina.
- Que nada, você terá um novo irmão. Com certeza! E esse escolherá um time bom para se torcer!
- Duvido! - E Jeorge fechou a porta com uma risada. Dali em diante, a tarde foi bem tediosa para Gal. Ele terminou as lições dele em pouco tempo, elas nunca foram problemas para ele. Notas e escola, alias, nunca foram um problema. Ele simplesmente conseguia tirar notas boas sem muito esforço. De qualquer modo, Gal revisou os exercícios e depois tirou um bom cochilo. O resto da tarde foi alternado entre jogar videogame e assistir televisão.

Já eram quase sete da noite quando Gal ouviu o barulho do carro entrando na garagem. Eles haviam demorado muito mais que o esperado. Apenas abriu um sorriso e se recostou na parede enquanto estava sentado na cama. O pai logo viria para lhe dar a notícia. As mais novas notícias, afinal de contas, não fazia muito tempo desde que Mancy tinha engravidado novamente, e desde então a barriga dela começou a crescer timidamente. Para Gal, filho único, aquilo havia sido uma enorme alegria. Tão grande que ele nem chegou a pensar em coisas como dividir bens e nos ciúmes pela atenção dos pais. Simplesmente estava feliz.
Logo, os passos soaram pelo corredor e o coração do jovem Gal palpitou mais rápido. O som deles aumentou conforme os pais se aproximavam. Até que, subitamente, os barulho começou a diminuir. Os pais haviam passado direto pelo quarto dele. Algo estava errado. Jeorge não seria assim tão frio, no mínimo estaria conversando e falando alto por aí, comemorando a vinda do segundo filho, ou filha.

Gal esperou alguns poucos minutos para ver se algo acontecia, e logo depois abriu a porta de seu quarto o mais silenciosamente possível. Se esgueirou pelo corredor, arrastando os joelhos no chão para evitar qualquer ruído. A porta do quarto dos pais estava entreaberta, de modo que apenas um pequeno filete de luz iluminava o corredor. Gal sentou-se ao lado da porta e pôs um olho sobre a abertura.

- Não! Não dá para entender, Jeorge! - Rompeu a voz de Mancy, bem abatida.
- Eu sei querida, mas temos que aceitar os fatos e seguir.
- Seguir como? Como diabos vou poder ir em frente depois de saber disso tudo? Eu não sei nem que decisão tomar ainda... - Jeorge a consolou, sentando-se ao lado dela na cama enquanto a envolvia nos braços. Mancy aceitou de bom grado.
- Tudo bem. Fique tranquila, eu estou aqui com você, amor. E nós também temos o Gal, não é?
- Sim. - Disse, quase sem notar. - Deus, o Gal! Como vamos contar isso para ele?
- Não sei. Mas precisamos ter calma. Mas eu acredito que ele vai aceitar tudo e nos dar a força dele. Afinal, você conhece seu filho. - E Jeorge tentou abrir um sorriso.
- É. Obrigada, querido. Acho... Acho que já estou melhor. Mas... Que decisão devo tomar, agora? - E ela o olhou, profundamente. - Mesmo estando numa gravidez de risco... Vale a pena continuar?
- ... - Jeorge calou-se, pensando.
- Posso por em risco a minha vida e a do bebê... Mas gostaria de tentar, Jeorge. Eu sei. Eu sei. Isso é muito egoísmo, também temos o Gal. Só que... - E as lágrimas começaram a brotar dos olhos da mãe de Gal. Ela provavelmente estava daquela forma no carro, antes de chegarem ali. - Eu não sei o que fazer, Jeorge.
- Mancy... - Por um instante, ele também pareceu não saber o que iria dizer. E, num piscar de olhos, uma determinação sem igual surgiu na face de Jeorge. Ele abriu um sorriso e segurou a esposa pelos braços, bem próxima de seu corpo. - Mancy. Vamos tentar. Você é forte, E nossa filha também é. Mesmo correndo tantos riscos. Eu.. Eu sei. Eu sinto que vamos conseguir transpor todas essas barreiras. Não aborte, querida. Por favor. Sempre ficarei ao seu lado. Vamos conseguir, eu sei.
E com aquela fala. Mancy agora parecia ter ido a outro mundo. Seu olhar estava vago enquanto ela mergulhava em pensamentos. Ficou assim por alguns minutos, até finalmente ela abrir um sorriso e mais lágrimas saíram de seus olhos. Abraçou forte o marido e se aninhou no peito dele.
- Sim. Vamos conseguir. - E Gal afastou-se lentamente depois da última fala. Mesmo sendo tão novo, ele havia entendido grande parte do que estava ocorrendo ali. E tinha certeza que daria todo seu apoio ao pai, e principalmente, a mãe.

No outro dia, logo bem cedo, Mancy e Jeorge conversaram com Gal sobre o que discutiram na noite passada. Gal fingiu-se de desentendido e aceitou tudo com um forte abraço na mãe e no pai depois de ouvir eles falaram. Tinha orgulho deles, e sabia que não iriam perder para aquela gravidez de risco. Quando explicaram para ele, disseram que era uma doença rara, e que poderia causar sérios riscos durante uma gravidez. A vida de Mancy e do bebê estavam em risco caso decidissem seguir em frente. Mas, como Gal já sabia, eles decidiram por arriscar.
E dali em diante, as coisas voltaram a correr normais. Ou quase normais. Gal continuava a ir para escola e seu pai continuava a trabalhar. Mas a mãe que antigamente ficava sozinha em casa boa parte do tempo, agora estava sempre acompanhada de alguma amiga das redondezas. Também, as consultas dela ao médico eram bem mais frequentes que antes. Os dias seguiram-se desta forma, sem mais nenhuma alteração drástica. Meses se passaram, enquanto a barriga de Mancy crescia, junto de sua preocupação. Às vezes Gal a encontrava chorando em algum canto da casa, Jeorge também parecia mais estressado em certos dias. Compreendia o que ocorria em volta dele e tentava animar a todos. Muitas vezes, ele conseguia.

O dia tão esperado aconteceu no meio de outubro, Gal já havia se habituado completamente a escola e agora não a achava mais tão incrível quanto antes. Até mesmo a pista de skate tinha ficado enjoativa para ele. Voltava para casa no meio da tarde, depois de fazer um trabalho de escola junto do grupo dele. Já estava para abrir a porta quando ouviu algo quebrando lá dentro, seguido de um grito agudo.
Se jogou para dentro da casa com uma rapidez impressionante e deixou a mochila de lado. Não estava previsto para aquela semana, era cedo demais. Caso contrário, Mancy já estaria no hospital. Assim que Gal entrou na cozinha deparou-se com sua mãe caída no chão com a mão sobre a barriga enquanto se contorcia de dor. A amiga dela, uma velha vizinha de Gal, já estava ligando para a emergência enquanto voltava a se sentar ao lado da amiga.

- Gal, querido, não se preocupe... - Dizia Mancy, mas sua face de dor o fazia pensar justamente o contrário. Ela estava deitada sobre a maca, correndo pelos corredores do Hospital de Bluesky. Gal a acompanhava como podia, afinal, ele estava ali representando o papel do pai, enquanto ele saía correndo do trabalho para ir até lá. - Mamãe vai ficar bem. - E com isso ela entrou na sala de cirurgia e impediram Gal de continuar a seguindo.
Depois de quinze minutos, Jeorge apareceu quase caindo no corredor, já vestindo uma roupa apropriada para entrar na sala de cirurgia para acompanhar a esposa. Só parou antes da sala para se ajoelhar ao lado de onde Gal estava sentado. Ele segurou a mão do filho e tentou sorrir por de baixo da máscara.
- Tudo vai ficar bem, Gal.
- ... - Ele não respondeu.
- Hei... Não me olhe assim. É sério. Mamãe é forte, vai conseguir. E logo vamos estar aqui os quatro. Eu, você, Mamãe e Sarah. Han?
- ... - Tudo que Gal consegui fazer foi um movimento positivo com a cabeça. Jeorge o abraçou logo em seguida, para entrar correndo na sala de cirurgia um instante depois.
E durante as horas seguintes, o tempo pareceu uma eternidade para Gal. Ele simplesmente não esperava nada mais que seu pai e sua mãe saindo por aquela porta, o chamando para conhecer a nova irmã. Até lá, tudo era a mesma coisa. O corredor – que também era a sala de espera da sala de parto – estava imóvel, fora o balançar das pernas de Gal. Era de se esperar, afinal, não havia mais parente algum, fora os três. E não tiveram tempo de avisar nenhum amigo, devido a rapidez com que tudo ocorreu. A luz vermelha continuava acesa acima da sala, indicando que ainda não tinham terminado.

Os olhos de Gal abriram-se lentamente. Não havia mais sol na janela, e o hospital parecia ter ficado mais silencioso que antes. Olhou de lado e notou que haviam se passado duas horas desde que ele adormecera, estava cansado, com muita coisa na mente. E foi então que lhe ocorrera sobre o parto de sua mãe. Rapidamente virou-se para o lado, a luz ainda estava acesa. Não era possível demorar tanto assim.
Levantou-se, espreguiçando-se. As pernas estavam dormentes, e ele levou alguns minutos até elas voltarem ao normal. Olhou para os lados e decidiu tomar alguma coisa, nem que fosse para espairecer um pouco. E assim, saiu daquele corredor. O hospital já estava bem vazio naquela hora, pouca gente circulava por ali, e levando em conta que a cidade era pequena, parecia um prédio abandonado não fosse a luz ainda estar funcionando.
- Argh. - Bufou Gal consigo mesmo. Mesmo tendo relaxado o corpo, a mente ainda estava em pleno movimento. Afinal, quem não estaria tenso sabendo que a vida da mãe e da irmã corria perigo? Era de se esperar.
Desceu escadas e foi até o primeiro andar, onde finalmente encontrou o bebedouro. Ele acabou tomando quatro corpos d'água de uma vez só. Não tinha tomado nada desde a manhã daquele dia. E acabou, dali, notando o por-do-sol. Parece que na verdade o dia ainda não tinha se posto completamente. Gal escorou-se na janela e ficou ali aproveitando uma leve brisa que passava enquanto via a maravilha da natureza.
De certo modo, aquilo o acalmou um pouco. Trouxe um pouco de paz ao seu espírito, e com isso pôde realmente descansar a mente. Tanto, que nem viu o tempo passar, ficou ali por mais de vinte minutos, antes de jogar o copo de plástico no lixo e voltar a subir as escadas. Assim que virou o corredor, ficou boquiaberto. A luz estava apagada.

Esqueceu-se de todo o cansaço e correu para a porta, no exato momento em que dois médicos saíram. Eles pareciam exaustos, e não era para menos, fora uma longa batalha.
- Como eles estão? Mamãe e minha irmã? - Gal perguntou. Os médicos apenas lhe indicaram a entrada sem dizer nada, o que deixou o garoto com uma ponta de medo. Um mau pressentimento. Ele abriu a porta, dando passagem para enfermeiras que bloquearam sua visão instantaneamente. Então, naquele instante, o coração de Gal parou por um segundo. Jeorge estava caído de joelhos ao lado da cama, o rosto mergulhado na maca. Ele chorava alto enquanto murmurava muitas coisas para si mesmo.
- É tudo minha culpa. Só minha. - Dizia, quase que incompreensivelmente. - Se eu não a tivesse incentivado para continuar a gravidez ela... ela... - E se perdeu num mar de palavras sem sentido. Mas Gal tinha completamente esquecido de seu pai. Sua mãe estava morta. E Sarah também.
Leia até o fim...

domingo, 22 de novembro de 2009

Monólogo - 3


Preso em seu pequeno mundo de luz, o Pierrot. A cara pintada de branco, com contornos vermelhos exagerados em volta da boca e dos olhos. O espalhafatoso chapéu de Bufão, feito em cores alternadas de azul e amarelo; e a roupa, larga e folgada com grandes botões decorados. E também seu sapato com ponta empinada para cima e as luvas brancas gigantescas nas mãos. Lá estava o palhaço, sentado enquanto era iluminado por um único holofote.


Ficou desta forma por alguns bons segundos, até finalmente levantar a cabeça, direcionando-a diretamente para a luz. Passaram-se mais alguns minutos até ele finalmente sair da expressão vazia, ele sorriu.

- Do que você tem medo? - Falou. - Não há medo para os que não tem o que perder. Não há motivo para se ter medo quando você simplesmente... já não liga para nada. Vê?

E saltou de pé, começando a dançar pelo tablado de madeira. Passos de dança de um bailarino profissional e artista. Até finalmente parar na ponta dos pés, com os olhos fechados enquanto as mãos se portavam a frente do corpo.

- Não acham que sou feliz assim? - E abriu os olhos. - Feliz, como qualquer homem deveria ser! Sem seus medos! Afinal, quem gosta de sentir medo? De tremer nas bases no momento mais crítico? Ninguém! E é justamente esse o ponto. Eu.. perdi o medo de tudo. Então, eu sou nada mais nada menos do que um Ninguém. Algo inexistente e imperceptível a todos em volta. É lógico que a felicidade não me atinge. Não há como algo que não existe a tê-la!

Desceu da ponta dos pés lentamente, enquanto colocava a mão para trás. Observando a escuridão que o envolvia a todo instante.
- Por isso, não é certo não haver medo. Pois ele é a prova mais clara de que você ainda tem algo para proteger, e não quer perdê-lo. Para isso o medo existe. Ele é a prova da felicidade. - E abriu um sorriso, colocando uma mão sobre o queixo. - Alias, ótima coisa para se falar sobre: Felicidade. Vocês tem noção de como esse sentimento... essa emoção... essa sensação é? Podem explicá-la? O simples ato de sorrir, e de se deixar levar pelo lado bom de tudo. Ou simplesmente estar bem consigo mesmo. Ou tudo isso? Será possível diferenciar Felicidade de Alegria? - E puxou as mãos em frente à cabeça, abrindo e fechando-as, como se estivesse tirando algo da mente e espalhando para seu mundo de luz. - Sim. Claro. Mas eu não posso falar sobre nada disso, não com minha alma pútrida e seca. O porque de não dizer? É simples. Eu sou ninguém. E como tal não possuo o dom de ser feliz. Mas... mesmo quem tenha medo e assim, alma, mesmo eles, não podem também dizer sobre a felicidade. É algo tão complexo e ao mesmo tempo, simples, que adjetivos não podem dar qualidades a ela. Ela não pode ser taxada como um substantivo, tanto que é dita como abstrata. É simplesmente algo que você pode ter. Ou não pode ter. E que quando tem, você sabe que está sentindo mesmo que não possa ser narrado e descrito.

E ele travou do jeito que estava, sem mover um milimetro sequer. Ficou naquela posição novamente por mais um bom tempo, como se estivesse tentando agarrar uma mão invisível vinda da luz. Era o jeito do Pierrot, movido pelo que o seus sentimentos se tornaram. Tornando o corpo um reflexo do que sua alma degenerada tende a imaginar. - Mas, eu sou ninguém. E não posso sentir tal.

- Por isso, comecem a notar. Que todo o mal sentimento, advém de um bom. Quanto tem medo, é porque ainda tem algo que quer ter com você. Quando tem angústia e agonia, é porque você deseja estar de um jeito diferente do que você está. Quando tem tristeza, é porque você deseja que algo possa torná-lo feliz. E tudo, tudo, se interliga com uma única coisa final: Felicidade. No final de toda a cadeira e teia de sentimentos e sensações está ela. No final de tudo, ela é o desejo final de qualquer ação da qual você seja responsável. - E finalmente, saiu da posição, desmoronando no chão. - Não é engraçado? Lutar por algo que vocês não podem nem mesmo explicar o que é? Lutar pelo que pode mudar a cada segundo e a cada novo acontecimento? Pois é. Estes são vocês, minhas queridas falhas perfeitas. Porque eu sou ninguém. E como tal, sou perfeito. Nunca ouviram? “Ninguém é perfeito.” Este sou eu.

E levantou-se, lentamente. - Mas qual a definição de perfeito? Lógico, é algo que traga felicidade. É algo que seja feliz. Bom... - E puxou o chapéu de bufão da cabeça, mostrando os cabelos castanhos. - Como disse, no final, existe a amada felicidade. Só lamento dizer, que o perfeito não existe. E não existindo, também é perfeito. Só me resta dizer que o Perfeito é Perfeito. E assim, que a Felicidade é a Felicidade. Mas eu continuo sendo ninguém.

- Sabe como é? - Disse jogando o chapéu para fora do mundo de luz do holofote. - O negócio é que eu poderia ser feliz. Eu poderia deixar de ser um ninguém para voltar a brilhar. Para que todas as luzes de minha vida fossem acesas e eu pudesse correr livremente para onde quisesse. Para que eu pudesse ver o que está a minha frente e também o que estava atrás de mim, assim me dando uma noção sobre o meu futuro e meu passado. E não apenas do meu triste presente. Mas o fato...

Pierrot deu passos pesados e fortes, enquanto caminhava na direção do chapéu jogado. Até que a luz iluminou o chapéu e ele pôde pegá-lo do chão. O alcançou com uma mão para logo endireitá-lo sobre a cabeça.

- O fato é que eu não tenho motivação para essas coisas. Não tenho motivação para nada. Nada além de fazer minha função e ser meu eu sistemático e podre de sempre. Então... - E direcionou-se para o nada, apontando para aleatórios. - Então, por mim ou até mesmo por você mesmo, o que acho mais digno: Tenham Medo. Tenham agonia. Tenham angústia. Sofram. Chorem. Fiquem tristes e amargurados. Assim, vocês poderão Ter Alegria. Ter Liberdade. Irão Sorrir e Irão dar risadas. Melhor dizendo, vocês serão felizes. Ter sentimentos não é errado. Manejá-los de maneira pútrida é errado. Se evitarem a tudo, se tornarão inexpressivos. Se tornarão fantoches e palhaços. E suas vidas, serão limitadas a curtos mundos de uma luz fraca e opaca. Um simples holofote, muitas vezes. - E apontou para seu querido holofote. Para logo depois entrar na escuridão, sem que a luz o seguisse.

Imagem: The Stage by peacewisher222

Leia até o fim...

Não Feche

Agradecimentos para a Akina. Mesmo Meeesmo. Porque o poema saiu graças aos desenhos que ela faz. \o/




Sabe, acabei entendendo o grande segredo,
O segredo da força para vencer o medo.
Concentre, praticamente todos os seus esforços,
E de maneira alguma, feche seus olhos.

Compreendi que a vida pode ser mais colorida.
Uma questão de manipular. De aprender a controlá-la.
Agora, muito mais do que antes, eu suporto.
Mas de maneira alguma, feche seus olhos.

Subitamente, notei que tudo o que eu queria ter e ser
Não passavam de fúteis formas de me convencer,
Que o presente era imperfeito e o futuro apenas um colo,
Que de maneira alguma eu devia fechar meus olhos.

Imagem: shut your eyes by ~anglophilia

Leia até o fim...

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