Mostrando postagens com marcador Os 8 Escolhidos - Capítulos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Os 8 Escolhidos - Capítulos. Mostrar todas as postagens

domingo, 17 de janeiro de 2010

Os 8 Escolhidos - Capítulo 8

Capítulo 8 – Galahad Broadcase, O escolhido

- Consegui!
Hórus comemorou girando em sua cadeira e levantando os curtos braços dele. Khalador aproximou-se no mesmo instante. E Gal estava tão impressionado que nem ao menos havia saído de perto do pequeno motorista. Na frente deles, havia duas pequenas hastes, colocadas paralelas e na vertical, com uma distância de alguns centímetros de uma para outra. E, no meio dela, uma imagem holográfica de forma quadrada se formava, como se fosse uma tela. A início apenas chiava enquanto ela repassava para eles poucos segundos das redes de televisão e rádio locais. Mas conforme Hórus mexia no controle da máquina, ela ia se ajustando para um canal mais reservado. O grito dele foi justamente por manter o contato exato.
A tela insistiu em ainda mostrar algumas falhas de sinal, enquanto Hórus viajava seus longos dedos pelo controle que tinha nas mãos. Era lógico que ele era o único que podia dominar aqueles equipamentos completamente. E logo a imagem foi ficando clara e fixa. Ali, na projeção holográfica em 2D, havia um homem, que aparentava ter seus vinte anos. Vestia-se parecido com um gangster. Exceto pela face, que portava um gigantesco óculos feito de couro, com várias lentes levantadas em frente aos olhos, exceto por duas. Ele parecia estar mexendo em alguma coisa no canto da sala.
- Klon!
O rapaz saltou olhando para os lados rapidamente.
- Aqui, Klon! O comunicador!
E então os olhos do rapaz se direcionaram para a projeção. O garoto praticamente se jogou em frente ao seu comunicador, enquanto ajustava as lentes, levantando umas e abaixando outras. Até a imagem ficar nítida para ele.
- Hórus! Quanto tempo! Pensei que não tivessem passado!
- Ora! Não me venha com besteiras! Sabe que eu sou o melhor Buscador assistente da Oposição!
- Vai saber a velhice não te afeta? - E Klon riu de leve, mostrando os dentes defeituosos. - De qualquer maneira, o que quer?
- Nós encontramos, Klon. O escolhido.
Klon se jogou para trás como se tivesse levado um soco vindo do projetor. Estava devidamente assustado.
- Como... Como assim!? Já!?
Dizia enquanto se aproximava.
- Sim. Demos sorte e nossa área de investigação bateu com a área dele.
- Então ainda temos bastante tempo!
- É. Talvez possamos fazer algo por este lugar. Agora, chame Lezir, ele precisa saber da novidade, também.
- Claro, Claro. - E Klon gritou o nome para o corredor. Eles pareciam estar numa casa comum e bem desarrumada. O que chamou a atenção de Hórus.
- Alias, onde vocês estão?
- Nós nos instalamos numa habitação num lugar chamado... é... Honk Kong! Nós somos bem diferentes da maioria da população. O lugar onde vocês estão também é assim?
- Não exatamente. Aqui as pessoas são...
Mas foram interrompidos pelo barulho de pesados passos no corredor. E logo surgiu no pequeno quarto um grande homem de pele negra. Ele tinha mais de dois metros de altura com facilidade, e seus músculos saltavam pela camiseta regata branca dele. Ele sentou-se ao lado de Klon no projetor e virou-se para Hórus.
- O que foi, cabeçudo?
- Ainda me admiro com sua educação, grandalhão.
- E eu com a sua. Diga, o que acharam por aí?
- Encontramos o Escolhido, Lezir.
E assim como Klon, Lezir pareceu perder o ar por um instante. Mas ele se recompôs mais rápido que seu parceiro de busca. E logo voltou a direcionar-se para a tela.
- Espera... Espera... O escolhido?
- É. Ele mesmo, o principal.
- Como foi tão rápido?
- Demos sorte, oras!
- Então, parte de nossa missão está cumprida.
- Exato, é para isto que estou aqui falando com vocês. Podem mandar a notícia para os outros buscadores? Eles precisam saber que agora nossa meta é achar os outros sete.
- Nós passamos a mensagem, sim.
- Alias, quais buscadores estão ativos?
- Bom.... - E Lezir sentou-se de uma maneira mais acomodada no chão. - Além de nossos dois grupos, tive notícias de Orth e Mikeila. E também de Luminos e Sor.
- Jynox e Alivens não tentaram passar, também?
- A Passagem fechou-se enquanto eles tentavam. Perdemos eles.
E desta vez foi Hórus quem pareceu desnorteado. Deixando a cabeça encostar-se em sua poltrona, enquanto respirava mais lentamente para processar melhor a notícia. Não teve muito tempo, logo a voz de Lizar rompeu-se novamente pelo projeto.
- E onde está o Escolhido? Ainda não o buscaram?
- Já. Ele está aqui, assistindo vocês neste momento. - Khalador disse, aparecendo ao lado direito de Hórus. Lezir abriu um sorriso ao ver o guerreiro de cabelos negros compridos.
- Khalador! Bom ver sua face novamente, rapaz.
- É bom te ver de novo também, Lez.
- Então, onde está nosso salvador?
- Está aqui. - E Khalador olhou para Gal, do outro lado da poltrona, e o chamou com a mão, para que ele aparecesse no projetor. O garoto timidamente deu passos na direção do motorista e sentou-se ao lado dele, olhando para o projetor.
Lezir e Klon ficaram em silêncio enquanto observavam o garoto de dezesseis anos. Ficaram assim um bom tempo, até Klon limpar a lente com a luva de couro.
- Então, é esse garoto, certo?
- Sim.
- Tem certeza disso, Khal?
- Klon, Só pode ser ele.
Lezir soltou um longo suspiro e olhou para Khalador, pelo projetor. A face séria.
- Então, esta é sua última chance, certo, amigo?
- É.
- Confia neste garoto?
E agora Lezir olhou para Gal. Klon seguiu seu olhar e Hórus e Khalador também se viraram para ele. Gal sentiu-se desconfortável com aquela situação, mas não se queixou. Logo em seguida, Khalador voltou a olhar para Lezir.
- Confio. Tenho certeza que desta vez nós conseguiremos.
- Bom... Se você diz. Então eu também confio no pequeno. - E Lezir continuou a olhar para ele. - Ei, garoto, qual seu nome?
- Gal.
- Apenas isso?
- Galahad. Galahad Broadcase.
- Galahad... É um nome forte. Tenho certeza que já pertenceu a algum outro grande guerreiro.
- Está certo.
- É, eu sou bom com nomes.
E Lezir ajeitou-se novamente, de modo que pudesse ficar mais próximo do projetor, e assim,sua face pareceu maior perto de Galahad. Ele olhou para o garoto com o mesmo ar sério com o qual tinha encarado Khalador.
- Você acha que pode fazer isso?
Gal congelou com a pergunta. Já havia pensado tanto nela que ainda não havia chegado em nenhuma solução viável. Em seu curto desespero ele olhou para Khalador, do outro lado. O guerreiro assentiu para ele com a cabeça. E aquele ato pareceu ter dado confiança para ele.
- Sim. - Disse virado para Lezir. Que abriu um belo sorriso.
- Eu sinto uma grande determinação saindo deste moleque. Parece que, até mesmo em meu coração murcho de batalhas, ele conseguiu acender alguma esperança. Isso é bom. Garoto, o futuro, não só de seu mundo, como de seu universo depende de cada ato seu. Assim como você também pode ajudar a todos nós, que lutamos contra o Impiedoso a tanto tempo. Então, nunca se esqueça que cada ato seu trará uma consequencia para todos. Consegue entender isto?
- ... - Gal demorou um pouco a responder, mas Lezir pareceu não se importar. - Sim.
- Ótimo! Agora me sinto revigorado para o trabalho. Klon! Nossa meta mudou e agora devemos nos dedicar completamente a ela! Esteja pronto!
- Sim senhor! - Respondeu o garoto, mudando as lentes enquanto observava Lezir sumir novamente pelo corredor. Logo depois virou-se para o projetor. - Bom, conte comigo para avisar os outros de sua grande notícia. Façam o dever de vocês e nós faremos o nosso.
- Pode deixar, Klon! - Falou Hórus quase saltando de sua cadeira.
- Estou desligando.
E logo em seguida a imagem ficou novamente perdida num monte de chiados e distorções.

Durante a maior parte do resto do dia, Hórus ficou fazendo alguns reparos em Benny. Tinha aberto uma pequena tampa na lateral do painel de comandos e lá estava uma cena incrível e inédita: Os dedos de Hórus estavam mergulhados numa espécie de gel azul-claro brilhante que inundava tudo no interior da placa, como se todo o envolto de Benny fosse recheado daquilo. Os dedos do pequeno motorista brilhavam cada vez que ele os movia por ali, fazendo também com que outras luzes piscassem em pontos distintos dentro da placa. Como se cada movimento dele correspondesse a um apertar de teclas num teclado normal. Gal, como não tinha nada pra fazer – e completamente fascinado com a cena - , sentou-se ao lado do cabeçudo motorista.
- O que aconteceu?
- Danos da Passagem.
- Passagem?
- É. Chamamos assim o ato de passar do Impiedoso para o próximo universo que ele planeja destruir. É arriscado pacas, sabia, garoto?
- O tal de Lezir disse algo sobre isso, não?
- É. Nós, os Buscadores, somos conhecidos dentro da Oposição, mas não é por menos. Só o ato de tentar passar já pode lhe custar a vida.
Gal sentou-se, subitamente teve interesse pelo assunto.
- Explique melhor.
Hórus o olhou com o canto do olho e depois deu um longo suspiro enquanto soltava suas mãos do gel brilhante, para sentar-se de frente para o Escolhido.
- Veja bem. Existem alguns pontos de ligação entre a alma de um universo e o Impiedoso. Estes pontos ficam cada vez mais próximos e são a primeira ponte entre as duas partes. É por onde nós entramos, e por onde as primeiras surgem também surgem.
- Então isso quer dizer que...
- Exato. Para entrarmos aqui, temos de derrotar um número enorme de sombras. E é por isto que nosso risco é altíssimo. O Benny aqui, sofreu uns grandes danos. Eu pude arrumar quase todos, mas tive de interromper o reparo para ir te salvar. Então, estou terminando agora.
- Vocês... Estão aqui por quanto tempo?
- Nós? Bom, considerando o tempo da passagem. Estamos aqui já faz dois anos.
- Dois anos!? E o que fizeram durante todo esse tempo?
- Ora, nos adaptamos. Precisamos saber um pouco sobre os universos nos quais entramos antes de simplesmente começarmos a agir. E além do mais, ficamos na passagem por cerca de um ano e meio. Foram tempos duros pra nós.
- E o que fazem durante essa.. Passagem?
- Bom, normalmente? Tentamos manter nossas vidas a salvo.
- É tão arriscado assim?
- Bom. Imagine que Benny ficou numa brecha no espaço-tempo entre dois universos por todo esse tempo, lutando contra Sombras a quase todo instante. Considerando que não tínhamos muito mais que duas a três horas para dormir em paz. Isso com um em vigia. Sabe aquelas cenas dos filmes desse seu mundo? Aquelas de naves viajando através de vórtices com tudo passando numa velocidade inexplicável? É tipo aquilo. Só que pior.
- Hah... Claro. E pra voltar?
- Só voltamos se o Escolhido for morto. Nesse caso, passamos por tudo novamente, e levamos quem pudemos conosco. Não podemos salvar todos, mas fazemos tudo que podemos. Embora o universo escolhido esteja condenado à morte, aqueles que viviam nele podem ser salvos.
- E qual o número máximo de pessoas que já puderam salvar?
- Máximo? Cerca de quatrocentas.
- Só com Bennies?
Hórus adorou o plural do apelido que deu ao seu instrumento de trabalho.
- Não, garoto. A oposição manda transportadores.
- E não demoram pra chegar, também?
- Claro. E como. É a época de maior desgraça. Se esconder das Sombras fica quase impossível.
Foi quando uma dúvida brotou na mente de Galahad. Ele revirou suas lembranças da noite anterior e se deparou com um dilema. A Sombra que o havia atacado foi morta por espadas. É claro, Khalador lutou divinamente e por isso conseguiu vencer a besta. Mas se espadas venciam Sombras com tanta facilidade, porque não seria melhor simplesmente metralhar as Sombras aos montes? Gal se acomodou enquanto Hórus esperava ele dizer uma coisa.
- Espera, Hórus. Não sei se você notou, mas nosso mundo tem mais que as espadas que Khalador usou. Sabe? Pistolas, Metralhadoras, Canhões e tanques. Acha mesmo que as sombras podem se apossar do nosso mundo?
Hórus o olhou com uma feição um pouco mais séria enquanto seus dedos se entrelaçavam a frente da face.
- Alguma hora iria falar sobre isso com você. Sobre porque as Sombras são tão terríveis e ao mesmo tempo, justas. Chamamos isto de Reciprocidade.
- Reciprocidade?
- É. Deixe-me explicar: Quando essas criaturas invadem o coração de um universo, elas se adaptam com aquele mundo. Ou seja, elas se tornam resistentes e poderosas conforme aquele mundo pode se defender delas. Caso você usar as armas que vocês tem aqui contra elas, o dano vai ser bem menor do que o estrago que Khal fez na Sombra que te atacou ontem de noite.
- Mas, porque?
- As espadas de Khal carrega consigo vieram do mundo dele. E lá, essas lâminas tinham esse poder contra as Sombras. Mas como você sabe, o risco de morte deles era bem maior também. Só pra ter idéia, um míssil que Benny pode soltar irá fazer menos dano numa sombra do que uma flechada de Khal. Dependendo da situação.
- Então, e se nós fizermos uma metralhadora de flechas?
- Não adiantará. Você precisa entender que não é nada técnico e fixo. As Sombras de adaptam por uma profecia. É como se o impiedoso desse uma chance para os universos sobreviverem, mas para isso precisam ralar muito. Não é uma tarefa impossível, mas também não é simples. Embora nunca soubéssemos o jeito exato de se impedir o impiedoso de destruir um universo.
- Nunca?
- É, nunca. A profecia que os sobreviventes do mundo de Rhurgon trouxeram era que... “ Um a Salvo do Destino moverá seus atos contra o mal e a destruição. E apenas ele pode deter o avanço, com sua vida, e com a ajuda de seus sete pilares.” E é baseado nisso que nós tentamos salvar os universos. Muitas vezes já estávamos vencendo as sombras, mas não sabíamos o que fazer em seguida, e por isso falhávamos.
- Mas então como diabos Eu vou conseguir?
- Isso é algo que depende apenas de você. Talvez nos outros escolhidos faltou determinação, se você a tiver, então temos a vantagem.
- Grande resposta. Não quer vestir um cocar de índio e começar a dizer também que tenho super poderes? Ou prefere ser mais claro?
E Hórus abriu de imediato um sorriso com a frase do garoto.
- Espera, que felicidade boba é essa?
- É porque você disse tudo, Garoto. - Disse Khalador do assento dele. O Guerreiro parecia estar dormindo, mas tinha ouvido toda a conversa.
- Super Poderes? Eu?
- Não é bem... “Poderes”, mas os Escolhidos geralmente tem algum dom que só é revelado quando eles enfrentam os sinais do Impiedoso pela primeira vez. Algo que eles podem fazer e ninguém mais pode. Às vezes é mais de um. Depende muito. O seu dom por exemplo, é muito útil.
- Meu dom?
- Exato. Nós já descobrimos uma de suas capacidades especiais. Quase não notamos no início, mas quando caiu a ficha, ficamos impressionados.
- Tá. E o que eu tenho de especial?
Khalador se ajeitou no assento, agora também se virando para o garoto, assim como Hórus estava. O Guerreiro passou a mão pelo pescoço lentamente, até chegar a nuca, onde pareceu estar puxando algo. Fez força, até que o objeto se soltou e Khalador o trouxe até a frente. Era um pequeno mecanismo circular e achatado com alguns espinhos em uma das faces.
- Isto é um comunicador. Sem ele, Hórus não entende o que eu digo e nem eu entendo o que ele diz. É lógico, sabe? Cada universo diferente tem sua linguagem. Esse pequeno item é do mundo de Rhurgon, nosso líder. Com ele, nós falamos na língua das almas. É a única linguagem que transpassa qualquer universo e tempo. Mas sem o dispositivo comunicador, ninguém é capaz de me entender. Por exemplo, Hórus não entende nada que eu estou falando.
- E como é que eu estou entendendo?
- Aí. Este é seu dom. Pelo menos o primeiro a se revelar. Você é capaz, pelo que estou notando, de entender a língua de qualquer povo e de ser entendido por qualquer um deles. Como se a língua das almas fosse natural para você.
- Mas... tipo, vocês estão falando inglês, e eu nunca consegui entender o canal espanhol da TV a cabo. Sabe?
- Sei. Vamos fazer o seguinte... - E Khalador olhou para Hórus. - Consegue conectar a rede de televisão local?
- Claro. Os satélites daqui são antigos, mas eu consigo conectá-los.
- Coloque num canal de outra região.
- É pra já.
O pequeno parceiro de Khalador se moveu pelos assentos de Benny até chegar a tela do painél principal, que cobria grande parte da visão dele. Hórus colocou os dez dedos sobre a tela, e o mesmo brilho de quando arrumava benny veio à tona na ponta deles, exatamente com os quais tocava na tela. Gal se levantou e seguiu Hórus, assim como Khalador também se ajeitava para ver o que o pequeno fazia.
- O que está fazendo? - Peguntou Galahad.
- Estou me conectando ao satélite, oras.
- E é tão fácil assim?
- Com a defesa que vocês colocam neles, eu posso fazer a festa lá dentro e vocês nem descobrm o que afetou vocês. Isso porque Benny não tem os equipamentos mais avançados de invasão de software.
Claro. Invadir as redes mais poderosas do mundo é algo simples, não é mesmo? Pensou o garoto.
- Tá. E o lance dos dedos, como faz?
- Isso é o “teclado” do universo do qual eu vim, garoto. Os botões do painél foram uma adaptação que fiz para seu mundo, estava os testando quando o salvei. Mas normalmente uso meus dedos para fazer o que quero no sistema. Tenho um chip na ponta de cada dedo, eles se conectam ao sistema quando os toco e assim, as ondas cerebrais de comando saem de minha mente diretamente para o mecanismo.
- Claro. Claro. Desculpe, meu dom está falhando, poderia traduzir pra minha língua?
- Eu dou comandos mentais pro computador.
- Muito melhor.
- Pare de resmungar. Aqui, veja.
E assim, na tela da TV surgiu uma mulher magra e alta com um microfone. Ela parecia estar no meio de um grande conflito e falava histericamente em inglês, enquanto letras estranhas passavam no rodapé da imagem. Ela falava sobre um carro-bomba e sobre mortos e feridos. Mas de um jeito tão cômico que Gal entendia vagamente.
- Entendeu?
- Ela está falando em inglês, ora.
- Não, Gal. Ela está falando árabe.
E foi aí que a ficha caiu para ele também. Hórus tocou de leve no ombro do garoto com uma cara de deboche, e Khalador mantinha um pequeno e curto sorriso. Como se ele também desse risada por dentro. O garoto fechou a cara e virou-se, procurando algo para fazer.
- Tá. E do que isso me adianta? Não seria melhor eu soltar bolas de fogo ou coisas do tipo?
- Seu dom é bem melhor que qualquer bola de fogo. Garoto. - Hórus e Khalador disseram praticamente juntos.
- Melhor? Aonde?
- Simples. Você não vai derrotar o impiedoso sozinho. Precisará de toda a ajuda necessária, e talvez vá chegar a hora em que todo o mundo estará ao seu dispor. Para conseguir isso, você precisa saber se comunicar com todos. Seu dom é uma bela ajuda.
Gal calou-se. Por mais que não quisesse admitir, eles tinham razão. Talvez as bolas de fogo poderiam ser deixadas para depois. Olhou para a TV que agora mostrava um bizarro comercial sobre turbas e coisas do tipo. O pior é que ele entendia o que falavam, embora continuasse cômico.
- Tá. Mas é só isso que posso fazer?
- Bom. Quer descobrir? - Khalador disse com um sorriso na face. Um que Gal nunca tinha visto até aquele momento.


- Uma lâmina acaba se tornando uma arma quando ela deixa de ser uma arma, para fazer parte de seu corpo. Verdadeiros guerreiros surgem quando eles compreendem a alma de uma espada e a unem com a própria vida. - Khalador dizia girando uma de suas espadas entre o dedão e o indicador, ainda não havia passado de meio-dia, e a gora o céu se iluminava sobre a cabeça deles, refletindo com perfeição formas próximas no lago. Gal o observava, parado entre ele e Benny. - Muitos dos escolhidos tem dons de combate. É quase que um padrão. Sempre há alguma arma com a qual você é muito bom, e ninguém lhe tirará esta capacidade.
- E como vai descobrir se eu tenho algum?
- Está mais do que óbvio, não? Vou descobrir na prática.
- Isso quer dizer que...
- Acertou. Pegue.
E o guerreiro jogou a espada que segurava para Gal. O garoto quase segurou pela lâmina, pelo menos seus reflexos foram rápidos o suficiente para pegar a lâmina corretamente pelo cabo. Naquele momento Gal pôde ver melhor o tipo de espada que Khalador usava. Ela tinha um cabo cinzento sem muitos detalhes, era simples. Sua lâmina se estendia por mais de um metro e era afiada dos dois lados. Também não havia nenhum tipo de decoração sobre ela. A espada era uma máquina de matar, pura e simplesmente.
Khalador puxou outra lâmina que se encontrava presa na bainha da cintura. E a manejou, enquanto continuava dando poucos passos.
- É uma simples espada de duas mãos. Espero que não se contenha. Pois eu vou atacar com tudo.
- Você o que?
Mas antes que pudesse formular a frase seguinte, Khalador avançou contra ele num piscar de olhos, engolindo cerca de três metros em três passadas. Gal levantou a lâmina rapidamente na horizontal acima da cabeça e segurou com força sobre o cabo com as duas mãos. Sua lâmina tilintou contra a de Khalador enquanto sentia o peso do golpe dele fazer todos os músculos de seu corpo tremerem. O guerreiro rapidamente arqueou novamente a lâmina acima da cabeça enquanto girava em torno de si, logo entrando mais um gole horizontal pela esquerda, na altura do braço. Gal se jogou para trás exatamente a tempo de ver a lâmina passar a poucos centímetros a sua frente. Entretanto não teve a mesma sorte no próximo golpe. Antes mesmo de ter tempo para respirar enquanto estava sentado no chão, sentiu a ponta da lâmina de Khalador encostada sobre seu pescoço.
- Te matei três vezes.
- T-Três!? Mas eu me esquivei dos seus dois primeiros golpes!
- Regulei na força do primeiro golpe. Quando uma lâmina vem por cima e sua espada é grande, você deve segurá-la nas duas extremidades, caso contrário não será capaz de suportar o peso da lâmina. E não estiquei meu braço inteiro durante meu golpe pela esquerda. Caso tivesse, você agora teria um braço a menos para enfrentar as sombras.
- Entendi. Você me matou três vezes.
- Sim. E de sobra descobrimos que você não tem dom algum em lutas com espadas.
- E agora?
- Ainda temos um belo arsenal.
E assim se passou praticamente a tarde toda. Khalador mostrou um compartimento dentro de Benny que estava cheio dos mais inesperados tipos de armas medievais. E Gal, apanhou de vários deles. Enfrentou a cimitarra e a katana logo depois da espada de duas mãos. Se muito sucesso. Adagas, maças e clavas também entraram na lista de itens de combate. Machados, garras e até mesmo chicotes foram os últimos itens da lista. Quando o sol já estava para praticamente entrar no lago, Gal estava com vários hematomas e pequenos cortes pelo corpo. E Khalador, parecia nem ao menos ter suado. Hórus, o tempo todo ficou dentro do transporte deles, consertando os mecanismos e os observando pela câmera tridimensional que captava tudo em volta do transporte, como se sua parede fosse meio transparente. Ele também tinha de ficar dentro de Benny porque o automóvel era o único meio de rastrear sombras e alertá-los de perigos.
Quanto a Gal, ele se pegava cada vez mais descrente que tinha algum tom em combates. Era impossível para ele, afinal. Se jogou na grama arfando pesado enquanto Khalador se sentava ao lado dele.
- Amanhã continuaremos.
- Amanhã? Espera. Espera. Você não me disse que as armas haviam acabado?
- E acabaram. Agora vem as de longa distância. Talvez tenhamos mais sucesso, afinal, o mundo de vocês é cheio de armas de pólvora.
- Te garanto que nunca fui bom no basquete e nos jogos de tiro.
- A maioria dos dons de um escolhido só surgem depois do seu primeiro contato com o Impiedoso.
- Claro. E como eu sinto que tenho o dom para alguma coisa?
O Guerreiro de cabelos negros se ajeitou, deixando sua lâmina ao seu lado. Tinha sido com ela que ele derrotou todos os armamentos que Gal havia empunhado.
- É uma boa pergunta. Nós pudemos perceber que existem dois tipos de dons. Aqueles passivos, como sua capacidade de fala. E os dons ativos, que você usa apenas quando deseja. O que estávamos buscando descobrir em você, era se sem querer, descobríssemos algum dom. Durante as batalhas.
- Mas como diabos faria para descobri-los?
- Bom... é difícil responder a isso. Eu me sinto apto a fazer. Uma emoção, uma sensação, algo vem de dentro de mim e explode dentro de minha alma. De repente, posso fazê-lo, tenho a capacidade. Como se sempre minha existência pudesse tê-la feito.
- ...
- O que foi?
- Realmente. Bem difícil responder. Não entendi bolhufas.
Khalador riu, acompanhado de Gal.
- Você vai entender quando chegar a hora.
- Assim eu espero. E alias, qual o seu dom, Lorde Khalador?
O Guerreiro lhe lançou um leve olhar acompanhado de um bom sorriso.
- Descobrirá quando for necessário usá-lo.
- Talvez esta seja uma boa hora, Khal. - Veio a voz de Hórus, abrindo a porta superior de Benny. Com uma cara nada feliz. - Temos problemas. Dois deles. E um não é melhor que o outro.

- Um grande contingente de Sombras está vindo pelo sul, irá cruzar o lago para cima de nós em menos de meia hora. Do outro lado, o radar detectou veículos deste mundo vindo em nossa direção numa boa velocidade. De alguma forma nos descobriram, e pelo que conheço de mundos parecidos com este, arrisco dizer que vieram nos prender ou coisa pior. O governo de vocês esconde muita coisa. Muita informação.
Hórus explicava enquanto seus dedos estavam quase a ponto de afundar no painel central. Khalador estava se armando enquanto ouvia as instruções, em menos de poucos segundos já tinha cinco lâminas na cintura. E algo que Gal não tinha visto antes. Havia uma sub-metralhadora presa por uma alça às suas costas. Khalador notou o olhar do garoto sobre sua arma.
- Temos de estar preparados para tudo, Gal. - E virou-se novamente para Hórus. - O que pretende?
- Fuga estratégica. Se sairmos agora em direção ao leste, teremos tempo para escapar de ambos os lados e ainda fazê-los se enfrentar.
- Não. - Disse Gal. - Esses caras que estão atrás de nós, tem a capacidade de vencer as Sombras?
- Sobre isso não sei dizer. Mas carregam um bom armamento. - Disse Hórus, depois de seus dedos brilharem em tons de vermelho e azul. - O problema é a Reciprocidade. A chance de sobreviverem todos não é muita.
- E nós, se nós fossemos enfrentar as Sombras. Venceríamos?
- Muito provavelmente. Mas é um risco a se tomar. As Sombras são interligadas. A partir do ponto em que uma notar e confirmar sua presença, todas que habitam o planeta saberão onde você está. Aconselho a fuga, talvez as Sombras desviem seu caminho para nos perseguir e eles não se encontrem.
- Mas com os equipamentos deles, vão acabar notando as duas presenças. Talvez vão para cima das Sombras pensando que tem total controle da situação. Caem na mesma. - Khalador interrompeu enquanto botava luvas de couro.
- Então, não podemos deixá-las passar. - Disse Gal, levantando-se impulsivamente. - Podemos ter mais mortes, e eu não quero isso.
- Gal. Mortes serão inevitáveis.
- Serão, eu sei. Mas pretendo impedir a maioria delas. Sou o Escolhido, afinal, não sou?
Khalador parou um pouco ao ouvir a última frase do garoto. Ele também agia assim, e entendia o que ele queria. Mas precisava ter uma certeza antes de tomar uma decisão final, ajoelhou-se de frente ao garoto e repousou suas mãos sobre os ombros dele enquanto olhava fixo nos olhos de Gal.
- Preciso que me responda algo, então.
- De preferência que seja rápido! - Gritou Hórus, já com seus dedos piscando em cores reluzentes das mais diversas. - Não quero deixar Benny em fogo cruzado, se é que me compreendem!
- Pode falar, Khalador.
- Só quero ter certeza. Não quer fazer isto por vingança, quer?
- Não. É por justiça. Não acho que devo deixar outros morrerem quando posso parar isto.
É o que a boca de Galahad disse. Mas no coração do garoto, ele sabia que bem no ínfimo, havia um pouco de vontade de se vingar. Não iria ser fácil esquecer a imagem de seu pai sendo morto na sua própria frente por uma daquelas criaturas. E Khalador de algum modo pôde sentir esta emoção. Mesmo assim, sabia ainda que grande parte de seu objetivo ainda era nobre. Abriu um leve sorriso e virou-se para Hórus.
- Vamos enfrentá-los. Temos de derrubar todas as Sombras, ou pelo menos a maioria deles antes que os humanos deste mundo apareçam por lá. É melhor evitar confusões agora. No mais...
E Khalador brandiu uma de suas lâminas.
- ... Agora estamos obedecendo as ordens do escolhido. Exatamente a nossa parte da missão. O serviremos, cobrindo seus passos em direção aos outros sete.

Explicando melhor agora, Benny era como Hórus chama seu Strond-Travel, veículo de combate que veio de seu próprio mundo. Benny é construído com um metal completamente desconhecido no mundo de Gal, tendo sua resistência sendo muito maior que a do diamante. O veículo é triangular quando visto de cima, levemente inclinado sobre a roda da frente. Suas rodas são outro ponto importante, são gigantescas rodas de mais de dois metros e meio de altura, com espessura de exatos um metro e meio. Feitas de borracha blindada, outra exclusividade do mundo de Hórus. O veículo possuí dez assentos espalhados por dentro dele, e seus mecanismos funcionam, a início, pelos chips de Hórus. Embora possa ser modificado.
Benny disparou sobre a água do rio, e correu por cima dela na velocidade de Match 1. Que ocasionou em o Lago abrir-se ao meio após sua passagem. O veículo tinha protetores para quem estivesse dentro deles, de modo que Gal, Hórus e Khalador mal sentiram ele se mover. Do outro lado do lago existia o prolongamento de uma floresta de pinheiros, que Benny acabou por destruir enquanto a cruzava. Hórus agora estava completamente mergulhado no painel, de modo que cada movimento dele fazia uma série de botões brilharem. Um radar na tela à esquerda do pequeno motorista mostrava a aproximação das sombras. Pequenos pontos vermelhos em volta do ponto verde central. Eles. Num movimento dos dedos, Hórus fez Benny frear bruscamente no meio da floresta. Agora a noite já caía e o sol já havia se posto.
Gal se levantou de seu lugar e tocou no ombro de Khalador, quando ele já abria a porta de cima para sair de Benny. O guerreiro virou-se para o garoto.
- O que foi?
- Quero ajudar também.
- Bom. Com uma espada que não vai ser.
- Então, me dê algo para fazer. Não quero ficar parado assistindo.
Khalador pareceu ir contra a idéia, mas aceitou-a. Caminhou até um pequeno compartimento na esquerda e de lá, puxou uma pistola que deixou na mão de Gal.
- É automática. Destrave puxando aqui, e depois atire. Espero que tenha um mínimo de mira. Fique na entrada de Benny e me dê cobertura. Só espero que não me acerte, tem doze tiros.
- Não vou. - E Gal segurou com firmeza a pistola.
A porta se abriu e Khalador saltou para fora, logo em seguida Gal subiu as escadas ficando com metade do corpo para fora e pistola apontada. Hórus ativava o sistema de segurança de Benny e os faróis se ligaram. Os pontos vermelhos pararam de se mover no radar, estavam a menos de vinte metros deles, mas as sombras da floresta os ocultavam.
- Aguardem a ordem.
E um silêncio mortal pareceu assolá-los por poucos segundos que mais pareciam horas. Khalador estava de pé, em cima de Benny, que segundo ele, era a parte mais vulnerável do veículo. A arma de Gal apontava para o nada no meio das árvores enquanto ele tentava sentir algo se movendo.
Num segundo as luzes vermelhas avançaram.
- Agor... - Hórus iria gritar. Mas fora interrompido.
Uma sequencia de tiros foi disparada contra a escuridão, e logo em seguida, uma enorme figura negra tombou para onde a luz dos faróis de Benny iluminava. Com belos buracos na face. Khalador se deixou levar pelo susto e arregalou os olhos, enquanto entendia o que estava acontecendo. Virou-se para trás rapidamente.
A arma na mão de Gal não tremia, e os olhos do garoto não pareciam mais o mesmo. Eram olhos precisos e profissionais. Fumaça saia pela ponta da pistola que era segurada por um pulso firme de Galahad. Khalador abriu um sorriso.
- Aí está seu dom, Escolhido.
E logo em seguida o guerreiro saltou para cima de uma sombra que avançava contra Benny. O combate começava. Leia até o fim...

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Os 8 Escolhidos - Capítulo 7

Sem revisões, caso acharem erros, avisem.

Capítulo 7 – A fuga dos Irmãos Walles


- Droga! - Gary resmungou.
Eles estavam no terceiro andar do prédio, era arriscado demais ir pela janela. Até porque, ela tinha grades. O garoto não queria ir pelo corredor, tinha quase certeza que alguém estava os aguardando nele. Ann apenas observava o irmão, estava bem mais quieta que o habitual, mas não era por menos. Em um dia, toda a vida que tinham havia desmoronado. E agora, lá estavam eles, tentando escapar de Agentes Federais - Se é que eram. - logo após terem sido quase mortos por uma criatura gigante e desconhecida.
- Tem alguma idéia, mana? - E Gary virou-se para a irmã.
- No momento, nenhuma.
- Tsc. Porcaria. Deve ter algo que possamos usar aqui.
E sentou-se em seu lugar na cama, mas levantou-se num salto um segundo depois.
- O que foi? - Ann perguntou.
- Sentei em algo.
E Gary foi ver o que estava por debaixo dos cobertores. Ali havia um pequeno botão vermelho, ligado num fio que ia para a parede.
- É para chamar a enfermeira.
- Chamar a enfermeira, é? - E Ann pareceu pensativa.
- O que foi, teve alguma idéia, Ann?
- Talvez... Escute.

Na sala das enfermeiras, a luz que indicava o alarme do quarto dos Walles piscou freneticamente. No mesmo instante, três delas dispararam em direção ao quarto. Nestes momentos era possível ver o quanto enfermeiras trabalham duro, elas subiram as escadas até o terceiro andar em menos de um minuto. Quando já estavam chegando perto do quarto, Gary surgiu na porta, com uma cara de desesperado.
- Rápido! Minha irmã, ela... ela...
No mesmo instante em que as enfermeiras entraram, um grandalhão de terno preto que estava ao lado da porta também entrou. Dentro do quarto, a cama de Ann estava vazia, e um lençol estava amarrado do lado de fora da janela. Por fora da grade.
A reação das enfermeiras e do Agente foram exatamente as mesmas, se amontoando na janela. Gary sorriu no corredor, e fez sinal para a irmã, que rapidamente saiu de dentro de um pequeno armário que ficava ao lado da porta. Eles dispararam pelo corredor em direção das escadas, e só ouviram os gritos quando estavam na metade da primeira escada. Eles desciam as escadas de três em três passos, sem parar para pensar nos riscos que corriam.
- Fiquem parados aí mesmo! - Gritou a voz de baixo.
Logo no final da escada que dava para o primeiro andar, surgiu um segundo homem de terno. Gary parou de imediato com a irmã atrás, e voltaram a subir.
- Onde? - Gritou a irmã.
- Segundo andar! Segundo andar!
E assim viraram nele, tendo a bela visão do primeiro Agente já chegando perto deles, vindo do andar de cima. Quando entraram correndo pelo corredor, os dois agentes já estavam quase na cola deles. O bom do hospital era que não havia tanta gente por ali, afinal era uma cidade pequena, não haviam tantos acidentes assim num único dia. Gary puxou um carrinho com toalhas limpas para o meio do caminho enquanto corria e viu de relance o primeiro Agente cair com ele e o segundo continuar seguindo, saltando por cima dele. Viraram à direita e aceleraram o passo.
- Precisamos nos esconder! - Gritou Gary.
- Onde?
- Não faço a mínima! Aqui, entre aqui!
E virou bruscamente, se jogando para dentro de um quarto com a irmã logo atrás dele. Gary fechou a porta e a trancou por dentro. Um segundo depois sentiu alguém bater fortemente contra ela. Já estavam ali. Gary olhou rapidamente para onde estavam. Era um quarto pequeno, cheio de roupas sujas em cestos e limpas em outras. Fora vários carrinhos que estavam por ali.
- Precisamos achar uma saída, ou nos esconder aqui. De alguma forma. - Disse Ann.
Enquanto isto, Gary se apressava em encher a porta com o que podia. Jogava cestos, carrinhos e outras coisas na frente dela, para dificultar a entrada, embora faltassem apenas alguns chutes bem dados para a porta ceder. E foi então que ele sentiu a irmã lhe puxar pelo braço.
- Por ali, Gary! Rápido! - E apontou para uma pequena portilha.
Foram até lá e a abriram, revelando um túnel pequeno e vertical. Olharam para baixo e viram um mar de roupas sujas juntas. Era óbvio, aquele era o depósito de tecidos, isso significava que eles levavam para o lugar de onde são levados para a lavanderia. Olhou para Gary e ele entendeu, já saltando pela portilha. Com Ann indo logo em seguida. Um segundo depois a portal rompeu-se, levando tudo que estava atrás dela junto. Os dois Agentes entraram na mesma hora, começando a vasculhar tudo por ali. Ficaram assim por um minuto, até notarem a portilha aberta. Um deles chutou um cesto contra a parede, de raiva.
- Malditas crianças!

Ann e Gary estavam agora no estacionamento do Hospital - que era ligado diretamente a Sala de tecidos- , correndo sem parar na direção da entrada. Antes que o segurança perguntasse qualquer coisa ou dissesse algo, Ann chutou-lhe no meio das pernas e o fez gemer e cair no chão choramingando.
- Deus! Onde você aprende essas coisas?
- É para usar contra irmãos desobedientes. - E Ann riu. - Agora vamos.
E assim saltaram para a rua, mas pararam no mesmo instante, quase sendo atropelados por um carro que freou em cima deles, praticamente. O motorista era jovem, não passava dos trinta anos. Era um Táxi.
- Ei! Cuidado por onde andam! - Esbravejou.
Gary pensou por um segundo. Apenas por um segundo, e depois olhou para a irmã. Eles se entenderam novamente sem precisarem dizer mais nada e ambos foram até o carro, entrando no banco de trás. E antes que o motorista pudesse dizer mais qualquer coisa, Gary o interrompeu.
- Rápido! Nos leve para longe daqui!
- Como é!?
- Isso mesmo! Vamos! Tenho bastante dinheiro! Nos tire da cidade agora!
- Vocês não parecem ter dinheiro algum. E pelo que estão vestindo, também não deveriam estar aqui! Fora do meu carro, agora!
Gary estava quase conformado, quando Ann se colocou entre os bancos da frente e tocou de leve no ombro do taxista. Não que fosse metida, mas ela sabia usar de seu charme quando queria. E, cá entre nós, Ann não era nem um pouco feia.
- Olhe. Eles estão atrás de nós por engano. Por favor, você precisa nos ajudar. - A voz melosa saiu mais sedutora do que Ann podia imaginar. - Só conseguiremos provar nossa inocência caso sairmos agora. Eu lhe imploro!
A face do taxista ficou corada e logo depois ele acelerou.
- Maldição! Droga! Porcaria! - E resmungava mais umas muitas palavras enquanto deixava o hospital para trás. Os Agentes ainda não haviam nem saído do prédio quando o Táxi virou a esquina e eles sumiram de vista inicialmente.
Houve mais uma troca e olhares entre os Walles. E no fim, eles abriram um sorriso.

- Certo, alguém vai me contar o que está acontecendo? - Disse o taxista, após saírem da cidade.
- Nós...
- Nós estamos sendo perseguidos por bandidos. - Interrompeu Gary.
- Como é!?
- É. Isso mesmo.
- E porque me envolveram nessa roubada toda!?
- Ora, você simplesmente foi o primeiro a aparecer. Não tem bondade no coração? - Disse Ann.
- Não é isso! O fato é que... Argh! - E o taxista acelerou. - Bem que minha mãe disse que eu era bondoso demais para trabalhar com gente!
- Qual o seu nome?
- Dave. Dave Cooper.
- É um prazer, Dave, eu sou Ann Walles. E este emburrado aqui é meu irmão, Gary.
- Certo, certo. E, deixando nomes de lado, porque diabos vocês estão sendo perseguidos por bandidos?
- Hah, é uma longa história, Dave. Só tente nos deixar o mais longe possível de Winterclouds Town.
- O que você considera como “o mais longe possível”?
- O mais longe possível. - Falaram os dois irmãos juntos.


- Droga! - Gritou Ryan. - Não passam de dois adolescentezinhos! Como deixaram eles escapar!?
- O garoto pensou em tudo e...
- Tá, que seja, não quero ouvir explicações! Me deixem, preciso ligar para Collins. Enquanto isto, comecem a investigação para descobrirem para onde eles estão indo!
E assim, os dois Agentes saíram da sala. A equipe de Ryan havia improvisado seu escritório em Winterclouds Town num pequeno apartamento alugado. A verba deles ia muito além disto, mas as opções da pequena cidade não permitiam muito mais que aquilo. Caminhou até a mesa e pegou o celular, apertando alguns números da discagem rápida. Quem estava do outro lado da linha atendeu em menos de dois toques.
- Estou ouvindo. - Veio a velha voz do outro lado.
- Senhor...
Ryan parecia estar com um tom de voz bem mais gentil e agradável agora.
- ... Nós acabamos por perder as duas testemunhas.
- Perder?
- É. Elas fugiram durante um erro de meus agentes.
Um silêncio se seguiu. Como se o homem na linha estivesse pensando no que dizer. Ryan, durante todo este tempo, parecia estar sendo o acusado de um julgamento da alta corte. Tremia, enquanto suas mãos suavam frio. Finalmente, a voz voltou a soar.
- Tudo bem. Nós só temos de achá-los. Se eles fugiram é porque realmente estão escondendo algo. Também, não deixe a busca pelo garoto... Galahad, ficar de lado. Sim?
- Sim senhor! Desta vez não o desapontarei.
- É, assim espero. Seja lá o que for isto, já apareceu antes, deixando rastros de destruição terríveis. Não quero arriscar por vê-la de novo antes que estejamos preparados. Qualquer novo avanço, me informe, Ryan.
- Sim! - E assim se encerrou a ligação.

Por incrível que pareça, Dave Cooper estava mesmo levando os irmãos Walles até a próxima cidade. Já havia recebido três ligações da companhia de táxi, e teve de inventar a desculpa mais incrível do mundo para fazer o que estava fazendo. De qualquer forma, ele havia desistido de ficar emburrado e decidiu tentar aproveitar a viagem. Gary agora estava no banco da frente, ouvindo o rádio enquanto cantava junto.
- Então, o que vocês vão fazer depois que eu deixar vocês?
- Nós? Vamos procurar por um amigo! - Disse Gary.
Mal havia notado que falava demais, a música estava empolgante, mas Ann deu um cutucão que o trouxe de volta a realidade.
- Amigo? Que tipo de amigo?
- Hah. É um... É um que nos meteu nessa enrascada toda. - Não deixava de ser verdade.
- E porque vão achá-lo? Só encontrarão mais encrenca! Deveriam é tentar seguir uma vida normal por aí. Começar de novo. Você e sua irmã.
- É, você até tem razão. Mas o negócio é que a gente precisa resolver uns...
- ...Uns assuntos pendentes. - Ann completou do banco de trás.
- É! Exatamente isto!
- Entendo. - Disse Dave, sem acreditar muito na história.
Aquele era um dos dois grandes problemas de Dave Cooper, o de se conformar com pouco. Ele nunca cobrava mais das pessoas e das coisas, mesmo quando lhe era de direito, como naquele momento. O Segundo grande problema de Dave Cooper, era sua bondade sem limites. Mesmo parecendo reclamar de tudo, o taxista simplesmente não consegue recusar um pedido de ajuda. Também como naquele momento.
Ele havia encontrado os irmãos Walles às duas da tarde, e agora, já estava quase para anoitecer. Provavelmente só chegariam na próxima cidade depois de mais umas três horas. Até lá, teriam de aguentar as conversas forçadas que Dave tentava puxar, que parecia ser desconfortável tanto para ele quanto para os dois.
- Ei, Dave.
Gary rompeu o silêncio que havia se mantido por alguns minutos.
- Diga.
- Estou com fome. Sabe?
- Oras, problema seu. Resolva quando chegarmos lá.
- Não, você não entendeu... - E Gary insistiu. - Estou morrendo de fome.
Neste momento ele recebeu um forte cutucão de Ann. A garota foi quem havia conseguido a ajuda de Dave, mas ela sabia que para tudo havia um limite, e o da cooperação de Dave já havia e excedido a tempos.
- O que foi!?
Já Gary não parecia ter compreendido.
- Não percebe como está sendo abusado demais, Gary?
- Abusado? Eu? Ora, só queria comer algo.
- Ele já está fazendo demais nos tirando de Winterclouds! Não precisava nem fazer isto!
- Por isto mesmo! Já que já está ajudando, que ajude por inteiro, ué!
- Às vezes me pergunto onde foi parar a educação que a Mamãe deu pra você.
A frase havia escapado sem querer. Mencionar sobre os pais deles, ainda era um tabu dos grandes para os irmãos. Ainda era difícil aceitar que eles haviam morrido daquela forma, para salvá-los. E com isso, ambos os irmãos ficaram em silêncio, como que em respeito ao Sr. e Sra. Walles. E agora, Dave era quem se sentia culpado por tudo.
- Ei, relaxem. - Disse ele. - Eu posso pagar um lanche para vocês. Só não quero ver discussões no meu carro. Entenderam?
Não houve resposta, mas nenhum dos dois reclamou. E assim, Dave se sentiu melhor consigo mesmo. Passou a mão pelos curtos cabelos loiros, como que tentando arrumá-los, mas eles eram tão pequenos que nem sem moviam do lugar. Era o fruto da tentativa de entrar para o exército, algum tempo atrás. Sem muito sucesso.

Um bar de estrada ia se aproximando, junto de um posto de gasolina, minutos depois da pequena desavença. Dave abriu um sorriso animado.
- Pronto! Matamos dois coelhos com uma cajadada só! Vou colocar gasolina e aproveito para pegar algo para vocês comerem. Afinal, eles vão estranhar se virem pessoas com roupas de hospital saindo de um táxi. Apenas fiquem e esperem.
Os dois apenas consentiram, enquanto Dave descia do carro e conectava a mangueira de gasolina no carro. Deixou apertado, pois o tanque estava em menos da metade e foi até o pequeno bar do posto. Um belo por-do-sol estava no horizonte exatamente naquela hora.
- Me veja... dois daqueles salgados e mais dois daqueles. E aquelas duas garrafas de refresco.
Dizia, para a balconista, enquanto olhava para os pequenos salgadinhos em pacote que haviam por ali. Tinha uma extrema queda por eles, aquele era outro ponto em que sua mãe reclamava demais dele. E de súbito, lembrou-se da mãe. Ela iria estranhar, ele não estar em casa para o jantar. Enquanto aguardava pelos pedidos, puxou o celular e foi para o canto, discando o número da mãe.
- Hah. Olá, Mãe.
- Dave? Você me ligando a esta hora?
- É. Só para avisar que não vou ir para casa jantar.
Pequena pausa.
- Dave? Não se meteu em alguma encrenca de novo, não é?
- Não, não. Não se preocupe mãe, só vou cobrir um turno de um amigo na...

- Ele parece ser um cara legal, né? - Ann tentou puxar assunto no carro.
- Nem tanto. Não achei graça alguma nas piadas deles.
- Ora! Tente ser mais simpático, ele está nos fazendo um grande favor.
- Simpático? Se você não estivesse no carro para fazer a cabeça dele, eu estaria de novo com os Agentes! Ele é só um safado, querendo tirar proveito de você!
- Me poupe, Gary! Mesmo que tenha um pingo de verdade no que você diz, você acha que eu faria alguma coisa com ele?
- Vai saber...
- Gary! - Ann pareceu bem ofendida.
- Ok. Desculpe. Eu vou tentar me comportar.
E a última fala de Gary resolveu tudo. Depois da pequena discussão com o irmão, Ann deitou-se no banco de trás. Mal havia encostado a cabeça no banco, e um som ensurdecedor veio de fora, roncos de motores e freios sendo forçados. Ela já havia imaginado o que poderia ser, mas de qualquer forma, Gary teve de gritar.
- Nos acharam, Ann!
Gritou ele, enquanto ela se levantava para ver que estavam cercados por carros pretos, com homens saindo deles e começando a apontar armas para o táxi.
- Continue abaixada, vou pegar o volante!
- Mas e o Dave?
- Deixe ele para lá! Só temos de sair daqui!
E assim ele saltou para o banco do motorista. Mas antes que tivesse a chance de dar a ignição no carro, ouviu quatro disparos que o fez hesitar, e logo sentiu o carro abaixando rapidamente. Os pneus se foram. Tentou ignorar a idéia que não iriam muito longe e mesmo assim foi ligar o carro. Quando a mão de Ann veio do banco de trás o parando.
- Gary! Não!
- Porque não!? Não me diga que...
Mas antes que terminasse a frase, ele olhou para o lado. Um agente estava com a arma apontava exatamente para a cabeça dele. Gary paralisou na hora, era a segunda vez que corria tanto risco de morte. Mas, o orgulho dele não deixaria ele ficar assim por tanto tempo. Os agentes não atirariam, atirariam? Afinal, nos querem vivos. Foi o pensamento do garoto, pouco antes de abrir um grande sorriso pela idéia.
- Gary.. O que você...
- Vamos lá, Ann.
E deu a partida e disparou com o carro para cima de uma abertura entre dois carros. A princípio, tudo havia dado certo: O Agente que mirava para ele não atirou e os outros que estavam no caminho saltaram para o lado para dar passagem para o táxi. O problema foi logo depois disto. O Carro chocou-se com tudo no pequeno vão entre as duas vans pretas que estavam no caminho, e ralou para abrir caminho entre elas. O carro ameaçou não aguentar abri-las quando ele pisou fundo no acelerador, fazendo finalmente elas cederem. Mas neste exato instante, Gary ouviu um clique do seu lado e Ann gritando. Lá estava o Agente Ryan, sentado no banco de trás com a arma encostada na cabeça de sua irmã. Ele parou o carro no mesmo instante.
Dave também não teve muita sorte com a chegada dos homens de terno preto. Mal tinha informado para a mãe que não chegaria para o jantar, quando eles apareceram, vindo do nada pela estrada e pelas gramíneas em volta. A princípio tentou correr imediatamente para o carro, mas antes que pudesse, fizeram o cerco em volta dele. Parou as pernas e ficou em seu dilema: Deveria fugir, ou tentar salvar os Irmãos Walles? Aqueles homens não pareciam nada com bandidos, para ele. Mas mesmo assim ainda poderiam estar dizendo a verdade.
Nesta confusão mental, dois agentes o pegaram por trás e o imobilizaram no chão.

- Sabe, eu ainda não entendo porque vocês fugiram.
Ryan caminhava lentamente, feliz pela vitória sobre os Walles.
- Afinal, até onde vocês achavam que iriam ir? Cidades tem câmeras de segurança, garotos. É fácil ver para um onde um táxi em alta velocidade está seguindo. Pensava que fossem mais espertos, considerando que fugiram de meus homens no hospital.
Gary e Ann nem sequer ousavam falar, a indignação pelo tom metido do agente estava acima de qualquer outro pensamentos que eles estavam tendo. Eles estavam algemados e sentados no chão do posto, junto de Dave. Foi neste instante que Ryan reparou no taxista.
- E o senhor? Senhor... - Um agente lhe deu alguns documentos. - Hah sim! Senhor Cooper? O que estava fazendo com esses jovens?
- Elas me pediram ajuda e eu dei. Disseram que estavam sendo perseguidos por bandidos.
- E desde quando você acredita assim tão facilmente em qualquer história que ouve? Pois saiba, que nós somos Agentes Federais. E estes aqui são foragidos da nação.
- Ora... Eu só...
- Perfeito. Perfeito. Levem todos. Já que estamos na estrada, vamos direto para a base principal.
- Base Principal? - Perguntou Gary.
- É, jovem Sr. Walles. Sabe, já que vocês não quiseram nos contar tudo, nós vamos extrair a verdade. Seja de um jeito ou de outro. É importante para a segurança nacional. Vamos! Perdemos tempo demais por aqui!

Gary e Dave foram colocados numa van, enquanto Ann foi numa mais na frente. Foi difícil até mesmo para os agentes separar os irmãos daquela forma. De qualquer modo, depois de dez minutos parados ali no posto, os carros partiram em alta velocidade. Dave e Gary estavam nos bancos de trás, enquanto dois agentes sérios e calados estavam no banco da frente. No veículo de Ann, havia três agentes, um com ela e outros dois na frente.
Dave deu um belo cutucão em Gary.
- Bandidos, heim!?
- Se eu dissesse que Agentes Federais estavam atrás da gente, você acreditaria?
- Depende muito. De qualquer forma, não correm nenhum risco de vida!
- É... Na verdade, corremos sim.
- Como é!?
- Bom, é que...
Neste momento a voz irrompeu de um dos agentes.
- Quietos aí atrás!
Restou para os dois apenas se olharem, mas Dave ouviu um baixo sussurro de Gary.
- Desculpe.

- Está apertado demais?
O Agente perguntou a Ann, sobre o cinto de segurança.
- Não, não. Obrigada.
- Disponha. - E sorriu amigavelmente.
Talvez fosse o único daqueles agentes que conseguiam sorrir amigavelmente. E Ann acabou por notar isto. Talvez ele fosse um pouco mais simpático, a ponto de poder conversar com ele. Ela se ajeitou no banco, enquanto o agente agora falava com os dois da frente. Assim que ele voltou, Ann tocou seu ombro de leve.
- É... Qual é o departamento de vocês?
- Desculpe, não posso liberar nenhuma informação detalhada sobre nossa organização. Mas, posso dizer que trabalhamos com ordens diretas do Pentágono.
- FBI?
- Não exatamente.
- Hah. Obrigada. Você foi o primeiro um pouco mais educado.
- No nosso trabalho não estamos muito acostumados a tratar com gente. Especialmente jovens como você. Por isso, acabamos sendo mais rudes do que imaginamos. Se bem que, alguns de nós exageram, e sabem muito bem disso.
- Está falando do tal Agente Ryan?
- Shhhh. - Ele fez, antes que os agentes da frente notassem. - Quer que eu seja demitido ou transferido?
- Hah, desculpe.
- Tudo bem.
E Ann ficou feliz por finalmente ter achado um Agente mais gentil no meio de todos aqueles outros. Um departamento de agentes federais que não tratava com gente, era particularmente estranho ouvir algo assim. Talvez eles fossem aqueles agentes que apareciam nos filmes de Ficção, que cuidam de casos paranormais e coisas do tipo. Eram os pensamentos dela quando o silêncio instaurou-se em sua van. Daí, sua mente já foi para vários outros lugares, e divagou-se. Mal notou quando havia adormecido.
Neste meio tempo, noite caiu. De modo que a estrada agora estava iluminada pelos faróis do comboio de carros pretos. Eram seis, no total. Dois carros na frente, seguido por três vans, mais um último carro no final. Gary e Dave estavam na última van, enquanto Ann estava na primeira. O garoto, ao contrário da irmã, não havia dormindo por nem um segundo. Sempre agitado ou tentando conversar em voz baixa com Dave. Acabou descobrindo que o taxista era mais simpático do que ele pensava ser, depois teria de se desculpar verdadeiramente com ele. Também percebeu que o carro de trás, que era como os dois da frente, pareciam réplicas pretas dos carros de corrida que geralmente ficava vendo na internet. Dave sorriu ao perceber o fascínio do garoto pelos veículos.
- Gosta de carros, é?
- Sim. Amo.
Dave riu de leve.
- Sabe, eu poderia ter sido um piloto de alguma modalidade de corrida.
- Sério!? Porque não virou?
- É, sabe... No dia do teste, eu precisei socorrer minha vizinha. Ela era idosa e mais ninguém cuidava dela quando teve um ataque do coração. Tive de ficar junto dela até a ambulância chegar. Quando dei por mim, já havia passado a hora do teste. Fiquei tão estressado que decidi nem apostar mais em virar piloto.
- Nossa. - Gary havia voltado toda atenção para ele. - Isso deve ser triste mesmo. Pelo menos você fez a coisa certa. Salvou a vida da velhinha.
- Na verdade... Não. Ela não chegou a tempo no hospital e acabou falecendo.
Gary acabou sem saber o que dizer por alguns segundos, até tentar formar um sorriso.
- Pelo menos você era bom?
E agora, Dave era quem tinha aberto um grande sorriso.
- Com certeza tinha mais talento que qualquer um dos meus concorrentes.
- Do jeito que fala, parece duvidoso.
- Ei!
E ambos começaram a rir, antes de serem silenciados pelo Agente que estava dirigindo.
- Silêncio aí atrás! Isto não é uma viagem para vocês!
E assim o comboio seguia noite adentro.
O carro de Ryan era o mais a frente, ele sentava-se no banco de trás enquanto um de seus agentes dirigia para ele. Provavelmente também era o carro mais confortável e cheio de apetrechos entre todos aqueles seis. O velho agente mexia distraidamente no celular, vendo algumas mensagens e reenviando-as, parecia finalmente estar satisfeito com parte de seu trabalho.
Enquanto isto, Ann havia acabado de acordar na sua van. Espreguiçou-se lentamente, lamentando estar com as algemas. Abriu os olhos e notou o quão sombrio estava tudo aquilo em volta. O carro não soltava um único pio, e a única luz que ela podia ver eram a dos faróis dos carros. Sentiu um leve toque no ombro e virou-se para o lado, o Agente que a acompanhava estava ali. Mas desta vez, não sorria, sua face séria, somada ao seu tamanho agora o deixavam até mesmo assustador.
- O que foi?
Ann ainda estava meio atordoada.
- Não sei. Algo está errado.
- Como assim?
- É, alguma coisa ruim está para acontecer.
- Não estou te entendendo.
- Desculpe, é algo que tenho desde criança. Sempre antes de algo ruim acontecer, tenho um mal pressentimento. Como se passasse mal.
- Está sentindo isso agora?
- Sim. Algo está vindo, lá fora.
E ambos olharam para trás. Tudo parecia normal com os carros que vinham mais atrás, mas não era isto que preocupava. O que preocupava era que não havia mais nada além dos carros. A estrada estava uma escuridão completa e já fazia muito tempo desde que um carro não aparecia. Era como se estivessem correndo e correndo mas não chegassem a lugar algum. E de repente, um leve chiado veio de fora. Começou baixo e quase inaudível, até que começava a aumentar incessantemente. De repente um alto som de derrapadas de um carro soou, e em seguida, e Ann e o Agente grandalhão viram que o último par de faróis girou na escuridão, o carro estava capotando pela estrada enquanto ficava para trás.
A visão que Dave e Gary viram já foi bem mais assustadora, como estavam no carro logo a frente do último, eles puderam ver toda a cena. Tudo parecia estar quieto e tranquilo, até um barulho estridente parecido com o de Morcegos guinchando alto aparecer. Quando olharam para trás, o último carro estava sendo atacado bruscamente por pequenas criaturas negras voadoras. Cada uma não passava de um metro de comprimento, mas vinham aos montes e pareciam fincar suas garras nas laterais e acima do carro. A escuridão não mostrava o total de monstros que estavam por ali, mas pela agitação na escuridão, pareciam ser centenas. Os guinchados não eram a única semelhança que eles tinham com os mamíferos voadores. Eles eram bem iguais a eles, também. Tinham asas feitas de uma espécie de couro e músculos incríveis os circulando. As garras, na ponta mais frontal das asas, eram três grandes ganchos que os prendiam na lataria do carro enquanto o cortavam como se fosse manteiga. O fator mais assustador, para Gary, foram os olhos vermelhos que brilhavam em cada um deles. Era o mesmo olhar da criatura que havia matado seus pais.
- Emergência! Dê o aviso ao rádio!
O motorista do carro de Gary gritou. Mas não foi necessário, o homem do último carro já havia feito o alarme, gritava feito um desesperado enquanto dirigia em zigue-zague para tentar afastar os monstros. Mas não durou muito, logo um penetrou pelo vidro de trás e o Agente soltou o último grito antes do carro capotar quando perdeu a direção.
No primeiro carro, Ryan foi tirado de súbito de sua distração e já estava completamente atento. Mesmo sendo mesquinho, ele era bem profissional. Puxou o microfone do carro e falou pelo rádio.
- Mantenham uma unidade única! Não se desesperem e continuem acelerando o máximo possível!
A ordem recebeu um “Sim senhor!” vinda de todos os carros. Embora não houvesse empolgação nenhuma vindo deles, o medo era claro. E não se podia evitá-lo numa situação daquelas. Mas, nenhum dos agentes estava particularmente assustado demais com as criaturas, apenas viam aquilo como uma situação de risco. Pessoas normais estariam perguntando o que eram aquelas coisas e teriam se desesperado. E foi isto que Ann notou, enquanto seu coração acelerava.
- Voltaram. Mais deles.
Ela disse, seu olhar começava a parecer vago como na primeira vez que uma Sombra a atacou.
- Voltaram? Já viu essas coisas antes, garota!? - O agente sentado ao seu lado a perguntou.
- Já... foram elas que mataram nossos pais e...
- Está bem! Que seja, mas vocês sabem se elas tem algum ponto fraco? Algum tipo de parte vital no corpo ou algo que lhes causa fraqueza? Precisamos de ajuda agora e só vocês podem nos dar alguma resposta.
- Eu... Não sei. Eu...
O agente notou como ela estava parecendo ficar em estado de choque. Aproximou-se dela e deu um leve tapa na face da garota, que a trouxe de volta a realidade num instante. Como se tivesse acordado, agora Ann tinha o coração a mil por hora e estava consciente, diferente da última vez em que ela parecia quase morta e pálida.
- Ei! Acorde! Precisamos de você aqui! Lembre-se que seu irmão está agora no último carro do comboio!
- Gary! - Ela saltou no banco olhando para o vidro.
- Isto mesmo! Agora, tente se lembrar de qualquer coisa que tenha visto naquela noite. Qualquer coisa que possa nos ajudar a deter essas coisas.
- Eu não lembro. Assim que aquilo apareceu, da última vez, eu me assustei tanto que fiquei completamente confusa. Por isso, não lembro de anda que tenha acontecido depois. Só fiquei sabendo de tudo pelo meu irmão que salvou minha vida.
- Tsc!
E ele socou o banco, enquanto tentava pensar em algo.

- Droga, eles estão se aproximando, não dá para ir mais rápido!?
Gary gritou do banco de trás para o motorista.
- Cale a boca, garoto! Estou fazendo o possível aqui!
- O possível não está dando certo! Tente fazer algo impossível!
- E como pensa que eu faça algo do tipo!?
- Sei lá! Vocês não são agentes federais!?
- Argh! - E ele apenas ignorou Gary então.
Dave, ao contrário, só estava ali, atônito, olhando para trás. Era a primeira vez que via aquelas coisas, e, como para qualquer pessoa normal, aquilo não era algo a se considerar normal. Ele olhou o taxista com o canto dos olhos e lembrou-se que não havia contado nada para ele. Balançou o ombro dele com força para tirar a atenção dele do vidro.
- O que são estas coisas!?
- Então, essa é uma das partes da história que eu não te contei. Esses agentes aí estavam procurando eu e minha irmã porque nós fomos os únicos sobreviventes ao ataque de uma dessas coisas. Mas, nós não queremos virar nenhum rato de laboratório ou coisa do tipo. E ainda mais, temos de achar o Gal...
- Gal?
- É. Um amigo nosso, também estava conosco quando um desses bichos apareceram.
- ... Tudo bem. Que seja. Só quero saber, o que vamos fazer agora?
- Não sei, não lembro de nada que possa ajudar com esses monstros.
E neste momento, o vidro da Van trincou. Uma Sombra estava batendo com a cabeça a toda força no vidro, e ele não aguentaria mais por tanto tempo. Gary e Dave se afastaram do banco, ficando apoiados nos bancos da frente. Neste instante algo tocou seu ombro. Uma arma estava ali.
- Tomem! Façam algo de útil! Se alguma dessas coisas ousar entrar, acabem com elas. Estourem seus miolos! Argh! Não deveríamos ter deixado as Armas Especiais no porta-malas!
- Armas especiais?
- Esqueça o que eu disse! Apenas engatilhe a arma e prepare-se!
Dave também recebeu uma pistola do outro Agente. E agora ambos estavam com as pistolas engatilhadas apontadas para o vidro. Eles tremiam e, por estarem algemados, seguravam as armas com as duas mãos. O agente sentado no banco de passageiro na frente também segurava uma, mas ele a apontava para a própria janela, as Sombras já estavam os circulando. De repente, um guinchado soou alto acima do carro e duas garras surgiram acima do carro. Mais vários outros guinchados começaram a soar, eles começariam o ataque.

- Pelo amor de deus Façam algo! Eles estão começando a atacar a van! - Ann parecia desesperada em sua Van. E o Agente se culpava por aquilo. Diferente dos outros ali, o principal motivo pelo qual servia ao governo era algo nobre. Servir a população. Rapidamente esticou o braço para o banco da frente e pegou o rádio.
- Senhor! Não vamos conseguir escapar deles nesta velocidade! Precisamos ficar e lutar contra eles! Ou seremos dizimados um por um!
Não houve resposta.
- Senhor! Está na escuta!?
Mas a voz do Agente Ryan ainda não soava.
- Ei, Johm.
- Thomas? O que está acontecendo aí na frente?
- O Supervisor Ryan mandou o carro dele acelerar e já está longe de nós. Estamos sozinhos aqui e sem comando. Temos um carro, este que estou dirigindo. E mais três vans, uma já sob ataque.
- Fugiu!? Argh! O maldito é mesmo um covarde!
- É, e todos sabemos disto já faz um tempo, não é mesmo? Eu também poderia fugir, bastava acelerar mais meu carro e estaria junto dele em alguns bons minutos. Mas eu não sou do tipo que abandona os companheiros, sabe? E então, o que vamos fazer?
Johm, o grandalhão gentil ficou quieto por algum instante. Pensativo sobre alguma estratégia.
- Ei! Poderiam pensar mais rápido por aí!? Nós estamos quase sem o teto aqui!
Soou a voz do Agente que dirigia o último carro no microfone. A voz dele quase fora abafada por vários grunhidos agudos que soavam. Ele tinha de tomar uma atitude rápido.
- Formação de cerco fora da estrada! Vamos nos fechar e ver se conseguimos afastá-los com as Especiais, talvez consigamos pegá-las caso ganharmos tempo. Preparados?
As vozes dos quatro Agentes no volante, incluindo o que dirigia o carro de Johm soaram juntas:
- Sim senhor!
- Ótimo! Saltem para fora da estrada pela direita... Agora!

E seguindo seu comando, os quatro carros saltaram numa sincronia perfeita para fora da estrada. Adentraram um pouco para dentro das gramíneas e começaram a andar em círculos. Os quatro carros estavam formando uma perfeita circunferência em torno de um eixo imaginário marcado com raio de dez metros. A técnica dos Agentes Federais não podia ser questionada.
As Sombras, vendo a nova formação, se assustaram e afastaram-se da Van que agora era só um dos quatro carros que faziam o círculo. Enquanto dentro da van, um agente jogou a chave das algemas para trás. Gary e Dave se entreolharam e em seguida olharam para as chaves no banco.
- O que estão esperando!? Precisamos de qualquer ajuda possível agora! Soltem suas algemas!
Não foi preciso dizer duas vezes. Gary e Dave soltaram as armas e foram para cima do pequeno molho de chaves. Por sorte, qualquer uma delas abria as algemas e logo se viram soltos. Mal se libertaram, e pegaram de volta as pistolas quando a voz de Johm soou no rádio.
- Preparativos prontos!?
- Sim! - Responderam.
- Ótimo, vamos preparar para saltar.
- Sim senhor!
- Espere, Espere o que é isso de saltar!? - Gary interrompeu do banco de trás.
- Quando nós frearmos, todo mundo deve sair do carro com tudo e ir para centro do cerco, entendido?
- Tá. Acho que sim.
- Saltar! - Veio a ordem.
Os motoristas automaticamente pisaram com tudo no freio e puxaram o freio de mão. Os carros quase empinaram para frente mas pararam. Todos saíram dos carros numa velocidade incrivelmente rápida e foram ao centro. Todos os agentes estavam com pistolas apontadas para cima, mas Gary não estava ligando muito para isto. Ele correu para abraçar a irmã.
- Ann!
- Gary!
- Sem coisas melosas agora, garotos! Temos trabalho a fazer! - Veio a voz de um dos agentes.
Notando bem, Gary pôde notar que ele era um dos que estavam os vigiando no hospital, mais de manhã. E só então percebeu que tudo aquilo havia acontecido num único dia. Que dia! As sombras estavam sobrevoando o centro do círculo como se fossem uma cúpula de asas negras, os guinchados pareciam cada vez mais altos enquanto algumas passavam em rasantes bem próximos a eles. Eram onze agentes e os três. Johm parecia ter sido aceito como o novo Supervisor do grupo, pelo menos até aquilo acabar. Ele mirava, incessante sua arma para cima.
- Vão! Rápido! Foster e Peters! Peguem as Armas Especiais na van agora! Merry e Thomas também! Vão! O restante, dêem cobertura a eles!
- Sim senhor!
E assim, quatro agentes correram para dois lados opostos. Cada um em direção a uma das vans. Conforme se afastavam do centro, as Sombras começavam a se ousar mais dando rasantes cada vez mais próximos. Johm e os que ficaram atiravam contra elas ao menor sinal de perigo. As balas ricocheteavam em suas peles e as atordoavam, fazendo-as desistir do ataque.
- Tsc! São resistentes! Pensava serem mais fáceis de matar! - Grunhiu enquanto atirava. E num ato de distração, deixou de cuidar um dos lados de um dos agentes. A Sombra aproveitou a brecha e mergulhou com tudo, cravando suas garras no desesperado agente Foster e o levando para cima para desaparecer no meio da nuvem negra viva. Peters parou por um instante.
- Não pare! Vá e pegue logo as especiais! - Gritou Johm.
O agente o obedeceu e finalmente alcançou a van. Rapidamente abrindo o porta-malas e tirando de lá duas grandes maletas verdes e compridas. Para logo em seguida começar a correr de volta ao centro. Os tiros das pistolas agora soavam com cada vez mais frequencia, as Sombras estavam reganhando a confiança e atacavam mais.
Finalmente Peter chegou ao centro com as maletas. Ao mesmo tempo que Merry e Thomas chegaram com mais duas. Johm abriu um pequeno sorriso.
- É hora de tentarmos uma bela revanche! Cany, ajude Peters com as armas. Merry e Thomas, já preparem as suas também!
- Sim senhor!
E abriram as maletas com um identificador de digitais nos trincos. Elas destravaram e os agentes abriram-nas. Dentro de cada uma delas, havia uma grande arma de tiro, bem parecida com um canhão. Só que tinha apetrechos bem mais tecnológicos. Gary, Ann e Dave olharam para as armas, atônitos. E o canto do olho de Johm viu isto, um leve sorriso de satisfação o invadiu.
- Gostaram? Estas armas foram feitas especialmente para nosso departamento. Aquelas coisas nas costas dos agentes contem uma quantidade enorme de oxigênio sob pressão, são criadas chamas ali dentro e alimentadas por dispositivos ligados ao oxigênio. Criando uma quantidade enorme de chama em menos de poucos segundos. Nós a chamamos de Torpedos-de-Lava. Especializadas em eliminar coisas desse tipo, é nossa última aposta! Caso contrário, lamento dizer mas morreremos por aqui!
E a frase dele se finalizou, seguida de um grito vindo da esquerda, a Sombra agarrou um agente pelas costas e já estava no meio do caminho para a cúpula negra. Johm pareceu insatisfeito com a perda. Mas continuou atirando contra qualquer coisa que se aproximasse.
- Senhor, armas prontas!
- Façam a festa!
- Sim senhor!
E assim se levantaram do chão; Cany, Peters, Merry e Thomas. Eles seguravam a grande arma com as duas mãos e tinham um pequeno apetrecho de mira presos ao olho direito. As armas se ligavam por um pequeno cabo até uma espécie de gerador que eles carregavam como se fossem mochilas nas costas.
Levantaram a mira para o alto e dispararam. Vários Torpedos de chamas foram disparados contra a cúpula, e assim que chegaram até ela, se abriam numa teia gigantescas de chamas que engolia cerca de mais de cinco metros de área cada. Os olhos de Gary, Ann e Dave se iluminaram com a cena. As Sombras, ao sentirem as chamas gemiam e se afastavam bruscamente abrindo espaços na cúpula que permitiram até se ver parte do céu ali de dentro. A maioria ainda sobrevivia, mas algumas, mais próximas a área de contato da explosão de chamas simplesmente desapareciam como uma escuridão se dissolvendo em nada. Johm e os outros agentes agora assumiam apenas uma posição secundária, cuidando para que os Atiradores principais não fossem devorados num descuido. A cara do Agente grandalhão que virou amigo de Ann ainda não estava nada boa. Ann se aproximou.
- O que foi? Está funcionando afinal, não está?
- Sim, está. Mas não do jeito que eu imaginava. Pensei que eles iriam simplesmente queimar e começar a cair no chão aos montes. Mas as malditas são incrivelmente resistentes.
No geral; Ann, Gary e Dave estavam sentados de costas um para o outro no centro de tudo, Johm estava ao lado deles, cuidando para que nenhuma Sombra os atacasse. Cada agente que portava um dos Torpedos-de-Lava tinha ao seu lado mais um agente cuidando da retaguarda. A situação parecia até estar sob controle, até que numa sincronia incrível, cerca de vinte Sombras descessem contra uma dupla de Agentes. Peters disparou o torpedo, e as chamas engoliram a maior parte da Sombras, mas algumas romperam a fumaça para continuar o rasante. Não houve tempo para mais nenhuma reação. Elas mergulharam sobre os dois agentes, fazendo-os caírem no chão aos gritos, as garras fincavam-se neles, rasgando-lhes a carne facilmente.
Johm mirou a arma e disparo uma rajada de tiros nas Sombras, fazendo elas novamente levantarem vôo. Mas já era tarde demais, só restava os corpos dos agentes ali. Agora sim o grande Agente parecia tenso. O cerco fechou-se mais ainda, para poderem cobrir todos os lados, e ele virou-se para os três.
- Não aguentaremos por muito mais tempo. Eles estão atrás de vocês, então vocês precisam sair daqui agora mesmo. Do jeito que está indo, poderemos segurá-los por só mais alguns poucos minutos.
- Mas como vamos sair daqui!?
Gary estava um tanto incrédulo com tudo aquilo. Mas Dave ainda estava paralisado de medo. O agente rapidamente apontou para o carro.
- O carro é capaz de correr muito mais que as vans. Tanto que o maldito do Ryan fugiu de nós com um deles. Se vocês o pegarem e saírem daqui agora, terão uma boa chance de escaparem. O taxista aí sabe dirigir, não sabe?
- Sabe sim! Ele disse que quase virou piloto de corrida!
- Ótimo, ele pode sair daqui com vocês.
- Mas, olha pra ele. Está completamente desligado.
- Eu sei uma solução para isso.
E logo depois da frase, Johm deu um belo tabefe na cara do taxista. Ele caiu para o lado no mesmo instante, de volta a relaidade. Johm explicou para ele rapidamente o que falaram ali.
- Certo, certo. Eu posso dirigir sim.
- Perfeito! Esperem o meu sinal e vão correndo, as chaves já estão na partida. Só lembrem-se que o freio de mão está puxado. Alguma dúvida?
- Eu tenho... - Ann finalmente falou. - ... E você?
- Ora...
E Johm sorriu de leve, desviando o olhar. A garota havia, nos poucos minutos de conversa que teve com o Agente, adquirido uma grande afeição a ele. E provavelmente o agente sentia o mesmo em relação a ela. Ele fez um leve carinho na cabeça de Ann.
- Nós vamos tentar mantê-los ocupados o máximo de tempo possível. E depois vamos tentar evacuar, também. Talvez... Talvez nós consigamos sobreviver, quando eles notarem que não estão mais aqui, talvez eles saiam atrás de vocês.
- Mas e se isto não acontecer!? Vocês vão morrer!
- Se der nisso, quero que viva o resto de minha vida, e dê um alô para minha esposa e minha filha. Elas moram no Texas. Agora sem mais papo! Garoto, leve sua irmã daqui assim que eu gritar.
- Sim. Mas, para onde devemos ir, daqui?
- Bom, se vocês ainda acreditam um pouco em nós, peguem o carro em vão para o Arizona. O presidente de nosso departamento já está bem velho, mas ainda tem dignidade e é bem mais sensato que o Ryan. Para encontrá-lo, perguntem por Collins numa loja de conveniências de Koenut, uma cidade próxima do deserto. Digam que vieram sob minhas ordens, agente Johm Lenn, aspirante a supervisor.
- Tudo bem. E... Obrigado.
Disse Gary. Johm deu um peteleco na testa do garoto.
- Certo, preparem-se para correr.
E em seguida o Agente levantou-se, gritando algumas ordens para os seus Agentes. Um dos agentes que cuidavam da retaguarda dos Torpedos-de-Lava tinha morrido durante a conversa. Vítima das investidas das Sombras. Johm estava imóvel, apenas observando a movimentação das Sombras enquanto seus agentes disparavam em tempos calculados, esperando a ordem do agente.
- Agora!
Gritou ele. E os três dispararam em direção ao carro. Ao mesmo tempo, os três torpedos-de-lava se juntaram e dispararam uma rajada de Lança-chamas enorme que cobriu mais da metade da cúpula, fazendo as Sombras abrirem um grande espaço e se espalhassem pelo céu. Johm correu até o corpo do atirador do quarto Torpedo e pegou a arma para si, logo se juntando aos outros três. Os Walles e Dave já estavam no carro, prontos para saírem.
Johm virou os olhos para eles por um instante. O suficiente para ver Ann olhando-o.
- Não morra, Sr. Lenn!

Ela finalmente gritou. Ele apenas deu uma piscadela para ela. E em seguida, Dave arrancou com o carro noite adentro. Deixando-os para trás. A sua habilidade no volante estava se mostrando superior ao que Gary imaginava. Ele se mostrava completamente ligado ao carro, mesmo nunca tendo dirigido um daqueles antes. Em poucos minutos, toda aquela batalha contra as Sombras se tornaram apenas grandes clarões vermelhos ao longe.

Leia até o fim...

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Os 8 Escolhidos - Capítulo 6

Novamente sem revisões, avisem caso acharem erros, por favor. =x 


Capítulo 6 – Histórias e Escolhas

O grande veículo de três rodas – Que Hórus chamava de Benny – parou depois de algumas horas, perto de um lago. Cenário não tão raro, não em Michigan. Gal havia adormecido; merecia, após tanta coisa que teve de enfrentar e ouvir numa noite só. Era impossível prever o quanto haviam andado, visto que Benny era diferente de qualquer outro automóvel já inventado.
- Bom, o que fazemos agora? - Disse Hórus, esticando-se na cadeira de motorista.
- Precisamos entrar em contato com outros Buscadores. Espero que aja mais deles, alias.
- É. E também, precisamos ver o que o garoto aí tem de especial.
- Isso podemos deixar para depois. Fomos bem rápidos desta vez.
- Não muda o fato que todo tempo é precioso.
- ... - Khalador acomodou-se melhor em seu lugar.
Enquanto isto, Hórus mexeu em alguns comandos do painel frontal. Estava começando a clarear, e o silêncio parecia reinar por ali.
- Que tal contarmos logo tudo para ele, Khal?
- Acho que ainda não está preparado.
- Eu acho que está.
- O que te faz pensar assim?
- Bom, ele já viu uma Sombra. E, tipo, ela matou o pai dele.
- Ainda sim é um garoto.
- E continuará sendo quando as Sombras estiverem à solta por aí. - Hórus tinha uma expressão séria na velha face. Ele também conhecia o terror daqueles monstros. Khalador soltou um longo suspiro e levantou-se de seu assento, indo em direção ao adormecido Gal.
- Tudo bem, acorde-o.
O velho desmanchou a face enrugada e sorriu para Khalador, saindo de seu assento para ir chacoalhar o garoto. Gal abriu os olhos lentamente, e relutante. Por um instante até imaginou se tudo que havia visto pudesse ser apenas um sonho. Sua esperança se desfez quando viu Hórus sorrindo para ele. O velho motorista era realmente bem mais baixo que qualquer outro idoso que já havia visto.
- O que há, garoto? Não queria saber de tudo? Aqui está sua chance!
Gal saltou no banco, tentando parecer mais acordado. A fala de Hórus havia atiçado sua curiosidade ao extremo. Khalador sentou-se ao lado do garoto, enquanto arrumava seu cabelo para que não ficasse na frente do rosto.
- Podem falar. Estou pronto para ouvir.
- Perfeito. Antes de tudo, qual o seu nome, garoto?
- Gal.
- Apenas isto?
- Não. Meu nome completo é Galahad Broadcase.
- Hm. Galahad. É um nome bem incomum por aqui, não é?
- É... Foi o nome de um dos cavaleiros da Távola Redonda.
- Távola Redonda? - Khalador disse, mais interessado.
- É. Sabe? O Rei Arthur, Lancelot? A espada na pedra e tudo mais?
- Não sou... daqui. Por isso não sei de nada sobre sua cultura.
- Bom, não importa mesmo. É só uma lenda boba.
- Não deveria subestimar lendas, Garoto. - Hórus intrometeu-se, enquanto virava o banco do motorista para trás para poder sentar-se de frente para ele.
- Não acredito nestas coisas. De qualquer forma, vão me explicar ou não?
O ar de Gal soava ainda mais ácido que antes. Se ele já era frio, agora ele praticamente parecia ter um coração de pedra. Khalador e Hórus se entreolharam por um segundo, para voltarem a fitar o garoto.
- Escute, Gal... - Começou Hórus. - Para escutar nossa história com atenção. É preciso que acredite em tudo que dissermos, por mais estranho que seja para você.
- Fale logo.
- Calma, garoto. Se não estiver calmo, não irá compreender tudo que falarmos... Veja bem, aquilo que o atacou algumas horas atrás, era uma Sombra. É assim que o chamamos. Eles são criaturas feitas de puro Caos e Destruição, e para isto são feitos. Para causar caos e para destruir.
- Certo, isso eu notei.
- Com o tempo, vários outros deles começarão a aparecer pelo mundo. Causando diversos imprevistos.
- Mas, eu não entendo... De onde eles vem? Nunca apareceu nada do tipo nos documentários de animais, quero dizer.
- Lógico que não. - E Hórus pareceu vangloriar-se por conter a informação correta. - Aqui começa o lado mais complicado de toda a história. As Sombras vem de uma energia negra, que apelidamos de Impiedoso Conquistador e...
- “Impiedoso Conquistador”? Vocês são bem criativos para nomes, heim?
- ...Vai me deixar continuar a história?
- Claro, claro. Prossiga.
- Perfeito. - E Hórus ajeitou-se na cadeira.
Khalador continuava calado, apenas observando toda a cena.
- Continuando da onde parei... hah, claro, Impiedoso Conquistador. Nós nunca conseguimos definir ao certo o que é ele, nunca tivemos nenhuma chance contra ele. Mas podemos confirmar que ele se alimenta de uma coisa: Dimensões.
- Espere. Espere. Dimensões?
- Sim. Já chego lá, calma. O Impiedoso viaja por entre dimensões e começa a destruí-las, pouco a pouco. No início, apenas parece que estão passando por uma série de acidentes. Como os que estavam ocorrendo até pouco tempo atrás; tsunamis, tornados, terremotos e essas coisas mais. Entretanto, conforme os dias passam, as Sombras vão começar a surgir para aterrorizar vocês. Pelo que vi de seus governantes, eles provavelmente vão tentar ocultar tudo o máximo que puderem, mas chegará a hora em que mais nada poderá ser feito para esconder a presença das Sombras. Elas irão logo levantar um grande exército negro e marcharão pela destruição desta dimensão. E, quando tudo estiver em ruínas, o Impiedoso irá aparecer para destruir o que sobrou.
- E onde vocês entram nessa história toda?
- Entramos nessa parte agora: Para cada nova dimensão que o Impiedoso toma para si, parte dele sobrevive e se anexa à energia negra do Impiedoso. Pode considerar esta energia negra como sendo um Planeta Sombrio, ou algo do tipo, que tem partes de vários restantes de dimensões destruídas. E junto disto, vem os sobreviventes. Pessoas que aguentaram a destruição das Sombras e foram pegas pelo Impiedoso para viver miseravelmente e nas sombras das sombras de sua energia negra. Não vou conseguir descrever para você o que é por lá, só te digo que o inferno parece fichinha perto dele. Mas o fato é que; nós sobreviventes, montamos pequenas alianças e tentamos, sempre que o Impiedoso se dirige a uma nova dimensão; salvar esta.
- Hah. Vocês.
- Exato. Viemos de mundos completamente diferentes. Khalador veio de um lugar onde a Magia e a Espada reinavam. Já eu, vim de um mundo onde tecnologia e telepatia eram a fonte de tudo. Mas ambos temos uma coisa em comum, nós sobrevivemos ao impiedoso e vivemos nele, na esperança de que algum povo algum dia possa derrotá-lo com nossa ajuda. -E Hórus se ajeitou no banco do motorista, tendo certeza de observar o garoto de frente.
- Certo. Certo. Agora esperem para ver se eu entendi. Vocês vieram de um comedor de planetas que...
- Dimensões.
- Que seja. Vocês vieram de um comedor de dimensões, para salvar este planeta da destruição total. Ambos vieram de dimensões diferentes e tem tradições diferentes. Mas estão aqui.
- Resumindo tudo, é, mais ou menos isto. Bingo! - Disse Hórus. - Sim, onde eu vivia também havia bingo.
- Perfeito. E como vou acreditar em tudo isso?
- Não é preciso que acredite para já estar acontecendo. - Cortou Khalador no mesmo instante. Rompendo de seu silêncio.
- Mesmo assim, ainda não compreendo... Porque vocês vieram justamente me salvar? Ora, deveriam usar desta missão para falar com o presidente, ou algo assim.
- Nós não podemos fazer nada se não for da nossa sina. Apenas uma pessoa deste mundo pode fazê-lo. E este, não é ninguém de outro. É um escolhido, uma pessoa que sua dimensão escolheu para protegê-la.
- E porque não foram buscá-la?
- Já buscamos, Gal. Você é o escolhido.
- Eu?
- Exato. O Escolhido é alguém único numa dimensão, pois que tem a capacidade de decidir o próprio destino, diferente dos outros, que já tem o destino traçado desde o momento em que a vida habita em seus corpos.
- Não, espera. Eu? Porque eu?
- Isso nem nós podemos explicar. As dimensões escolhem seus representantes, sejam eles garotos ou idosos. Já tentamos salvar uma dimensão onde o escolhido era um bebê.
- Não compreendo... E como vocês sabem que sou eu?
- Isto é simples. As primeiras Sombras que surgem numa dimensão vão atrás de um único ser. Do escolhido, e sempre foi assim. Temos Buscadores por todo o mundo, e nenhum obteve sucesso como nós. O que indica que você é o escolhido.
- E como tem certeza disto? Haviam tantas pessoas comigo! Gary, Ann, Meu Pai, Sr. E Sra. Walles... Todos eles foram atacados! - Gal parecia aflito, tanto que mal podia permanecer sentado naquele banco, observando Hórus e Khalador.
- Neste ponto você tem razão, garoto. Mas... - E Khalador o olhou com uma expressão séria. - Você tem outro sinal de ser o Escolhido.
- Qual?
- Sonhos, Gal. Nos últimos dias, você tem sonhado com o ataque das Sombras contra várias dimensões que já foram dominadas. Vendo várias batalhas finais e cenas de pessoas morrendo pelas mãos de vultos negros.
- ... - E daquela fez o garoto ficou em silêncio.
Khalador sentiu o que ele estava sentindo, ou pelo menos pensou ter sentido e o deu tempo para pensar. Enquanto se acomodava em seu lugar. Gal respirou fundo, tentando se controlar e olhou para os dois, novamente frio como sempre.
- E o que diabos eu vou poder fazer pela dimensão? Sou só um garoto. Tenho só 16 anos. Não tem como eu fazer algo.
- É aí que você se engana, Gal. Todo escolhido nasce com a capacidade de mudar o mundo. E tem várias características para o fazê-lo. Você apenas ainda não as notou dentro de si. Mas nós faremos isto acontecer.
- Então quer dizer que é só eu contra um comedor de dimensões? - Khalador abriu um sorriso e olhou para Hórus.
- Prossiga daqui, Cabeçudo.
- Cabeçudo é a senhora sua mãe, rapaz! - Respondeu automaticamente o velho motorista para voltar-se para Gal. - Bom, aqui vem a segunda parte de nossa missão, Gal.
- Missão?
- Exatamente, a missão dos Buscadores e do Escolhido. Veja bem, pequeno... Você é o único que pode mudar seu curso do destino, e assim, salvar a dimensão. Entretanto, existem alguns que tem a aptidão a lhe dar ajuda nos momentos mais críticos. Estes, são Sete, que também chamamos de escolhidos. Estão espalhados por todo este mundo, e precisamos reuni-los antes de fazer qualquer outro movimento. A morte de apenas um deles pode resultar na falha de toda a luta contra o Impiedoso.
- Ótimo. Então, vamos percorrer o mundo perguntando para cada pessoa que nós vermos: “Me desculpe, mas você é um escolhido?”. Excelente, adorei a idéia.
- Você é uma graça quando quer, Gal. - Disse Hórus, visivelmente ofendido. - Os Escolhidos também são os primeiros a serem perseguidos pelas Sombras. Só não possuem sonhos. Mas para isso, temos você.
- Eu?
- Exatamente. Agora que já está ciente de sua missão; com o tempo, alguns sinais irão aparecer para você. Mostrando para onde seguir até encontrar o próximo escolhido.
- Que tipo de Sinais?
- Isso varia muito. Houve um escolhido que, quase sempre causava um acidente sem querer. O primeiro a lhe socorrer era um outro Escolhido. Também, o Bebê que chorava mais a partir do momento em que chegávamos mais próximo de um deles. Você pode ter diversas visões ou sinais. Sonhos, Dicas, Vozes. Tudo é possível neste sentido, Gal.
- Certo, então, eu sou obrigado a ir com vocês, agora?
- Não. Isto é sua escolha, Seu caminho a trilhar. - Disse Khalador, interrompendo. - Mas vale lembrar que quanto mais tempo se passar, mais riscos você poderá correr. As Sombras sempre optarão por um escolhido, e sentem sua presença de longe.
- Grandioso, assim você me dá muitas escolhas.
- Não é nossa culpa, pequeno. - Voltou a falar Hórus com um sorriso na face. - E então, o que vai decidir? Precisa tomar uma decisão rápida.
- Por enquanto, nada. Posso ir lá para fora um pouco? Gostaria de um pouco de ar fresco pra pensar. Ou corro riscos fora desse triciclo?
- Benny.
- Certo, Benny.
- Pode ir. Estamos seguros por um tempo. - E Hórus virou-se para o painél, puxando a alavanca mais afastada. E logo depois olhou para Gal saindo do veículo.

Gary acordou com uma dor de cabeça matante. Abriu os olhos lentamente, apenas para sentir a dor de cabeça aumentar pela luz do Sol entrando pela janela aberta. Gemeu, e fechou os olhos, colocando as mãos sobre eles. Ficou assim por alguns segundos para fazer uma segunda tentativa.
- Onde diabos estou? - E abriu os olhos. Estava vestindo uma roupa azul-bebê bem folgada. E estava deitado numa cama branca, num quarto quase todo branco. Um hospital.
De súbito, todas as imagens da noite passada lhe vieram em mente, como um turbilhão de memórias esquecidas. Levantou da cama num salto, e só aliviou-se ao ver a Irmã na cama ao lado, ainda dormindo, calma e tranquilamente. Não lembrava como tinha chegado ali, só tinha certeza que havia desmaiado enquanto fugia com a irmã, após ouvir altos rugidos vindos de dentro do quarto. Tinha sido uma noite difícil, mas parece que agora tinha se acalmado. Voltou para a cama e respirou fundo. Ele não tinha mais pais. Eram só ele e a irmã agora. Foi quando um súbito pensamento lhe passou pela cabeça e ele olhou para o outro lado.
- Gal! - Mas do outro lado da cama dele, só havia a janela.
Talvez esteja em outro quarto, pensou ele. E direcionou seu olhar para a porta, mas sua visão foi uma bem diferente. Pela pequena janela retangular da porta, viu do outro lado um homem grandalhão de terno preto e óculos escuros, visivelmente olhando para ele. Paralisou na hora, não era para ter um grandalhão de terno preto, e sim, o velho Delegado Ryan. Ficou alguns instantes olhando para ele, até sua atenção ser desviada.
- Gary?... - Veio a baixa voz da cama ao lado.
- Ann! - E saltou da cama indo até ela. - Que bom que acordou! Está tudo bem com você?
- Sim... - Disse, quase inaudível.
Para logo depois entrar num silêncio desconfortável.
- Gary, o que aconteceu ontem... Não foi um sonho, não é?
- Eu... acho que não.
- Então, papai e mamãe.
- Sim. Só somos nós dois agora, Ann.
- E Gal? Onde ele está?
- Não sei. Não o vi depois que saltamos pela janela. Espero que esteja vivo. Mas eu realmente não imagino o que pode ter acontecido lá depois de nós fugirmos.
- ... - Ela suspirou. - Entendo.
- Não se preocupe! Ele deve ter ficado bem, Ann. Agora você só precisa se preocupar com você mesmo e...
Mas não terminou a frase. A porta do quarto se abriu, e dela entraram cinco homens de terno preto, igual ao que estava vigiando na porta. Eles se posicionaram enfileirados em frente aos irmãos, e logo uma última figura entrou na sala.
Vestia também um terno negro, só que este era visivelmente mais caro que os outros. Tinha rugas que mostravam sua idade avançada, e era o único que não usava óculos escuros, mostrando assim seus olhos castanhos que combinavam bem com o cabelo grisalho. O homem tinha uma leve feição rígida, e Gary sentiu arrepios ao vê-lo.
- Dormiram bem? - Soou a voz grossa do homem.
Gary e Ann apenas assentiram com a cabeça.
- Ainda bem. Acho que preciso me apresentar. Sou o Agente Federal Winston, e estou aqui pelo que aconteceu ontem na casa de vocês.
- Agente Federal? - Indagou Gary.
- Exato. Mas não se assustem. É só que... - E pareceu pensar um pouco. - É só que a polícia local não tem experiência o suficiente para lidar com uma situação deste porte.
- Espere, Espere, o que você quer dizer com “deste porte”?
- Ora, vocês sabem, o que aconteceu ontem na casa de vocês. Lamento muito pelos seus pais, mas nós precisamos de detalhes sobre o que aconteceu. Os vizinhos nos relataram sobre rugidos altos e selvagens. Vocês confirmam isto?
Gary e Ann se entreolharam por um segundo, e logo depois confirmaram com a cabeça.
- Ótimo. E vocês viram o que aconteceu?
- Nós...
Ann já ia falar sobre todo o incidente, mas Gary a interrompeu antes.
- Não. Nossos pais apenas disseram que estávamos em perigo e nos fez saltar do segundo andar.
- Hm. - Ryan não pareceu acreditar. - Tem certeza de que foi isto?
- Sim.
Gary trocou alguns olhares com Ann. Coisa de irmão, logo entenderam.
- E você, Ann? Foi isto mesmo que aconteceu?
- Sim.
Ann pareceu até mais convicta que Gary. Ryan deu um longo suspiro enquanto dava alguns passos pelo quarto. Como se estivesse tentando manter a calma. Puxou a cadeira do canto até o centro do quarto e sentou-se nela.
- Tudo bem. Vamos para a próxima pergunta. Havia mais alguém na casa? Fora vocês dois e o Sr. E a Sra. Walles?
- Sim. O Sr. Jeorge iria passar a noite conosco, por causa de um incêndio na casa dele.
- Apenas o Sr. Jeorge.
- Pelo que eu saiba, sim. - Continuou Gary.
- E o filho dele? Han... Galahad?
- Não sabemos dele. Parecia que também viria, mas não apareceu por lá na hora.
- Entendo. - E Ryan pareceu novamente desapontado.
- O que aconteceu? Digo, com meus pais e com o Sr. Jeorge? Eles realmente...
Gary já sabia da resposta, mas por mais doloroso que poderia ser ouvi-la oficialmente, ele queria. Só assim teria certeza de que seus pais realmente estavam mortos. Ryan confirmou com a cabeça.
- Sim. Estão os três mortos.
E Gary não precisou estar fingir para ficar com uma face abatida.
- Havia mais algum corpo lá? - Ann rompeu do silêncio.
- Mais algum? Porque haveria? - Ryan pareceu interessar-se no que Ann dizia.
- Por nada. A minha irmão só estava pensando se talvez Gal pudesse ter aparecido em casa.
Gary a interrompeu, antes que pudesse dizer mais alguma coisa que revelasse sobre seu amigo.
- Hah. Claro. Entendo. - E Ryan suspirou. - Bem, em breve serão levados para um orfanato. Mas até lá, ainda precisaremos fazer mais algumas perguntas durante as próximas semanas. Vocês não se importam, não é mesmo?
- Não. Tudo bem. - Ann disse.
- Ótimo. Então, vou deixar vocês descansarem. Até mais.
E o Agente Ryan mal fechou a porta e se afastou pelo corredor para Ann fuzilar Gary com seu olhar. Seu irmão estava tramando alguma coisa e ela sabia muito bem disto.
- O que foi aquilo, Gary?
- Não. Não tive um bom pressentimento sobre esses caras. Algo me diz que não podemos confiar neles. Ainda mais contar sobre Gal. Você ouviu, não foi, Ann? Ele está vivo! Não acharam o corpo dele lá em casa. Significa que podemos encontrá-lo.
- Gary, não me diga que...
- Claro. Estou saindo daqui agora mesmo para achá-lo. Você vem comigo ou vai para o Orfanato?


Assim que a porta se fechou atrás de Gal, ele finalmente pôde respirar. Recebeu informação um dia do que jamais tinha recebido a vida toda. E além disto, só agora ele parou para pensar na sua perda. Olhou para trás, certificando-se que os dois não o espiavam, e logo depois sentou-se escorado na roda de Benny, enquanto retirava seu tesouro do bolso.
Olhou a pequena bolsa por alguns segundos enquanto refletia sobre o que havia acontecido. É, agora estou sozinho de verdade. Foi o que pensou. E logo depois abriu lentamente o zíper. Ali dentro, havia uma foto da família inteira. Jeorge, Mancy, Gal... e Sarah. A Mãe tinha oito meses de gestação na foto, e a eles não poderiam estar mais felizes naquela época. Mesmo com tudo que tinham para se preocupar, fora o mês que mais aproveitaram. Era a única foto que havia sobrevivido, todas as outras já não existiam mais, e por isso Gal a prezava tanto.
Junto da foto, um pequeno pingente. Havia uma bailarina em cima de um único pé toda graciosa em seu dourado que a recobria. Aquele seria o primeiro presente que Gal daria para sua irmã. Olhou para ele por um instante e logo depois o pôs de volta na bolsa. E ficou a olhar para a foto. Seu Pai tinha morrido por ele. Gal juntou os joelhos para a face e abaixou a cabeça, começando a choramingar baixinho. E assim ficou por alguns bons minutos.
- Dói, não é? - Veio a voz de cima.
Gal rapidamente secou o rosto e levantou-se para ver quem falava. Khalador estava sentado sobre Benny, apoiado sobre as mãos para observar o dia clarear aos poucos.
- Como?
- Dói. Dói quando alguém dá a vida por você sem pedir nada em troca. Não é?
- ... - E Gal voltou-se a sentar em seu lugar. - É.
- Eu... Já vivi disto tantas vezes que cheguei à beira do suicídio. - E suspirou. - Mas parei para pensar. Eles jogaram suas vidas fora pela minha, não devia me desfazer da minha de um jeito tão estúpido. E é por isso que estou aqui hoje. Por eles.
O garoto pensou bastante antes de falar.
- Aquele seu Comandante, grande, com a marreta. Foi um deles, não foi?
- Como você...
- Os sonhos. Você mesmo disse, Lorde Khalador.
- Claro. Me esqueço deste detalhe.
- Você... Era um escolhido?
- Sim. Todo meu mundo dependia das minhas ações. Mas eu falhei. - E suspirou. - O General com a Marreta grande, se chamava Langus. Ele era um escolhido. Deu a vida para salvar a minha, quando a Sombra apareceu entre nós na nossa última batalha.
- Imaginei que era isso.
Gal se levantou sem pressa alguma e espreguiçou-se enquanto guardava a foto dentro da bolsa novamente. Khalador permaneceu quieto olhando o horizonte, um belo e grande lago se projetava na frente de Benny. Se aquela fosse outra ocasião, poderiam ter aproveitado melhor a vista.
- Pode me responder mais uma dúvida? - Gal rompeu o silêncio.
- Diga.
- Porque... Porque apenas a terra está sofrendo com isso? Quero dizer, a dimensão também inclui o sistema solar e tudo mais, não é?
- É uma boa pergunta. - Khalador disse sem voltar o olhar para o garoto. - Toda Dimensão tem uma alma. Viva e pulsante. A alma desta dimensão é a Terra e seus habitantes. Por isso, o Impiedoso domina primeiro aqui, para depois ir para outros lugares. Proteger a terra é o ponto chave de tudo.
- Hm. - Conformou-se Gal. - E... E como vocês sabem de tudo isso? Quero dizer; dos Escolhidos e tudo mais.
- Bom. Existem algumas dimensões, onde a profecia e o destino são consagrados. Eles previram tudo, e, após serem destruídos, os sobreviventes nos ensinaram sua sabedoria. Alias, nosso grande Líder é um deles. Se chama Rhurgon.
- Nome estranho.
- Sim. Todos da dimensão dele tem nomes parecidos com estes. Foi ele quem primeiro levantou o braço para se opor ao impiedoso após a destruição de seu planeta. Nós apenas o seguimos, até formarmos a Grande Oposição...
- Grande Oposição? Deixe-me adivinhar, este é o nome que vocês deram para a aliança.
- Exato.
- Feh. Vocês realmente não tem criatividade alguma para nomes.
- Não é culpa minha. - E Khalador esboçou um pequeno riso. Gal apenas o correspondeu com outra pequena risada. Para logo depois seguir-se um silêncio acalmante.
- Então, o que vai fazer? - Khalador rompeu o silêncio
- Não é óbvio? - Gal olhou para o horizonte. - Vamos, temos de encontrar outros sete escolhidos.
Leia até o fim...

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...