O modo mais fácil de destacar a importância que os Jornais Televisivos dão as suas matérias, é analisando o tempo que eles reservam para cada tipo de reportagem. Confira...
Atual situação de desabrigados das chuvas: Nulo
Situação política do Estado Egípcio: 30 Segundos
Investigações policiais sobre quadrilhas: 1 Minuto
Despedida do Jogador Ronaldo Fenômeno: 15 Minutos, e cobertura ao vivo
A população brasileira fica feliz com a adequação de temas e tempo.
Leia até o fim...
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
Suma Importância Nacional
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
Renúncia à Divindade
ㅤ Conforme adentrava o lar; mostrava-se, imponente, onisciente. Era de mármore, pele prateada, roupas que pesavam toneladas. Tocou nos lábios dela, mas ela só sentiu pó e pedra. Olhou-a por cima dos ombros e depois deixou correr sua purificação.
ㅤ A água desceu sobre o corpo. O prateado se substituíra pela cor do pecado; as roupas de mármore e pedra, jogadas num canto. Ele a viu sorrir. Renunciara ao posto de Deus. Agora era só o marido dela. Beijou-a, e agora sentira sua carne e amor.
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quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
Prático, Útil...
“João Carlos, morto na catástrofe das chuvas em Teresópolis”
Assassino Luís acendeu um cigarro, deixando de lado a parte de óbitos do jornal.
- Poupar bala, sempre bom.
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segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
Destino Desatino
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ㅤI – Cinzas do Passado
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ㅤㅤ Depois de tanto desejar se ocultar na escuridão, lá estava Januário – de boca seca e olhos vidrados no nada – desejando, agonizante, por um feixe de luz. Mais a frente, na mesa suja e cheia de garrafas de pinga vazias, jazia ela.
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ㅤII – Tentativas do Presente
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ㅤㅤ Querida Mariana,
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ㅤㅤ (Largou a caneta, respirou fundo. Havia pouca tinta e tinha certeza – ou queria ter a certeza – de que ela não terminaria aquele escrito. As folhas, amareladas, eram as últimas da gaveta. E, bem no fundo, Januário sentiu que não haveria mais cartas. Alcançou novamente o objeto e pôs-se a escrever.)
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ㅤㅤ Esta será, provavelmente, a minha última chance de atar os nós que, há muito tempo, eu deixara soltos. Agora que já não reflito, reviso e reescrevo meus escritos; tenho a total certeza que tudo o que está escrito aqui sou simplesmente eu. Não minha máscara porca e imunda, não minha técnica na escrita; será simplesmente eu, Januário Lopes.
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ㅤㅤ Para que possa entender com exatidão toda a complexidade das minhas palavras, Mari – se é que posso ainda chamá-la assim –, devo começar onde todos os romancistas tradicionais geralmente começam: Pelo início.
ㅤㅤ Será que você, por ventura, é capaz de se lembrar de como nos conhecemos? Da maneira com a qual, naquele bar de Jazz da zona norte, nós nos cumprimentamos e trocamos aqueles olhares tão íntimos, apresentados um ao outro pelo camarada Batista? Pois, se sim, eu posso dizer que estas memórias que carrega consigo, eu também levo dentro do que resta da minha alma. Aquela era uma época em que eu realmente era feliz. O Batista, hoje me pergunto se foi realmente uma benção na minha vida, estava arrumando tudo para mim com todas as editoras onde tinha contatos. O nome “Olive Golden” começava a aparecer cada vez mais nos cadernos B dos grandes jornais do país, meu pseudônimo virou uma febre entre os adolescentes que – tão crentes de lerem um célebre e jovem escritor norte-americano, que só fora descoberto no Brasil – faziam a questão de espalharem a minha literatura comercial de todas as formas possíveis.
ㅤㅤ E, depois de três livros entre os mais vendidos dos escritores nacionais da atualidade, você me surgiu. Uma luz na minha vida, que servia um café adocicado nas minhas madrugadas insólitas e me dava sorrisos em momentos que eu nunca cogitaria ter dado um. Casamo-nos um ano e meio depois de termos total certeza que fomos feitos um para o outro; e, três anos depois, tínhamos uma casa longe da correria da grande São Paulo, o carro do ano e uma poupança de dar inveja em muitos. Mesmo eu podendo bancar tudo, Mari, você ainda queria trabalhar. Seu ofício como bancária sempre fora um fardo para você, eu bem sei. Mas hoje eu agradeço por você não o ter parado por nada. Ao menos assim eu retirei um dos pesos dos meus ombros, em saber que, ao nos separarmos, você viveria bem.
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ㅤㅤ Mais um ano destes segundos tão valiosos se sucedeu, meus livros já tinham perdido aquela fama – como toda boa febre adolescente –, mas mesmo assim vivíamos bem e ríamos. Eu me lembro bem daquela noite, minha querida, aquela na qual saí com Batista para uma prosa descontraída e algumas latinhas de cerveja. Cheguei em casa tarde, mais de onze da noite, tenho certeza, mas você me esperava na sala. Os cachos castanhos levemente caídos para a direita e os olhos selados num leve sono. Fechei a porta com cuidado para não acordá-la, sem sucesso algum. Você abriu os olhos e, quando eu pensava vir uma reprovação pela minha tentativa de vida boêmia, sorriu para mim de um jeito inesperado.
ㅤㅤ Não preciso dizer o quão desconsertado fiquei, preciso? Levantou-se do sofá com uma leveza com a qual nunca vira se mover, e, com um derradeiro amor, você me teve nos braços. “O que foi, Mari?” perguntei, provavelmente sentiu o hálito forte que tinha. Demorou-se a me responder, apenas aconchegando seu corpo tão pequeno ao meu. Num misto de serenidade e alegria, “Estou grávida”, você me disse. A notícia no início me veio como um tapa, pegou-me desprevenido. Mas, como todo tapa de um casal no auge de seu amor, o tapa veio seguido se um aconchego, de uma reconciliação e de uma confirmação: De que você viera para ficar para sempre na minha vida. Ah, Mari, como eu gostaria de novamente beijá-la como a beijei naquele momento. Com tanta emoção no peito.
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ㅤㅤ (Deixou a cabeça cair sobre os braços, e, com toda a saudade do mundo, Januário se deixou chorar lágrimas de redenção. Mariana, como queria ter continuado a ficar com ela. O desalento aumentou e o escritor falido pouco notou das lágrimas que borraram o papel.
ㅤㅤ Conteve o grosso das gotas do passado e agruras do futuro e levantou a face. Precisava terminar o que se comprometera a começar mais uma vez.)
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ㅤㅤ Meses se passaram rápido, eu vivia agora numa alternância entre cuidar de vocês duas e cuidar de mim mesmo, de meus escritos. Passávamos por uma fase um tanto difícil, economicamente falando, os contratos com algumas editoras se encerrara e elas não quiseram renová-los. Também as idéias pareciam não fluir tão bem como antes. Mas eu pouco percebia daquilo tudo. Para mim, só bastava amá-la. Mimá-la. Ríamos sem motivo e passamos muitas noites em claro, apenas deitados abraçados e conversando sobre nossa querida Amanda. Era um hábito que tínhamos ganho havia pouco tempo, uma vez que eu já não passava noites em claro na frente de um teclado.
ㅤㅤ Nos mudamos para um apartamento, vendemos nossa casa para podermos ter uma nova que se adaptasse para nossa filha. Na realidade, nós dois sabíamos que nos desfizéramos da casa para que pudéssemos devidamente comprar tudo o que fosse necessário para nossa pequena; Amanda seria filha de pais felizes e atenciosos.
ㅤㅤ E, foi só então que ela nasceu. De parto natural, numa madrugada de segunda, ela nasceu.
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ㅤㅤ (Levantou-se um pouco e caminhou com passos pesados pela pequena sala. Por um momento, ele deu graças por toda a bebida alcoólica ter acabado. No momento seguinte, sentiu-se desgraçado em confessar para si mesmo que queria ter ao menos mais um copo de vodka.
ㅤㅤ Coçou a barba mal cuidada e sentou-se na cadeira novamente.)
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ㅤㅤ Aquela foi a segunda época de ouro de nossa vida, não foi, Mari? Cada segundo após o nascimento de Amanda foi pensando apenas nela. As roupas, os móveis, o carinho, o amor. Ficávamos quase o dia todo juntos, tanto, que mal notara que já não escrevia nada que prestasse havia vários meses. As contas que se atrasavam, eu pensava na época, podiam ser resolvidas depois. Eu mal me lembrava que já não tinha mais contratos e que a comissão pelas vendas de meus livros já eram uma mixaria.
ㅤㅤ O pior, é que senti tudo isso da pior maneira, tudo de uma vez. Estávamos caminhando no parque, nossa Amanda tinha quase dois anos e agora dava seus primeiros passos livres, saltante e dançante. Nós caminhávamos todos os dias, era uma atividade tranquila e revigorante – além de não tão caro. A pequena correu um tanto para longe de nós, saindo de nossa vista momentaneamente, seu aviso de desaprovação de nada serviu. Quando corremos para acompanhá-la, lá estava ela. Amanda estava parada na frente de uma pequena loja no meio do parque, uma loja que vendia souvenirs e pequenos itens. Os olhos da pequena estavam presos num ursinho de pelúcia, olhos de quem se apaixona.
ㅤㅤ Alcançamos nossa filha e ela se virou para nós com uma calma espetacular, um segundo depois, apontou para o ursinho e tentou, naquelas palavras tão doces e carinhosas, dizer para nós que o desejava. Movido pelo puro impulso de alegrar minha garota, entrei na loja e apontei o item. A funcionária fora rápida em alcançá-la e logo estava pagando por ele no caixa.
ㅤㅤMari, como eu desejava que aquilo não tivesse acontecido. O cartão de crédito não foi aceito com um “limite estourado” piscando na tela do aparelho. Quando virei-me para fora da loja, lá estava ela, no meio de suas pernas, toda esperançosa. Eu nunca pude me esquecer do seu olhar de tristeza quando disse que não podíamos levá-lo naquele momento. Prometi a mim mesmo que viria outro dia só para pegá-lo para Amanda.
ㅤㅤ Todavia, querida, este dia não chegou.
ㅤㅤ Quando chegamos em casa, depois do passeio, descobrimos que a luz fora cortada pela falta de pagamento. O terceiro aviso de pagamento do aluguel do apartamento estava caída na entrada, e a montanha de contas nos recepcionou, com a caridosidade do vento da janela que deixamos aberta, jogada por toda a sala.
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ㅤㅤ (Deixou seus olhos passearem pela sala, aquele pequeno quarto em que morava agora não era nada, comparado ao apartamento em que vivera com Mariana. Comparado à casa em que moravam, ainda antes. Olhou para a caneta, ainda havia bastante tinta. Teria de terminar.)
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ㅤㅤ Por cerca de um mês inteiro, eu tentei voltar a escrever. Voltar a fazer dinheiro com a minha literatura, para que não pagássemos todas as contas com o seu puro esforço no banco. Fora um mês inteiro de frustração, e, quando eu notei que nada iria sair, vi-me com Batista novamente. O velho amigo, que agora raramente víamos, chamou-me para sair, para relaxar um pouco, por conta dele.
ㅤㅤ Carente de consolo, aceitei o convite de minha danação. Naquela noite, bebi tanto que Batista sentira-se culpado em chamar-me para sair. Minha cabeça girou, pensando em tudo que eu tentava não pensar, pensando em tudo que eu tentava pensar em, pensando em tudo. E, cambaleante, Batista me deixou há uma quadra de casa.
ㅤㅤ Foi exatamente ali que encontrei-o. Quando tentava discernir qual era a chave que abria a porta de entrada do bloco, deixei minha percepção porca notá-lo, um metros atrás de mim. O homem de pele branca e roupas desgastadas me observava com uma calma aterradora. Seu olhar tão cheio de nada me fez levemente estremecer, assim como toda a aura de terror que ele parecia emanar. Nervoso, esbravejei qualquer coisa.
ㅤㅤ "Vim porque nós podemos fazer bons momentos juntos”, ele respondeu. “Porque eu sei algo que aliviaria sua tensão”, ele respondeu. Naquele primeiro encontro, deixei-o falando sozinho e entrei em casa. Acabei discutindo com você, e tenho a leve impressão que Amanda vira tudo, do pequeno vão aberto na entrada de seu quarto. Dormi caído no sofá da sala.
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ㅤㅤ Depois daquele dia, resolvera sair para beber sempre que me sobrava dinheiro. O pouco dinheiro que eu recebia de comissão por livros vendidos rendia-me a saída alternativa para os problemas em goladas doloridas e boas. E era sempre nesses momentos que ele aparecia, aquele homem pálido. “Me chamo Macedo”, disse um dia, “Sou um homem de mau com a vida, assim como você”. E, aos poucos, eu acabava dando corda para conversas com ele.
ㅤㅤ Pelo que me dizia, ele também já tivera muito e agora nada tinha. E insistia que agora era um homem feliz, por ter conseguido sua “válvula de escape”, como ele mesmo disse. Eu sei, Mariana, que nunca me ouviu falar nada de Macedo, mas eu realmente não sabia o que falar. Ele era diferente, os olhos dele eram hipnotizadores, incitavam-me para cair em sua ladainha.
ㅤㅤ Nossas conversas, querida, já eram sempre piores, sempre discussão, sempre brigas, e o choro alto de Amanda mostrava que ela sabia bem do horror em que estávamos entrando. E a dor de culpa por estar sendo um péssimo pai fazia-me sair de casa para esquecer dos problemas. E lá, sempre estava Macedo. Fui cedendo a suas persuasivas, a cada golada aquilo se tornava mais agradável, se tornava mais excitante. E foi numa noite de sexta feira que decidi aceitar o convite dele. Naquela noite, Macedo fez-me tomar uma garrafa a mais de pinga, que me fizera perder por completo a noção de espaço e tempo.
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ㅤㅤ (Quando relembrara daquelas cenas, um calafrio cruel e cheio de espinhos lhe subiu o corpo.)
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ㅤㅤ Quando o peso da sobriedade caíra sobre meus ombros, eu já tinha o feito. E, ao contrário do que imaginava – no antro de minha sensatez abalada –, não me sentira mal. Voltei para casa quase ao amanhecer, com um sorriso na face. Beijei você, Mari, contra a sua vontade e fedendo a álcool. Eu tirara toda a tensão de mim, e é difícil explicar o porque. Talvez, por eu ter feito algo tão pior do que simplesmente ser um mau marido e mau pai, eu agora me sentia disposto a encarar minha vida.
ㅤㅤ Naquele dia, quando acordei, barbeei-me como a muito tempo não fazia. Limpei a língua das camadas de álcool impregnadas nela e abracei-a com amor. “Que passarinho verde você viu?”, você me disse, ainda surpresa pelo bom humor que eu tinha. Ainda naquele dia, sentei-me na frente de minha escrivaninha e produzi como há muito tempo não fazia. Talvez meus atos me dessem idéias, talvez o fato de ter extravasado minhas angústias tivesse me dado a calma para produzir minha inspiração novamente. Tinha todo um romance pela frente. E, para todo ele, eu decidira fazer do uso de Macedo.
ㅤㅤ Assim que a irresponsabilidade debruçava-se sobre minha alma e eu sentia-me novamente um completo nada, ia ter com Macedo. Sempre o encontrava por lá, perto do boteco, com uma nova roupa velha e seu olhar penetrante. Todo aquele jeito nefasto e cativante, e a ilusão que ele fazia na mescla daquela dança de palavras com a dança das bebidas, me faziam a cabeça novamento. Novamente, via-me entretido com as maiores atrocidades que pensava nunca cometer, desgastando todo o meu prazer anormal e toda minha tensão em quem mal merecia. Macedo sempre estava por perto, sempre cuidava para que nada me interrompesse. Também, era ele quem limpava tudo e não deixava rastros para ninguém. Fazia tudo com uma perfeição milimétrica.
ㅤㅤ Mas, mesmo assim, eu sentia que ele próprio não estava satisfeito por completo. Seu olhar macabro parecia pedir por mais, sua pele branca contorcia-se num sorriso mal cuidado sempre que chegava no ápice de meu ato, mas não era um sorriso verdadeiro. Eu sabia que Macedo algum dia iria mandar-me fazer algo inusitado, iria convencer-me a fazer algo inusitado. E, com todos aqueles planos arquitetados, eu bem sabia que Macedo seria capaz de muito para atingir seus desejos.
ㅤㅤ Mas eu não ligava.
ㅤㅤ Mari, você se acostumou, lembra? Eu quase sempre estava feliz, e algumas editoras menores começaram a aceitar meus trabalhos. Meu pseudônimo americano foi deixado de lado e iniciava-me com meu próprio nome, Januário Lopes. Dois livros de contos e um romance já publicados e um bom dinheiro entrando. Parecia que estávamos reconstruindo nossa vida do zero.
ㅤㅤ E só naquele ponto eu notara o quanto Amanda pareceu diminuir no meu conceito. Não que eu não a amasse, claro que amava, era minha querida e amada filha. Mas, não sei porque, os momentos que passávamos com ela já não eram tão agradáveis e rápidos. Suas falas bonitinhas não me cativavam como antes. Naquela época, ela já tinha seis anos e ia para o colégio infantil.
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ㅤㅤ Foi quando coloquei um “Fim”, num novo romance, que Macedo fizera o impensável. Os minutos que se sucediam aos meus escritos eram sempre os piores, os mais terríveis e carrascos. Para não cair na armadilha de ter de procurar Macedo, eu geralmente procurava dormir depois que digitava meus textos. Mas, naquele dia, a campainha tocou.
ㅤㅤ Era no meio da tarde, nossa pequena estava no colégio e você, Mari, estava trabalhando. Macedo entrou para dentro da casa logo que abri a porta. Era a primeira vez que ele estava ali, e por instinto, fechei a passagem. Ele não era digno de estar na minha casa. Na verdade, eu também não era, mas isso eu sempre ignorava. Contudo, mal pude pará-lo. Ele me segurou pelos braços e vi no seu rosto uma expressão alegre e diferente. “É hoje, Januário”, ele me disse com entusiasmo.
ㅤㅤ "Faremos mais uma vez, já preparei tudo para você. Vamos para o bar, nos distrair até dar o horário”, ele disse, “dessa vez é incrível, você vai amar de verdade. Vamos, Januário”. E, quase por pura pressão dele, saí de casa e entreguei-me aos tragos novamente. Duas horas depois estava bêbado e insensato de todos os meus atos, movendo-me puramente pela minha ânsia de ser ainda pior do que sempre era. O local que ele escolhera fora realmente incrível, um casebre de madeira discreto e um tanto isolado. Foi ali que aconteceu. Fiz novamente.
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ㅤIII – Agruras do Futuro
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ㅤㅤ Depois de tanto desejar se ocultar na escuridão, lá estava Januário – de boca seca e olhos vidrados no nada – desejando, agonizante, por um feixe de luz. Mais a frente, na mesa suja e cheia de garrafas de pinga vazias, jazia ela. Amanda estava morta, as pernas abertas e o sêmen do próprio pai saindo de suas partes íntimas nunca antes violadas. O novo pseudônimo, Pedófilo Maníaco – que a mídia dera a ele desde seu segundo assassinato daquela forma –, nunca fora tão pesado. A marca de seus dedos envoltos na garganta de sua tão amada filhinha fizeram doer seu peito.
ㅤㅤ Agora não sentia-se aliviado. Não poderia mais viver sua vida miserável, não era o consolo de poder ser pior que o faria viver bem. Ele já era o pior, tanto para ele, quanto para sua família. A sobriedade, daquela vez, fora cruel ao extremo com o pobre Januário. Dera a ele a visão de sua filha, mostrara como ela debatia-se com um horror na face, horror provocado pelo próprio pai, bem na frente de seus olhos.
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ㅤIV – Torturas do Sempre
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ㅤㅤ ...foi por isso, Mariana, que eu nunca fui o mesmo depois que a encontraram naquele casebre. Eu já não tinha forças para continuar, a minha alma foi roubada, e apenas um resquício de culpa incrustado numa pequena faceta dela fora deixada para trás. Sou eu, Mariana, o assassino de nossa querida filha.
ㅤㅤ Nunca te dei o devido consolo, nunca apartei suas noites chorando na sala, nunca abracei-a quando, simplesmente do nada, você se ajoelhava e começava a chamar pela nossa filha. Mas, como eu podia? Seria hipocrisia minha, seria não ser quem sou. O vício pelo álcool aumentou dentro de mim, e, mais do que nunca, aquela parecia ser a saída mais fácil, mais simples.
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ㅤㅤ Fiquei realmente feliz quando pediu o divórcio e saiu de casa. Fiquei feliz por você, por saber que estava tentando reconstruir sua vida de alguma forma. E, agora, é quase uma tortura para mim tentar te trazer de volta um sofrimento tão maior. Esse foi um dos motivos, Mari, por eu nunca ter conseguido enviar uma de minhas cartas para você. Todas minhas tentativas terminaram em chamas e, por conseguinte, cinzas. Já foram tantas que me perco na poeira do meu lixo que nunca tiro.
ㅤㅤ Já pensei em tantas formas de te contar que me dói pensar que usara de minha técnica literária para um eufemismo hipócrita. Uma música, sete poemas, incontáveis cartas anônimas; e agora eu me deparo com a primeira vez que tento escrever-lhe, sendo eu mesmo.
ㅤㅤ Mas ontem, quando fiquei sabendo que você e Marcos vão ter um novo bebê, algo em mim mudou. E, novamente, eu tento escrever para você. Esta é minha última tentativa de contar a verdade, e, caso eu realmente consiga enviar estar carta, saiba que agora que a lê, eu estarei morto. Tirarei minha vida de desgraça.
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ㅤㅤ Peço sinceras desculpas por trazer à tona tanto horror. E espero que prossiga bem com sua vida. Ainda penso em você, sempre pensarei, como sendo meu eterno amor.
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ㅤㅤ Ass. Januário Macedo Lopes.
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ㅤV – Cartas do Nunca
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ㅤㅤ Depois de tanto desejar se ocultar na escuridão, lá estava Januário – de boca seca e olhos vidrados no nada – desejando, agonizante, por um feixe de luz. Mais a frente, na mesa suja e cheia de garrafas de pinga vazias, jazia ela.
ㅤㅤ As cinzas foram levadas por um vento que entrou pela janela e a carta antes intacta desfez numa pequena nuvem cinza pelo quarto. Januário bebeu mais um gole da vodka barata, enquanto tinha os músculos dos ombros levemente massageados.
ㅤㅤ – Você fez bem, querido. - Dizia Macedo, para ele, em sua presença aparentemente espectral – Você fez bem.
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ㅤㅤ Januário olhou para a gaveta e viu uma última folha de papel amarelado. Talvez, houvesse uma nova última tentativa em breve. Caso ainda houvesse tinta na caneta.
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sábado, 11 de dezembro de 2010
Relatos Mirins - Reeditado
ㅤE ainda vale a pena ressaltar a genialidade infantil.
ㅤ – Filha da Puta?
ㅤ A funcionária parou o que estava fazendo.
ㅤ – É, ué. - Respondera o garoto.
ㅤ – Por que me chama assim?
ㅤ – Mas, seu trabalho não é colocar preço nas coisas?
ㅤ – Quase sempre, é sim. O que é que tem?
ㅤ – Então! Meu pai sempre te chama de filha da puta.
ㅤ – Mas eu nem conheço seu pai!
ㅤ – Mas eu acho que ele te conhece bem, fala de você toda hora. Qual seu nome?
ㅤ – Evellyn.
ㅤ – Ah, desculpa, acho que confundi. - Dizia, observando o resto o mercado. Como se tentando achar alguma velha gorda chamada Inflação colocando frangos congelados nas prateleiras refrigeradas.
ㅤ Mas confundir termos com realidade ainda é algo bobo e fácil de se corrigir.
ㅤ – Desculpa, moça, ele acaba entendendo errado o que a gente fala por aí. Sabe como é né? Crianças.
ㅤ Pior é quando vem aquela pergunta tão matadora para seus progenitores.
ㅤ – Mãe! Como é que eu nasci?
ㅤ Deixando de lado todas as cegonhas e repolhos do universo, sempre há aquele:
ㅤ – Pergunta para o seu pai. Estou ocupada.
ㅤ – Não sei, vê lá com sua mãe, Guri.
ㅤ Como se seus pais conspirassem na tentativa de gerar um novo acelerador de partículas, botavam o filho no maior loop infinito de sua vida; enchendo a mente do pobre coitado com todas as mentiras possíveis, desde uma novela nos capítulos finais que não poderia ser interrompida pela irritante voz aguda do moleque, até os desvios clássicos.
ㅤ – Não tem tarefa pra fazer, não?
ㅤ Ou, quem sabe:
ㅤ – O Papai te conta depois, tá?
ㅤ E assim a mente hiperativa do garoto permanecia naquela utopia mágica, quem sabe não tivesse sido encontrado na frente de casa num cesto de madeira? Olhava-se no espelho constantemente, procurando por ali uma marca de raio feita por mago malvado, ou talvez olhava para o céu antes de dormir, pensando que seus verdadeiros pais estivessem salvando planetas e aguardando para que ele crescesse.
ㅤ É toda essa brincadeira maldosa que molda os filhos para seus atos espertinhos, anos mais tarde. Como se deixar o termômetro encostado na lâmpada fizesse a mãe acreditar que estava com febre e não poderia fazer aquela bendita prova de ciências.
ㅤ – Mas olha, mãe, tá marcando 38!
ㅤ A mãe vinha com aquele ultimato, pior que os avisos do BOPE antes de acabar com a graça dos traficantes:
ㅤ – Levanta logo ou eu chamo seu pai, heim!
ㅤ A figura do simpático Seu Joaquim se distorcia na mente do menino – ignorando todos os presentes de natal atendidos, cujo agradecimentos, infelizmente, se voltavam para o velhinho de roupa vermelha, assim como todos os doces comprados sem que a mãe soubesse. Subitamente a silhueta idealizada tinha cinco metros a mais de altura, largura, espessura; carregava um grande chicote de couro numa mão e na outra um machado idêntico ao que o garoto vira
ㅤ Dali, era um único salto para abandonar a cama.
ㅤ O menino ia para o colégio e causava a maior tragédia mundial:
ㅤ – Colando, filho? Não foi isso que eu te ensinei!
ㅤ Mas pouco ligava para mãe, tremia mesmo era para a imagem do carrasco Joaquim se materializando novamente, agora montado no dragão novo que apareceu no Bakugan e seus amigos lhe contaram durante a aula, antes da prova.
ㅤ Todavia, pior do que tudo isso, é quando o garoto tenta se endireitar.
ㅤ Geralmente, tudo acontece para provar que ele continua sendo o moleque pimentinha do bairro, mostrando toda a verossimilhança da Lei de Murphy. O menino se depara com a cartinha especial e brilhante – praticamente irresistível! – que o amigo deixou cair quando ia embora; ou, ele se vê de frente para o pacote de bolachas que a empregada, Dona Soraia, ingenuamente deixara sobre a mesa, aos ávidos alcances dos braços do menino.
ㅤ Não demoraria dois minutos para o amigo voltar com os pais e dar de cara com o garoto batendo bafo com a cartinha brilhosa. Não demoraria dois segundos para seus pais voltarem para a cozinha, dizendo que esqueceram de pegar a lista de compras, só para se depararem com ele com a mão na massa – ou na bolacha.
ㅤ Quando tudo isso não acontecia, a coisa ficava séria:
ㅤ – Conta pra gente, filho o que está acontecendo?
ㅤ E aí, começou! O garoto vira o anjo da família, e, em troca, os pais fazem uma busca desenfreada pelo que está errado, como se devesse, por natureza, ser uma peste. Câmeras para ver se a Dona Soraia não batia nele, visitas ao colégio em busca de pedófilos ou mal-encarados, e, no fim, termina sentado num divã. Um homem de óculos e cabelo penteado milimetricamente lhe mostrando um monte de borrões escuros e lhe pedindo para ver o que via, como se ele fosse cego.
ㅤ Desistia! Que os pais sofressem porque a puberdade estava chegando!
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quinta-feira, 11 de novembro de 2010
Vozes
Chat Welcome – Sala: Educação – ENEM – Há 4 Dias do ENEM
junirz diz: aff.. to mto com medo dessa prova cara
Jackz_s2 diz: nem me faaaale,esse enem nao serve pra nda!!!
junirz diz: é... e ainda cai bem no dia do jogo do chelsea cara!! quase que não vou fazer essa prova, ma sorte q meus pais tao me obrigando
GostosoCAM diz: oi, alguma gata afim de tc?
Nickole diz: Qual é gente vcs vão escolher um jogo ao futuro de vcs?
Jackz_s2 diz: nao ééh isso amiga, so q esse enem eh uma porcaria
Nickole diz: Mas vc vai ter que fazr, não vai? Olha, eu quero mto entrar pra medicina, e n tem jeito senão fazer a prova msm gente!!
junirz diz: pra mim tanto faz vo pegar qulquer curso msm
Jackz_s2: ainn... tbm quero medicina, sera q tá dificl?
Nickole diz: Olha, já faço cursinho faz 2 anos, acho que dessa vez dá pra eu passar.
GostosoCAM diz: oi, alguma gata afim de tc??
GostosoCAM diz: oi alguma gata afim de tc????
GostosoCAM diz: oi nickole td bem?
Nickole diz: Tá na sala errada cara.
Voz do Futuro diz: Esse ENEM vai dar problema, e vocês vão acabar fazendo ele para nada.
Nickole diz: Do jeito que tá é bem possível
Jackz_s2 diz: o vz do futuro para com esse ar negativo, aiiin, to nervosa gnt!!!
junirz diz: opa! vai passar CQC, vo la ve gnt, flw!
Chat Welcome – Sala: Educação – ENEM – Há 1 Dia do ENEM
Jackz_s2 diz: nossa gent axo q nao vo passar. chorei mt hoje por causa da nota de redação q me deram, fui mto mal!! to nervosa gnt que eu faço?????/??
Nickole diz: Fica tranquila amiga, agora já não dá pra fazer mais muita coisa. So vai lá e faz aquilo que você pode, só se esforça ao máximo, tá?
GostosoCAM diz: oi jackz quer tc no reservado?
Nickole diz: Qual a sua cara? Para de achar que vai conseguir algo aqui!
Nickole diz: Tanta gente ignorante, por isso que a gente tá fazendo o ENEM!!
Voz do Futuro diz: De nada adiantará o ENEM.
Jackz_s2 diz: para de fala essas coisa cara, vc fika com esse negocio de voz do futuro mas n sabe nda de nda! só fica aqui pra tirar com a gente
Nickole diz: Verdade, voz. Larga disso que eu acho que vc podia fazer coisa melhor.
Voz do Futuro diz: E, se por um acaso, o ENEM falhar? O que vão fazer?
Nickole diz: Obvio né? Só a gente ir reclamar nossos direitos, ninguém pode fazer estudante de palhaço desse jeito. (se bem que o enem já é uma piada)
Jackz_s2 diz: verdade qualqr coisa só a gnt protesta!!!
junirz diz: opsss, tava jogando lineage galera, foi mal não aparecer aqui hj.
GostosoCAM diz: oi Julia quer tc??
junirz diz: julia? Cara vc deve ta mto na seca pra confundir meu nome assim.
junirz diz: bom gente vou voltar a jogar, boa sorte pra vcs amanha. vo jogar até as 4 madruga ai depois vo lá, té mais gnt.
Nickole diz: Eu já vou dormir, boa prova pra vocês, gente. E calma Jack, so relaxa pra amanha.
Jackz_s2 diz: brigada amiga.
Chat Welcome – Sala: Educação – ENEM – Horas Após o ENEM
Jackz_s2 diz: aiiin geeeeeeeeeeeeeeeeeeent, fui mto mal! Desesperei no meio da prova e comecei a chorar! n acredito q vo ter q ficar mais 1 ano pra passar!!!
Nickole diz: Hm, eu acho que fui bem!! corrigi minha prova com o gabarito e fiz umas 168 questões de 180! Fora isso o tema da redação estava tranquilo!
Nickole diz: Não fica assim Jack, importante é que você se esforçou pra fazer a prova!
junirz diz: po minha prova veio mto estranha. tinha umas questões repetidas e outras puladas...
REVOLTADORJ diz: ENEM TA FAZENDO A GENTE DE PALHAÇO GALERA!!!!!
REVOLTADORJ diz: UM MONTE DE GENTE VEIO COM GABARITO COM PROBLEMA!!
REVOLTADORJ diz: TAO FALANDO QUE VAI ANULAR E FZER DE NOVO!
REVOLTADORJ diz: VAMO GENTE! TD MUNDO PRECISA RECLAMAR!
Nickole diz: Nossa, será que vão mesmo anular a prova? Mas eu fui tão bem... ai, não. Tinha que ser esse enem mesmo! Ai, comecei a tremer aqui....
junirz diz: hehe entao minha prova não foi a unica
Jackz_s2 diz: aff além de nao prestar esse enem ainda fica dando problema!!! não presta msm! Temo que fazer algo gente!
Nickole diz: Ai! Tõ quase chorando aqui, não pode dar problema gente! Estudei muito, e fiz bem a prova, e se anular todo esse esforço. Já estou faz 3 anos tentando entrar pra medicina e logo agora.... Ai, que droga de enem!
junirz diz: nossa gente pra q tanto? bom, se vcs vao fazer algo eu ajudo.
GostosoCAM diz: oi nickole, ocupada?
Nickole diz: Porque nunca baniram esse cara daqui? Aff, que raiva.
Voz do Futuro diz: ....
Chat Welcome – Sala: Educação – ENEM – 2 Dias Após o ENEM
REVOLTADORJ diz: ABAIXO AO GOVERNO E A PALHAÇADA! CHEGA DE ENEM!
Nickole diz: ABAIXO AO GOVERNO E A PALHAÇADA! CHEGA DE ENEM!
Jackz_s2 diz: ABAIXO AO GOVERNO E A PALHAÇADA! CHEGA DE ENEM!
Jackz_s2 diz: ABAIXO AO GOVERNO E A PALHAÇADA! CHEGA DE ENEM!
Jackz_s2 diz: ABAIXO AO GOVERNO E A PALHAÇADA! CHEGA DE ENEM!
junirz diz: v
junirz diz: ops falhou o cntrl v, hehehe
junirz diz: ABAIXO AO GOVERNO E A PALHAÇADA! CHEGA DE ENEM!
GostosoCAM diz: oi jack, td bom?
Chat Welcome – Sala: Educação – ENEM – 3 Dias Após o ENEM
REVOLTADORJ diz: ABAIXO AO GOVERNO E A PALHAÇADA! CHEGA DE ENEM!
Nickole diz: ABAIXO AO GOVERNO E A PALHAÇADA! CHEGA DE ENEM!
Jackz_s2 diz: ABAIXO AO GOVERNO E A PALHAÇADA! CHEGA DE ENEM!
Jackz_s2 diz: ABAIXO AO GOVERNO E A PALHAÇADA! CHEGA DE ENEM!
Jackz_s2 diz: ABAIXO AO GOVERNO E A PALHAÇADA! CHEGA DE ENEM!
junirz diz: v
junirz diz: ops falhou o cntrl v, hehehe
junirz diz: ABAIXO AO GOVERNO E A PALHAÇADA! CHEGA DE ENEM!
GostosoCAM diz: oi julia, td bom?
Folha Brasil: Estudantes protestam contra o ENEM
Através da internet, cerca de mais de 35 mil estudantes do país inteiro se revoltam contra o ENEM. O ministro da educação, Fernando Haddad, pediu desculpas a todos que realizaram as provas no Brasil inteiro e diz que está tentando um acordo com a 7° Vara de Justição do CE, que foi responsável pela liminar que suspende o Exame Nacional do Ensino Médio. Segundo o ministro, a proposta inicial é realizar uma nova prova apenas para aqueles que levantaram queixas e foram realmente prejudicados. “Não há necessidade de anular o ENEM e refazê-lo para todos” disse Haddad durante uma coletiva. Resta, agora, aos alunos, que continuem esperando pelas decisões; muito embora as ondas de protesto – centradas principalmente nos sites de relacionamento – estejam fazendo um grande papel de pressão ao MEC e ao INEP – instituto organizador da prova.
Chat Welcome – Sala: Educação – ENEM – 4 Dias Após o ENEM
REVOLTADORJ diz: ABAIXO AO GOVERNO E A PALHAÇADA! CHEGA DE ENEM!
REVOLTADORJ diz: ABAIXO AO GOVERNO E A PALHAÇADA! CHEGA DE ENEM!
REVOLTADORJ diz: ABAIXO AO GOVERNO E A PALHAÇADA! CHEGA DE ENEM!
Nickole diz: ABAIXO AO GOVERNO E A PALHAÇADA! CHEGA DE ENEM!
Nickole diz: ABAIXO AO GOVERNO E A PALHAÇADA! CHEGA DE ENEM!
Nickole diz: ABAIXO AO GOVERNO E A PALHAÇADA! CHEGA DE ENEM!
Jackz_s2 diz: ABAIXO AO GOVERNO E A PALHAÇADA! CHEGA DE ENEM!
Jackz_s2 diz: ABAIXO AO GOVERNO E A PALHAÇADA! CHEGA DE ENEM!
Jackz_s2 diz: ABAIXO AO GOVERNO E A PALHAÇADA! CHEGA DE ENEM!
GostosoCAM diz: oi Nickole, quer tc??
junirz diz: cara vcs não cansa?
Chat Welcome – Sala: Educação – ENEM – 8 Dias Após o ENEM
REVOLTADORJ diz: eae galera
Jackz_s2 diz: oi revoltado!!! tava sumido heim!!
REVOLTADORJ diz: é, viajei com uns amigos esse fim de semana, mto legal praia, sol, rsrs
Jackz_s2 diz: sei, eu sai cm umas amiga ontm tbm pra flar a verdade kkkkkk
Nickole diz: Oi gente...
GostosoCAM diz: oi nick, vm brinca hj?
Nickole diz: Oi lindão. Vamo sim...
Chat Welcome diz: GostosoCAM e Nickole foram para a sala Privada.
junirz diz: afffffffffffffff vao fazer otro enem!!!!
junirz diz: e bem no dia que ia ter evento com uns item novo no lineage AFFFF
junirz diz: se nesse pais msm... vmo protesta gnt!!!
junirz diz: ABAIXO AO GOVERNO E A PALHAÇADA! CHEGA DE ENEM!
junirz diz: ABAIXO AO GOVERNO E A PALHAÇADA! CHEGA DE ENEM!
junirz diz: aff gent kd vcs?
Chat Welcome diz: Jackz_s2 e REVOLTADORJ foram para a sala Privada.
junirz diz: AFFFFFFFF falow pra vcs!!!!
Voz do Futuro diz: ....
Voz do Passado diz: Quem dera eu fosse você, Futuro.
Voz do Futuro diz: Pois é.
Leia até o fim...
sábado, 2 de outubro de 2010
Lágrimas no Paraíso
ㅤ
ㅤㅤ I
ㅤㅤ
ㅤㅤ Até o odor mais horrível começou a desvanecer. O peso que desmontava a cabeça do, agora frágil, homem subitamente deixou de existir enquanto ele abria os olhos, sóbrio uma vez em muito tempo. Daniel demorou a distinguir o que o cercava, e mesmo quando seu raciocínio conseguiu acompanhar a visão, a mente confusa não captou sentido; nunca estivera ali, e não acreditava que sua bebedeira pudesse levá-lo até tão belo lugar.
ㅤㅤ Suas roupas estavam leves, muito diferentes do terno impregnado de suor e de acidez do álcool, se viu vestindo uma camisa de lã folgada e um short de seda. Deu um passo sobre a sala simples de tablado de madeira, aquele lugar exalava paz em cada mínimo canto. Onde estava?
ㅤㅤ
ㅤㅤ II
ㅤㅤ
ㅤㅤ Definhando. O cheiro desgostoso – quase insuportável – inundava a saleta sem vida que um dia já fora antro de tantos risos. Daniel estava definhando, aos poucos, dolorosamente; o mundo e sua maldade mostravam-se mais fortes que a antiga coragem do garoto, agora homem. O deszelo pela vida, tão destacado nos inúmeros itens jogados para todos os lados e nas garrafas de bebida abertas em momentos aleatórios, cada vez mais recheava a mente do diminuto ser que se tornara.
ㅤㅤ O corpo – que só se movimentava para alimentar o vício há pouco adquirido – parecia que não era seu, não o sentia, não conseguia expressar-se no mundo material quando dragões inescrupulosos destroçavam e engoliam sua alma todos os dias, em cada golada. E, quando conseguia manter-se dentro de sua sala, parecia sofrer ainda mais; como se a realidade quisesse expulsá-lo novamente para a derradeira loucura do álcool. A face de Daniel caiu de lado, e seus olhos cansados de pálpebras tombadas fitaram o seu terror, carrasco impiedoso; que antes era o motivo que o fazia seguir firme e forte. A foto continuava ali, mesmo depois de tentar queimá-la, de atirá-la pelo corredor sombrio, de quebrar sua proteção; a imagem de Ana com o pequeno Joel nos braços mantinha-se agregada a seu resquício de vida. Era o que o destruía, e ao mesmo tempo, era o que o mantinha vivo. Afinal, se ele morresse, teria de enfrentá-lo. Preferível a feição de nojo da ex-esposa que encarar as incertezas de um pós-suicídio. Já fazia três anos desde aqueles dias de tormento. Três anos de decadência, de amigos se afastando e padrão de vida despencando. Ele já estava no fundo do poço, e mesmo assim, parecia sempre insistir em afundar ainda mais.
ㅤㅤ Mergulhado na cratera temporal no meio do sofá de couro rasgado, Daniel estendeu o braço na direção da vodka barata. Mais um gole e um engasgo, seguido de uma série fulminante de tosse, como se seu corpo tentasse expelir todo o mal do líquido maldoso, sem sucesso. Virou o rosto para o chão e deixou que seu organismo já surrado reclamasse por melhoras, o vômito saiu branco e ralho, não comia direito já fazia algumas semanas, apartando a fome com salgadinhos míseros e cheios de mal elementos da vida. A cabeça girou, e repentinamente faltou-lhe forças para sequer permanecer desperto. O mundo se fechou e a escuridão se apossou de sua sanidade.
ㅤㅤ
ㅤㅤ III
ㅤㅤ
ㅤㅤ Não tinha a mínima idéia de como aguentou o enterro todo. Daniel estava inflexível, imóvel; pessoas vieram dar-lhe a mão e abraços caridosos. Entretanto, só respondera com simples balançares de cabeça, sem prestar atenção alguma à quem lhe dirigia a palavra. Ana, sua esposa, caía em prantos próximo ao cimento fresco. Não era para menos, toda aquela cena de tristeza e choque nunca deveria ter acontecido; Joel não devia ter morrido daquela forma, por uma bobeira, por tão pouco e tão cedo. Ele ainda mal tinha começado a andar! Ana desviou o olhar, fitando seu marido, procurando achar naquelas orbes negras, antes tão aconchegantes, algum consolo para seu resquício de lógica. Mas Daniel não tinha como estar pior, balbuciava palavras sem-nexo; verbos e substantivos que se formavam num plano surreal, que perguntavam a si mesmo um mar de dúvidas cruéis e inumanas. Será que, caso se encontrassem após sua morte, ele saberia seu nome? Joel seria capaz de lembrar do próprio pai? E, supondo que ele se lembrasse, seria capaz de perdoá-lo?
ㅤㅤ Cada novo questionamento fazia o homem sair mais de sua consciência, deixar o tempo passar sem acompanhá-lo. E, quando menos percebia, implorava por mais. Seu simplório viver estava de joelhos para que ele saísse daquilo tudo, para que não partisse para o outro lado, e mesmo assim abandonasse este. A única e mal-formada resposta que encontrou; veio amarga, forte, e descia goela abaixo. A pseudo-salvação.
ㅤㅤ
ㅤㅤ IV
ㅤㅤ
ㅤㅤ A luminosidade não vinha do astro-rei, ela simplesmente brotava de todas as partes e deixava o local com aquele clima: Tranquilo. Daniel sentiu que seus pés podiam alcançar mais longe, defronte tanto sofrimento dos últimos três anos em que se via perguntando se era o autor da morte do filho, agora podia-se dizer que estava relaxado por completo. Sentiu-se mal por isso, não era certo alguém que merecia a sofridão e a solidão ter tanta liberdade. Lembrou-se, numa inundação de recordações, de tantos vários momentos que passou com Ana e Joel. O calor do menino segurando seu dedo com suas pequenas mãozinhas superava qualquer abraço que já fora lhe dado, um pequeno engasgo do moleque o fazia sorrir feito bobo por uma tarde inteira. Fora um pai-coruja.
ㅤㅤ E, como por consequencia, lembrou-se da fatídica tarde. Resolvera levar Joel para passear pelo bairro, mesmo o bebê tossindo em seus braços e com indicação de chuva para o céu tão claro. Tão claro que fez Daniel desacreditar das previsões, que o fez sentir segurança para levar sua cria para tomar ar livre. Mas a chuva veio, súbita e tenebrosa, pegando pai e filho desprevenidos. A tosse virou gripe, e a gripe tornou-se pneumonia. A pneumonia virou dor para os pais, a causa mortis de seu pequeno e único fruto do amor. Derramou lágrimas sofridas que há muito não saíam, sempre contidas pelo poder ilusório do álcool. Abraçou os joelhos e se viu jogado no canto da saleta de luz, expressando todo seu sentimento em urros e mais choro. Todo o conforto do lugar esvaiu-se. Sumiu.
ㅤㅤ
ㅤㅤ A sala perdeu seu brilho, assim como o coração de Daniel agora tinha plena certeza de que conviveria com a dor por toda eternidade. A luz começou a se apagar e Daniel se recolheu ao canto da sala. Estava sóbrio, sóbrio demais; tanto que podia distinguir o que pensava do que tinha como alucinação antes. A mente se viu cheia das mesmas dúvidas, do mesmo psicológico terror. Em resposta, a luz da sala mingou por completou e a escuridão mais uma vez tomou conta.
ㅤㅤ Daniel continuava a pensar. Afinal, morrera e aquele era o purgatório? Se fosse, que bela chance seria de ver Joel. Não queria, tinha medo e insegurança; mas o coração de pai falava alto contra qualquer desafeto que ele tinha com a coragem. Cerrou os punhos e levantou a cabeça, os raios luminosos misteriosos começaram a surgir novamente. Levantou-se do chão e manteve-se ereto, era a derradeira hora da verdade. As luzes eram quase ofuscantes de tão fortes. Descalço, o homem caminhou até a única porta do tranquilo cômodo. Ele se tornara um paradoxo, continha dentro de si extremos de sentimentos. Sentia dentro de si medo e coragem, hesitação e ímpeto, tristeza e felicidade.
ㅤㅤ Abriu-a de uma vez só. E teve como resposta mais daquele cegante branco, pôs a mão sobre os olhos para tentar distinguir qualquer coisa. Um passo adiante na luz, uma sensação de alívio e paz assomou seu corpo. Mais um passo, Daniel colocou na face um sorriso, algo que desconhecera já fazia tanto tempo! Tomou fôlego, correu e se jogou no infinito de tranquilidade.
ㅤㅤ Veio, como resposta um simples e baixo sussurro.
ㅤㅤ Pai.
ㅤㅤ
ㅤㅤ V
ㅤㅤ
ㅤㅤ Tonto, o homem despertou. Aquele cheiro tão desgostoso naquele dia parecia pior ainda. Rolou no chão sujo e fedido, afastando-se do que seu corpo expulsara. Estava ficando farto daquilo tudo. Desabotoou a camisa branca encardida e jogou o terno de lado, ao tempo que se levantava. Descalço, caminhou pela sala silenciosa até a janela.
ㅤㅤ Fazia três anos desde que Daniel deixara de prestar atenção para o quão belo era o nascer do sol por aquela janela. Respirou fundo, recebendo os primeiros raios de luz do astro-rei na face e peito nu. Abriu um sorriso, algo que desconhecera já fazia tanto tempo.
ㅤㅤ Talvez fosse tempo de mudanças para ele.
FIM
Para os que conhecem - e também para os que não conhecem, rs - o conto foi baseado na música Tears In Heaven de Eric Clapton.
ㅤㅤ
Leia até o fim...
sábado, 22 de maio de 2010
O Criminoso Cortês
ㅤㅤㅤㅤ – E quem diria que esse momento chegaria, heim, Punho Firme? - Língua Preta riu alto, saindo do meio do grupo de homens armados que fechavam a saída do escritório de Punho Firme. O Chefão estremeceu nas bases ao ver Língua Preta ali.
ㅤㅤ – Então, era mesmo você, teu pedaço de merda.
ㅤㅤ – É. Tô aqui pra ver a cena que mais esperei a vida toda...
ㅤㅤ
ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ~
ㅤㅤ
ㅤㅤ – É. Este mesmo.
ㅤㅤ
ㅤㅤ E Túlio “Punho Firme” sorriu, mostrando os dentes amarelados em contraste com os de ouro. Nem ele mesmo ainda tinha total certeza da razão de seus últimos atos, mas só sabia que aquilo o alegrava. E o que alegrava o Punho Firme sempre deve ser feito, como era dito no submundo do crime organizado de Ponta-Porã. A cidade fronteira entre Paraguai e Brasil tinha um altíssimo índice de criminalidade, mas nada perto do real. Afinal de contas, os grandes chefes do submundo tem seus homens espalhados até as entranhas mais profundas da política.
ㅤㅤ
ㅤㅤ – Tem certeza, Seu Punho Firme? O moleque parece tão magrela.
ㅤㅤ – É ele mesmo. - E Punho Firme virou-se, caminhando até a saída. Sua ordem não seria questionada mais do que uma vez. E se fosse, não seria mais pela mesma pessoa. - Vô estar esperando no carro. Te apressa, Lingote.
ㅤㅤ – P-p-pó deixar. Ele já tá indo. - Foi tudo que Lingote conseguiu falar.
ㅤㅤ
ㅤㅤ O lugar era precário, ficava numa sala fechada com porta de metal, que ficava num porão de uma boate, que ficava no subsolo de um prédio que caía aos pedaços. A multidão dava espaço para Túlio passar, murmurando qualquer coisa enquanto abaixavam a cabeça. Toda aquela algazarra não era do gosto dele, mas Punho Forte sabia muito bem que era num lugar daqueles que seus produtinhos de qualidade vendiam aos montes.
ㅤㅤ Seus passos se apressaram conforme a saída se aproximava, de forma que seus últimos passos foram dados quase que correndo, até finalmente um de seus homens lhe abrir a porta da saída e ele se deparar com as escadas que levavam até a superfície. Dali, sentiu o ar fresco e respirou melhor, observando com o canto do olho a porta da boate, com um sorriso de escárnio na face. E quem disse que a escravidão terminou? Bando de babacas. Pensou ele, tendo já visto diversos fatos que contradiziam as leis da constituição. Prostitutas que deviam a vida, Órfãos filhos de marginais mortos, Homens endividados. Todos se podiam comprar. Todos eram escravos.
ㅤㅤ
ㅤㅤ – Punho Firme, bora pro carro. Aqui perigoso. - O gigante Golias veio acudir o chefe. Ele era o mais velho dos funcionários de Túlio, e talvez um dos únicos que nunca teve algo amputado pelo poderoso chefão. Também, sua vida se resumia a proteger o Punho e acatar suas ordens sem questionamentos. Sua inteligência quase nula ajudava a fechar o círculo de qualidades do sujeito que tinha os dedos cheios de anéis de ouro e outras pedras. Se Túlio, até aquele momento, acreditava que alguém não o fosse traí-lo, esse alguém era Golias.
ㅤㅤ Entrou no carro e afundou no banco da caminhonete, enquanto Golias sentava ao seu lado, e mais dois seguranças no banco da frente. Havia mais três capangas do lado de fora, atentos a qualquer brusco movimento. E, não demorou mais do que alguns segundos para este acontecer: Lingote saltou da porta, afobado como sempre, trazendo consigo um menino. Os três capangas automaticamente se viraram para o mercador de escravos com armas prontas. Lingote levantou as mãos, deixando suas pizzas de suor a mostra por debaixo das gorduras do corpo velho, cobertas pela camisa de botão florida.
ㅤㅤ
ㅤㅤ – Opa! Opa! Opa! É pro patrão! É pro patrão! Te acalma aí, capangagem! - Falou, empurrando o menino para frente enquanto seguia logo atrás subindo os poucos degraus. Passou entre os homens de Punho Firme e abaixou-se frente a janela do Chefão. - Tá aqui o garoto, Seu Punho Firme.
ㅤㅤ Túlio observou o menino uma última vez e sorriu novamente, em seguida abrindo a porta e fazendo o garoto entrar. O moleque de cabelo crespo e desgrenhado sentou-se sem soltar um pio, com cabeça baixa e retendo as mãos dentro dos bolsos da calça em trapos que usava. Punho Firme olhou para o menino ao seu lado uma última vez, e em seguida virou-se para Lingote.
ㅤㅤ – O pagamento virá amanhã, sem falta.
ㅤㅤ – P-p-pode levar o tempo que quiser, Seu Punho Firme.
ㅤㅤ – Tá. Tá. Até mais, Lingote. - E o carro acelerou.
ㅤㅤ
ㅤㅤ Uma vez voltando para casa, Túlio virou-se e encarou o menino.
ㅤㅤ – Qual teu nome, moleque? - Mas não houve resposta.
ㅤㅤ – Não me ouviu não? Te perguntei teu nome, guri! - O menino se encolheu, mas nada falou.
ㅤㅤ Túlio respirou fundo e conteve Golias, que já estava prestes a dar um tabefe no menino. Ajeitou-se no banco da caminhonete, desta vez ficando frente-a-frente com o menino órfão. Pegou o moleque pelo queixo e o aproximou de si.
ㅤㅤ – Certo. Já entendi. Se quer assim, vamos pelo meu jogo. - E sorriu, deixando seu bafo terrível escapar. - De agora em diante, tu é Carlos. Carlos “Língua Presa”.
ㅤㅤ
ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ~
ㅤㅤ
ㅤㅤ O apelido de chacota não durou mais que alguns meses. Logo, Carlos Língua Presa havia se tornado Carlos Língua Preta, apelido que causara medo nos anos conseguintes. E já acompanhava o Punho, onde quer que ele fosse. O menino de doze anos ou menos tinha os olhos atentos, mas pouco ou quase nada falava. Mesmo assim, seguia fielmente as ordens de seu tutor.
ㅤㅤ Aprendia na prática e na teoria tudo que Punho Firme aprendera sem nenhum professor. Recebia conselhos e dicas sobre como agir na vida. Sobre como mentir e a hora certa de trair. Via Punho Forte honrar sua alcunha ao cobrar a dívida dos que estavam em sua mão, como usava Golias para amedrontar a qualquer besteira que tentassem. O menino tinha um mestre genial do mundo do crime.
ㅤㅤ E ele também tinha o dom.
ㅤㅤ Sempre que Punho Forte pedia para ele intervir, ele agia com uma classe descomunal. Suas palavras, quando pronunciadas, eram tão ácidas e ameaçadoras que faziam até os mais endividados pagarem suas contas com Punho Forte. Ao mesmo tempo, as mesmas palavras era doces e sutis, sempre que era necessário negociar com gente importante. Era dali que sua alcunha mudara para Língua Preta. O comércio de Ponta-Porã, o contrabando de drogas e a cobrança de dívidas foram dominadas plenamente pela mente jovem do garoto.
ㅤㅤ Ele compreendeu como deveria se portar diante de outros nomes famosos, como Juan Del Montevidel, um Paraguaio que chefiava todas as bocas de fumos do outro lado da fronteira. E em que momentos deveria ousar quebrar os tratados que eles fizeram. Entendeu também como deveria implantar o terror nos seus atos, usando de Golias para ameaçar e torturar as pessoas. Assim, acostumou-se a cenas horríveis, como ver um homem preso a uma cadeira enquanto levava pregos nas unhas, e outras coisas do tipo.
ㅤㅤ E Túlio ia, aos poucos, se dando conta de que algum dia, o menino iria até mesmo traí-lo. Uma coisa óbvia. Mas que ele não aceitava de modo algum. Se negava a concordar, pois, em Carlos, Túlio via a única coisa que ele realmente procurava. Um legado. Ele era aquele que iria sucedê-lo. Era para isso que o comprara de Lingote. Em algum lugar atrás dos dentes de ouro e da mente perversa do contrabandista de renome, havia uma fagulha de paternidade que surgira pelo garoto que ele criava, já fazia uns poucos anos. Língua Preta já tinha mais de seis anos juntos de Punho Firme. Ele crescia e tomava fama com facilidade. Ele crescia e roubava a fama de Punho Firme com facilidade. Mas o Punho, começou a afrouxar, e ignorou tudo aquilo. Vivendo o terror mental ao mesmo temo que a felicidade familiar.
ㅤㅤ
ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ~
ㅤㅤ
ㅤㅤ – Caralho! Porra! Cacete! - Xingava sem parar enquanto jogava os papéis para o lado. O último semestre tinha sido o pior de todos que Punho Firme já tivera enfrentado. Uma batida da polícia organizada após denúncia anônima fora feita e ele perdera grande parte de seu estoque de drogas. Também, Juan Del Montevidel declarou oficialmente Túlio como seu inimigo, visto que conseguiram pegar alguns vendedores da droga de Punho Firme na zona de Montevidel durante quatro semanas seguidas. Isso causava uma série de ataques e tiroteios a suas bocas de fumo e aos laboratórios onde ele produzia a droga. Tudo estava indo ralo abaixo, e apenas a cobrança de Dívidas agora parecia sustentar a mansão de Túlio. Mansão feita após anos de contrabando, que agora falhavam cada vez mais.
ㅤㅤ – Que merda. Porque diabos tá acontecendo tudo de uma única vez? Tá tudo caindo pro meu lado, cacete! - Falava consigo mesmo. Um hábito que nunca perdera. - E agora? O que tu vai fazer Punho Forte!? Porque essa merda toda!?
ㅤㅤ
ㅤㅤ Não teve tempo de responder a si mesmo. Todos seus pensamentos se desligaram quando as luzes da mansão se desativaram, assim como o resto da energia. E só então notou: Aquela merda de casa estava quieta demais. Num intuito forte e fugaz, resolveu chamar por Língua Preta. Talvez por acreditar que ele pudesse lhe dizer o que ocorria. Talvez para ter certeza que ele não estava envolvido naquilo tudo. Ou talvez, retida no âmago de sua mente e sentimentos, era simplesmente o fato de tê-lo por perto, diante de um mau presságio.
ㅤㅤ O fato era que, a energia da mansão nunca fora cortada. E quando fosse, haviam geradores no porão. O que levava Punho Firme a pensar que realmente não era tudo tão simples assim. Mal se levantou de sua cadeira no escritório para correr pelos corredores enquanto puxava o celular, a porta se abriu. A figura troncuda de Golias se formava na penumbra.
ㅤㅤ – Hah, Golias! Demorou! Que porra está acontecendo? - Não houve resposta.
ㅤㅤ – Golias! Que houve!? Além de burro está virando surdo? - Novamente, nada.
ㅤㅤ – Não está escutando, maldito!? Me responde, caralho! - E nesse momento as luzes se acenderam novamente. Golias estava na porta, com um pano molhado na boca e um corte aberto na garganta, pela qual vazava seu sangue viscoso. Seus olhos estavam tortos e sem vida, assim como o resto de seu pesado corpo. Ele tombou no chão, ao mesmo tempo que Punho Forte puxara a pistola da cintura, mirando para a porta. As mãos tremiam e ele estava com os olhos arregalados. O pegaram desprevenido.
ㅤㅤ E, um a um, mais corpo foram jogados sobre a porta. Um, dois, três, quatro... Os treze seguranças da ronda caíram mortos, amontoados em cima do grande corpo de Golias. Todos tinham quase o mesmo tipo de ferimento. Ou tiros – que Punho Forte deduziu terem sido disparados com silenciadores – ou com marcas de cortes largos na garganta. Assim que o último homem tombou, começaram a entrar na sala, um a um, os assassinos. Todos usavam óculos escuros e estavam vestidos o mais vagabundamente possível. Túlio sentiu o cheiro de álcool vindo deles, paraguaios imundos. Surgiram cerca de dez homens que entraram na sala e foram ocupando aquele lado da mesma.
ㅤㅤ Punho Firme sabia que não poderia atirar. Um tiro liberaria para que eles acabassem com a raça do Punho. Uma pistola não daria conta de sub-automáticas e tantas outras armas que eles portavam, apenas afastou-se lentamente e apoiou a cintura sobre sua própria mesa. No exato instante em que Juan Del Montevidel surgiu na porta, usando o mesmo terno social apertado e fedido que sempre usava.
ㅤㅤ – Ora, ora, ora. Nunca esperei que seria tão fácil encontrar Fuerte Muñeca.
ㅤㅤ – Tch. - Túlio cuspiu no chão, contendo toda sua raia no range de dentes que só ele ouvia.
ㅤㅤ – Parece que chegou a hora de eu acertar as contas contigo, ninõ.
ㅤㅤ – Não há nada para acertar, Montevidel, leve seus homens embora.
ㅤㅤ – Huh. Usted eres tão maldoso! - E ele fez a melhor cara de escárnio que tinha. Antes de se recompor, num olhar sério. - Acorde, Fuerte Muñeca, tínhamos um acordo e usted não o honrou. É hora de pagar.
ㅤㅤ – Claro. Vai meter bala em mim e não ganha nada. Genial você, Montevidel.
ㅤㅤ – Tch! - Montevidel pareceu claramente se irritar com Punho Firme. Justamente por ele ser firme até num momento daqueles. - Certo! Certo! Se é assim, vamos ver o quanto usted consegue argumentar agora! Tragam el niño!
ㅤㅤ
ㅤㅤ – E quem diria que esse momento chegaria, heim, Punho Firme? - Língua Preta riu alto, saindo do meio do grupo de homens armados que fechavam a saída do escritório de Punho Firme. O Chefão estremeceu nas bases ao ver Língua Preta ali.
ㅤㅤ – E-então, era mesmo v-você, teu pedaço de merda. - Conseguiu gaguejar.
ㅤㅤ – É. Tô aqui pra ver a cena que mais esperei a vida toda...
ㅤㅤ Uma máscara de anos juntos se quebrou naquele dia. E toda a ilusão na qual Túlio vivia desmoronou. Ele sempre sabia da verdade: Não era lógico que Língua Preta fosse sempre leal a ele. Era um garoto que nascera no mundo do crime, e sabia muito bem a ambição que tinha. Ele ensinara tudo ao garoto e agora, aquela era a alforria dele.
ㅤㅤ Mas mesmo assim, mesmo tendo total certeza do que Língua Preta fazia, só agora lhe doía. Só agora seu peito explodiu numa dor que ele mesmo nunca pensava que teria: A dor de perder um familiar importante. Pois afinal de contas, aquele menino que ele criou acabou ganhando uma importância sem tamanho. Mesmo com os tratamentos frios que Punho Firme e Língua Preta mantinham a maior parte do tempo.
ㅤㅤ – Entendi. - Túlio disse por fim.
ㅤㅤ – Entendeu o que, Muñeca!? - E Montevidel riu, mais atrás. - Yo no voy hacer nada mais. Acho que su niño pode terminal o serviço aqui!
ㅤㅤ – Hah, se posso, Montevidel. - Completou Língua Preta, virando-se para trás para encarar o seu aliado. E novamente virou-se para encarar seu tutor. - Bom... Acho que não duvida de mais nada, não é? Abriu seus olhos?
ㅤㅤ – Nem abri nada, cacete. Eles sabiam desde o princípio que este dia ia chegar.
ㅤㅤ – E que dia seria este, Punho Firme?
ㅤㅤ – O dia da sua filha-da-putagem, claro.
ㅤㅤ – Feh. - E riu para si próprio, o garoto. - Certo.
ㅤㅤ – Vamos logo, termina com essa merda.
ㅤㅤ – Quer ser tão rápido assim?
ㅤㅤ – Sim. Vambora, bostinha.
ㅤㅤ – Como desejar. Aqui está... - E as palavras seguintes, Língua Preta sussurrou. De modo que ninguém ouvisse, mas que Punho Firme entendesse claramente com leitura labial. - Minha Lealdade sem fim.
ㅤㅤ Língua Preta retirou do bolso um pequeno dispositivo e jogou contra Punho Firme. No segundo seguinte ele se virou para trás, surpreendendo a todos quando levantou a arma para Montevidel, que arregalou os olhos. Cinco tiros foram disparados contra o corpo do gordo paraguaio, antes que seus capangas agissem, estraçalhando o garoto com tiros.
ㅤㅤ E ali, Túlio não entendeu nada. Ele conseguiria aceitar que Língua Preta o traísse. Era algo que, mesmo duro de aceitar, graças a emoção humana, fazia sentido. Mas agora, ele nunca conseguiria imaginar que Língua Preta morreria e ainda servisse lealdade a ele até o último momento. Nunca iria esperar que o garoto pudesse engenhar um plano tão bom quanto trazer Montevidel e seus melhores capangas para dentro de sua mansão. Um plano suicida, mas genial.
ㅤㅤ
ㅤㅤ – C-c-carlos. - Gaguejou. - L-língua preta, caralho...
ㅤㅤ E nem notou quando alguns tiros começaram a atravessar seu corpo em diversas partes. Não que aquilo importasse muito. Sentiu a dor, mas nada como a dor que acabara de notar: Seu Filho, Carlos, morreu para ele. Antes de receber o quinto tiro de bala, Punho Firme apertou o dispositivo que Língua Preta havia jogado para ele.
ㅤㅤ Uma explosão aconteceu atrás dos capangas e tudo que Punho Firme viu a partir daquele instante; fora poeira, fumaça, destroço e fogos.
ㅤㅤ
ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ~
ㅤㅤ
ㅤㅤ – Tem certeza mesmo, Seu Punho Firme?
ㅤㅤ – Puta merda, Lingote. - E o velho chefão tomou fôlego. - Quer continuar a me questionar?
ㅤㅤ – N-não, é só que....
ㅤㅤ – Vá para o inferno. - E um tiro aliviante foi disparado pelo capanga do velho Punho Firme. E Lingote caiu morto no chão, ao lado de um menino de cabelos desgrenhados e crespos. Túlio já estava velho, mas um sorriso estava mantido em seu rosto, marcado por cicatrizes de explosão e queimaduras. Assim como todo seu corpo parecia debilitado e frágil. Mas Punho Firme ainda sorria. Aquilo o alegrava. E como todos sabiam, o que alegrava Punho Firme, deve ser feito sempre.
ㅤㅤ – Qual o seu nome, garoto? - Não houve resposta.
ㅤㅤ – Certo. Já entendi. Se quer assim, vamos pelo meu jogo. - E sorriu, deixando seu bafo terrível escapar. - De agora em diante, tu é Antônio. Antônio “Língua Presa”.
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sexta-feira, 14 de maio de 2010
Durante Madrugadas
As minhas mãos já estavam cheias de feridas abertas na época. Os professores eram, como sempre, severos ao extremo e a palmatória era fichinha perto do que eu sofria. Ainda mais comigo, o filho do grande Sir Grandford. Mas que diabos eu poderia fazer? Simplesmente não conseguia me manter acordado durante as oito horas de aula diárias que eles davam na escola para filhos de Influentes da sociedade.
Era lógico que tudo aquilo tinha um motivo, e mesmo com meu pai e toda minha família sabendo, eu não tinha nenhum privilégio. E toda noite era sempre o mesmo sofrimento, como se sempre eu fosse o mesmo louco. Sofria de insônia, a doença criava no antro da noite os maiores pesadelos para meus sentidos, não me deixando descansar em paz. E foi numa daquelas noites que eu conheci a alforria para tudo que me fazia mal.
Chovia forte e os trovões cruzavam os céus. Para pessoas normais, era simplesmente uma boa noite de sono, mas para mim, aquilo era a pior das noites da minha vida. As sombras feitas pelos trovões criavam fantasmas no meu quarto e eu só temia. No meu desespero, me encolhi no canto da cama e levantei a vela próxima ao corpo, junto da primeira coisa que havia ali. Folheava as palavras do livro quase sem sentido, tentando achar ali uma escapatória. E, de fato, ali estava ela.
As vozes sumiram, assim como todas as imagens que eu via de madrugada. Tudo porque eu gastava as horas de todas as noites debruçadas sobre os livros. Viajando em histórias mitológicas e fantásticas sobre grandes guerreiros e heróis. Também começava a usar a madrugada para estudar, e assim, com as notas altas, os professores não mais reclamavam de minhas sonecas durante a aula. Os livros me trouxeram a paz, e eu, aos poucos, abracei meu vício. Olheiras eram cada vez maiores, assim como minha pele se tornava frágil e pálida pela ausência da luz. Comia e bebia pouco, apenas me dedicando a leituras cada vez mais complexas.
Foi neste com este contexto que entraram no castelo Grandford. Membros da inquisição, abriram meu quarto e me prenderam, sobre acusações de magia negra e vampirismo. Diziam que eu estava cultuando o negro e o diabo, e o fato de eu já não conseguir olhar para o sol normalmente – devido à falta de costume, e unicamente a isso – assegurou mais ainda os fatos. Eu ouvi gritos de “Vampiro!” direcionados a mim enquanto ardia e agoniava na fogueira. E talvez, fosse isso mesmo. Não é o vampiro que transcende o tempo e o espaço com ajuda de um néctar sagrado chamado sangue? Era eu uma pessoa que transcendia qualquer barreira, com ajuda do meu néctar sagrado: A Leitura.
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Prazeres Devaneios
Não que eu não fosse capaz de sobreviver do jeito que eu era antes. É só que... eu descobri um modo melhor. Meus antigos anos de ouro vieram na época em que eu era tão gentil quanto uma serra elétrica. Em menos de duas semanas meu pseudônimo e meu apelido ficaram conhecidos por todo o Brasil. Eu era nada mais que o “Curupira”. Nunca entendi direito, mas gostava do apelido e me lembrava dele sempre que eu dilacerava uma vítima minha no meio do mato.
Mas todos meus dias de glória terminaram quando o Delegado Prado e seus puxa-sacos conseguiram me encontrar. Pensei que minha posição social pudesse me salvar, afinal de contas. Me jogaram numa sala individual e a prisão se tornou um inferno. Cheio dos gritos de tortura que os presos continham em suas celas cheias. Minha felicidade decaiu. Nunca mais consegui dilacerar ninguém e o prazer por dissecar os órgãos de um ser humano vivo iam aos poucos perecendo, assim como a fúria de um leão que é preso em cativeiro.
Continuaria pura e simplesmente assim, por muito e muito tempo. Se não fosse por aquele milagroso dia. O horário de almoço era sempre algo tenso para os presos de celas individuais. Era um horário em que nós estávamos juntos dos outros presos. Todos sedentos por te matar por seus crimes lá fora. A gororoba era a mesma de sempre, mas já estava me acostumando com aquilo. Estava me acostumando demais com tudo aquilo, tanto que nem percebi quando o ser do meu lado começou a cochichar xingamentos a mim. Os primeiros foram tão baixos que eu nem pude notar, mas conforme passaram os poucos minutos, a intensidade e deboche com a qual ele falava começou a me perturbar exageradamente. Tanto que, enraivecido, ataquei-o. Vocês não sabem como é ótimo ver uma colher de plástico enfiada no olho de alguém que você odeia.
Achei divino a cena e aquilo acendeu quase todos meus ânimos. Até os agentes chegarem, me espancarem e me jogarem na solitária. O cubículo não tinha nada, e um dos guardas, dando risada jogou um livro para dentro da cela, dizendo que seria meu único companheiro por toda minha estadia na cela. Nutrido pelos meus ânimos despertos pelo sangue do outro, peguei o livro e dei risadas enquanto o lia com o pequeno faixo de luz que adentrava a cela. A primeira semana se passou daquela forma, só lia. Lia e Relia “O Mágico de Oz”. Animado. A segunda se passou com eu admirando cada palavra do livro, a loucura tomou conta, impulsionada pela solidão e pela recente matança. E foi com ela que comecei a amar o tal livro. O restos dos dias se passaram da mesma forma, até que fora libertado.
Novamente livre, lia todos os livros que me eram dados com um prazer imensurável. Esqueci do tempo, do meu corpo e do resto de minha vida. E quando menos notei, estava livre. Pronto para ler histórias de livros para homens com sangue no lugar dos olhos e da língua. Minha nova época de ouro havia chegado.
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terça-feira, 23 de março de 2010
Nuvem Bela
- Que deus abençoe suas colheitas, Senhor.
ㅤ ㅤ E com um leve aceno, o Padre Luís despediu-se dos fazendeiros que lhe deram a condução até Nuvem Bela. Não precisou pagar nada, mas em troca do caminho percorrido na pequena carroça, deu apenas a benção para o árduo trabalho daquela família que vivia do que o campo lhe dava. Nuvem Bela ficava mais a frente, era um pequeno vilarejo que surgiu abaixo após alguns passos, Luís fora deixado no alto de um morro, ao qual na sua base ela se encontrava. Um emaranhado de pequenas casas feitas sem nenhuma estrutura mais forte. Talvez uma forte ventania fizesse tudo ali desabar sem muito esforço.
ㅤ ㅤ No meio das poucas dezenas de telhados, duas construções se destacavam. Uma era um grande depósito, que parecia ser consideravelmente mais bem construída. E a outra era a capela, instalada na parte mais ao sul do vilarejo agrícola, sendo a única construção feita com dois andares. Luís passava a maior parte do seu tempo na cidade, e ficou feliz por poder respirar um pouco daquele ar puro. Segurou firme a pequena mala e começou a descer o morro sem pressa.
ㅤ ㅤ Durante a curta caminhada, o sol já estava quase a se ocultar no horizonte, o que deu a Luís uma das visões que mais tarde ele descreveria como uma das mais lindas que já tinha visto: O amarelado brilhante se escondia atrás de umas poucas nuvens, espalhando assim toda sua luminosidade por entre elas, deixando todo o ambiente exuberante. A luz pousava sobre as telhas de Nuvem Bela criando longas sombras estendidas no chão, deixando o vilarejo com um acolhedor ar de fim de tarde. Perdido nesta beleza toda, o Padre mal notou quando estava já chegando as primeiras casas. E só então, notou algo curioso, algo que a beleza do Sol omitiu: Todas as casas estavam com portas e janelas trancadas. E não havia uma viva alma pelos arredores das casas. ㅤ
ㅤ ㅤ Geralmente, aquele era um momento de diversão para crianças. Quando o trabalho chegava ao fim e eles retornavam cansados para suas casas e encontravam os amigos das redondezas. Luís criou várias hipóteses, mas nenhuma lhe pareceu conveniente para a situação. Talvez João saiba de algo. Foi o que seu pensamento finalmente concluiu, e assim seguiu seu rumo até a igreja.
ㅤ ㅤ Conforme a construção surgia entre as casas, Luís fora ficando mais calmo. Não era nenhuma catedral, mas a pequena capela tinha um ar de tranquilidade e paz. E, sentado numa cadeira de balanço em frente a porta de entrada, estava João. Luís alargou um pouco sorriso e foi ao seu encontro para lhe dar um forte abraço. O Padre João não tinha mudado muito desde a última vez que se encontraram, quando ainda nem Servos de Deus sacramentados eles eram. Sua pele morena envelhecera e criara algumas poucas rugas, mas as felpudas sobrancelhas e o sorriso branco ao extremo ainda eram suas características.
- Quanto tempo, meu velho amigo! - João tomou a iniciativa na fala.
- Sim. Sim. Anos sem nem ao menos trocarmos cartas, caro João.
- Quando recebi a mensagem dizendo que viria, preparei nosso quarto de hóspedes da melhor maneira possível. Não é muito grande, mas irá gostar do aconchego de minha pequena capela.
- Ora, João, foi ao seu lado que aprendemos sobre a Beleza do Senhor estar no Abstrato e não no Físico. Sua capela me fez sorrir desde o topo do morro.
- Hah. - E João riu. - Suas palavras me caem como elogios valiosíssimos, Luís. Venha, vamos entrando.
ㅤ ㅤ E assim João abriu a porta de entrada para seu visitante. Entrou e João foi em seguida, fechando a porta atrás de si. Luís pensou ter visto uma cabeça saltar para fora da primeira casa a frente da igreja. Mas a porta se fechou antes de confirmar qualquer coisa.
- Soube que está ajudando o Bispo Miguel. Deve ser árdua sua tarefa.
- Sim, João, algumas vezes chego a pensar se não valeria a pena ir para uma capela numa pequena vila como esta. A vida na cidade cansa e nos deixa cheio de medos indesejados.
- Mas ora, ainda sim, é uma honra estar na presença do Grande Servo que é Miguel.
- Sim.
- Então, se conforme em vir a uma pequena vila apenas quando vier me visitar novamente, está bem? - E Sorrindo, João tomou a mala de Luís em mãos. - Deixe que carrego.
- Como quiser, como quiser. - Fora tudo que Luís respondeu.
ㅤ ㅤ A Capela, por dentro, tinha um ar inesperado. As fileiras de bancos eram impecáveis em madeira nobre, mas não pareciam ser tão usadas como imaginado. O Mosaico na janela atrás do altar refletia uma luz que, naquela hora do entardecer, deixava a figura de Jesus um tanto assustadora. Luís se pegou pensando naquilo e logo em seguida excluiu seus pensamentos negativos, para logo entrar num corredor e seguir João. Decidiu, por fim, puxar um assunto para conversar. O tópico que primeiro lhe surgiu em mente era óbvio.
- Diga-me, João...
- Sim?
- Porque todos da cidade estavam dentro de suas casas? É um costume do local?
ㅤ ㅤ João virou-se para Luís de súbito, como se tivesse sido pego fazendo algo errado. Mas a expressão só durou uma parte de segundo, para em seguida o Padre sorrir para Luís.
- É. Eles dormem muito cedo e acordam muito antes do alvorecer.
- Entendo. Então é por isso que não vi ninguém na minha vinda.
- Exato, meu irmão. Mas eles ainda são Cristãos dos quais me orgulho muito.
ㅤ ㅤ Passaram por um corredor mínimo que tinha apenas três portas. As duas do lado direito não chamaram atenção alguma. Entretanto, a única do lado esquerdo fisgou os olhos do Padre Luís. A porta parecia ter sido feita sob medida para nada acontecer a ela. Tinha cinco travas de chaves que, pelo que Luís conhecia do ofício, eram das mais difíceis de serem arrombadas.
ㅤ ㅤ Seus olhos apenas não comeram mais ainda a porta porque João já o esperava na pequena escada. Alcançou seu amigo e juntos subiram os degraus até o segundo andar, que parecia ser menor que o primeiro. João abriu a primeira porta do corredor e deixou espaço para Luís entrar, com um sorriso na face.
- O melhor cômodo da casa para um melhor amigo.
- Assim me deixa sem jeito, João. - E com um aceno de cabeça entrou no pequeno quarto.
ㅤ ㅤ Não era maior do que um pequeno depósito. Havia apenas a cama, um armário e uma escrivaninha com cadeira. Luís entrou no quarto e sentou-se na cama, relaxando finalmente as pernas que já haviam sofrido muito naquele dia de viagem. João deixou a mala ao lado da cama.
- Vou deixar você descansar um pouco. Daqui umas duas horas o chamarei para o jantar e botamos os assuntos em dia. Acho que poderemos conversar noite adentro.
ㅤ ㅤ Dito e feito, o jantar fora um belo cozido de legumes com carne de boi. João, pelo que contou a Luís na mesa, havia aprimorado suas técnicas culinárias desde que viera morar sozinho naquela capela em Nuvem Bela. O que fora comprovado pelo fulgor com o qual comeram.
ㅤ ㅤ O jantar foi acompanhado apenas por água fresca, e logo depois eles se sentaram na sala de estar e conversaram por um bom tempo. Tanto a cozinha quanto a sala de estar eram as duas portas normais do primeiro andar, mas João nem chegou a mencionar a terceira porta. E também, não houve tempo. Muitas foram as histórias, e Luís descobriu mais um pouco sobre como o vilarejo trabalhava.
ㅤ ㅤ Segundo João, todos trabalhavam nos campos de plantação, que ficavam mais ao leste. A produção era de subsistência e eles apenas comiam o que colhiam. Era uma vila feliz, embora parecesse tão pacata e quieta. Luís também contou sobre seu trabalho, auxiliando o Bispo Miguel com papeis e outras coisas mais burocráticas. Parecia até mesmo que, às vezes, o nome da Igreja se erguia mais como uma instituição financeira do que como a casa que espalha a palavra do Senhor. Felizmente, Luís ainda se mantinha como o que seus pais o moldaram. Um homem Justo e honesto, assim como João.
ㅤ ㅤ Trocaram palavras por mais de quatro horas, até que finalmente, Luís se queixou de cansaço e subiu para dormir. João o acompanhou até o quarto, subindo as escadas da pequena capela, que parecia ser a única que ainda tinha suas velas acesas no vilarejo.
- Durmo no quarto em frente. Caso precisar de qualquer coisa, bata na porta três vezes bem forte e lhe atenderei. Ultimamente meu sono está pesado demais.
- Não acho será desta vez que baterei, João. Meus pés precisam urgentemente de repouso.
- Tudo bem, então durma bem. E que Deus esteja contigo.
- Contigo também, irmão.
ㅤ ㅤ E assim a porta do quarto se fechou e Luís folgou-se na cama. Dois segundos depois e ele estava dormindo profundamente. Fora um dia em tanto para um Padre que normalmente ficava sentado em uma cadeira a maior parte do dia. Teria uma ótima noite de sono.
ㅤ ㅤ Ou pelo menos, era o que queria. Talvez tivesse sido por vontade de Deus, ou talvez tivesse sido por pura coincidência. Luís abriu os olhos no meio da noite, acordado depois de um sonho conturbado que, agora, não se lembrava mais. Seus quase trinta e cinco anos sempre o deixavam com marcas de uma velhice que chegará mais cedo.
ㅤ ㅤ Levantou-se lentamente e pensou em tomar água na cozinha. Mas temeu por acordar João e dá-lo o trabalho de se levantar a toa. Então, ele se limitou a caminhar até a janela de seu quarto. Abriu-a um pouco mais, de modo que pudesse se escorar nela e botou a cabeça para fora, respirando o ar gelado da madrugada. Permaneceu imóvel por mais de cinco minutos, notando alguns pontos da cidade que nunca tinha percebido antes. E foi então que algo tragou a atenção do seu olhar:
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ㅤ ㅤ No meio da Penumbra, um fraco amarelado emanava de uma construção. Luís forçou os olhos até que finalmente pôde notar que era o grande armazém que vira do alto do morro. Uma luz de lamparina estava acesa dentro dele, e agora, com sua atenção voltada à construção, pôde também ouvir cochichos vindo de dentro. A luz fraca e baixa balançava e formava sombras nas pequenas janelas com grade da construção enquanto, ao que pareciam, várias pessoas conversavam lá dentro.
ㅤ ㅤ Padre Luís ficou observando por pouco mais de vinte minutos, até que a luz se apagou. Instintivamente, abaixou-se e ficou no canto da janela a observar: Alguém abriu a porta do depósito e botou a cabeça para fora, olhando para todos os lados, mas principalmente, para a capela. Ficaram daquela forma por um bom tempo, até ganharem coragem e saírem, um por um. Eram oito homens grandes que saíram dali e foram se espalhando pelas casas do vilarejo. Até encontrarem seus lares. Pelo amor de Deus, o que conversavam a esta hora? Era sua pergunta. E iria tirar suas dúvidas na manhã seguinte. Deitou-se na cama e tentou relaxar.
ㅤ
ㅤ ㅤ Quando abriu os olhos, descobriu que tinha dormido demais. Dormido de um sono novamente perturbado. O sol já se manifestava com sua luminosidade para qualquer canto que olhasse. Levantou-se rapidamente vestindo a batina e saiu do quarto de encontro com as escadas. Encontrou João no meio da missa. E por isso deixou para fazer as perguntas depois, e observar primeiro.
ㅤ ㅤ Era uma missa simples, e grande parte dos presentes eram mulheres, pois seus maridos já haviam ido para a roça trabalhar. Mas uma coisa chamou a atenção de Luís: O comportamento dos Fiéis. Eles pareciam estar como quando recebiam broncas dos pais. Quietos e de cabeça baixa, se limitando apenas a responder aos sermões de João. Era como se não quisessem estar ali.
ㅤ ㅤ A missa terminou e todos saíram, enfileirados, sem nenhum ânimo. Não foi uma primeira boa impressão para Luís. Que se encontrou com João logo depois e conversou com ele rapidamente. Numa troca de palavras, João explicou que o vilarejo sempre fora daquele jeito. E que por mais que ele tentasse animar as coisas, as pessoas continuavam da mesma forma. Acabou que, no meio termo, Luís esqueceu-se de perguntar sobre a reunião de madrugada e deixou João partir para suas tarefas sem saciar sua curiosidade. Tratou de tentar esquecer o ocorrido e resolveu, por não ter mais muito o que fazer. Dar uma volta pelos arredores do vilarejo.
ㅤ ㅤ Saiu para caminhar pela porta da frente. Duas mulheres passavam carregando roupas enquanto conversavam no exato instante. Elas, que já estavam afastadas da capela, viraram o rosto para Luís perplexas e logo depois se afastaram apressadas e caladas. O Padre não conseguiu entender nada. Nuvem Bela começava a se tornar um mar de dúvidas para o Apóstolo de deus. Mesmo assim, não desistiu de sua caminhada, ela poderia quem sabe sanar algumas dúvidas.
ㅤ ㅤ
ㅤ ㅤ E fora justamente o contrário que ocorreu. Seus questionamentos só aumentavam conforme ele andava no vilarejo. Caminhava pela trilha de terra, e sempre seus passos chamavam a atenção de todos. Que se calavam e limitavam-se a observar. Quando Luís olhava para eles, desviavam o olhar e continuavam fazendo o que faziam com rostos perturbados. Aquilo já ocorria na catedral onde trabalhava, as pessoas geralmente não gostavam de encará-lo por muito tempo. Mas, ali, em Nuvem Bela, havia um exagero. Não ousavam nem cruzar com ele no caminho de terra.
ㅤ ㅤ Desapontado, consigo mesmo e com o vilarejo, o Padre sentou-se a beira do rio que passava perto do vilarejo. Era graças a ele que as colheitas ali eram boas e fartas. Apoiou-se nos braços e relaxou o corpo, deixando a cabeça pender para trás enquanto respirava calmamente. Ali, encontrou a Paz por um segundo e agradeceu a Deus por ela. Mas como dito, não mais que um segundo. No seguinte, ouviu gritos estéricos de socorro vindos do ponto alto do rio. Olhou para a correnteza dele até avistar quem clamava pela ajuda. Uma pequena garota estava ali, lutando para conseguir respirar e se manter na superfície.
ㅤ ㅤ Luís saltou no rio sem pensar duas vezes e nadou vigorosamente até a garota para salvá-la. A força da correnteza era grande, mas com certeza a determinação do Padre em salvar uma pequena menina era mais. Dez minutos depois, os dois estavam na beira do rio arfando pesadamente pelo ocorrido. A garota não tinha mais que dez anos e vestia roupas de filhos de camponesa. Tinha cabelos longos presos em duas tranças. Assim que teve tempo, olhou para ele para agradecer com um sorrio. Que esmoreceu ao notar as vestimentas de Luís. Um Padre.
ㅤ ㅤ
- Como foi parar ali? - Luís cortou o medo da garota.
- Eu... eu tropecei e caí. - Ela respondeu, se encolhendo.
- Tome mais cuidado da próxima vez. Já pensou o que aconteceria caso...
ㅤ ㅤ Luís parou a fala. A garota estava quase para fugir dele, de tão longe que tinha se postado.
- Pelo amor de Deus. Porque está com medo de mim? Salvei tua vida!
- Eu sei mas...
- E além do mais, sou um Padre. Digo a palavra de Deus, mocinha!
- Eu sei mas...
- Mas?
- Mamãe diz que não devemos nos aproximar dos padres. Dizem que são maus e só servem para nos ameaçar de ir para o inferno.
- Ora! Quanta blasfêmia! Eu pareço mal para você?
ㅤ ㅤ Um longo silêncio se seguiu, no qual a garota parava para analisá-lo. Depois de alguns segundos, ela balançou a cabeça negativamente.
- Então porque me teme?
- Não sei...
ㅤ ㅤ Luís bufou e se ajeitou, sentado.
- Qual o teu nome?
- Alicia.
- Então, Alicia, sou Padre Luís. E diga para sua mãe que eu sou um bom homem.
- Eu... Eu direi!
ㅤ ㅤ E assim ela se postou de pé e começou a correr na direção do vilarejo. Mas antes que se perdesse de vista, virou-se e sorriu para Luís. O primeiro que recebera daquele vilarejo.
- Os líderes da colheita estão decidindo o que fazer. É de noite, no armazém.
ㅤ ㅤ Após dar o voto de confiança a garota voltou a correr. Mal sabia ela que suas palavras não clarearam nada das dúvidas de Luís. Em apenas um dia sua mente se encontrava mais cheia de confusões do que em toda a sua vida trabalhando para o Bispo. Agora, já não sentia confiança em falar com João. Se ele era o Padre designado para aquele vilarejo, as pessoas não deveriam temê-lo. Deviam adorá-lo. As palavras de Alícia zanzaram por sua mente durante o resto do dia. Que fez questão de passar longe de qualquer outra pessoa. Tão desatento que não notou o pequeno vulto a se mover, na outra margem, um tanto distante.
ㅤ ㅤ Quando o sol já vinha a se por, voltou novamente para a capela. João o esperava a entrada, sua cara estava claramente escondendo nervosismo, que se aliviou ao vê-lo surgir de trás de algumas casas. O Padre foi até o amigo correndo.
- Onde estava? Procurei-te o dia todo!
- Parei para descansar, amigo. Foi para isso que vim, afinal. Fiquei as margens do rio.
ㅤ ㅤ João olhou para ele de cima para baixo.
- Parece-me mais que estava dentro dele.
- Hah. - E riu. - Pequenos acidentes me fizeram dar um mergulho. Mas até me ajudou a refrescar-me. Agora está tudo bem, e a batina está quase seca. Vamos entrar, João.
ㅤ ㅤ E dado o assunto por terminado, assim passaram mais uma noite juntos. O Jantar foi delicioso como sempre, e logo depois conversaram por mais algumas horas. Mas não tanto quanto da última vez. Luís tinha planos para aquela madrugada. Ele subiu para sua cama cedo, alegando estar novamente cansado pelo dia fora, e trancou-se no quarto de hóspedes com as luzes apagadas. Não pregou os olhos naquela noite, e após ouvir os passos do Padre João seguirem até o quarto dele, grudou-se na janela de modo a observar tudo sem ser notado. E assim viu a hora em que os homens grandes novamente se moviam para dentro do armazém. Chegavam um a um, se ocultando atrás das casas em volta. O Padre Luís contou atentamente, até que os oito houvessem entrado. Depois, esperou mais alguns minutos para ver se não havia mais ninguém a aparecer. Cautela que fora recompensada. Dez minutos depois, mais um homem veio e entrou no armazém.
ㅤ ㅤ Mais da metade da noite já havia passado e Luís não ouvia mais nenhum ruído dentro da casa. Desceu as escadas com extremo cuidado e suavizava seus passos o máximo que conseguia. A luz no quarto de João estava apagada, ele já estava dormindo. Passou pelo corredor de baixo, pela porta misteriosa que também não tinha luz alguma emanando por debaixo dela. Chegou até a porta de entrada e de lá, saiu para o ar gélido.
ㅤ ㅤ
ㅤ ㅤ Talvez aquele não fosse o estereotipo de todos os padres, mas Luís sempre fora diferente. Seus pais o ensinaram a ser um bom homem e entrara na igreja porque desejava realmente disseminar a palavra de deus. Não era o caso da maioria dos que faziam parte do clero naquela época. Filhos forçados. Padre Corruptos e porcos eram encontrados. Mas Luís sabia que João não era um deles. O que fazia sua curiosidade crescer ainda mais.
ㅤ ㅤ Seus passos cuidadosos sobre a grama baixa renderam uma boa resposta: Lá estava ele, postado ao lado da porta, ouvindo o que diziam ali dentro. Pegou a conversa num ponto alto.
- Temos de fazer algo! Ele pegou minha filha! Foi hoje! Ela não voltou para casa!
- Calma, não podemos fazer nada contra ele porque...
- Shhh! ...Querem que nos ouçam? Falem baixo!
- Como posso falar baixo!? Nunca participei desta reunião, só estou aqui por minha filha!
ㅤ ㅤ Luís concluiu claramente que aquele era o nono a entrar. O que não estava nos planos.
- Tenha calma. Muitos já sofreram o que você também sofreu.
- E nada foi feito! Já está na hora de acabar com isso! - Retrucou ele.
- Não vou me arriscar! Não quero passar a eternidade no inferno! - Disse uma voz.
- Ele sempre diz as mesmas coisas. Que leva os que escolhe para o caminho de Deus. E que aqueles que vão contra, devem sofrer nas mãos do Diabo! E depois disso, nunca mais sabemos onde estão nossos pobres filhos!
- Vamos nos levantar contra ele.
- Vamos!
- Não! É arriscado demais.
ㅤ ㅤ Aquilo já era demais. Um baque potente contra sua mentalidade. João? João está fazendo coisas deste tipo? Impossível! Sua mente caducou, enquanto ele pensava e voltava para casa com os mesmos passos sofridos. Já ia se virar para subir as escadas da entrada da capela, quando notou algo que não notara antes: Vindo de trás da capela, uma luz tênue chamava a atenção de seus olhos. Um impulso o mandou seguir a luz e ele redirecionou seus passos. Nunca havia ido até o fundos da capela. Botou os olhos ali atrás e viu uma porta, da qual a luz saía por uma janela embaçada.
ㅤ ㅤ Luís demorou apenas poucos segundos para mentalizar um esboço de mapa da capela na mente. Aquela sala ali só poderia dar a um lugar: A sala misteriosa do primeiro andar. A sua curiosidade agora já não era contida. Talvez porque sua mente já não trabalhava direito. Palavras e imagens surgiam e desapareciam dentro dela deixando o pobre Luís a beira da loucura. Quando deu-se por si. Lá estava ele, correndo irrefreado contra a porta.
ㅤ ㅤ
ㅤ ㅤ Escancarou-a com um só chute. Abrindo para seu interior. Abrindo também, para o interior de sua própria mente. Para fragmentos esquecidos. Ali dentro encontrou João. A Sala era iluminada por quatro lamparinas postas nos cantos da sala, uma grande mesa retangular se estendia pelo centro do cômodo, fincadas nela haviam diversas facas de vários tipos e tamanhos. E em frente a ela estava João de costas para a porta. Não se virou com ela se arrebentando. Não podia se virar, afinal de contas. Luís tremeu ao olhar em volta.
ㅤ ㅤ Aquele pequeno cubículo tinha um ar tenebroso e cheiro de carniça chegou as suas narinas assim que deu o primeiro passo para dentro dela. Seus olhos se adaptaram a nova luminosidade e então, notou a abundância horrível: Sangue. Havia sangue para todo o lado ali dentro. O líquido vermelho pingava do cando da mesa e ia formava enormes poças pelo chão do lugar.
ㅤ ㅤ
- João!?
ㅤ ㅤ O Padre não respondeu ao amigo de imediato. Ficou de costas por um bom tempo, rindo para si mesmo enquanto seus ombros grandes mexiam em sincronia com as gargalhadas. Até que se virou. O Padre nem de longe parecia um servo de Deus. Mantinha agora seu rosto frente ao amigo. A barba estava má cortada, e seus olhos arregalados ao máximo, junto a um cínico sorriso.
ㅤ ㅤ
ㅤ ㅤ
ㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ~
ㅤ ㅤㅤ ㅤ
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ㅤ ㅤ[b]A barba estava má cortada, e seus olhos arregalados ao máximo, junto a um cínico sorriso. [/b] João não parava, não importa o quanto o jovem Luís chorasse.
- Pare, João! Pare com isso!
ㅤ ㅤE a única resposta que o pobre discípulo da Igreja tinha eram as risadas daquele que tinha se declarado seu amigo. E agora o aprisionava no porão do monastério. O rosto estava vermelho de tantas lágrimas que ele já tinha derramado, mas agora, já não sentia a dor. Apenas a dormência. Também, evitava olhar para qualquer coisa que não fosse a face de João em cima dele. Ao olhar para o lado, se deparava com o que havia de mais horrível. Suas mãos e pernas acorrentadas com grilhões vermelhos em brasa. As queimaduras só aumentavam e se intensificavam pelas costas do homem estarem apoiadas na grande fornalha que aquecia o monastério. Mas a dor já não era grande. Não a dor física. Maior era a dor emocional. Porque Justo João?
ㅤ ㅤ
- Pare.... Pare.....
ㅤ ㅤ
ㅤ ㅤTentou implorar uma última vez. E daquela, obtivera uma resposta.
ㅤ ㅤ
- É apenas a vontade de Deus. Luís.
ㅤ ㅤ
ㅤ ㅤE antes que mais algo pudesse ser dito, João o virou. Um novo grito agudo de dor ecoou pelo porão. Mais um grito que não poderia ser escutado. Agora, o que queimava era seu peito, ardia em chamas em contato com a fornalha. Novas lágrimas se formaram, usando o que restava delas. Sentiu as roupas serem rasgadas e uma dor fulgurosa invadir-lhe pelo reto. Mas nada que fosse pior ao sentimento de traição e as queimaduras.
ㅤ ㅤminutos depois, mais nada ele podia sentir. João o deixou ali e ele apenas desejava esquecer tudo aquilo. Desejou tanto que, após ser socorrido por um Padre que conferia o estoque de vinho, deletou a imagem de sua mente. Fazendo com que João voltasse a ser apenas o amigo de sempre. Fazendo com que as queimaduras desaparecessem, em meio uma ilusão de si próprio. Fazendo com que toda aquela noite fosse apenas um sonho. Um Pesadelo que o perturbaria em poucas noites.
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ㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ~
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ㅤ ㅤLembrou-se de tudo. Luís. O pesadelo que o acordara, um dia antes agora estava claro em sua mente. E não era ilusão, fora seu passado. Aquilo que quis esquecer e agora veio a tona. Agora já sabia porque as pessoas se afastavam dele, podia novamente ver as queimaduras que lhe cobriam todo o corpo, incluindo a face, pulsos e mãos. E agora, podia ver o verdadeiro João em sua frente. O cínico. O odiável. Veias de raiva saltaram de seu corpo e ele avançou contra João pegando a primeira coisa que pudera pegar: Uma cadeira que estava ao lado da porta. Quebrou-a contra o lado direito de João que fora jogado sem nenhuma resistência pra um canto. Batendo em alguns barris, que envolviam toda a sala.
ㅤ ㅤOlhou novamente para aquele que se dizia Padre. João estava enlambuzado de Sangue até a face. Em suas mãos, ele carregava as tripas de uma pobre menina que não fazia idéia de quem era, mas cujo pai agoniava no armazém mais ao lado.
- Você nunca foi meu amigo, crápula sinistro!
- Claro que fui, Luís! Fiz apenas a vontade de Deus!
- E desde quando isto é Deus!?
- Desde que ele falou comigo.
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ㅤ ㅤDesistiu de conversar. João não estava mais simplesmente descontrolado. Ele era um louco. E alguém precisava dar um fim nele e naquele sorriso demoníaco. Atacou com os restos da cadeira contra ele. Mas daquela vez o moreno reagiu, rolando de lado e passando uma rasteira contra Luís, que caiu bruscamente no chão. João agiu mais que rápido, levantou-se e pegou uma faca de serra que estava fincada na mesa. E antes que mais alguma coisa pudesse ser feita, avançou contra Luís com a faca em punho.
ㅤ ㅤO Padre se defendeu como pôde, colocou uma mão em frente ao rosto, bem na frente de onde a lâmina iria trespassá-lo. E assim, a faca atravessou sua mão. Gritou agoniado de dor, mas manteve seu raciocínio. Chutou seu algoz brutalmente. João perdeu o fôlego e caiu para trás soltando a faca. Rapidamente, o Padre puxou a faca de serra de sua mão e fincou-a contra Luís. A lâmina atravessou a perna dele e travou no chão do cômodo. O moreno urrou numa mescla de alegria e dor.
ㅤ ㅤAgora não era mais hora para se conter. Rapidamente Luís puxou mais duas facas da mesa, que estava ao seu lado e afundou-as contra João. As lâminas trespassaram, respectivamente, o calcanhar e uma mão e também afundaram no chão. Mais gritos eram emitidos furiosamente do Padre Assassino que agora formava poças de sangue no chão que se juntavam com as das suas vítimas. Ele já não podia se mover. Não sem um pulso e com o calcanhar de Aquiles sangrando fervorosamente. Luís sorriu, com o mesmo cinismo de João e puxou mais uma faca.
- Vá ao seu Deus, João. Que o Diabo o carregue!
ㅤ ㅤE assim afundou a última lâmina no meio da cabeça de João. Seus olhos estavam arregalados e um sorriso mergulhado em sangue estava formado na sua face. Ele morrera do jeito que desejou: Da mesma forma que suas vítimas. Luís ficou postado em frente ao corpo dele, observando-o por alguns longos minutos, até finalmente desmoronar apoiando-se em um dos barris ao lado.
ㅤ ㅤO Barril mal colocado saiu do lugar e tombou no chão, abrindo sua tampa e despejando seu conteúdo no chão do lugar, além de recair parte sobre o próprio Luís. Dentro do barril, havia muito sangue, e mergulhado nele, partes de corpos humanos. Todos pertencentes a uma mesma criança, cuja a cabeça fora a última a sair do rio de sangue do barril, partida ao meio. Luís alargou o sorriso de loucura que formava um bolo na sua mente e olhou em volta. Haviam dezenas de barris idênticos naquele lugar. Aquilo não era seu lugar. Ele... Ele precisava sair dali.
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ㅤ ㅤPressionou o pano sujo da roupa contra a mão e começou a mancar em direção a saída. Já estava para respirar o ar fresco que tanto desejava, quando uma voz saiu de dentro da Sala. Bem atrás de Luís.
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- Você disse que era um bom homem.
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ㅤ ㅤE logo em seguida uma dor aguda se formou nas suas costas e percorreu todo o corpo. Uma longa faca de cortar porco perfurou seu corpo. Luís empalideceu e se ajoelhou enquanto o sangue começou a jorrar de sua boca, junto de lágrimas dos olhos. Ainda teve forças de olhar para trás.
ㅤ ㅤAli estava Alicia, com as roupas com as quais vira naquela tarde. Mas as roupas estavam rasgadas e ela estava com o peitoril nu. Um buraco se fazia no meio do abdômen, do qual as tripas que faltavam estavam impregnadas nas mãos de João, morto mais atrás. Ela tinha marcas na face. Marcas de vermelho de tanto chorar. Mas diferente dele, ela não pudera nem gritar, com um pano na boca que retirou instantes depois de Luís aparecer. A mente de Alicia não estava mais nada bem. Para ela, agora todos os padres eram João. Eram assassinos estupradores. E assim ela considerou Luís que a salvou. O Padre, cheio de cicatrizes de queimaduras estendeu a mão para acariciar a face da menina, mas sua mão não a alcançou a tempo. Mais de cinco forquilhas perfuraram suas costas. Atrás dele, estava uma multidão enraivecida. Que havia finalmente aberto o olhos para aqueles Padres malvados.
ㅤ ㅤAlicia fora salva a tempo e viveu feliz. Teve filhos e uma vida normal depois do incidente. Embora sempre se encolhesse ao ouvir qualquer coisa vinda da igreja. O resto do vilarejo. Nuvem Bela, se orgulhava de seu povo. Daqueles que confrontaram a igreja e os dois Padres do Demônio. João e Luís.
Leia até o fim...