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ㅤㅤ(Leia acompanhado da música.)
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ㅤㅤOlá.
ㅤㅤComo vai você?
ㅤㅤSim, eu sou a única pessoa que vive por aqui.
ㅤㅤUma moça, apenas.
ㅤㅤNão, nunca me cansei desse lugar, é lindo. Você não vê? Cada pequena lasca das madeiras dessa velha casa retratam minhas frágeis e intangíveis memórias; prestes a rachar, quebradas, estão todas prontas para ruir. E mesmo assim, da fragilidade de cada uma delas, do estalo que se faz quando eu arranco uma única partezinha dessa casa; me vem a nostalgia. E eu choro pelos tempos que já passaram.
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ㅤㅤNão, não é triste. Pelo menos, eu não sou uma pessoa que pode compreender este sentimento. Sabe, esse é um lugar onde não existe mais nada, eu... Eu não tenho por quem sentir nada. Não é preciso para mim ter tristeza, se nunca me houve nada mais. Seria... Injustiça caso isso acontecesse, não é mesmo?
ㅤㅤAli, você consegue ver aquele gramado, lá longe? Quando eu era uma criança, passavam por lá alguns pássaros, vez ou outra, e eu naquela época eu ainda tinha esperanças que alguém poderia vir me buscar. Afinal de contas, se os pássaros voam e somem por certo tempo, eu fico pensando que eles tem lugares melhores para ir, não é mesmo? E esses lugares melhores, poderiam estar lotadas de pessoas... Não, não, me desculpe. Apenas uma só estaria de muito bom tamanho. É aquela palavra, sabe? Companhia.
ㅤㅤSó que, conforme os anos foram passando e eu cresci, eu pude entender que não existia mais ninguém no mundo. Só eu. Via-me naquele espelho dentro do meu quarto, e via uma mulher onde antes havia uma menininha. Eu via meus cabelos cacheados e castanhos brincarem deslizando pelos meus ombros, e gostava de me sentir bonita. Mesmo que fosse só para mim.
ㅤㅤTambém tem aquela pequena cadeira de balanço na sacada. Consegue ver daqui? Quando eu me sentava nela e deixava meu peso balançá-la para frente e para trás, ela fazia um leve rangido. Era um rangido monótono, o tom nunca mudava e o máximo que eu conseguia fazer era deixá-lo mais alto e longo, conforme eu regulava na força. Mas eu gostava, porque era como se a cadeira me desse um Olá.
ㅤㅤEsse meu vestido também, nunca mudei nada nele. Gosto de comparar ele com minha alma, porque, quando eu me lembro de tê-lo em meu corpo pela primeira vez, eu sei bem que ele era branco. Branco e puro, assim como meu coração, cheio de sentimentos transbordando. Mas que, com o tempo, foi ficando mais amarelado. E a pouca esperança que eu tinha, se esvaiu.
ㅤㅤHm? Não, eu não estou me contradizendo.
ㅤㅤA ida da esperança é acompanhada da vinda da Satisfação. A tristeza, eu nunca senti. E a partir daquele dia, comecei a viver comigo mesmo, sendo minha própria amiga. E eu corria por estes vastos campos de grama rala, esses campos de solidão infinita, onde o crespar da terra entre meus dedos me traziam uma sensação acolhedora.
ㅤㅤE eu comecei a montar minhas próprias coisas, para brincar. Sabia que eu já consegui empilhar dez pedras daquelas ali? Sim, uma em cima da outra. Ficou intacta por uns pouquinhos segundos, mas é meu recorde. Já escalei aquele monte mais ao longe umas dez vezes, também. Eu me machucava, mas com certeza, não era nada perto das pequenas feridas que eu tenho dentro de mim.
ㅤㅤQuando você não tem por onde se orientar, eu acho que você acaba se perdendo nas suas próprias tangíveis rememorações do que já passou, e das prévias do que ainda pode vir. Eu, por exemplo, nunca parei para ver quando as flores desabrochavam, quando as folhas caíam, ou quando a neve começava a pintar a paisagem. Mas, eu sempre me peguei pensando se, num desses dias, algo diferente aconteceria. Ou tentando me recordar da última vez que os pássaros vieram me visitar. E vendo eles baterem asas para longe para numa mais voltarem, eu deixo novas lágrimas caírem. Me dá um aperto no coração, sabe? É como se a vida que eu tivesse, não valesse muita coisa sem algo mais.
ㅤㅤHm? Então, isso é tristeza?
ㅤㅤTem certeza?
ㅤㅤSe for assim, eu acho que... Bom, eu acho que, então...
ㅤㅤEu..
ㅤㅤEu...
ㅤㅤPor que?
ㅤㅤPor que, agora, as lágrimas não param de cair?
ㅤㅤPor que eu estou chorando na sua frente?
ㅤㅤ...
ㅤㅤ...
ㅤㅤ...
ㅤㅤEntão, é assim que é a sensação de ser abraçada? Sim, é bom. É caloroso, se parece com a lareira que eu acendo nas noites de frio. Como se a vida te desse um sopro de vontade. Será que eu posso ficar assim mais um tempo, abraçada com você? ...Obrigada.
É, então, se a tristeza é isso o que você diz, me parece que vivi um mundo triste. Uma vida inteira triste. Mas isso não importa, não é mesmo? Afinal de contas, você veio me buscar. Não veio? Você veio aqui por mim, não veio? Se é assim, tudo bem. Eu te dou a minha mão.
ㅤㅤNão, eu não preciso carregar nada.
ㅤㅤVamos.
Leia até o fim...
sexta-feira, 24 de junho de 2011
O mundo que já acabou
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
Sussurros Engasgados
ㅤㅤAli, mais uma vez, postara-se. Pronto, estava.
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ㅤㅤEra com grande ternura que já confessara seus feitos:
ㅤㅤSubiu ao alto do Olimpo, mas lá, nem sinal da presença;
ㅤㅤTarde da noite, Hercule Poirot o considerara suspeito.
ㅤㅤR(←“)apaz de punho forte”, Quixote, a força de sua crença.
ㅤㅤA(←`) poucas lágrimas, dissera tudo, o Sujeito,
ㅤㅤDe cabeça baixa, frente àquela divina Senhora, e sua clemência.
ㅤㅤAli, depois de Aurélia, postara-se. Mais livros.
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ㅤㅤLapidou na alma cada gota do suor.
ㅤㅤOnde, em cada qual, vivenciaste tanto, e por tanto.
ㅤㅤNão a encontrara. E torcia para que não fosse por força maior.
ㅤㅤGastou de anos, todavia não cairia por seu próprio pranto.
ㅤㅤAli, mais uma vez, postara-se. Mais folhas.
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ㅤㅤE fechou os olhos. Idealizava-a.
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ㅤㅤÁtimo de tolice, jogara-a lá. (Hah!) Fazia tanto tempo!
ㅤㅤRoubou dela a vida jovem, condenou-a ao carrasco
ㅤㅤDas folhas, do seu mágico dom que viera com o vento.
ㅤㅤUma vez divertido passear por eles, agora, só espasmo.
ㅤㅤA biblioteca soava sombria, não tinha mais seu antigo envolvimento.
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ㅤㅤ(...)
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ㅤㅤ(...)
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ㅤㅤ(...)
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ㅤㅤ(...)
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ㅤㅤFaltavam poucos anos de vida, vida de arrependimento.
ㅤㅤIncansável, a busca terminava. Terminava incompleta.
ㅤㅤNão havia sucesso, e sua amada perdida para sempre.
ㅤㅤAli, frente a mais um, agora um livro cinzento,
ㅤㅤLábios de leve soaram, “das minhas tentativas, a última faceta”.
ㅤㅤMal-acomunado da desgraçada do peito ardente,
ㅤㅤEle nem ao menos vira qual o livro. Cego de desalento.
ㅤㅤNão soubera, mas aquele amontoado de poeira da gaveta,
ㅤㅤTudo poderia ter, menos letras. Como bom livro em branco.
ㅤㅤE ali postara-se, como em toda sua vida. Vestiu-se do mágico manto.
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ㅤㅤCarregou sua alma para dentro do nada.
ㅤㅤHora de desgraça, abriu os olhos e encontrou-se vivendo atrás do horizonte.
ㅤㅤE ali, só ele existia.... Ou não.
ㅤㅤGalopando no vácuo, montado num cavalo de mentira, ao longe, a amante.
ㅤㅤAli, reencontrada a esperança. Retomada.
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ㅤㅤAos berros, lágrimas e juras de amor, ele correra.
ㅤㅤO coração saltitante, fim de tristezas de uma era.
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ㅤㅤF(←")IM", Gritara.
ㅤㅤI(←"F)M", Gritara.
ㅤㅤMago amante de livros, aquele que aprisionou sua amada dentro da literatura finalmente a reencontrara na sia infinita biblioteca. Abraçou-a com gosto e deixou que todo seu arrependimento se transformasse em mais pura demonstração de amor. Ela também envelhecera, perdera toda sua juventude perdida no nada de um livro em branco, assim como ele perdera toda a juventude procurando pela amada. Mas já pouco importava. Feliz, abraçou-a, beijou-a. E juntos, saltaram para fora do livro, cobertos pelo mágico manto branco. Desabando em pranto, lembrou-se de todos os “FIM”s pelos quais já passara, procurando apenas o seu. Aos leves sussurros, para a amada, confessou: “A estrada longa e árdua, meu amor, finalmente chegou ao fim”.
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ㅤFIM
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sábado, 2 de outubro de 2010
Lágrimas no Paraíso
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ㅤㅤ I
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ㅤㅤ Até o odor mais horrível começou a desvanecer. O peso que desmontava a cabeça do, agora frágil, homem subitamente deixou de existir enquanto ele abria os olhos, sóbrio uma vez em muito tempo. Daniel demorou a distinguir o que o cercava, e mesmo quando seu raciocínio conseguiu acompanhar a visão, a mente confusa não captou sentido; nunca estivera ali, e não acreditava que sua bebedeira pudesse levá-lo até tão belo lugar.
ㅤㅤ Suas roupas estavam leves, muito diferentes do terno impregnado de suor e de acidez do álcool, se viu vestindo uma camisa de lã folgada e um short de seda. Deu um passo sobre a sala simples de tablado de madeira, aquele lugar exalava paz em cada mínimo canto. Onde estava?
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ㅤㅤ II
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ㅤㅤ Definhando. O cheiro desgostoso – quase insuportável – inundava a saleta sem vida que um dia já fora antro de tantos risos. Daniel estava definhando, aos poucos, dolorosamente; o mundo e sua maldade mostravam-se mais fortes que a antiga coragem do garoto, agora homem. O deszelo pela vida, tão destacado nos inúmeros itens jogados para todos os lados e nas garrafas de bebida abertas em momentos aleatórios, cada vez mais recheava a mente do diminuto ser que se tornara.
ㅤㅤ O corpo – que só se movimentava para alimentar o vício há pouco adquirido – parecia que não era seu, não o sentia, não conseguia expressar-se no mundo material quando dragões inescrupulosos destroçavam e engoliam sua alma todos os dias, em cada golada. E, quando conseguia manter-se dentro de sua sala, parecia sofrer ainda mais; como se a realidade quisesse expulsá-lo novamente para a derradeira loucura do álcool. A face de Daniel caiu de lado, e seus olhos cansados de pálpebras tombadas fitaram o seu terror, carrasco impiedoso; que antes era o motivo que o fazia seguir firme e forte. A foto continuava ali, mesmo depois de tentar queimá-la, de atirá-la pelo corredor sombrio, de quebrar sua proteção; a imagem de Ana com o pequeno Joel nos braços mantinha-se agregada a seu resquício de vida. Era o que o destruía, e ao mesmo tempo, era o que o mantinha vivo. Afinal, se ele morresse, teria de enfrentá-lo. Preferível a feição de nojo da ex-esposa que encarar as incertezas de um pós-suicídio. Já fazia três anos desde aqueles dias de tormento. Três anos de decadência, de amigos se afastando e padrão de vida despencando. Ele já estava no fundo do poço, e mesmo assim, parecia sempre insistir em afundar ainda mais.
ㅤㅤ Mergulhado na cratera temporal no meio do sofá de couro rasgado, Daniel estendeu o braço na direção da vodka barata. Mais um gole e um engasgo, seguido de uma série fulminante de tosse, como se seu corpo tentasse expelir todo o mal do líquido maldoso, sem sucesso. Virou o rosto para o chão e deixou que seu organismo já surrado reclamasse por melhoras, o vômito saiu branco e ralho, não comia direito já fazia algumas semanas, apartando a fome com salgadinhos míseros e cheios de mal elementos da vida. A cabeça girou, e repentinamente faltou-lhe forças para sequer permanecer desperto. O mundo se fechou e a escuridão se apossou de sua sanidade.
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ㅤㅤ III
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ㅤㅤ Não tinha a mínima idéia de como aguentou o enterro todo. Daniel estava inflexível, imóvel; pessoas vieram dar-lhe a mão e abraços caridosos. Entretanto, só respondera com simples balançares de cabeça, sem prestar atenção alguma à quem lhe dirigia a palavra. Ana, sua esposa, caía em prantos próximo ao cimento fresco. Não era para menos, toda aquela cena de tristeza e choque nunca deveria ter acontecido; Joel não devia ter morrido daquela forma, por uma bobeira, por tão pouco e tão cedo. Ele ainda mal tinha começado a andar! Ana desviou o olhar, fitando seu marido, procurando achar naquelas orbes negras, antes tão aconchegantes, algum consolo para seu resquício de lógica. Mas Daniel não tinha como estar pior, balbuciava palavras sem-nexo; verbos e substantivos que se formavam num plano surreal, que perguntavam a si mesmo um mar de dúvidas cruéis e inumanas. Será que, caso se encontrassem após sua morte, ele saberia seu nome? Joel seria capaz de lembrar do próprio pai? E, supondo que ele se lembrasse, seria capaz de perdoá-lo?
ㅤㅤ Cada novo questionamento fazia o homem sair mais de sua consciência, deixar o tempo passar sem acompanhá-lo. E, quando menos percebia, implorava por mais. Seu simplório viver estava de joelhos para que ele saísse daquilo tudo, para que não partisse para o outro lado, e mesmo assim abandonasse este. A única e mal-formada resposta que encontrou; veio amarga, forte, e descia goela abaixo. A pseudo-salvação.
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ㅤㅤ IV
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ㅤㅤ A luminosidade não vinha do astro-rei, ela simplesmente brotava de todas as partes e deixava o local com aquele clima: Tranquilo. Daniel sentiu que seus pés podiam alcançar mais longe, defronte tanto sofrimento dos últimos três anos em que se via perguntando se era o autor da morte do filho, agora podia-se dizer que estava relaxado por completo. Sentiu-se mal por isso, não era certo alguém que merecia a sofridão e a solidão ter tanta liberdade. Lembrou-se, numa inundação de recordações, de tantos vários momentos que passou com Ana e Joel. O calor do menino segurando seu dedo com suas pequenas mãozinhas superava qualquer abraço que já fora lhe dado, um pequeno engasgo do moleque o fazia sorrir feito bobo por uma tarde inteira. Fora um pai-coruja.
ㅤㅤ E, como por consequencia, lembrou-se da fatídica tarde. Resolvera levar Joel para passear pelo bairro, mesmo o bebê tossindo em seus braços e com indicação de chuva para o céu tão claro. Tão claro que fez Daniel desacreditar das previsões, que o fez sentir segurança para levar sua cria para tomar ar livre. Mas a chuva veio, súbita e tenebrosa, pegando pai e filho desprevenidos. A tosse virou gripe, e a gripe tornou-se pneumonia. A pneumonia virou dor para os pais, a causa mortis de seu pequeno e único fruto do amor. Derramou lágrimas sofridas que há muito não saíam, sempre contidas pelo poder ilusório do álcool. Abraçou os joelhos e se viu jogado no canto da saleta de luz, expressando todo seu sentimento em urros e mais choro. Todo o conforto do lugar esvaiu-se. Sumiu.
ㅤㅤ
ㅤㅤ A sala perdeu seu brilho, assim como o coração de Daniel agora tinha plena certeza de que conviveria com a dor por toda eternidade. A luz começou a se apagar e Daniel se recolheu ao canto da sala. Estava sóbrio, sóbrio demais; tanto que podia distinguir o que pensava do que tinha como alucinação antes. A mente se viu cheia das mesmas dúvidas, do mesmo psicológico terror. Em resposta, a luz da sala mingou por completou e a escuridão mais uma vez tomou conta.
ㅤㅤ Daniel continuava a pensar. Afinal, morrera e aquele era o purgatório? Se fosse, que bela chance seria de ver Joel. Não queria, tinha medo e insegurança; mas o coração de pai falava alto contra qualquer desafeto que ele tinha com a coragem. Cerrou os punhos e levantou a cabeça, os raios luminosos misteriosos começaram a surgir novamente. Levantou-se do chão e manteve-se ereto, era a derradeira hora da verdade. As luzes eram quase ofuscantes de tão fortes. Descalço, o homem caminhou até a única porta do tranquilo cômodo. Ele se tornara um paradoxo, continha dentro de si extremos de sentimentos. Sentia dentro de si medo e coragem, hesitação e ímpeto, tristeza e felicidade.
ㅤㅤ Abriu-a de uma vez só. E teve como resposta mais daquele cegante branco, pôs a mão sobre os olhos para tentar distinguir qualquer coisa. Um passo adiante na luz, uma sensação de alívio e paz assomou seu corpo. Mais um passo, Daniel colocou na face um sorriso, algo que desconhecera já fazia tanto tempo! Tomou fôlego, correu e se jogou no infinito de tranquilidade.
ㅤㅤ Veio, como resposta um simples e baixo sussurro.
ㅤㅤ Pai.
ㅤㅤ
ㅤㅤ V
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ㅤㅤ Tonto, o homem despertou. Aquele cheiro tão desgostoso naquele dia parecia pior ainda. Rolou no chão sujo e fedido, afastando-se do que seu corpo expulsara. Estava ficando farto daquilo tudo. Desabotoou a camisa branca encardida e jogou o terno de lado, ao tempo que se levantava. Descalço, caminhou pela sala silenciosa até a janela.
ㅤㅤ Fazia três anos desde que Daniel deixara de prestar atenção para o quão belo era o nascer do sol por aquela janela. Respirou fundo, recebendo os primeiros raios de luz do astro-rei na face e peito nu. Abriu um sorriso, algo que desconhecera já fazia tanto tempo.
ㅤㅤ Talvez fosse tempo de mudanças para ele.
FIM
Para os que conhecem - e também para os que não conhecem, rs - o conto foi baseado na música Tears In Heaven de Eric Clapton.
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Leia até o fim...
quarta-feira, 28 de julho de 2010
Lê e Beto
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ㅤㅤ ㅤㅤ 1.
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ㅤㅤ - Mas... Como assim, Carlo Alberto? - Gaguejou Henrique.
ㅤㅤ - É, desculpe por ser tão repentino. Foi apenas uma decisão minha.
ㅤㅤ E recuou alguns bons passos, olhando em volta. A sala do seu supervisor era bem caprichada, se fosse comparada com as pequenas cabines dos funcionários menores, como o próprio Carlo. Tinha uma mesa grande, poltrona confortável e um ar condicionado apenas para ele. Tudo isto, fora uma bela vista de todo o departamento, onde ele podia pregar os olhos na tão desejada secretária Sônia, com qual quase todos já tinham flertado. A funcionária dedicada e séria iria se casar no final do ano, e ninguém acreditava em como uma beleza estonteante daquela poderia ser de um homem só. Era muito, demais. Também havia dali uma linha de internet segura, por onde Henrique poderia navegar em qualquer site, sem ter os típicos bloqueios que eram impostos aos trabalhadores padrão.
ㅤㅤ Tudo aquilo já poderia ter sido de Carlo. Tudo.
ㅤㅤ Mas ele nunca desejou mais do que seu mero e tranquilo trabalho. De modo que, quando lhe fora oferecido o cargo, ele recusou no mesmo instante e ofereceu ao seu melhor amigo. Ou pelo menos, a única pessoa com quem conversava mais do que poucas palavras. Henrique sentia-se sim endividado com o amigo. E aquela notificação o havia atingido com tamanha surpresa que ele nem sabia direito o que falar. Carlo recuou mais alguns passos, já indo na direção da porta.
ㅤㅤ – Em breve passo aqui para assinar as papeladas todas. - Ele disse, enquanto tocava na maçaneta. Henrique levantou-se de supetão. - Talvez tenha de ir na sua casa pra terminar essas coisas. Não gostaria muito de voltar aqui.
ㅤㅤ – Calma, Carlo! Calma, calma! Porque se demitir assim do nada? Fiz algo que não te agradou? Ou talvez arranjou finalmente algum emprego melhor? Me conta, não é justo esconder essas coisas de mim, eu que te convidei a ser padrinho do meu casamento. E eu que sempre te contei quase todos meus problemas. Porque quer sair, cara?
ㅤㅤ O homem respirou fundo e olhou pela janela, para os funcionários quebrando a cabeça.
ㅤㅤ – Eu já te falei uma vez, Henrique. Que esse não é meu lugar. Que estou aqui apenas pra matar o tempo. Eu acho que finalmente já está na hora de tomar meu rumo de verdade. - O supervisor pensou nas palavras. E realmente, aquilo era algo que Carlo constantemente falava. Afinal, o que havia de tão diferente na vida dele? O amigo tinha uns trinta anos, boa aparência e um emprego que – querendo ou não – rendia bem. Mesmo assim era difícil decifrá-lo.
ㅤㅤ Se ateve a voltar a se sentar na cadeira.
ㅤㅤ – Tudo bem. - Disse, seguido de um suspiro. - Mas, você não vai se demitir. Eu estou o demitindo, assim, receberá todos os bônus e seguros que merece. Também pedirei ao chefe do departamento para lhe dar uma carta de recomendação caprichada.
ㅤㅤ Carlo sorriu. Ele quase nunca sorria, e quando o fazia, era sempre curto e sereno. Fitou Henrique com o olhar novamente, realmente era uma pena ter de se afastar daquele homem.
ㅤㅤ – Tudo bem. Faça como quiser. E obrigado pela sua compreensão, parceiro.
ㅤㅤ – Certo. Certo. Mas não espere que vai escapar de mim tão facilmente. Eu e a Mayara ainda vamos jantar na sua casa com a mesma frequencia. Tenha sempre guardado comida pra gente!
ㅤㅤ O Supervisou acenou, e o amigo respondeu com um leve menear da cabeça, enquanto abria a porta e se afastava lentamente pelos corredores de cabines. Uma das correntes estava quebrada.
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ㅤㅤ ㅤㅤ 2.
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ㅤㅤ Estava sozinha ali já fazia mais de quarenta minutos. A praça de São Pedro era um lugar agradável durante o dia, mas, com o cair da noite, geralmente alguns vândalos e gangues se aglomeravam por perto. Fazendo ela ficar silenciosamente escura. Não passava das sete, mas toda aquela ausência de gente dava a impressão de já passar de meia noite.
ㅤㅤ Letícia balançava os pés levemente, sentada no banco de ferro surrado e enferrujado pelos anos que caíram sobre ele. A garotinha não aparentava ter mais de dez anos, pequena e inocente, era dona de uma pele alva linda e de olhos azuis gritantes que mesclavam-se perfeitamente com seus cachos loiros. Soltou um suspiro, aquela noite estava demorando a passar.
ㅤㅤ
ㅤㅤ Desistiu de apenas ficar esperando e saltou do banco, enquanto arrumava o pequeno vestido que usava. Virou-se para a calçada e começou a caminhar pelos arredores da praça. Pelas ruas escuras do bairro de Santa Luísa. E em sua breve procura, finalmente teve resultados. Um pequeno grupo de adolescentes estava parado na esquina, todos num mesmo padrão: Pele escura, roupas folgadas, bonés virados e corpos envergados para frente ou para trás.
ㅤㅤ Um sorriso formou-se no seu interior e ela simplesmente continuou andando, de encontro a esquina e a gangue. Não bastou muito para ser abordada, logo um dos garotos chamou por ela, e ela prontamente o ignorou, virando-se para a rua, aguardando o sinal abrir. Mesmo que não houvesse nenhum carro para aguardar passar.
ㅤㅤ – Falei com você, guria! - O garoto retrucou ao silêncio dela se aproximando, junto de seus lacaios fanfarrões. - Tá me ouvindo não?
ㅤㅤ – Hm? - Letícia virou-se para eles, com a cara mais inocente que tinha.
ㅤㅤ – Hahaha. Agora ouviu, né? - Um círculo começava a se formar em sua volta. - O que uma pirralha feito você tá fazendo por aqui? Tem medo não?
ㅤㅤ – Eu... eu.. eu me perdi. - Ela disse, com um tom que expressava medo e insegurança.
ㅤㅤ – Mal dia pra tu, né guria. Que tu tem aí pra me dar? - Ele sorriu, encurvando um pouco o corpo na direção dela. Letícia recuou um passo, procurando olhando para os lados, como que procurando por auxílio, só achando rostos rindo dela.
ㅤㅤ – Eu... eu...
ㅤㅤ – Bora guria! Tenho a noite toda não!
ㅤㅤ A menina se lançou contra uma abertura entre dois garotos e escapou do círculo numa incrível agilidade. Ouviu gritos atrás dela enquanto ela corria e virava na primeira curva que encontrava. Um beco sem saída estava bem a frente, e ela fez questão de correr até o final pra ver que não havia por onde sair.
ㅤㅤ A risada em coro veio do grupo atrás dela. Que já fechava o beco e se aproximava.
ㅤㅤ – Que otária! Além de retardada você não tem senso de lógica, né? - Disse o mesmo garoto de antes. Um adolescente metido a homem. - Entrar num beco? É pedir pra gente te pegar os dinhero e bugiganga e ainda te comer! É isso que tu quer?
ㅤㅤ Novamente o círculo se fechava em torno dela. Era tudo que ela mais desejava. Caíram perfeitamente em sua armadilha traiçoeira. E agora pensava se eles ainda viveriam para contar alguma história, ou se morreriam ali. O líder do grupo novamente em encurvou para frente encarando a menina, agora ainda segurando-a pelos braços com certa força, que provavelmente deixarias marcas na pele pálida de Letícia.
ㅤㅤ – Perguntar mais uma vez, então. O que tu tem aí, guria!? Passa agora! - Gritou.
ㅤㅤ E como resposta, os caninos acentuados surgiram na boca dela e morderam com gosto a jugular do vândalo. Fazendo questão de deixar ele gritar alto, antes de lhe tapar a boca. Os amigos em volta estavam imóveis, não acreditando na situação. Demorou um pouco para um pânico tomar conta deles, e mais um pouco para novamente o silêncio se fazer.
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ㅤㅤ ㅤㅤ 3.
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ㅤㅤ O Telefone tocou mais cedo do que imaginou. Se fosse um dia normal, estaria chegando na casa exatamente naquele horário. Caminhou até o criado-mudo e atendeu.
ㅤㅤ – Parabéns! - Veio a voz da irmã.
ㅤㅤ Carlo Alberto riu, ela sempre fora animada, afinal de contas.
ㅤㅤ – Obrigado, mana.
ㅤㅤ – Nossa, Beto, todo esse tempo e você continua com a mesma reação para as coisas. Já tem trinta anos, sabia? Quando vai me dar um sobrinho? - A própria Ana Lúcia já tinha três filhos. Garotos bem comportados que adoravam o tio. - Bom, tudo bem. Então, o que fez hoje?
ㅤㅤ – Só trabalhei. Acabei de chegar. - Mentiu o rapaz. Estava na casa o dia todo.
ㅤㅤ – Hm, entendo. Fiquei com saudades de você, Beto, pensei que ia vir aqui pra casa. Mamãe também está sentindo sua falta. Até pensou em preparar o seu purê de batata e levar aí.
ㅤㅤ – Hah, não precisa se preocupar comigo dessa forma. Estou bem aqui.
ㅤㅤ – Certo, Beto. Felicidades pra você e muitos anos de vida! Vou passar pra mamãe.
ㅤㅤ – Ana! - A voz saiu num impulso. E sua irmã surpreendeu-se, ele não era de elevar o tom da voz dele.
ㅤㅤ – Sim?
ㅤㅤ – Eu te amo, mana.
ㅤㅤ O telefone ficou em silêncio por alguns segundos enquanto Ana Lúcia processava a informação. A última vez que ele tinha dito aquilo, era quando ela o salvara do cachorro maníaco do Seu Zé da esquina. Pensou se ele estava mal, mas acabou por descartar a idéia, mantendo a preocupação para si.
ㅤㅤ – Também te amo, Beto. - Respondeu. - Vou passar pra mamãe.
ㅤㅤ Houve novamente um curto silêncio.
ㅤㅤ – Filho?
ㅤㅤ – Oi, mãe.
ㅤㅤ – Nossa, Beto, quanto tempo! Não lembra da mãe não?
ㅤㅤ – Desculpe... Ando ocupado com o trabalho.
ㅤㅤ – Hah, tudo bem. Está corrido por aí, né? E como anda o Henrique?
ㅤㅤ – Ele tá bem. Acho que finalmente conseguiu se acostumar com o posto dele.
ㅤㅤ – Hah, o cargo de supervisor, né filho? Acha mesmo que foi melhor ter dado pra ele? Eu acho você tão mais capaz.
ㅤㅤ – Ele é o mais indicado para o trabalho, mãe.
ㅤㅤ – Tá certo. Tá certo. Olha, filho; muito amor, felicidade, alegria nesses seus próximos anos de vida, tá? Queria te abraçar bem forte, mas você tá longe demais pra isso. Então, vou só te dizer que te amo. Como sempre disse.
ㅤㅤ Carlo Alberto sorriu.
ㅤㅤ – Também te amo, Mãe.
ㅤㅤ – Se seu pai estivesse vivo ainda, eu tenho certeza que ele ia se orgulhar de você.
ㅤㅤ – Obrigado.
ㅤㅤ – Tá. Preciso ir lá cuidar do ensopado, fica com Deus, filho.
ㅤㅤ – Tchau, mãe. - E após o telefone desligar, o rapaz sussurrou calmamente. - Adeus.
ㅤㅤ O rosto estava carregado de várias lágrimas, que caíam silenciosamente pela face dele. Ele ficou ali, ao lado do telefone por mais um bom tempo. Até finalmente limpar o rosto e vestir-se. Era hora de dar adeus a todo o seu mundo. Hora de se encontrar com sua amada.
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ㅤㅤ ㅤㅤ 4.
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ㅤㅤ Os corpos jaziam todos amontoados no lixo. Geralmente, a pequena Letícia não matava suas vítimas. Apenas tomava o sangue que achava necessário, e depois as largava, caídas nos becos. Para acordar no dia seguinte com uma bela sensação de ressaca que nunca ocorreu. E talvez essa fosse a razão de nunca notícias se espalharem sobre seus atos.
ㅤㅤ Mas aqueles garotos mereceram o final que tiveram. Três estavam apenas desacordados, mas os dois mais abusados perderam tanto sangue que nunca mais abririam os olhos. Lambeu os lábios, limpando o último resquício de sangue que havia ali. E começou a caminhar, era hora de encontrar seu amado.
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ㅤㅤ Quando subitamente, ouviu um barulho vindo do fundo do beco.
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ㅤㅤ ㅤㅤ 5.
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ㅤㅤ O marcante dia em que tudo aconteceu nunca saiu da mente de nenhum dos dois. Carlo Alberto - ou Betinho, como era chamado. - tinha ido a escola como sempre fora, apenas sentindo falta de Letícia, sua amiga de infância, que tinha faltado à aula. Era por sua querida amiga que ele guardava sua paixão, a primeira paixão de um garoto.
ㅤㅤ Ele sempre foi um garoto quieto e sereno, nunca dando mais que poucas palavras para quem vinha conversar com ele. Mas, mesmo assim, ele ainda conseguia ser bem conhecido na sala e no colégio. Sempre o chamavam para jogar futebol, ir ao cinema, e outras coisas do tipo. E ele quase sempre ia, embora sempre optasse por ficar junto de Letícia. A paciência que ele tinha em ouvir todas as histórias da falante menina era incrível, ficava lá, sorrindo e meneando a cabeça em concordância. Era a parceira perfeita.
ㅤㅤ Tamanha era a ligação entre eles, que quando ela faltava, ele sentia-se solitário ao extremo.
ㅤㅤ
ㅤㅤ Passou a tarde estudando, o que talvez fosse a única coisa que lhe interessava realmente. Era fascinado pelo mundo da leitura, e saltava entre os livros receitados pelo colégio para outras ficções medievais e histórias de terror. A irmã dizia que ele era doente por não querer atazanar todos da casa e saltar feito um louco pela sala. O que era típico de irmãos mais novos.
ㅤㅤ Ao início da noite, o telefone tocou. Dona Rita, trabalhadeira dona-de-casa, se apressou a atender. Falou apenas algumas poucas palavras, e finalmente chamou Carlo.
ㅤㅤ – Betinho! É a mãe da Lê! Quer falar com você.
ㅤㅤ Saltou por imediato dos livros e do sofá e pegou o telefone.
ㅤㅤ – Alô?
ㅤㅤ – Betinho. Oi, Betinho. Desculpa te ligar assim do nada. - Ela parecia nervosa. - Mas é que é meio urgente, sabe?
ㅤㅤ – Aconteceu algo com a Lê? - Sempre era direto, o jovem Carlo Alberto.
ㅤㅤ - ... - A mãe de sua amiga pareceu muda ao telefone. - Eu devia ter falado com você antes, até porque vocês dois vivem andando juntos por aí. Ela sumiu ontem de noite, e ainda não a achamos. Já falamos com a polícia e com as amiguinhas dela aqui por perto, mas ainda não a encontramos. Eu pensei que você poderia saber de algo... Você não viu ela ultimamente?
ㅤㅤ O garoto demorou um pouco até processar toda aquela informação.
ㅤㅤ – Vou procurar por ela. Agora. - Ele disse repentinamente, desligando o telefone a seguir.
ㅤㅤ Mas era lógico! A Letícia não faltaria aula sem contar para ele antecipadamente. Não iria também fugir de casa sem falar nada para ele. Alguma coisa muito mal estava acontecendo para ela ter desaparecido assim. Agindo por puro impulso, pegou um casaco seu jogado no sofá e saltou pela porta, ignorando os gritos da mãe atrás dele. Não era hora de ligar para a preocupação dos outros, era hora de se preocupar com sua amada.
ㅤㅤ Entretanto, não foi preciso ir muito. Mal virou a esquina e deparou-se com ela. Parou e assustou-se, o Carlo Alberto arfante. A menina parecia bem, as roupas dela estavam sujas, mas ela mesmo não parecia machucada. Foi apenas após alguns segundos que ele notava as mudanças nela. Sua pele estava mais pálida que o normal, assim como os olhos azuis agora pareciam reluzir no escuro; a pequena Letícia parecia carregar algo de anormal consigo. Algo de diferente que Carlo nunca antes vira.
ㅤㅤ A menina, com o olhar entristecido, não disse nada.
ㅤㅤ – Onde você estava? Sua mãe acabou de me ligar. - Falou ele em um tom acima do comum.
ㅤㅤ – ...
ㅤㅤ – Todos estão preocupados com você, Lê! Onde você foi?
ㅤㅤ – Eu...
ㅤㅤ – O que aconteceu? - Disse finalmente, e agora Carlo deu tempo para ela responder. A menina se aproximou com passos leves e o abraçou com força. Já fazia muito tempo desde a última vez que recebera um abraço dela, o garoto corou de leve com o ato repentino.
ㅤㅤ – Preciso de sua ajuda.
ㅤㅤ Foi tudo que ela falou.
ㅤㅤ – Tudo bem. Vou te ouvir.
ㅤㅤ
ㅤㅤ Assim como combinado na noite anterior, Carlo se postava em frente a estação abandonada. Era a casa mais antiga de todo o bairro, e já estava inabitada fazia tempo. Era dito que a casa era assombrada, mas muitas vezes, mendigos dormiam ali em dias de frio. Estava quase para anoitecer, o horário combinado para o encontro dos dois.
ㅤㅤ Carlo passou pelo portão e avançou até a porta velha. Ela estava emperrada, e o garoto acabou por ter de fazer uma força enorme para movê-la o suficiente para poder adentrar. Ali dentro, tudo estava como deveria estar: Móveis velhos e empoeirados, Pinturas desgastadas e ratos e insetos se esgueirando com o som que ele tinha feito. Apenas um pouco de luz adentrava o local, fazendo-o ficar sombrio, mesmo que ainda houvesse sol lá fora.
ㅤㅤ Letícia não parecia estar ali. Ele deu mais alguns passos, com a madeira estalando a cada passo que ele dava sobre elas.
ㅤㅤ – Lê?
ㅤㅤ A resposta veio num sussurro.
ㅤㅤ – Beto.
ㅤㅤ – Lê? Cade você?
ㅤㅤ – Aqui em baixo, Beto.
ㅤㅤ O menino identificou o local da onde vinha a voz dela. Saia de uma pequena escadaria ao canto da recepção da estação, que provavelmente dava para um porão que servia de depósito, na época em que a ferrovia ainda passava por ali. Carlo correu até as escadas e dali avistou a garota.
ㅤㅤ Letícia estava lá, encolhida num canto escuro ao extremo, abraçando as pernas dobradas e afundando a face nelas, bem no final da escada. Ele nunca tinha visto sua amiga assim tão abalada, não a sorridente Letícia. Sentiu um aperto no coração e desceu as escadas para se sentar ao lado dela. Sua paciência era realmente algo de se admirar.
ㅤㅤ – Porque está aqui, Letícia?
ㅤㅤ – Eu... Não posso sair agora.
ㅤㅤ – Porque não?
ㅤㅤ – Porque não.
ㅤㅤ Carlo suspirou. A birra da menina parecia a mesma.
ㅤㅤ – Olha, Lê, eu vim aqui te ajudar. Então, eu acho que você precisa me falar o que tá acontecendo, não? Preciso saber porque está aqui, o que foi? Sua mãe brigou com você? Seu pai bateu em você? Tem que me contar.
ㅤㅤ – Eu... - E ela pareceu juntar coragem e as palavras certas. - Anteontem, quando eu voltava pra casa depois de ter brincado com você no parque, um homem tentou puxar assunto comigo na rua. Já era noite, e eu simplesmente ignorei ele, como a mamãe sempre dizia pra eu fazer com estranhos. Passei reto por ele e continuei os meus passos.
ㅤㅤ "Mas, quando ele notou que eu não daria bola para o que quer que ele dissesse, eu acho que se enfureceu comigo. Com uma rapidez que nunca vi antes, ele me agarrou e tampou minha boca enquanto me carregava. Eu quase não conseguia ver o que acontecia em volta, tudo passava muito rápido. E, quando menos notei, ele me jogou pra dentro da estação pela porta dos fundos. Foi ali que pude ver ele direito.
ㅤㅤ Era um sujeito de pele branca de morrer, tinha os olhos escuros fortes e uma expressão de dar medo em qualquer um. Ficou alguns segundos me observando, enquanto eu me levantava e tentava sair pela porta da frente. Mas ela estava emperrada, como você viu. Ele murmurou algumas coisas e eu não consegui entender nada. E no instante seguinte, ele estava em cima de mim, mordendo meu pescoço.”
ㅤㅤ – Mordendo seu pescoço? - Carlo perguntou, incrédulo.
ㅤㅤ – É. E não só mordeu, como começou a chupar meu sangue. - Ela movimentou o rosto e retirou as mechas loiras dos ombros, mostrando a marca roxa e os buracos na pele ainda presentes. - Foram minutos terríveis em que esperneei e gritei tentando me soltar dele. Mas nada foi possível. Depois, eu não me lembro direito o que aconteceu. Eu meio que desmaiei, e me lembro de algumas poucas coisas. Senti um gosto estranho na boca, parecia que bebia algo. E, quando acordei de novo, já era de manhã.
ㅤㅤ "Eu estava exatamente aqui. Onde estou agora, e a luz do sol começava a nascer. Dei graças a Deus por estar viva ainda e comecei a subir as escadas. Não havia sinal do homem pálido, mas, quando eu estava para passar pelos últimos degraus, a luz do sol veio pra cima de mim como nunca tinha vindo. Senti dor e não enxerguei nada. Fechei os olhos com força e rolei escada a baixo.
ㅤㅤ Foi então que eu notei, Beto. Eu virei uma vampira.”
ㅤㅤ – V... vampira? - Carlo Alberto ainda não conseguia falar muita coisa.
ㅤㅤ – É. Ou pelo menos, eu não consigo sair no sol sem me queimar feio. E estou preferindo muito mais a noite que o dia. Tanto que me dá sono apenas ao amanhecer. Acho que comecei a enxergar melhor de noite, e me sinto bem no escuro.
ㅤㅤ – Vampira? - Repetiu a pergunta.
ㅤㅤ – É! Beto! - Explodiu a menina que tentava conter seu desespero. - O que eu faço agora? Eu não posso simplesmente voltar pra casa e falar isso para os meus pais! Não dá! Nunca mais vou poder fazer nada que eu fazia!
ㅤㅤ As lágrimas começaram a rolar pelo rosto dela. E o choramingo cresceu até ela derramar lágrimas aos montes enquanto gritava seu desespero.
ㅤㅤ – O que eu faço, Beto? O que eu faço?
ㅤㅤ O garoto apenas a abraçava. Deixava-a em seus braços e notava como agora ela estava fria, parecia que o corpo dela realmente morrera. Mas isso não mudava o que sentia pela menina. Aninhou-a mais contra si, e sussurrou para ela.
ㅤㅤ – Sempre estarei com você.
ㅤㅤ – ... - Ela conteve um pouco dos berros, deixando apenas para chorar nele. E, depois de alguns minutos, finalmente falou. - Verdade?
ㅤㅤ – A mais pura verdade. Vou sempre estar com você. Eu vou continuar a viver por mais um tempo, eu tenho que crescer. Até uns trinta anos, eu acho. Para que você possa ter um adulto ao seu lado. Afinal, vampiros não crescem.
ㅤㅤ E a notícia pegou até Letícia de surpresa. Fazia sentido. Ele era o leitor assíduo de ficção.
ㅤㅤ – Vou crescer, e sempre virei ver você. E quando completar meus trinta anos, eu quero que me transforme em vampiro. E então, eu posso ficar do seu lado pra sempre. Tá bom?
ㅤㅤ – ...Tá. - Ela falou, hesitante.
ㅤㅤ – Lê.
ㅤㅤ – Oi?
ㅤㅤ – Eu te amo.
ㅤㅤ - ... - A garota, se ainda pudesse, provavelmente ficaria vermelha de tão envergonhada. Apenas sorriu e desviou o olhar para os braços do menino. - Bobo.
ㅤㅤ – Vamos sair daqui. Precisamos achar um lugar melhor pra você.
ㅤㅤ – Tá.
ㅤㅤ E, quando eles se levantaram e saíram daquele pequeno espaço entre o pé da escada e a porta, o sol estava quase se pondo no céu. De modo que Letícia apenas sentiu um leve incômodo ao passo que subia as escadas, até a grande estrela incandescente sumir no horizonte.
ㅤㅤ
ㅤㅤ
ㅤㅤ ㅤㅤ 6.
ㅤㅤ
ㅤㅤ O local combinado era o topo do morro dos Irmãos. Só uma pequena ruela escondida levava casais apaixonados para o topo da elevação de terra, da onde podiam ver todas as luzes da linda cidade. Mas aquela era uma terça-feira, e nenhum casal estava disposto a sair no meio da semana. O que fazia de Carlo Alberto, o único a estar por lá. Sentou no banco de ferro velho e ficou a esperar por sua amada Letícia.
ㅤㅤ As horas se passaram rapidamente. E já estava além do horário de sua pequena amante chegar. Podia ela se atrasar tanto num dia tão importante para eles? Custou muito para Carlo descobrir se as lendas sobre como ocorre a vampirização eram reais, e mesmo assim, ele ainda não tinha total certeza. Era uma noite muito importante para tentar o que tentavam. Olhou no relógio e constatou que a data de seu aniversário havia se passado. Respirou fundo e ficou apenas olhando para a cidade. Em breve a veria de outra forma.
ㅤㅤ Mal notou quando cochilou. Talvez um sono atrasado o tivesse abatido, das últimas noites que gastara conversando com Letícia horas a finco pelo celular. De modo que, quando acordou, pareceu realmente ter sido uma leve soneca. Letícia estava sentada ao seu lado, com um leve sorriso na face; A mão gelada da vampira estava sobre a sua, e seus corpos estavam bem juntos. A menina tinha a mesma aparência que a de tantos anos atrás. Carlo sorriu para ela e olhou no relógio. Já estava para amanhecer.
ㅤㅤ – Desculpe-me o atraso. - Ela disse, como se percebesse o que ele iria perguntar. Virou-se para ele e alargou um pouco mais o sorriso. - E feliz aniversário.
ㅤㅤ – Meu aniversário já passou. E acho que vamos precisar deixar nossas experiência para outra noite, Lê. Já vai amanhecer, acho que dormi demais aqui.
ㅤㅤ Ela permanece em silêncio, serena. Desde que se tornara uma vampira e vira tudo a sua volta mudar, enquanto ela ficava da mesma forma, ela tinha mudado de personalidade, embora sua essência fosse a mesma de sempre. Guardou para si toda a dor de não poder ver mais nenhum ente querido seu, e chorou suas mágoas apenas nos braços de Carlo. Durante tanto tempo.
ㅤㅤ – O que você viu de especial em mim, Beto?
ㅤㅤ – Como?
ㅤㅤ – É, isso mesmo. Só queria saber, depois de tanto tempo me bateu a curiosidade.
ㅤㅤ – Hah, entendo. - Ele riu, e pareceu pensar um pouco. - Eu acho que é por você ser justamente o oposto do que eu era, e mesmo assim ficar tão próximo de mim. Me intrigava em saber como você pensava, em como você agiria a cada ato meu. E isso acabou me conquistando. Quando menos pude notar, sorria pra você feito um abobado.
ㅤㅤ Letícia riu, deixando sua cabeça pender no peito dele.
ㅤㅤ – Acho que comigo foi bem parecido. Você sempre foi o misterioso de nós dois.
ㅤㅤ – Ei, você é a vampira, e eu sou o misterioso?
ㅤㅤ Riram juntos.
ㅤㅤ – É, realmente, somos um casal bem incomum. Mas eu não acho que está errado, esse nosso relacionamento, não é, Beto?
ㅤㅤ – Definitivamente não. Eu nasci pra te conhecer.
ㅤㅤ – Bobo. - Respondeu rapidamente.
ㅤㅤ Passaram mais alguns minutos em silêncio, apenas trocando as carícias de sempre. Carlo beijou-a como sempre beijava-a e ambos se amaram naquela madrugada. E então, com ambos deitados no banco de ferro – ela por cima dele –, que finalmente Carlo suspirou.
ㅤㅤ – Vamos deixar para amanhã a noite, Lê. Não dá mais tempo, preciso te colocar no porta-malas do carro pra esconder-te do sol. - E ele tentou se mover. Mas a sua amada não saiu do lugar. - Lê?
ㅤㅤ – Sabe, Beto. Eu matei uma criança e a mãe dela esta noite. Eles acabaram vendo tudo que eu fiz com meu alimento de hoje, eu não podia deixá-los vivos, observando da janela do prédio onde estavam.
ㅤㅤ Carlo não respondeu de imediato.
ㅤㅤ – Eu... Eu não quero essa vida pra mim, Beto. Acho que decidi isso agora.
ㅤㅤ – Como?
ㅤㅤ – É, meu amor. Isso mesmo, hoje vou ver o raiar do sol, como não vejo a muito tempo. E vou finalmente te deixar livre de todo esse sofrimento pelo qual você passou. Vai poder rever seus amigos, vai poder rever sua família, e vai conseguir achar um novo amor.
ㅤㅤ Carlo Alberto não respondeu. E Letícia compreendeu todo o silêncio dele. Afinal de contas, qualquer outro amante no mundo faria uma algazarra. Mas ele era diferente demais para fazer qualquer alarde. Finalmente, as mãos dele a abraçaram enquanto ele se colocava sentado, com ela no colo. Letícia se viu de frente ao seu amor, como se ambos fossem do mesmo tamanho. Beto a beijou novamente, com uma paixão imensa. Para finalmente terminar o carinho com um sussurro para ela.
ㅤㅤ – Eu disse que sempre estaria com você.
ㅤㅤ Letícia sorriu, em meio a um mar de lágrimas que ambos derramavam.
ㅤㅤ
ㅤㅤ
ㅤㅤ ㅤㅤ 7.
ㅤㅤ
ㅤㅤ A vampira beijou uma última vez seu amante, e logo depois trocou algumas poucas palavras com ele. Logo depois, aproximou seu rosto do pescoço dele e abriu o boca, revelando seus caninos matadores. Mordeu o pescoço dele gentilmente, enquanto ele a abraçava, e começou a tomar o sangue de seu amor. Aquela que seria sua última presa, o sangue de seu amado em suas veias. Não havia mais palavras, eles apenas trocavam os sentimentos que sentiam um pelo outro.
ㅤㅤ E então, começaram a surgir. O sol, resplandescente, surgiu no horizonte, lançando seus primeiros raios sobre a cidade toda. Beto sentiu seu corpo fraqueja, seu sangue estava quase todo indo embora, e sua amada parecia começar a sentir os efeitos também. O sol queimava-a lentamente pelas costas, e conforme a intensidade dos raios aumentava, ela parecia sentir mais seu poder. Mas nenhum dos dois sentia realmente dor, o amor deles prevalecia sobre aquele supérfluo sentimento.
ㅤㅤ Agora, Beto estava pálido e seus braços caíam sobre o banco. Ao mesmo tempo que sua amada, já estava quase toda em cinzas. O corpo dela se desfazia na sua frente, mas ele ainda podia senti-la junto de si. Fechou os olhos ao mesmo tempo que ela.
ㅤㅤ
ㅤㅤ E junto, eles se encontraram no paraíso. Porque ele sempre estaria junto dela.
FIM
Leia até o fim...
sábado, 1 de agosto de 2009
A música do Coração - Inteiro
Em uma pequena vila, nasceu um garoto surdo. Ele tinha aprendido a conviver com sua deficiência e levava uma vida comum, sem maiores complicações. Entretanto, talvez por se subestimar demais, o garoto acabou por não ter nenhum sonho ou meta para a própria vida. Vivia por viver, deixando que cada dia que passasse fosse o máximo parecido com o anterior.
Até que um dia, chegou na pequena vila um jovem artista, um músico de sucesso que veio para o interior em busca de inspiração para novas melodias. A princípio, o garoto considerou aquela notícia como outra qualquer, afinal, já tinha se acostumado com o fato de não poder ouvir. De não saber como era a música. Mas um fato inesperado ocorreu quando ele foi assistir à uma apresentação do músico. Tinha ido por insistência dos amigos que quase o puxaram para fora de casa, e agora, estavam reunidos em volta de uma grande clareira que ficava na floresta ao lado do vilarejo. Pessoas se agrupavam, em volta de uma fogueira, e logo o músico apareceu, carregando seu belo Violino. O garoto, como não tinha um dos cinco sentidos, acabou por apurar todos os outros, e por causa disso, sua visão captava coisas que muitas outras pessoas não captavam. E talvez esse fora seu grande infortúnio. Quando o músico começou a tocar, o pequeno garoto pôde notar claramente as emoções do músico. Os sentimentos dele encheram seu coração de uma forma inesperada, como se uma aura de alegria exalasse do instrumento e do próprio músico. Mesmo não ouvindo, o garoto teve certeza: Aquela era a melhor canção que já ouviu em sua vida. E aí começa seu desespero, ele gostaria de ouvir a música. Uma curiosidade que nunca tinha tido apareceu em seu peito e começou a crescer de forma avassaladora, como era ouvir uma música daquelas? Certamente seria maravilhosa a sensação. Mas, ele nunca ouviria aquilo, certo?
Depois do dia do concerto do violinista, o jovem Garoto começou a vivenciar a tempestade mais violenta de sua vida. Começou com um simples e silencioso sofrimento, que não compartilhou com ninguém. Mas o sofrimento aumentou e expandiu-se, de modo que houve um momento, em que ele não conseguiu mais esconder sua angústia. A vontade de querer ouvir nasceu dentro dele e agora não queria voltar à adormecer. Perguntou aos pais sobre cura, algo que nunca havia perguntado antes. Sua resposta foi um triste balançar negativo com a cabeça.
Sem algo em que se apoiar, o garoto começou a andar pelas ruas com um grande fone de ouvido tocando músicas do violinista em volume máximo. Era a última palha de esperança do menino, caso não fizesse aquilo, não poderia seguir em frente, pois seu único sonho estaria destruído pela impossibilidade.
Irônico, não era? Pensou outro dia. O único sonho que tivera em sua vazia vida, era o único que não podia realizar.
A vida seguiu, e o garoto voltou a monotonia dos dias. Não estudava, e para compensar, ajudava o pai na plantação e a mãe, com as atividades domésticas. Mas nem por isso deixou de estar com o fone de ouvido junto dele. O brilho do seu olhar, que já era pouco, se tornou quase inexistente, tudo graças à uma vontade. Ele pensou naqueles dias consigo mesmo “ Porque sonhos e vontades existem? Para mim, só servem para sofrer. ”. Outono, Inverno, Primavera, Verão; o tempo passou num piscar de olhos para o vilarejo, embora para o garoto, pareceu cada dia ter durado uma eternidade. Os amigos, aos poucos, começaram a se afastar do garoto, ele não tinha mais graça. Tinha perdido o pouco que tinha e agora era chato e bobo, como diziam as crianças. Mas nem mesmo o garoto não se importava, adotou como amiga, a solidão do silêncio, como ele mesmo quis nomeá-la. E junto dela, aquela vontade de poder ouvir, que nunca desaparecia.
POW!
Enquanto tinha um de seus momentos de reflexão, após ajudar o pai a colher o milho, uma bola de futebol acertou sua cabeça em cheio. O fone saiu de seus ouvidos, voando longe e ele ficou meio desorientado por um segundo. Virou-se para encarar que havia chutado. Segundos depois, da direção para qual olhava surgiu uma garota de cabelos encaracolados castanhos vestindo um macacão todo sujo. O garoto fixou nela um olhar de raiva por um instante, para logo depois ir até seu fone e colocá-lo novamente no ouvido. A garota pegou a bola e foi até ele, falando algumas coisas. Mas ele não podia ouvir. No fim, a garota emburrou a cara, virou-se e correu para o meio do matagal novamente.
No outro dia, ele tinha feito a mesma coisa. Era época de colheita, e por isso, ele e o pai tinham de fazer a mesma coisa durante alguns bons dias, para garantir que o dinheiro entraria para eles no fim do mês. E novamente, quando o trabalho se encerrou, parou no meio do matagal, recostado no espantalho, deixando seus triste pensamentos fluírem. Já estava no meio de uma discussão assídua com a solidão do silêncio quando a mata à frente se moveu e logo, a garota do dia anterior apareceu, parecendo vestir o mesmo macacão. Só que agora estava sem a bola, no lugar dela, carregava um caderno nas mãos. O garoto moveu seus olhos para ela, e quando se fixou na garota, ela abriu o caderno, mostrando a primeira página.
“ Desculpe, não sabia que era Surdo. Pensava que tinha me ignorado ontem. ”
Ele apenas balançou a mão na direção dela. O que, por linguagem corporal significaria algo como:
“ Tudo bem. ”
A menina pareceu ter captado a mensagem dele, de modo que abriu um sorriso e se aproximou do garoto, sentando ao lado dele. Ficou em silêncio por um breve segundo, olhando para a direção que ele olhava. E então, pegou do bolso uma caneta tinteira, virou a página e escreveu na próxima:
“ Sem querer me intrometer, já me intrometendo, porque fica com o fone de ouvido? ”
Ele pediu a caneta dela e escreveu, usando o restante da folha.
“ Desejava poder ouvir. ”
A garota sentiu-se constrangida consigo mesmo, coisa que podia ser notada pelas bochechas que se avermelharam de vergonha. E desviou o olhar, tentando esconder a face. Afinal, tinha tocado num assunto delicado, ao qual ela não podia fazer nada. Ou podia? Ficou imóvel por alguns segundos, e nesse tempo, o garoto se levantou e foi caminhando em direção a casa dele. Virou-se para trás e acenou para a garota. Afobada, a garota levantou-se rapidamente e correu até ele, ficando parada à sua frente. Rabiscou algo no caderno com pressa e logo em seguida empurrou ele na cara do garoto.
“ Sou Sophia. E você? ”
Parou alguns instantes, e logo depois, pegou o caderno das mãos dela e respondeu.
“ Sou Thomas. ”
E antes que ele pudesse voltar a andar, ela escreveu novamente, e mostrou a ele.
“ Posso voltar aqui? Para conversar com você mais vezes? ”
A pergunta era inesperada, de maneira que o garoto não soube como responder. Sem que percebesse, meneou a cabeça positivamente para a garota, e em seguida, voltou a andar. Não viu mais ela naquele dia, pois saíra correndo após a resposta dele. Os passos de Thomas ficaram mais lentos enquanto pensava. Afinal, o que ela havia visto de interessante nele? Decidiu deixar para pensar naquilo outro dia. E entrou em sua casa.
Thomas já estava quase desistindo de esperar ali, sentado abaixo do espantalho. Ela não viria, pensou ele. O que diabos ele estava pensando, afinal de contas? Se desiludiu e levantou-se para ir embora. Começou a caminhar em direção à casa, quando uma pedrinha acertou seu ombro e caiu na sua frente. Virou para trás e lá estava ela, sorridente, com uma caixa de madeira em baixo de um dos braços. E com o caderno aberto no outro. Levantou a folha para ele.
“ Xadrez? ” - Disse ela com a folha, e logo depois levantou a caixa do outro braço.
“ Sim. Pode ser. ” - Ele fez com a cabeça. E voltou para sentar-se junto da garota.
Sophia era uma craque em jogar xadrez, pelo que parecia. Mas Thomas tinha ao seu lado um grande aliado, o silêncio. De modo que o jogo corria acirrado desde o primeiro segundo. Ninguém dizia nada, e não era porque Thomas era surdo. Eles estavam pensando mesmo. A cada jogada, um suspiro escapava de um deles e uma nova estratégia precisava ser bolada.
O jogo estava em um momento quase crítico, com Thomas possuindo dois peões, uma rainha e um cavalo. Enquanto Sophia tinha a rainha, um bispo e as duas torres. Ela olhou para ele enquanto ele pensava no movimento, e logo depois escreveu algo no caderno.
“ Gosta de Xadrez, certo? ” - Mostrou ela.
“ Não. ” - Respondeu claramente com a cabeça.
“ E como joga tão bem? ” - Outra folha.
“ Não sei. ” - Veio a resposta, com Thomas abrindo as mãos, inclinando a cabeça e levantando os ombros.
“ Então, o que gosta de fazer? ” - Disse ela. Enquanto via ele movimentar a rainha.
“ Não sei. Talvez escutar música. ” - Falou, fazendo o mesmo movimento de antes e apontando para o fone de ouvido jogado no canto.
“ Como assim, escutar música? Você não pode ouvir, certo? Que tipo de música você poderia escutar, então? ” - Escreveu ela, para depois movimentar o bispo, engolindo com gosto o cavalo de Thomas.
“ A solidão do silêncio.” - Respondeu ele, escrevendo rapidamente na folha dela. Para logo depois mover a rainha à frente. Não tinha gostado de perder o cavalo.
“ E isso é bom? ” - Escreveu ela, com um sorriso maroto na cara, por que logo em seguida uma torre se deu ao belo trabalho de devorar a rainha de Thomas por inteiro.
“ Não sei, não posso escutar. Mas ela é minha amiga. ” - Escreveu com uma cara emburrada, não previa que perderia seu Ás da manga assim tão facilmente.
“ Mais amiga que eu? ” - Escreveu. E Xeque-Mate.
Naquele momento, nem a derrota no jogo interessou Thomas. Uma coisa mais interessante encheu sua cabeça de conclusões sobre coisas que já conhecia e dúvidas que surgiram a partir dali. O garoto notou que em todo e qualquer momento que passava com Sophia, a Solidão do Silêncio deixava de existir, como se esquecesse dela completamente. Ficou pensando naquilo por um bom tempo, perdido em seu próprio mundo. Demorou para notar o caderno dela se agitando na frente dele.
“ Tenho que ir, Perdedor. Espero que seja melhor com Damas ou Gamão. ”
Dizia o caderno. Viu a garota sumir no meio do matagal da plantação,e respirou aliviado, enquanto sentia um peso sair das suas costas. Tinha feito uma amiga de verdade, certo? Uma que não o trairia por causa de sua depressão, certo? A resposta positiva daquelas duas perguntas o tentavam. De maneira que ele soltou um belo sorriso. Um, que não dava já fazia vários meses, talvez desde o dia em que viu o Violinista pela primeira vez. E, pensando nisso, a vontade de ouvir veio novamente. E a Solidão do Silêncio novamente pousou em seus ombros, voltando à dar a ele o fardo de sempre.
E daquela vez, a Solidão do Silêncio tinha vindo com força, como se quisesse tirar o atraso pelo tempo afastado do garoto. Thomas, depressivo e com o fone nos ouvidos, ficou sem sair de casa por alguns dias. Isolado do resto mundo. De modo que não foi se encontrar mais com Sophia. Talvez a única coisa que talvez o ligasse ao mundo fosse o sentimento de culpa por deixa-la esperando. O tempo continuou a passar, e, depois de duas semanas, parece que finalmente a Solidão do Silêncio deu uma tregua à ele. Ao mesmo tempo, a mãe pediu para ele ir comprar algumas coisas na conveniência da cidade. Saiu de casa com a lista no bolso e os fones no ouvido.
Não ficava tão longe, tanto que dez minutos depois de sair, Thomas já estava voltando com as compras nas sacolas. Andava sem pressa alguma, quando uma mão tocou seu ombro, virou-se e lá estava Sophia. Imaginou que estaria brava com ele, mas na face dela, viu uma expressão triste e de arrependimento. E de entender expressões, ninguém era melhor que ele. A garota não carregava nenhum caderno, provavelmente não esperava ver ele ali. Deixou os pés juntos e ficou balançando o corpo para frente e para trás com as mãos juntas nas costas, enquanto seu olhar fitava o chão.
“ O que foi? ” - Disse, com um movimento de cabeça rápido.
“ Porque não apareceu mais lá? ” - Veio da resposta, de um olhar de sobrancelhas arqueadas para ele.
“ Não sei. ” - Thomas respondeu com um balanço de ombro.
O que se seguiu foi um curto período de silêncio, que envolvia constrangimento e vergonha dos dois lados. Thomas, por não ter aparecido como combinado. E Sophia, talvez sentindo-se culpada por ter feito algo de errado da última vez que se viram. Os segundos pareciam durar minutos, até que Thomas suspirou, ele era o culpado e ela provavelmente estava chateada com ele. Recuou um passo, depois mais um. E virou-se de costas, começando a andar. Só parando depois de alguns dez passos para virar para trás e encarar a garota, ainda parada no mesmo lugar.
“ Até mais. ” - Fazia ele com um abano de mão. Ou seria um “ Adeus. ” ?
“ Não... ” - Disse ela, avançando um passo na direção do garoto que se afastava.
“ Não... ” - Mais um passo.
“ Por favor, se você partir, eu... ” - Começou a andar em um passo acelerado em direção a ele.
Talvez Thomas, naquele momento da sua vida, estivesse torcendo para que a garota continuasse aqueles passos rápidos. Talvez realmente tivesse pensado que era a última vez que se viam. Ou até mesmo, poderia estar pensando em encontrá-la no dia seguinte, agora que tinha se livrado da Solidão do Silêncio. O fato era que, independente do que ele estava pensando, tudo ocorreu tão rápido que o garoto não teve tempo de pensar em nada no momento. O que ela dizia através de seus gestos, nenhuma palavra no mundo poderia dizer mais claramente. Aquilo que ela fazia, não precisava de música, nem de melodia nem de qualquer coisa para se tornar mais forte que a Solidão do Silêncio.
“ Não se afaste de mim. ” - Dizia ela, abraçando seu braço com força.
“ ... ” - Ele a observava.
“ Porque eu... ” - Olhou-o nos olhos, com uma mescla de tristeza e felicidade.
“ ... ” - Continuou parado.
“ Porque eu acho que te amo, bobo. ” - Disse finalmente. Beijando o pequeno garoto na bochecha.
Pela primeira vez na vida dele, Thomas estava em dúvida sobre o que ela queria dizer com todos aqueles gestos. Toda a conversa mostrada acima para ele, era apenas uma das hipóteses no meio de muitas outras. Por causa disso, com a garota ainda grudada em seu braço, Thomas ficou pensando sobre o que e como deveria responder. Talvez deveria responder que não entendeu nada dos atos dela, mas não era aquilo que seu coração desejava. Uma daquelas hipóteses de todas que estavam em sua mente era a que ele mais desejava. Mas a dúvida o corria e ele não sabia o que fazer.
“ Mas o que é... ”
Numa sensação que Thomas nunca sentiu antes, uma onda de sentimentos invadiu seu corpo e mente de uma única vez. Eram pensamentos e expressões que esbanjavam amor, felicidade e alegria em cada parte deles. O garoto nunca tinha sentido aquilo, mas sabia que era uma belíssima sensação. Talvez fosse... Música? A doce melodia percorria sua mente, invadindo cada pequena porta dela mudando por completo a decoração de seus pensamentos. Sentiu aos poucos a presença da Solidão do Silêncio se esvair para nunca mais voltar e sentiu-se aliviado com o peso retirado por completo de suas costas. A melodia parecia ser tocada por um violino, mesmo que Thomas nunca tivesse ouvido um na vida, ele sabia de alguma forma. E inundava sua alma, revigorando cada parte de seu inteiro ser. Mas afinal, o que estava fazendo aquilo com ele? Piscou os olhos, e aos poucos a realidade foi voltando à ele. Piscou os olhos, e todo o jogo de luzes que pareciam iluminá-lo começou a se apagar. Piscou mais uma vez, e agora, o mundo ao seu redor foi tomando forma e cor, pouco a pouco. Piscou os olhos uma última vez, a música parou, e ele se viu de frente para Sophia, ela estava de olhos fechados com a face rosada como maçãs.
“ Também te amo. ” - Tinha sido sua resposta, com o beijo que tinha dado em Sophia. O beijo que revelou, que a verdadeira canção que Thomas estava destinado à ouvir era outra, uma bem mais forte e bela que qualquer outra que o violinista pudesse tocar. No fim das costas, sorriu para a garota, e jogou o fone de ouvido de lado, na estrada.
Fim.
Este foi meu primeiro conto. Pela minha auto-crítica, ainda preciso melhorar em muitos pontos, e agradeço à deus por pensar assim. Mas enfim, espero que leiam, e que, de coração, gostem do conto. Muitos outros virão. E a repostagem foi feita apenas para deixar o conto inteiro numa única postagem. Senão, gente problemática (Lê-se: Anne Véia) lê o conto do fim para o começo.
