Os sapatos com pontas viradas para cima surgiram no canto do palco, quase imperceptível, dado a escuridão do mesmo. Ali, o Pierrot observava o grande centro de luz onde o holofote projetava os espasmos de vida em seu universo de escuridão.
De máscara em face, de tinta em sentimento; o rosto do anfitrião da terra do nada parecia, como sempre, o que de maior havia em suas emoções. Todavia, ali, ele permanecia quieto. E assim permaneceu, por longos minutos.
- Diversas vezes, os sentires e dizeres da vida não se cruzam. - A fala saiu alta, concisa e séria. - Nessas horas, somos quase... assim...
E uma pequena bola de vidro apareceu no globo de luz, rolando, emanando aquilo que se transparecia da claridade que nela incindia. Os passos do palhaço de paradoxais emoções acompanhavam a bola de cristal, e, em momentos, ele estava no globo de luz.
Graciosamente, ele se abaixou e alcançou a esfera. Segurou em punho o pequeno e delicado objeto, e virou-se para o público, em sua face, permanecia um tristonho sorriso.
- Mas quando as luzes que indicam a vida passam, e permanece cá somente a escuridão de seus próprios pensares... - O holofote foi se apagando, até finalmente pouco se ver do palco.
- Os dizeres não mais importam, - O som de vidro se despedaçando de encontro ao chão. - e resta só você.
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segunda-feira, 2 de julho de 2012
Monólogo - 5
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Monólogo - 4

Preso em seu pequeno mundo de luz, o Pierrot. A cara pintada de branco, com contornos vermelhos exagerados em volta da boca e dos olhos. O espalhafatoso chapéu de Bufão, feito em cores alternadas de azul e amarelo; e a roupa, larga e folgada com grandes botões decorados. E também seu sapato com ponta empinada para cima e as luvas brancas gigantescas nas mãos. Desta vez o protagonista da peça única estava sorrindo. Sorria como talvez nunca fizera antes. Se postava de pé e tinha os braços dobrados atrás do corpo.
- Sabe, um sopro de vida me invadiu. - Disse ele, apenas se contentando em se contorcer, quase como uma garota faria ao falar de seu primeiro amor. - Um sopro de vida que eu nunca pensava que poderia vir a mim novamente. Mas veio, e cá estou, agora alegre. Agora quase feliz. Sinto-me como se parte de tudo que perdi pudesse estar ao meu alcance novamente, algum dia. Isto não é ótimo? Tudo por causa de uma agradável companhia.
Finalizando a fala, O Pierrot trouxe suas mãos para a frente, mostrando, para quem quer que o observasse, uma pequena boneca. Uma daquelas que se dava para uma garota no dia de seu aniversário. Era feita de pano, tinha um vestido azul bordado e cabelos dourados feitos de fios de linha. A boneca sorria, e assim o Pierrot imaginava que ela sorria para ele. Que fosse a única que um dia se importou com ele e agora estava ali, lhe acompanhando naquela jornada escura de solidão. Levantou-a para cima com os braços esticados e começou a saltitar rindo pelo palco de tablados de madeira. Seus passos ecoavam alto no mundo onde apenas ele existia dentro da luz. Mas agora não era apenas ele. Tinha uma companhia, uma doce companhia. E a ela, ele abraçou enquanto dançava. Como se fosse sua amada. O ritmo dos passos foi, lentamente, se tornando mais calmo e manso, até que finalmente o Pierrot parou, de costas para o imaginário público, apenas acolhendo nos braços sua pequena.
- Mas tudo não passa de uma ilusão, não é mesmo? - Disse quase num sussurro para si mesmo. - Não passa de uma doce e agradável ilusão, não é? Você na verdade não liga para mim e eu estou, sem dúvida alguma, isolado mais do que nunca. Porque me agarrei a uma ilusão para poder seguir em frente. E assim como um apoio falho, quando nos damos esperanças numa ilusão, apenas tornamos nossas quedas ainda mais doloridas e nosso sofrimento maior.
E lentamente o palhaço levantou-se enquanto desfazia o abraço sobre a boneca. Deixou-a no chão, ao seu lado. Como se estivesse sentada sorrindo para o nada. E em seguida deu alguns leves passos para a direita. Fazendo assim com que seu pequeno mundo de luz excluísse a sua única companhia. E quando ela desapareceu de vista, ele abriu as mãos na direção da face e cobriu-a.
- E quantas vezes já não fizemos isso!? Quantas vezes não nos deixamos levar pelo momento, pelo pensamento, pelo coração. E então notamos o quanto sofremos à toa, o quanto choramos à toa, o quanto lamentamos à toa. O mundo nos trás a uma realidade diferente, mostra como na verdade, bem no fundo, estamos sozinhos e sempre estaremos. Algo duro de aceitar, algo que provavelmente faria você chorar. Mas talvez não seja mais do que a realidade. E talvez assim, eu não seja nada mais que a verdadeira forma do ser humano. Talvez eu esteja aqui justamente para lhes mostrar o quão porco e imundo nós podemos ser. Porque eu. Eu enxergo a realidade. E ela me deixou isolado. Isolado num pequeno círculo de luz, que ainda se sustenta pelas minhas poucas esperanças que estão guardadas no âmago das ruínas de minha alma. Numa parte minha que ainda é humana e tem sentimentos. Mas é só isso... só isso...
E assim, lentamente ele retirou as mãos da face e olhou em volta. Como imaginado, nada havia mudado. Tudo era o mesmo mundo de sempre. De leve, dois pingos de lágrimas saltaram dos olhos do Pierrot. Duas gotas que desceram, borrando a maquiagem tão bem feita de palhaço. Ele as deixou escorrer, não limparia, pois poderia borrar ainda mais a maquiagem, deixando assim a marca de seu sofrimento estampada na face.
Ficou alguns bons minutos daquela forma, com uma cara de incrédulo enquanto olhava apenas para o tablado de madeira. Aquele que ressoava para ele os sons de uma vida que jamais teve. E foi então que um sorriso formou-se. Um sorriso sádico. Um sorriso sarcásticos e aterrador. O palhaço dei passos pelo palco até que novamente a boneca fora iluminada. Se deitou no chão ao lado dela e a abraçou enquanto se encolheu como se fosse um neném no ventre de sua mãe. E assim seu sorriso foi florido com tons de tristeza e felicidade, juntas.
- Mas às vezes, o que custa viver na ilusão? Às vezes a ilusão vale mais a pena que a realidade, e, quando não queremos realmente enxergá-la ela se desfaz e a ilusão se torna o real. Queria eu acreditar que esta boneca um dia sorrisse e me desejasse um bom dia. Queria eu que um dia ela se tornasse uma mulher que poderia amar. Queria eu que ela se tornasse a mão que jamais tive a chance de ter. São ilusões. Ilusões que nunca vão acontecer, mas que, só por imaginá-las, já me deixam mais feliz. Se é que posso chamar o que possuo de felicidade. - O Palhaço fechou ainda mais a boneca sobre o próprio peito.
- Só que, como disse. Quando uma ilusão se mostra sendo uma, você tem a pior queda da sua vida. Nada durará para sempre, e desta forma eu penso. Esta boneca irá se sujar, rasgar-se, e logo, não haverá mais nada além de espuma e pano perto de mim. E assim toda a minha pseudo-felicidade iria se esvair como se nada tivesse acontecido. Estaria novamente sozinho. Então, aqui está a dúvida que me corrói, aquela que me prende e não me prende. - Ele se levantou, segurando a boneca numa única mão. - O que mais vale a pena? Sofrer de uma realidade dura e fria? Ou talvez, se deixar levar uma uma ilusão que poderia se desestabilizar a qualquer instante, mas que me dá um pouco de felicidade?
- O que vocês fariam nessa hora? Não é meio óbvio? Pediriam conselho. Uma ajuda. Pediriam por uma mão estendendo para lhes oferecer apoio! Este é o problema, meus queridos. - E ele, foi soltando, aos poucos a boneca, até que ela caísse no chão de mal jeito. - Eu não tenho e nunca terei ninguém. Tudo o que resta de mim são ruínas. Deformações que o tempo transformou num palhaço. Não é irônico? Uma figura tão triste trabalhar tentando fazer alguém rir? Pois é.
- Que isso, fique de aviso para vocês. Nunca mais se odeiem. Nunca mais queiram estar mortos. Nunca mais desejem não fazer mais nada quando algo de mal lhes acontece. Vocês. Pelos menos, tem alguém a ajudá-los nessas horas. - E pegou a boneca como se fosse uma bebê no colo. - Não é mesmo, Mary? - E roçou sua bochecha na da boneca, suavemente. As luzes foram aos poucos se encolhendo. Até só sobrar um resquício, que iluminava nada mais que um dos olhos do Pierrot. Cujo a lágrima ainda trilhava seu caminho por cima das máscaras das máscaras de um palhaço.
Imagem: The Stage By Peacewisher222 Leia até o fim...
domingo, 22 de novembro de 2009
Monólogo - 3
Preso em seu pequeno mundo de luz, o Pierrot. A cara pintada de branco, com contornos vermelhos exagerados em volta da boca e dos olhos. O espalhafatoso chapéu de Bufão, feito em cores alternadas de azul e amarelo; e a roupa, larga e folgada com grandes botões decorados. E também seu sapato com ponta empinada para cima e as luvas brancas gigantescas nas mãos. Lá estava o palhaço, sentado enquanto era iluminado por um único holofote.
Ficou desta forma por alguns bons segundos, até finalmente levantar a cabeça, direcionando-a diretamente para a luz. Passaram-se mais alguns minutos até ele finalmente sair da expressão vazia, ele sorriu.
- Do que você tem medo? - Falou. - Não há medo para os que não tem o que perder. Não há motivo para se ter medo quando você simplesmente... já não liga para nada. Vê?
E saltou de pé, começando a dançar pelo tablado de madeira. Passos de dança de um bailarino profissional e artista. Até finalmente parar na ponta dos pés, com os olhos fechados enquanto as mãos se portavam a frente do corpo.
- Não acham que sou feliz assim? - E abriu os olhos. - Feliz, como qualquer homem deveria ser! Sem seus medos! Afinal, quem gosta de sentir medo? De tremer nas bases no momento mais crítico? Ninguém! E é justamente esse o ponto. Eu.. perdi o medo de tudo. Então, eu sou nada mais nada menos do que um Ninguém. Algo inexistente e imperceptível a todos em volta. É lógico que a felicidade não me atinge. Não há como algo que não existe a tê-la!
Desceu da ponta dos pés lentamente, enquanto colocava a mão para trás. Observando a escuridão que o envolvia a todo instante.
- Por isso, não é certo não haver medo. Pois ele é a prova mais clara de que você ainda tem algo para proteger, e não quer perdê-lo. Para isso o medo existe. Ele é a prova da felicidade. - E abriu um sorriso, colocando uma mão sobre o queixo. - Alias, ótima coisa para se falar sobre: Felicidade. Vocês tem noção de como esse sentimento... essa emoção... essa sensação é? Podem explicá-la? O simples ato de sorrir, e de se deixar levar pelo lado bom de tudo. Ou simplesmente estar bem consigo mesmo. Ou tudo isso? Será possível diferenciar Felicidade de Alegria? - E puxou as mãos em frente à cabeça, abrindo e fechando-as, como se estivesse tirando algo da mente e espalhando para seu mundo de luz. - Sim. Claro. Mas eu não posso falar sobre nada disso, não com minha alma pútrida e seca. O porque de não dizer? É simples. Eu sou ninguém. E como tal não possuo o dom de ser feliz. Mas... mesmo quem tenha medo e assim, alma, mesmo eles, não podem também dizer sobre a felicidade. É algo tão complexo e ao mesmo tempo, simples, que adjetivos não podem dar qualidades a ela. Ela não pode ser taxada como um substantivo, tanto que é dita como abstrata. É simplesmente algo que você pode ter. Ou não pode ter. E que quando tem, você sabe que está sentindo mesmo que não possa ser narrado e descrito.
E ele travou do jeito que estava, sem mover um milimetro sequer. Ficou naquela posição novamente por mais um bom tempo, como se estivesse tentando agarrar uma mão invisível vinda da luz. Era o jeito do Pierrot, movido pelo que o seus sentimentos se tornaram. Tornando o corpo um reflexo do que sua alma degenerada tende a imaginar. - Mas, eu sou ninguém. E não posso sentir tal.
- Por isso, comecem a notar. Que todo o mal sentimento, advém de um bom. Quanto tem medo, é porque ainda tem algo que quer ter com você. Quando tem angústia e agonia, é porque você deseja estar de um jeito diferente do que você está. Quando tem tristeza, é porque você deseja que algo possa torná-lo feliz. E tudo, tudo, se interliga com uma única coisa final: Felicidade. No final de toda a cadeira e teia de sentimentos e sensações está ela. No final de tudo, ela é o desejo final de qualquer ação da qual você seja responsável. - E finalmente, saiu da posição, desmoronando no chão. - Não é engraçado? Lutar por algo que vocês não podem nem mesmo explicar o que é? Lutar pelo que pode mudar a cada segundo e a cada novo acontecimento? Pois é. Estes são vocês, minhas queridas falhas perfeitas. Porque eu sou ninguém. E como tal, sou perfeito. Nunca ouviram? “Ninguém é perfeito.” Este sou eu.
E levantou-se, lentamente. - Mas qual a definição de perfeito? Lógico, é algo que traga felicidade. É algo que seja feliz. Bom... - E puxou o chapéu de bufão da cabeça, mostrando os cabelos castanhos. - Como disse, no final, existe a amada felicidade. Só lamento dizer, que o perfeito não existe. E não existindo, também é perfeito. Só me resta dizer que o Perfeito é Perfeito. E assim, que a Felicidade é a Felicidade. Mas eu continuo sendo ninguém.
- Sabe como é? - Disse jogando o chapéu para fora do mundo de luz do holofote. - O negócio é que eu poderia ser feliz. Eu poderia deixar de ser um ninguém para voltar a brilhar. Para que todas as luzes de minha vida fossem acesas e eu pudesse correr livremente para onde quisesse. Para que eu pudesse ver o que está a minha frente e também o que estava atrás de mim, assim me dando uma noção sobre o meu futuro e meu passado. E não apenas do meu triste presente. Mas o fato...
Pierrot deu passos pesados e fortes, enquanto caminhava na direção do chapéu jogado. Até que a luz iluminou o chapéu e ele pôde pegá-lo do chão. O alcançou com uma mão para logo endireitá-lo sobre a cabeça.
- O fato é que eu não tenho motivação para essas coisas. Não tenho motivação para nada. Nada além de fazer minha função e ser meu eu sistemático e podre de sempre. Então... - E direcionou-se para o nada, apontando para aleatórios. - Então, por mim ou até mesmo por você mesmo, o que acho mais digno: Tenham Medo. Tenham agonia. Tenham angústia. Sofram. Chorem. Fiquem tristes e amargurados. Assim, vocês poderão Ter Alegria. Ter Liberdade. Irão Sorrir e Irão dar risadas. Melhor dizendo, vocês serão felizes. Ter sentimentos não é errado. Manejá-los de maneira pútrida é errado. Se evitarem a tudo, se tornarão inexpressivos. Se tornarão fantoches e palhaços. E suas vidas, serão limitadas a curtos mundos de uma luz fraca e opaca. Um simples holofote, muitas vezes. - E apontou para seu querido holofote. Para logo depois entrar na escuridão, sem que a luz o seguisse.
Imagem: The Stage by peacewisher222
Leia até o fim...sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Monólogo - 2

- Destino, Acaso, Ódio, Amor, Felicidade, Tristeza, Alegria, Saudade, Sofrimento, Dor, Amizade, Bem, Mal, Morte, Vida, Lágrima, Sorriso, Assim como várias outras palavras. É possível uma definição concreta para elas? O dicionário faz seu trabalho, explicando todos os sentidos delas? - Soou a voz na escuridão.
- Diga-me você. Consegue explicar por completo cada uma delas, e diferenciá-las uma das outras? - Afirmou a mesma voz sofrida.
A Luz se acendeu novamente no centro do palco, e lá estava ele. Preso em seu pequeno mundo de luz, o Pierrot. A cara pintada de branco, com contornos vermelhos exagerados em volta da boca e dos olhos. O espalhafatoso chapéu de Bufão, feito em cores alternadas de azul e amarelo; e a roupa, larga e folgada com grandes botões decorados. E também seu sapato com ponta empinada para cima e as luvas brancas gigantescas nas mãos.
- Mas é claro que não. - Finalmente finalizou seu pensamento, o Palhaço. Estava daquela vez sentado, a cabeça abaixada e os braços soltos no colo. Como se estivesse sem vida. - As palavras são o mar em que vivemos. Mas assim como todos os mares, existem partes completamente desconhecidas. A definição de algumas palavras, que ás vezes parece tão óbvia, é algo que pode ser discutido... - E ele levantou a face, e junto desta, o braço esticou-se em direção à luz. - ... Por uma vida inteira.
Logo depois abaixou ambos novamente. Voltando a parecer um boneco inanimado. E manteve-se daquela forma por alguns segundos, até que ele saltou para frente, mostrando claramente uma pirueta no ar. E como sempre, a luz que o prendia o seguiu. - Posso afirmar a vocês, meus caros... – Falou apontando para o nada. - ... Que mesmo em toda minha sofrida vida que já tive, não pude completar nenhum pensamento sobre as palavras.
- Palavras. Elas não tem poder algum. Pelo contrário. São frias, incertas e sem emoção. O que realmente tem poder, é o significado delas. - E abriu um sádico sorriso. - Mas o que mais as palavras retratam, além de tudo aquilo que sentimos? Então, seria a nossa existência algo sem limites?
E esperou alguns segundos. Antes de despontar, voltando a cair lentamente enquanto dava passos pelo palco. Seu mundo iluminado o seguiu, sendo sua única espectadora. O Pierrot não a desejava, tentou afastá-la com as mãos. Mas aquele era seu eterno fardo. Impossibilitado, fechou os olhos e tentou se rastejar pelo chão, fincando seus dedos na separação entre cada tábua que preenchia o palco. E assim tentou por longos minutos, ou segundos... Até finalmente desistir e se manter jogado ali.
- Não. Nós humanos, não somos nada de tão grandioso. Temos nossos próprios limites, postos justamente por aquilo que mais nos liberta. Nunca haverá alguém que puramente se expresse, nunca, pois no seu antro, bem no fundo, sempre haverá algo único de cada um. E este algo, que apenas cada um de nós sabe o que é, nunca poderá ser dividido. - A voz dele soava, embora todo o corpo parecesse ser o de um cadáver. Até lentamente ele levantar sua coluna, deixando a cabeça pender para trás. - Entretanto... Aqui entramos em algo contraditório. Pois “nunca”, é nada mais que uma palavra. E como disse à vocês... – apontou novamente - ... As palavras não são nada perante o real ser de cada uma delas. Então. O que fazer?
E como se ganhasse forças aos poucos, o pierrot se levantou lentamente. Se mantendo de pé. Seu sorriso refletiu a luz de seu mundo limitado.
- Milhares já tentaram. Não é mesmo? - E abriu os braços, recuperando a classe e se mantendo ereto. - Entender o homem. Entender o amor. Entender a vida. Entender a solidão. Entender a vida. Entender o destino. - E suspirou.
- ...É tempo perdido. - E o sorriso se fechou um pouco se tornando nada mais que um risco na face branca do Pierrot. - Não é preciso entender nada. Ou chegarão para um trágico fim. Não é preciso saber de nada. Pois realmente, nada se liga e nada se entrelaça. Não é preciso... Não é preciso... - E o risco morreu na formação de uma expressão entristecida. - Porque, os que tentam. Podem sofrer. Sofrer tanto...
- ... Quanto eu. - E o Pierrot direcionou seu olhar uma última vez para todos na escuridão. Logo em seguida, abriu um sorriso irônico e estalou os dedos. A luz se apagou ao seu comando. E naquela noite palmas não foram aclamadas.
Imagem: The Stage, By Peacewisher222. Deviantart.
sábado, 8 de agosto de 2009
Monólogo - 1
Perante toda aquela escuridão, uma única luz focalizada se acendeu, deixando ele visível. A aparência dele não deixava ninguém se enganar. A cara pintada de branco, com contornos vermelhos exagerados em volta da boca e dos olhos. O espalhafatoso chapéu de Bufão, feito em cores alternadas de azul e amarelo e a roupa, larga e folgada com botões grandes e decorados. E também seu sapato com ponta empinada para cima e as luvas brancas gigantescas nas mãos.
- Gostaria de muito agradecer por investirem o precioso tempo de vida de cada um de vocês para ouvirem o que tenho a dizer. - Disse o Pierrot, inflando o peito e abrindo os braços para o nada. Pois nada havia, fora o pequeno círculo iluminado em que estava. - Mas garanto desde já, caros companheiros, que este não será um tempo perdido... - E começou a caminhar pelo tablado de madeira, o barulho dos passos se ouvia e a luz seguia seu movimento. - ...Ou talvez, será, para alguns de vocês.
Ele jogou um olhar fulminante para o vazio e apontou para um local aleatório.
- Alguns que dissimulam a vida e se entorpecem no reino da penumbra!
Apontou para outro lado, mantendo a expressão de raiva.
- Alguns que criam desespero e solidão do nada! E para o nada vão!
Apontou para outro lado, mantendo a expressão de raiva.
- Alguns...
E sua mão caiu levemente, voltando a alojar-se ao lado do corpo. Ele ajoelhou-se, cabisbaixo e ficou assim por alguns segundos, antes de levantar a cabeça novamente, olhando para um ponto qualquer no céu obscuro do lugar.
- Amigos, aqui presentes. Vivenciei de tudo um pouco. Chamo da minha mente as vozes da loucura, e não sei o que com elas fazer. Grito, de minha alma, pelos sentimentos perdidos, mas eles não voltam. Perduro sobre uma luz na infinidade obscura... - Disse, abaixando a voz, tornando-a quase um sussurro. Suas mãos, pareciam tentar se agarrar em algo no ar, e seus olhos brilhavam com uma esperança que não existia. - Agora. Tudo o que tenho são três coisas: O resquício de minha alma, O meu ego ferido e a solidão. A mais profunda solidão. Mas...
E ergueu-se, enquanto da sua triste face, agora surgia um enorme sorriso.
- Não seria isto perfeito? Seria minha imensa solidão, a minha mais fiel companheira? Aquela, que quando todos se recusam, vem a me ajudar? Vem a me dar a mão? E meu ego, ora! Aquilo que me faz continuar a viver e atuar! Aquilo que prende minha alma ao corpo e me faz permanecer a sorrir e cantar! Seria ótimo para mim, com certeza. Seria perfeito caso estes dois fossem minhas fiéis companheiras.
E novamente o sorriso esmoreceu e sua face tomou-se pelo desânimo.
- Mas existe sempre o indesejável. Aquele, que por mais que a vida lhe dê oportunidades de se livrar, permanece. E perante as três coisas que possuo, uma eu odeio. ...Porque? Porque, entidade divina, porque deixa comigo uma pequena parte da alma de uma vida que não mereci? Deixa em mim a pequena parcela que prevalece e me leva para as masmorras da torturante tristeza.
Ele saltou, abrindo novamente o sorriso contagiante e correu pelo tablado, acompanhado dos passos e da luz que o seguia para onde quer que fosse. Como se ele, o Pierrot, tivesse se tornado o centro daquele pequeno mundo, o tabu de sua existência. Ele saltitava enquanto jogava ao vento as palavras, felizes que vinham a seguir.
- Poderia, sem minha alma! Poderia correr feliz pelos campos e planícies da solidão! Poderia conquistar a terra que nunca me fora prometida, mas que, sem mais nem menos, tivesse descoberto! A vida é minha tortura. É a única coisa dentro de mim que me pára. A única coisa dentro de mim que não deveria ter direito algum, mas reina ditatorialmente sobre todo o resto. Com ela, a feliz solidão se torna amarga a cada passo solitário ouvido. E o ego contido em mim, de nada serve, sem algo que me alegre para deixar-me vivo. A grande vida limita cada um de meus passos e cada um de meus atos. Interpreto por interpretar, porque foi para isso que vim ao mundo.
Ele parou de correr, contendo os passos, um após o outro, até que se acorrentasse numa caminhada lenta, que terminou com ele observando o tablado iluminado. Sentou-se e abraçou os joelhos com força, e mordeu levemente o lábio.
- Porque, mesmo com todos vocês vindo me assistir... - E apontou para o nada, como se mostrasse uma platéia, enquanto esboçava um triste sorriso. - O que tenho a lhes passar é uma atuação. Não é meu sentimento mais puro. Pois este, limitado pela vida está sendo. Limitado pela vida como meu ego e minha vontade de amar a solidão.
Levantou-se novamente, e passou as costas da mão sobre a face, como se limpasse lágrimas. Embora nenhuma estivesse ali. E levantou-se lentamente, como se estivesse se recompondo. Logo, ficou ereto com as pernas juntas, como estava no início de tudo. Abriu as mãos e as esticou em direção do vazio.
- Mas devo continuar. Pois, pelo espaço que meu corpo consome, algo de útil deveria gerar, mesmo para o mundo limitado deste pequeno círculo iluminado. Então, para vocês, caros expectadores, deixo uma última mensagem. Uma que sempre fica dentro de meu coração, no que restou da minha alma: Abracem, ou a vida. Ou a solidão ...Obrigado. - Disse finalmente. Se curvando em reverência ao ninguém.
E o silêncio cobriu o local. Como sempre era, depois de cada peça terminada.
Clap! Clap! Clap! Clap!
O som cruzou todo o pequeno mundo iluminado do Pierrot, o pegando de surpresa. Ele não bateu palmas, mas elas vinham, de algum lugar. Arregalou os olhos, com um princípio de desespero.
Clap! Clap! Clap! Clap!
As palmas continuavam a vir, somando sempre novos pares de mãos ao seu som. Fazendo-o aumentar a cada segundo. Vieram, crescendo, dentro e fora de seu coração. Como se a vida, o resquício dela que ainda pairava dentro daquele corpo começasse a se regenerar. As palmas solitárias viraram um barulho ensurdecedor e desordenado, entretanto, maravilhoso. Ele sorriu, e as luzes se acenderam no palco. A Solidão tinha ido embora.
Fim.
Agradeço especialmente para a Natália, por me passar um vídeo incrível sobre um poema de William Shakespeare. Ele que me deu a inspiração para este curto conto que me surgiu na cabeça no mesmo instante que os dedos começaram a digitá-la. A imagem do pierrot é forte, e transpassa emoção em cada gesto e palavra. O que me fez escolhê-lo como protagonista( e antagonista) desta história curta. Abaixo, vai o link da artista que criou a imagem do conto.
http://peacewisher222.deviantart.com/art/the-stage-112464350
Leia até o fim...

