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ㅤI – Cinzas do Passado
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ㅤㅤ Depois de tanto desejar se ocultar na escuridão, lá estava Januário – de boca seca e olhos vidrados no nada – desejando, agonizante, por um feixe de luz. Mais a frente, na mesa suja e cheia de garrafas de pinga vazias, jazia ela.
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ㅤII – Tentativas do Presente
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ㅤㅤ Querida Mariana,
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ㅤㅤ (Largou a caneta, respirou fundo. Havia pouca tinta e tinha certeza – ou queria ter a certeza – de que ela não terminaria aquele escrito. As folhas, amareladas, eram as últimas da gaveta. E, bem no fundo, Januário sentiu que não haveria mais cartas. Alcançou novamente o objeto e pôs-se a escrever.)
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ㅤㅤ Esta será, provavelmente, a minha última chance de atar os nós que, há muito tempo, eu deixara soltos. Agora que já não reflito, reviso e reescrevo meus escritos; tenho a total certeza que tudo o que está escrito aqui sou simplesmente eu. Não minha máscara porca e imunda, não minha técnica na escrita; será simplesmente eu, Januário Lopes.
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ㅤㅤ Para que possa entender com exatidão toda a complexidade das minhas palavras, Mari – se é que posso ainda chamá-la assim –, devo começar onde todos os romancistas tradicionais geralmente começam: Pelo início.
ㅤㅤ Será que você, por ventura, é capaz de se lembrar de como nos conhecemos? Da maneira com a qual, naquele bar de Jazz da zona norte, nós nos cumprimentamos e trocamos aqueles olhares tão íntimos, apresentados um ao outro pelo camarada Batista? Pois, se sim, eu posso dizer que estas memórias que carrega consigo, eu também levo dentro do que resta da minha alma. Aquela era uma época em que eu realmente era feliz. O Batista, hoje me pergunto se foi realmente uma benção na minha vida, estava arrumando tudo para mim com todas as editoras onde tinha contatos. O nome “Olive Golden” começava a aparecer cada vez mais nos cadernos B dos grandes jornais do país, meu pseudônimo virou uma febre entre os adolescentes que – tão crentes de lerem um célebre e jovem escritor norte-americano, que só fora descoberto no Brasil – faziam a questão de espalharem a minha literatura comercial de todas as formas possíveis.
ㅤㅤ E, depois de três livros entre os mais vendidos dos escritores nacionais da atualidade, você me surgiu. Uma luz na minha vida, que servia um café adocicado nas minhas madrugadas insólitas e me dava sorrisos em momentos que eu nunca cogitaria ter dado um. Casamo-nos um ano e meio depois de termos total certeza que fomos feitos um para o outro; e, três anos depois, tínhamos uma casa longe da correria da grande São Paulo, o carro do ano e uma poupança de dar inveja em muitos. Mesmo eu podendo bancar tudo, Mari, você ainda queria trabalhar. Seu ofício como bancária sempre fora um fardo para você, eu bem sei. Mas hoje eu agradeço por você não o ter parado por nada. Ao menos assim eu retirei um dos pesos dos meus ombros, em saber que, ao nos separarmos, você viveria bem.
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ㅤㅤ Mais um ano destes segundos tão valiosos se sucedeu, meus livros já tinham perdido aquela fama – como toda boa febre adolescente –, mas mesmo assim vivíamos bem e ríamos. Eu me lembro bem daquela noite, minha querida, aquela na qual saí com Batista para uma prosa descontraída e algumas latinhas de cerveja. Cheguei em casa tarde, mais de onze da noite, tenho certeza, mas você me esperava na sala. Os cachos castanhos levemente caídos para a direita e os olhos selados num leve sono. Fechei a porta com cuidado para não acordá-la, sem sucesso algum. Você abriu os olhos e, quando eu pensava vir uma reprovação pela minha tentativa de vida boêmia, sorriu para mim de um jeito inesperado.
ㅤㅤ Não preciso dizer o quão desconsertado fiquei, preciso? Levantou-se do sofá com uma leveza com a qual nunca vira se mover, e, com um derradeiro amor, você me teve nos braços. “O que foi, Mari?” perguntei, provavelmente sentiu o hálito forte que tinha. Demorou-se a me responder, apenas aconchegando seu corpo tão pequeno ao meu. Num misto de serenidade e alegria, “Estou grávida”, você me disse. A notícia no início me veio como um tapa, pegou-me desprevenido. Mas, como todo tapa de um casal no auge de seu amor, o tapa veio seguido se um aconchego, de uma reconciliação e de uma confirmação: De que você viera para ficar para sempre na minha vida. Ah, Mari, como eu gostaria de novamente beijá-la como a beijei naquele momento. Com tanta emoção no peito.
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ㅤㅤ (Deixou a cabeça cair sobre os braços, e, com toda a saudade do mundo, Januário se deixou chorar lágrimas de redenção. Mariana, como queria ter continuado a ficar com ela. O desalento aumentou e o escritor falido pouco notou das lágrimas que borraram o papel.
ㅤㅤ Conteve o grosso das gotas do passado e agruras do futuro e levantou a face. Precisava terminar o que se comprometera a começar mais uma vez.)
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ㅤㅤ Meses se passaram rápido, eu vivia agora numa alternância entre cuidar de vocês duas e cuidar de mim mesmo, de meus escritos. Passávamos por uma fase um tanto difícil, economicamente falando, os contratos com algumas editoras se encerrara e elas não quiseram renová-los. Também as idéias pareciam não fluir tão bem como antes. Mas eu pouco percebia daquilo tudo. Para mim, só bastava amá-la. Mimá-la. Ríamos sem motivo e passamos muitas noites em claro, apenas deitados abraçados e conversando sobre nossa querida Amanda. Era um hábito que tínhamos ganho havia pouco tempo, uma vez que eu já não passava noites em claro na frente de um teclado.
ㅤㅤ Nos mudamos para um apartamento, vendemos nossa casa para podermos ter uma nova que se adaptasse para nossa filha. Na realidade, nós dois sabíamos que nos desfizéramos da casa para que pudéssemos devidamente comprar tudo o que fosse necessário para nossa pequena; Amanda seria filha de pais felizes e atenciosos.
ㅤㅤ E, foi só então que ela nasceu. De parto natural, numa madrugada de segunda, ela nasceu.
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ㅤㅤ (Levantou-se um pouco e caminhou com passos pesados pela pequena sala. Por um momento, ele deu graças por toda a bebida alcoólica ter acabado. No momento seguinte, sentiu-se desgraçado em confessar para si mesmo que queria ter ao menos mais um copo de vodka.
ㅤㅤ Coçou a barba mal cuidada e sentou-se na cadeira novamente.)
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ㅤㅤ Aquela foi a segunda época de ouro de nossa vida, não foi, Mari? Cada segundo após o nascimento de Amanda foi pensando apenas nela. As roupas, os móveis, o carinho, o amor. Ficávamos quase o dia todo juntos, tanto, que mal notara que já não escrevia nada que prestasse havia vários meses. As contas que se atrasavam, eu pensava na época, podiam ser resolvidas depois. Eu mal me lembrava que já não tinha mais contratos e que a comissão pelas vendas de meus livros já eram uma mixaria.
ㅤㅤ O pior, é que senti tudo isso da pior maneira, tudo de uma vez. Estávamos caminhando no parque, nossa Amanda tinha quase dois anos e agora dava seus primeiros passos livres, saltante e dançante. Nós caminhávamos todos os dias, era uma atividade tranquila e revigorante – além de não tão caro. A pequena correu um tanto para longe de nós, saindo de nossa vista momentaneamente, seu aviso de desaprovação de nada serviu. Quando corremos para acompanhá-la, lá estava ela. Amanda estava parada na frente de uma pequena loja no meio do parque, uma loja que vendia souvenirs e pequenos itens. Os olhos da pequena estavam presos num ursinho de pelúcia, olhos de quem se apaixona.
ㅤㅤ Alcançamos nossa filha e ela se virou para nós com uma calma espetacular, um segundo depois, apontou para o ursinho e tentou, naquelas palavras tão doces e carinhosas, dizer para nós que o desejava. Movido pelo puro impulso de alegrar minha garota, entrei na loja e apontei o item. A funcionária fora rápida em alcançá-la e logo estava pagando por ele no caixa.
ㅤㅤMari, como eu desejava que aquilo não tivesse acontecido. O cartão de crédito não foi aceito com um “limite estourado” piscando na tela do aparelho. Quando virei-me para fora da loja, lá estava ela, no meio de suas pernas, toda esperançosa. Eu nunca pude me esquecer do seu olhar de tristeza quando disse que não podíamos levá-lo naquele momento. Prometi a mim mesmo que viria outro dia só para pegá-lo para Amanda.
ㅤㅤ Todavia, querida, este dia não chegou.
ㅤㅤ Quando chegamos em casa, depois do passeio, descobrimos que a luz fora cortada pela falta de pagamento. O terceiro aviso de pagamento do aluguel do apartamento estava caída na entrada, e a montanha de contas nos recepcionou, com a caridosidade do vento da janela que deixamos aberta, jogada por toda a sala.
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ㅤㅤ (Deixou seus olhos passearem pela sala, aquele pequeno quarto em que morava agora não era nada, comparado ao apartamento em que vivera com Mariana. Comparado à casa em que moravam, ainda antes. Olhou para a caneta, ainda havia bastante tinta. Teria de terminar.)
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ㅤㅤ Por cerca de um mês inteiro, eu tentei voltar a escrever. Voltar a fazer dinheiro com a minha literatura, para que não pagássemos todas as contas com o seu puro esforço no banco. Fora um mês inteiro de frustração, e, quando eu notei que nada iria sair, vi-me com Batista novamente. O velho amigo, que agora raramente víamos, chamou-me para sair, para relaxar um pouco, por conta dele.
ㅤㅤ Carente de consolo, aceitei o convite de minha danação. Naquela noite, bebi tanto que Batista sentira-se culpado em chamar-me para sair. Minha cabeça girou, pensando em tudo que eu tentava não pensar, pensando em tudo que eu tentava pensar em, pensando em tudo. E, cambaleante, Batista me deixou há uma quadra de casa.
ㅤㅤ Foi exatamente ali que encontrei-o. Quando tentava discernir qual era a chave que abria a porta de entrada do bloco, deixei minha percepção porca notá-lo, um metros atrás de mim. O homem de pele branca e roupas desgastadas me observava com uma calma aterradora. Seu olhar tão cheio de nada me fez levemente estremecer, assim como toda a aura de terror que ele parecia emanar. Nervoso, esbravejei qualquer coisa.
ㅤㅤ "Vim porque nós podemos fazer bons momentos juntos”, ele respondeu. “Porque eu sei algo que aliviaria sua tensão”, ele respondeu. Naquele primeiro encontro, deixei-o falando sozinho e entrei em casa. Acabei discutindo com você, e tenho a leve impressão que Amanda vira tudo, do pequeno vão aberto na entrada de seu quarto. Dormi caído no sofá da sala.
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ㅤㅤ Depois daquele dia, resolvera sair para beber sempre que me sobrava dinheiro. O pouco dinheiro que eu recebia de comissão por livros vendidos rendia-me a saída alternativa para os problemas em goladas doloridas e boas. E era sempre nesses momentos que ele aparecia, aquele homem pálido. “Me chamo Macedo”, disse um dia, “Sou um homem de mau com a vida, assim como você”. E, aos poucos, eu acabava dando corda para conversas com ele.
ㅤㅤ Pelo que me dizia, ele também já tivera muito e agora nada tinha. E insistia que agora era um homem feliz, por ter conseguido sua “válvula de escape”, como ele mesmo disse. Eu sei, Mariana, que nunca me ouviu falar nada de Macedo, mas eu realmente não sabia o que falar. Ele era diferente, os olhos dele eram hipnotizadores, incitavam-me para cair em sua ladainha.
ㅤㅤ Nossas conversas, querida, já eram sempre piores, sempre discussão, sempre brigas, e o choro alto de Amanda mostrava que ela sabia bem do horror em que estávamos entrando. E a dor de culpa por estar sendo um péssimo pai fazia-me sair de casa para esquecer dos problemas. E lá, sempre estava Macedo. Fui cedendo a suas persuasivas, a cada golada aquilo se tornava mais agradável, se tornava mais excitante. E foi numa noite de sexta feira que decidi aceitar o convite dele. Naquela noite, Macedo fez-me tomar uma garrafa a mais de pinga, que me fizera perder por completo a noção de espaço e tempo.
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ㅤㅤ (Quando relembrara daquelas cenas, um calafrio cruel e cheio de espinhos lhe subiu o corpo.)
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ㅤㅤ Quando o peso da sobriedade caíra sobre meus ombros, eu já tinha o feito. E, ao contrário do que imaginava – no antro de minha sensatez abalada –, não me sentira mal. Voltei para casa quase ao amanhecer, com um sorriso na face. Beijei você, Mari, contra a sua vontade e fedendo a álcool. Eu tirara toda a tensão de mim, e é difícil explicar o porque. Talvez, por eu ter feito algo tão pior do que simplesmente ser um mau marido e mau pai, eu agora me sentia disposto a encarar minha vida.
ㅤㅤ Naquele dia, quando acordei, barbeei-me como a muito tempo não fazia. Limpei a língua das camadas de álcool impregnadas nela e abracei-a com amor. “Que passarinho verde você viu?”, você me disse, ainda surpresa pelo bom humor que eu tinha. Ainda naquele dia, sentei-me na frente de minha escrivaninha e produzi como há muito tempo não fazia. Talvez meus atos me dessem idéias, talvez o fato de ter extravasado minhas angústias tivesse me dado a calma para produzir minha inspiração novamente. Tinha todo um romance pela frente. E, para todo ele, eu decidira fazer do uso de Macedo.
ㅤㅤ Assim que a irresponsabilidade debruçava-se sobre minha alma e eu sentia-me novamente um completo nada, ia ter com Macedo. Sempre o encontrava por lá, perto do boteco, com uma nova roupa velha e seu olhar penetrante. Todo aquele jeito nefasto e cativante, e a ilusão que ele fazia na mescla daquela dança de palavras com a dança das bebidas, me faziam a cabeça novamento. Novamente, via-me entretido com as maiores atrocidades que pensava nunca cometer, desgastando todo o meu prazer anormal e toda minha tensão em quem mal merecia. Macedo sempre estava por perto, sempre cuidava para que nada me interrompesse. Também, era ele quem limpava tudo e não deixava rastros para ninguém. Fazia tudo com uma perfeição milimétrica.
ㅤㅤ Mas, mesmo assim, eu sentia que ele próprio não estava satisfeito por completo. Seu olhar macabro parecia pedir por mais, sua pele branca contorcia-se num sorriso mal cuidado sempre que chegava no ápice de meu ato, mas não era um sorriso verdadeiro. Eu sabia que Macedo algum dia iria mandar-me fazer algo inusitado, iria convencer-me a fazer algo inusitado. E, com todos aqueles planos arquitetados, eu bem sabia que Macedo seria capaz de muito para atingir seus desejos.
ㅤㅤ Mas eu não ligava.
ㅤㅤ Mari, você se acostumou, lembra? Eu quase sempre estava feliz, e algumas editoras menores começaram a aceitar meus trabalhos. Meu pseudônimo americano foi deixado de lado e iniciava-me com meu próprio nome, Januário Lopes. Dois livros de contos e um romance já publicados e um bom dinheiro entrando. Parecia que estávamos reconstruindo nossa vida do zero.
ㅤㅤ E só naquele ponto eu notara o quanto Amanda pareceu diminuir no meu conceito. Não que eu não a amasse, claro que amava, era minha querida e amada filha. Mas, não sei porque, os momentos que passávamos com ela já não eram tão agradáveis e rápidos. Suas falas bonitinhas não me cativavam como antes. Naquela época, ela já tinha seis anos e ia para o colégio infantil.
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ㅤㅤ Foi quando coloquei um “Fim”, num novo romance, que Macedo fizera o impensável. Os minutos que se sucediam aos meus escritos eram sempre os piores, os mais terríveis e carrascos. Para não cair na armadilha de ter de procurar Macedo, eu geralmente procurava dormir depois que digitava meus textos. Mas, naquele dia, a campainha tocou.
ㅤㅤ Era no meio da tarde, nossa pequena estava no colégio e você, Mari, estava trabalhando. Macedo entrou para dentro da casa logo que abri a porta. Era a primeira vez que ele estava ali, e por instinto, fechei a passagem. Ele não era digno de estar na minha casa. Na verdade, eu também não era, mas isso eu sempre ignorava. Contudo, mal pude pará-lo. Ele me segurou pelos braços e vi no seu rosto uma expressão alegre e diferente. “É hoje, Januário”, ele me disse com entusiasmo.
ㅤㅤ "Faremos mais uma vez, já preparei tudo para você. Vamos para o bar, nos distrair até dar o horário”, ele disse, “dessa vez é incrível, você vai amar de verdade. Vamos, Januário”. E, quase por pura pressão dele, saí de casa e entreguei-me aos tragos novamente. Duas horas depois estava bêbado e insensato de todos os meus atos, movendo-me puramente pela minha ânsia de ser ainda pior do que sempre era. O local que ele escolhera fora realmente incrível, um casebre de madeira discreto e um tanto isolado. Foi ali que aconteceu. Fiz novamente.
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ㅤIII – Agruras do Futuro
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ㅤㅤ Depois de tanto desejar se ocultar na escuridão, lá estava Januário – de boca seca e olhos vidrados no nada – desejando, agonizante, por um feixe de luz. Mais a frente, na mesa suja e cheia de garrafas de pinga vazias, jazia ela. Amanda estava morta, as pernas abertas e o sêmen do próprio pai saindo de suas partes íntimas nunca antes violadas. O novo pseudônimo, Pedófilo Maníaco – que a mídia dera a ele desde seu segundo assassinato daquela forma –, nunca fora tão pesado. A marca de seus dedos envoltos na garganta de sua tão amada filhinha fizeram doer seu peito.
ㅤㅤ Agora não sentia-se aliviado. Não poderia mais viver sua vida miserável, não era o consolo de poder ser pior que o faria viver bem. Ele já era o pior, tanto para ele, quanto para sua família. A sobriedade, daquela vez, fora cruel ao extremo com o pobre Januário. Dera a ele a visão de sua filha, mostrara como ela debatia-se com um horror na face, horror provocado pelo próprio pai, bem na frente de seus olhos.
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ㅤIV – Torturas do Sempre
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ㅤㅤ ...foi por isso, Mariana, que eu nunca fui o mesmo depois que a encontraram naquele casebre. Eu já não tinha forças para continuar, a minha alma foi roubada, e apenas um resquício de culpa incrustado numa pequena faceta dela fora deixada para trás. Sou eu, Mariana, o assassino de nossa querida filha.
ㅤㅤ Nunca te dei o devido consolo, nunca apartei suas noites chorando na sala, nunca abracei-a quando, simplesmente do nada, você se ajoelhava e começava a chamar pela nossa filha. Mas, como eu podia? Seria hipocrisia minha, seria não ser quem sou. O vício pelo álcool aumentou dentro de mim, e, mais do que nunca, aquela parecia ser a saída mais fácil, mais simples.
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ㅤㅤ Fiquei realmente feliz quando pediu o divórcio e saiu de casa. Fiquei feliz por você, por saber que estava tentando reconstruir sua vida de alguma forma. E, agora, é quase uma tortura para mim tentar te trazer de volta um sofrimento tão maior. Esse foi um dos motivos, Mari, por eu nunca ter conseguido enviar uma de minhas cartas para você. Todas minhas tentativas terminaram em chamas e, por conseguinte, cinzas. Já foram tantas que me perco na poeira do meu lixo que nunca tiro.
ㅤㅤ Já pensei em tantas formas de te contar que me dói pensar que usara de minha técnica literária para um eufemismo hipócrita. Uma música, sete poemas, incontáveis cartas anônimas; e agora eu me deparo com a primeira vez que tento escrever-lhe, sendo eu mesmo.
ㅤㅤ Mas ontem, quando fiquei sabendo que você e Marcos vão ter um novo bebê, algo em mim mudou. E, novamente, eu tento escrever para você. Esta é minha última tentativa de contar a verdade, e, caso eu realmente consiga enviar estar carta, saiba que agora que a lê, eu estarei morto. Tirarei minha vida de desgraça.
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ㅤㅤ Peço sinceras desculpas por trazer à tona tanto horror. E espero que prossiga bem com sua vida. Ainda penso em você, sempre pensarei, como sendo meu eterno amor.
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ㅤㅤ Ass. Januário Macedo Lopes.
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ㅤV – Cartas do Nunca
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ㅤㅤ Depois de tanto desejar se ocultar na escuridão, lá estava Januário – de boca seca e olhos vidrados no nada – desejando, agonizante, por um feixe de luz. Mais a frente, na mesa suja e cheia de garrafas de pinga vazias, jazia ela.
ㅤㅤ As cinzas foram levadas por um vento que entrou pela janela e a carta antes intacta desfez numa pequena nuvem cinza pelo quarto. Januário bebeu mais um gole da vodka barata, enquanto tinha os músculos dos ombros levemente massageados.
ㅤㅤ – Você fez bem, querido. - Dizia Macedo, para ele, em sua presença aparentemente espectral – Você fez bem.
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ㅤㅤ Januário olhou para a gaveta e viu uma última folha de papel amarelado. Talvez, houvesse uma nova última tentativa em breve. Caso ainda houvesse tinta na caneta.
Leia até o fim...
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
Destino Desatino
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
Moeda
ㅤㅤ I
ㅤㅤ - Thomas? Thomas? Pode me ouvir, Thomas? - A voz desesperada vinha destorcida e longínqua. - Thomas, caso esteja escutando a minha voz, tente pressionar minha mão. Você a sente, não?
ㅤㅤ Pseudoconsciente e perdido, decidiu seguir os pedidos da voz. Mandou o comando, não soube se chegou ao seu braço, nem ao menos sabia se tinha braço. Não podia sentir muita coisa além do mundo rodando a sua volta, no escuro. Ouviu novamente a voz, mas agora, parecia mais distante, incompreensível. E, como se – com passadas rápidas e desesperadas – se afastasse, Thomas não pôde mais sentir seu interlocutor. O inconsciente o abraçou e ele decidiu que estava cansado e era hora de relaxar. Até quando? Para sempre? Ninguém sabia, nem mesmo Ele. Cara ou coroa?
ㅤㅤ II
ㅤㅤ Piscou, a cena mudou bem na sua frente, e agora o jovem Thomas não se lembrava de nada. Estava sentado numa velha cadeira de madeira, uma lâmpada fraca e falha ficava oscilando acima dele, iluminando apenas um círculo mínimo de luz em volta de si. Não tinha a mínima idéia do porquê de estar ali; mas também pudera, encontrava-se num paradoxo mental gigantesco: Seu passado parecia ter ido por ralo abaixo, só sabia seu nome e quiça sua idade; o local onde estava, que parecia um infinito de escuridão com o centro luminoso onde se postava, também lhe era completamente imemorável. Mas, ao mesmo tempo, ele sabia que devia estar ali. Sabia que era para estar ali e que aquilo era sua vontade.
ㅤㅤ Todavia, qual era a sua vontade? O que diabos um garoto de quinze anos poderia ter de força de vontade para lhe mover até ali, sem memórias ou idéia do que fazia? Conforme sua mente ia adaptando-se ao local onde estava, o raciocínio voltara e Thomas começou a tentar deduzir alguma coisa. Mas nada ajudou. Estava nu; de roupas, de passado, de pensamentos lógicos. A cadeira dura e chata começou a incomodar-lhe a posição, ótimo motivo para levantar e explorar aquele lugar surreal. Apoiou suas mãos nas laterais de seu encosto e levantou-se.
ㅤㅤ - Você veio! - A voz tão súbita fez Thomas jogar-se com tudo na cadeira, caindo para trás junto dela. Tinha sido um som alegre, uma exclamativa animada e feliz, alguém o esperava ali. O jovem levantou-se, hesitante e desnorteado pela surpreendente nova presença.
ㅤㅤ - Quem está aí? - Disse, a voz falha.
ㅤㅤ - Ora, não se lembra de mim? - E antes que o garoto pudesse responder, a voz complementou. - É claro que não se lembra! É impossível para alguém de Lá, lembrar-se de algo quando vem para Cá. Guarde suas dúvidas, Thomas, não quero ficar respondendo questionamentos por tempo demais. Não que tenhamos um limite de tempo para falarmos, Cá o tempo não existe!
ㅤㅤ Seja lá quem fosse a pessoa detentora da voz, ela parecia emanar por todo o local. Não como caixas de som artificialmente transmissoras; era pura! Dizia e parecia ser onipresente a cada palavra nova que esbanjava para o menino!
ㅤㅤ - Mas eu...
ㅤㅤ - Certo! Certo! Tudo bem, responderei apenas três perguntas suas!
ㅤㅤ - Sério?
ㅤㅤ - Duas!
ㅤㅤ - Mas eu..
ㅤㅤ - Certo! Certo! Tudo bem, responderei apenas três perguntas suas!
ㅤㅤ - Hã?
ㅤㅤ - Duas!
ㅤㅤ - Você está me...
ㅤㅤ - Faça suas perguntas, Thomas! - A voz disse em tom terminal, quebrando com a tranquilidade e vivacidade com a qual falava até o momento. - Não quer me ver nervoso, sabe como é quando estou nervoso.
ㅤㅤ Arrepios subiram a coluna do garoto, que instintivamente encolheu-se com os ombros para frente, em posição quase fetal. Pôs os pés sobre a cadeira de madeira e abraçou os joelhos com os braços finos e alongados. Algo naquela voz lhe parecia familiar, familiar e extremamente bipolar; quem sabe não conhecesse sua detentora, no fim das contas. Olhou em volta, na tentativa de achar o interlocutor para o qual direcionar suas milhares de dúvidas, sem sucesso. Vacilou na primeira tentativa, mas na segunda, a voz saiu firme e alta.
ㅤㅤ - Onde estou?
ㅤㅤ - Cá está! - Disse, voltando ao tom normal.
ㅤㅤ - Mas onde é Cá?
ㅤㅤ - Ora, Cá é Cá!
ㅤㅤ - Você não está colaborando!
ㅤㅤ - E você só tem uma última pergunta!
ㅤㅤ - Mas eu...
ㅤㅤ - Só uma pergunta, Thomas! Vamos! Vamos! Esta conversa está ficando chata!
ㅤㅤ - Certo, então, minha última pergunta. - Thomas virou o olhar para o lado, instintivamente. - Quem é você?
ㅤㅤ - Eu sou Eu! - E antes que o menino pudesse novamente contestar as resposta da voz amigável, ela completou. - Então, como está se sentindo agora, Thomas?
ㅤㅤ - Estou... Perdido. Não sei de nada, nem mesmo lembro onde moro e quem são meus pais!
ㅤㅤ Thomas ouviu um aparente suspiro.
ㅤㅤ - Hah, menino! E eu que pensava que sua resposta seria ao menos um pouco mais peculiar. Acho, realmente, que falho sempre que tento me comunicar com vocês, vocês de Lá. - A voz pausou, como se procurasse palavras. - Será que não tem um mínimo senso de criatividade!? Ora, tantos que já sentaram nesta sua cadeira de madeira, e nenhum veio com uma novidade. O cérebro humano tem inimagináveis capacidades, atinge o ecstasy facilmente e níveis de hormônios pipocam e afloram; e, mesmo assim, quando se vêem num ponto enigmático e misterioso, tudo o que fazem é se recolher ao medo detestável!
ㅤㅤ A voz se calou, como se parecesse querer ouvir uma resposta de Thomas. Mas o menino estava ocupado demais tentando tragar algo à tona. Qualquer coisa que pudesse lhe dizer como chegara ali, qualquer correlação dEle com o resto da sua vida perdida no passado. Sim, já tivera conversas com aquele sujeito, a nostálgica sensação de Dejàvú inundou sua mente e imagens começaram a se formar, aos poucos, tímidas e singelas.
ㅤㅤ - Se atém ao passado e ignora a minha voz. - A nova fala dEle o tirou do transe temporal no qual quase entrou; agora melódico, triste. - É realmente preciso do passado para se prender a uma existência, Thomas? Não, logo você, que tanto disse para mim como queria deixar tudo para trás.
ㅤㅤ - Eu disse?
ㅤㅤ - Disse! - Gritou Ele, num início de choro. - Foi assim que falou comigo pela primeira vez, jovem, numa súplica para que o mundo real se desfizesse! Para que o surreal tomasse conta de você e para que sua vida fosse mais do que aquele básico.
ㅤㅤ - Eu... - Imagens vinham a mente. Fracas, vacilantes. - Eu não me lembro de nossas conversas.
ㅤㅤ - Você não lembra, você queria esquecer tudo! E agora... Agora que você... - E a rouquidão da voz, quase imperceptível, subiu a um extremo dela tornar-se um bestial rugido. - ...Quer tudo de volta!? Joga toda sua ideologia fora como lixo!? Hah, Thomas, eu deveria agarrá-lo pelos braços e puxá-lo até que se dividisse em dois! Deveria espremer sua cabeça para que seus olhos e seus dentes saltassem fora! Deveria ir e vir na ausência do tempo, causando as mais diversas torturas para seu material casulo!
ㅤㅤ Quentura, sentiu a sua pele esquentar-se na parte das pernas. Urinara-se de medo, o jovem e rebelde Thomas. A voz tão multifacetada lhe causava cada vez mais imagens indo e vindo, podia finalmente localizar-se no passado. Sabia de faces e nomes, mas nada lhe agradava. Nada lhe era tão bom quanto queria. Sim! Ele queria por mais, queria por algo diferente de tudo e todos. Foi aí que...
ㅤㅤ - Foi aí que você me conheceu, Thomas. - Ele dissera, como se a mente do garoto fosse um livro aberto para sua consulta. Agora, tinha um tom calmo e leve. - Foram horas de ótimas conversas sobre um mundo novo, um mundo onde os tabus de sua existência fossem quebrados e as leis do universo fossem inversas ou nulas. Hah, Thomas! Como eu gostava do tempo que gastamos juntos! Houve época que sua voz era tão encantadora aos meus sentidos que eu mal esperava pelo seu chamado, que te visitava, que ia até Lá, vê-lo em sonho. Vinha lhe dar meu amado “olá” ao qual tão bem você me respondia. E, aos poucos, meu jovem garoto, fui pensando que você poderia ser diferente. Que, quando finalmente viesse à este mundo, achasse a companhia ideal para mim.
ㅤㅤ - ... - O garoto manteve-se calado.
ㅤㅤ - Mas vejo que estou enganado, Thomas, não estou? Parece-me que novamente as ações humanas foram simples gestos hipócritas e manipuladores, persuasivos e cruéis, malévolos e vazios! - O tom melódico. - Vejo, na minha frente, neste vínculo, agora, apenas alguém que mija nas calças frente a presença de alguém a quem, antes, sentia excitação e ereção! Vamos, diga, Thomas! Diga com todas as palavras o quanto sua covardia me posta como idiota!
ㅤㅤ - Eu...
ㅤㅤ De repente, Thomas sentiu-se sozinho na escuridão. Como se a presença do ser que falava consigo simplesmente desaparecesse. E ele pôde sentir como a falta dela era terrível, o coração murchou num mundo onde agora mais nada existia. De repente, os pais que tanto lhe enchiam de cuidados miseráveis pareceram caridosos. De repente, as notas na escola pareceram castigo infantil frente àquilo. De repente, teve vontade de voltar à sua realidade. De deixar para trás aquele seu último ato de bruxaria, no qual ateou fogo no seu próprio corpo; convencido pela melódica voz dEle – sua primeira e única invocação sobrenatural.
ㅤㅤ O escuro da sala mudou de súbito, chamas saltaram de todos os cantos e o chão de concreto tornou-se rochoso e brasil, a iluminação fosca foi trocada por um céu escuro-vermelho que saltava em trovões malévolos e risadas rústicas. Vulcões ao longe faziam saltar lava e fumaça negra para todos os lados, e Thomas acuou-se ao nada, caindo nu sobre a rocha. As nuvens vivas começaram a tomar forma no céu, até uma arrebatadora e cruel face cortada surgir primitivamente acima de sua cabeça.
ㅤㅤ - Sua voz me dá nojo! THOMAS! - Gritou como trovão, Ele. - Pois saiba que agora, tudo o que me guardo a ti é raiva! Raiva e rancor! Explodo em terror e medo na sua mente, deixo que seu corpo sinta suas penas devidas! - Conforme falava, Thomas começou a sentir a queimação invadir seu corpo. De leve início, uma formicação, até elevar-se à dor insuportável de queimar, de queimar em carne e espírito. Sentia agora como seu ritual lhe fora cruel e tenso. Como sua vida começava a vacilar entre seus dedos abertos e fracos. Gritava e chorava, ao som dos gritos dEle. - Clame! Clame pela sua miserável vida, Thomas! Mostre-me o quão insuportável é!
ㅤㅤ E, como se os gritos de dor aguda finalmente pudessem se canalizar, Thomas começou a gritar pela sua vida. Chorava e deixava as cordas vocais vibrarem ao máximo pelos seus pais, pela sua antiga vida. Os sentimentos contidos e rejeitados começaram a lhe parecer tão amáveis, que agora, tudo o que queria era voltar no tempo e poder novamente sentir seus entes queridos. Todos que queriam seu bem e ele achava que era pura paparicação. Queria-os, queria-os muito.
ㅤㅤ III
ㅤㅤ - É isso, então. - Disse Ele.
ㅤㅤ Thomas caiu da cadeira novamente, em susto e arfante. Seu corpo estava suado e ele completamente perdido, um segundo antes, estava queimando em brasas internas. Brasas apenas suas. E agora, voltava ao cenário inicial. Caído, sob o pequeno círculo de luz da lâmpada que oscilava. Olhou em volta, podia sentir sua presença ali, na espreita.
ㅤㅤ - Quer voltar para Lá, certo?
ㅤㅤ - Sim. - Disse, de pronto.
ㅤㅤ - Certo, mas eu tenho uma muito má notícia a ti.
ㅤㅤ E passos foram ouvidos, passos vindos de uma só direção. Thomas ajeitou-se e ficou sentado no chão, a respiração finalmente se regulando. Logo, uma figura entrou no local, vestido de Menestrel, o homem de pele branca pura com véu de noiva estava metido em cores vivas. O chapéu de Bufão era grande o suficiente para caber cinco de sua cabeça, mas estava muito bem apertada na testa com um fio de tecido. O mais impressionante, porém, era sua face lisa. Face sem face. O homem não tinha expressões porque seu rosto não tinha boca, nem olhos, nem nariz, nem orelhas. Ele ajoelhou-se em frente a Thomas e pareceu ficar observando-o por bons segundos.
ㅤㅤ - Sabe, uma vez que se vem até Cá, Thomas, é duro voltar. É duro que sua vida prossiga. Sabe qual a chance? - O garoto respondeu balançando a cabeça negativamente. - A chance é uma cara!
ㅤㅤ Disse Ele, apontando para a sua própria, que emanava sons por todo o lugar. Ficou parado por alguns instantes, até finalmente cair na risada, sentando-se no chão, junto do menino. Agora, Ele parecia mais jovem, tinha a quase a mesma estatura e porte físico de Thomas; se não fosse pelas roupas extravagantes e pela face paradoxal, talvez pudessem ser amigos, transeuntes de um shopping na sexta à noite.
ㅤㅤ - Desculpe, não aguentei a piada, Thomas. A cara que eu digo, é esta. - E, num movimento de mão rápido. Surgiu ali uma moeda grande e oval, Ele a girou entre os dedos, mostrando que um lado carregava uma face sem face, e a outra mostrava uma incógnita “?”. - Isto define se você, Lá, vive ou deixa de viver. Cara ou coroa. Mesmo assim, quer tentar? Pode ficar aqui, comigo.
ㅤㅤ - ... - Thomas pareceu pensar na decisão. - Quero tentar.
ㅤㅤ Ele, caso tivesse uma face, provavelmente sorriria para Thomas. Não era necessário mais palavras, ambos já sabiam que aquele era o último adeus depois de horas de rituais de invocação e conversas, frutos de uma bruxaria baseada em espíritos e sentimentos reclusos. Ele jogou a moeda ao ar, ela girou loucamente. E, quando foi atingir o chão, tudo ficou escuro.
ㅤㅤ - Thomas? Thomas? Pode me ouvir, Thomas? - A voz desesperada vinha destorcida e longínqua. - Thomas, caso esteja escutando a minha voz, tente pressionar minha mão. Você a sente, não?
ㅤㅤ Pseudoconsciente e perdido, decidiu seguir os pedidos da voz. Mandou o comando, não soube se chegou ao seu braço, nem ao menos sabia se tinha braço. Não podia sentir muita coisa além do mundo rodando a sua volta, no escuro. Ouviu novamente a voz, mas agora, parecia mais distante, incompreensível. E, como se – com passadas rápidas e desesperadas – se afastasse, Thomas não pôde mais sentir seu interlocutor. O inconsciente o abraçou e ele decidiu que estava cansado e era hora de relaxar. Até quando? Para sempre? Ninguém sabia, nem mesmo Ele. Cara ou coroa?
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sábado, 11 de setembro de 2010
O valor de Sapatilhas de Cristal
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ㅤㅤ Cinderela limpou as lágrimas novamente, elas não paravam de cair! Talvez nem fosse pelo fato de não poder ir ao baile encontrar e ver o príncipe, motivo tão fútil, mas sim por ter suas espectativas despedaçados no último momento e em frente aos seus olhos. O vestido feito de retalhos de velhas roupas e panos estava ali, alimentando a fogueira de seu sujo e pequeno quarto. Talvez aquela fosse a simbólica imagem de como sua vida se tornara um inferno, desde que seu pai casou-se novamente. O velho homem morava em outra cidade, dirigindo o comércio que tanto o enriquecia, deixando assim a madrasta e suas duas filhas para morar com sua querida menina.
ㅤㅤ Mal sabia ele que mal-tratos a moça suportava todos os dias, que sua bela e encantadora Cinderela era agora a criada inútil. A jovem ouviu a porta fechar-se no andar de baixp, indicando que as três tinham ido ao baile. Até mesmo a madrasta se caprichou para ir, como se pensasse que poderia atrair os olhares do príncipe. Mas, se analisado com calma, melhor a conquistadora de comerciantes viúvos que suas duas horrorosas filhas. Uma nova onda de lágrimas brotou dos olhos, ao tempo que via pela pequena janela a carruagem que as levava afastar-se. Tanta era a tristeza que mal notou quando as chamas começaram a expelir uma fumaça de tom púrpuro. Logo a imagem formada por tão estranha combustão começou a tomar nitidez e vida.
ㅤㅤ – Jovem menina... - A voz rouca e tenebrosa soou. Cinderela levantou-se de supetão, direcionando o olhar para a imagem do demônio sobre a lareira. - Deseja, sim, mostrar que você muito mais deveria ir à festa que aquelas bruxas, certo?
ㅤㅤ A voz de Cinderela voltou aos poucos, assim como ela tentava controlar sua surpresa. O demônio era algo conhecido, assim como as criaturas mágicas da floresta. Era dito que quase toda pessoa tinha um vínculo com a natureza primitiva através de uma criatura mágica, a própria Cinderela tinha pássaros e coelhos que correspondiam ao seu canto. Foram os pequenos que lhe ajudaram a fazer o vestido de retalhos com o qual iria ao baile, vestido que fora queimado com uma desculpa esfarrapada qualquer.
ㅤㅤ – Sim... - Ela passou as costas da mão sobre as lágrimas, limpando a face. - Eu teria muito mais chances com o príncipe que elas. Não que isso importe, apenas me entristeço por notar que minha vida afunda cada vez mais na escuridão.
ㅤㅤ – Pois, aqui, te ofereço a chance da vingança. - Disse o demônio levantando a voz. - Te levo ao baile, te deixo aos olhos do príncipe. Apenas me promete que volta antes das doze badaladas da meia-noite.
ㅤㅤ – Prometo! Vou e volto antes que a noite avance! - Ela disse com um sorriso no rosto. - Mas por que me deixa esta chance?
ㅤㅤ – Porque adoro ver a angústia na face dos outros. E nenhuma será melhor que as três ao observarem você entrando no baile.
ㅤㅤ A voz não deu chance de mais nenhuma de resposta. Sumiu, subindo pela chaminé. Ao mesmo tempo, uma aura mágica envolveu Cinderela, e no meio de estrelas próprias e pontinhos brilhosos, se viu posta num vestido branco e bordado de diamantes. Seu cabelo loiro e descuidado estava alisado e preso num coque prateado, assim como seus pés repousavam em duas sapatilhas lindas de cristal. Cheia de felicidade, Cinderela saiu da casa, sendo esperada por uma carruagem pomposa.
ㅤㅤ Chegou na festa tragando os olhares de todos para ela. Que bela dama era aquela? O baile promovido com o intuito do príncipe escolher sua noiva mostrara seu resultado no momento em que ela entrou no grande salão branco. Ninguém sabia de Cinderela, ela estava diferente demais, de modo que só as três tenebrosas que moravam com ela a identificaram. Mas não ousaram fazer nada em frente ao príncipe, que parecia encantado com ela. O jovem de olhos azuis e cabelo louro sentiu-se fisgado pela beleza, já não importava mais nada, ela era bela e hipnotizante. Pouco importava se seria chata ou pobre, queria possuí-la. Avançou no salão e convidou-a para uma dança. A madrasta dispensou o cortejo de um velho nobre para remoer-se de raiva. Suas duas filhas; gordas, cheias de sardas e de dentes amarelados pareciam querer se lançar em cima da Jovem que dançava com o Príncipe.
ㅤㅤ Uma, duas, três... Os dois perderam a noção do tempo e de todo o resto, alguns mais velhos juravam ver uma aura púrpura e mágica acobertando o casal. Dançavam e riam em pequenas e bobas conversas. Tanta era a diversão, que Cinderela esquecera-se do aviso do demônio. E, em frente as megeras irmãs de criação, madrasta e ao príncipe, mostrou sua cara de pavor quando as badaladas começaram a soar. Tinha de partir! Largou o herdeiro do trono no meio da dança e corria na direção da entrada enquanto a mágica começava a se desfazer. O vestido começou a simplesmente apodrecer e desintegrar-se, deixando sua carne pura e pálida a exposição. Abriu as portas, e desceu as escadas freneticamente, acabando por deixar para trás a sapatilha de cristal, que saiu de seus pés num tropeço. Nua, triste e abadalada; a moça embrenhou-se na mata ao lado do castelo. E dali voltou para sua casa, deixando para trás o príncipe com a sapatilha de cristal agora nas mãos. A peça não desaparecera simplesmente porque saíra dos seus pés antes que o feitiço terminasse por completo.
ㅤㅤ Houve ao menos um ponto positivo no fato de ter se esquecido da hora do término do feitiço: A madrasta e suas filhas não lhe esculacharam por ela ter roubado o príncipe, simplesmente riam e caçoavam do vergonhoso modo com o qual saiu do baile. Também, alguns moradores vizinhos espalharam o boato de Cinderela voltar para casa nua no meio da noite, deixando agora sua honra despedaçada. A menina, que deveria estar feliz pela chance que teve, agora estava ainda mais abalada, nem ao menos saindo de seu quarto nas horas em que não estava trabalhando para as outras.
ㅤㅤ E foi por causa dessa desolação toda que não estava presente quando o mensageiro do rei anunciou que em breve o príncipe ali passaria, para procurar pela sua amada do sapato brilhoso. E nem mesmo estranhou quando as duas filhas da madrasta compararam os pés gordos e feios delas com os seus delicados. O tempo continuou a passar para Cinderela, que agora desistira por completo de retomar suas esperanças de um dia ser feliz. Dias e meses, até aquele fim de tarde.
ㅤㅤ
ㅤㅤ Cinderela tinha terminado de torcer as roupas da casa, e fora dispensava mais cedo de suas obrigações pela Madrasta, que dissera que ela poderia descansar porque iriam comer junto de amigos e pretendentes para as filhas. A pobre menina nem ligou para o informe, agora trabalhar ou não trabalhar só ditavam como esperaria a morte abraçar-lhe. Subiu as escadas, e já ia entrar no seu quarto – o último e menor do corredor – quando ouviu o choramingo vindo do quarto das meninas. Logo em seguida, o grito contido da outra.
ㅤㅤ Movida por uma curiosidade inesperada, Cinderela deixou seu corpo mover em direção à porta. Meteu o olhar pela fechadura e perdeu o fôlego com a imagem. Ali dentro, as gordas meninas choravam com mordaças nas bocas, sentadas sobre poças de sangue tenebrosas. Os pés esquerdos delas estavam destruídos; uma tentara arrancar os dois dedos menores, e agora tinha o mindinho caído na poça vermelha e o outro dedo pendurado, preso por um naco de pele e carne. Já a outra tinha feito ainda pior: No porte de uma navalha, tinha raspado a carne protuberante de seu pé, fazendo com que grandes maços avermelhados rodeassem o que restara de seu ex-apoio, deixando o sangue vazar aos montes.
ㅤㅤ Desnorteada, Cinderela abandonou a imagem proporcionada pela fechadura e afastou-se. Indo descansar à beira da escada. Parou ali e silenciou-se, pensando no motivo da loucura delas. Quando ouviu as batidas na porta. Segundos depois, ouviu a voz do segundo criado da casa – um garoto que ia embora poucas horas após o anoitecer – falando com alguém de timbre pomposo.
ㅤㅤ – Vim para ver se as moças dessa casa possuem o pé da noiva do Grande Príncipe! - Ele disse. - Que todas desçam para provar lealdade ao Herdeiro do trono, que veio em pessoa para acompanhar os testes!
ㅤㅤ Cinderela encaixou seus pensamentos e tudo fez sentido. Era óbvio! Queriam lhe tirar seu príncipe! Talvez o único que pudesse retirá-la daquela miserável vida que levava. A raiva e o ódio assomaram sua cabeça e ela levantou-se, pronta para fazer o que deveria.
ㅤㅤ
ㅤㅤ – Por ordens do príncipe, ordeno que as moças logo desçam! - Gritou o porta-voz. - Ainda temos três casas a visitar!
ㅤㅤ O menino subira fazia alguns bons minutos, mas não retornara. Mas então, como que obedecendo à voz grossa e poderosa do funcionário real, passos foram ouvidos no tablado de madeira da casa. Passos compassados e pesados em direção à escada. Logo foi surgindo a imagem de Cinderela. A moça tinha olhos arregalados e o vestido sujo de vermelho, de sangue. O tom doentio de sua face assustou os homens, talvez mais que o que carregava nas mãos. Levava entre os dedos os pés maltratados das duas irmãs, pés que ela mesmo decepou das desgraçadas que agora sofriam lentamente da morte por facadas que lhes arrancaram braços e pernas. O menino também não tivera sorte, tendo a garganta perfurada rapidamente, para que Cinderela pudesse descer com toda a calma que queria. Os homens do Príncipe olharam com horror à moça, que finalmente chegara à sala de entrada.
ㅤㅤ Cinderela jogou os pés no chão.
ㅤㅤ – Estes são as traidoras! Malditas que queriam me roubar meu príncipe! - Ela quase gritou, e aproximou-se do sapato de cristal repousado num travesseiro vermelho. Logo encaixando seu pé perfeitamente no calçado. Com um sorriso largo e sádico ela levantou os olhos. - Aqui estou, meu príncipe! Vamos, e me leva para teu castelo, mata as que moram nesta casa que me causaram tanta dor e tristeza, tenha a mim!
ㅤㅤ Cinderela olhou para seu amado príncipe que lhe tiraria dali, queria encontrar nele a imagem do homem salvador, de seu justiceiro. Mas não foi aquilo que encontrou nele. Também não foi horror pelos seus atos que o príncipe demonstrava, ele parecia nem ter notado a mulher com face sanguinária calçando a sapatilha. Seus olhos estavam vidrados naquela que descia a escada.
ㅤㅤ A madrasta vestira um vestido muito mais lindo do que o que usara no baile. Envolta num tom púrpuro e em bordados trabalhadíssimos, ela parecia uma moça de vinte anos, esbanjando beleza e sensualidade. Os lábios cobertos de uma cor vermelha fortíssima hipnotizavam o príncipe. Para os infernos com a moça do sapatilho de cristal! Aquela era muito mais linda, muito mais conquistadora. Seu perfume parecia ter vida, deixando até mesmo os serviçais e soldados do príncipe cativados pelo odor, era praticamente a luxúria em pessoa aquela mulher que os excitava apenas com o olhar. Era aquela a mulher que o Príncipe levaria nua para a cama. Era com ela que se casaria, aquela mulher pálida, de olhos e madeixas negras, de seios fartos e cintura arranjada.
ㅤㅤ Cinderela assistiu abismada à figura de sua Madrasta sendo envolta nos braços do príncipe. Quase sem notar a figura púrpura e endemoniada que a cercava e protegia. O demônio brincalhão e maldoso que amava gerar discórdia e mudava de lado sempre que bem lhe agradasse parecia rir da menina. Sua alma fora destruída naquele instante, tanto que nem notou quando os soldados do príncipe fincaram as lâminas em seu corpo. A louca sanguinária deveria morrer, o príncipe já escolhera sua dama. Viveriam juntos, felizes para sempre.
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sexta-feira, 10 de setembro de 2010
O Eterno Noturno dos Meus Pesadelos
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ㅤㅤ Estela estava ficando realmente preocupada. Tentava afastar-se daquele som repetitivo e terrível que a atormentava, mas em nenhum momento os passos deixavam de soar atrás de si. E, sempre que virava para trás, não achava nada além da companhia do silêncio da madrugada. Ela estava próxima de casa, mais algumas quadras e aquela palpitação que crescia no seu peito iria se encerrar. Acelerou a caminhada, ouvindo as passadas atrás dela também acelerarem. Estela fechou os olhos com força, tentando conter as lágrimas de cair, todo seu corpo tremia; fato só não tão claro pelo fato de não estar parada. Mais três quadras.
ㅤㅤ Avançou a esquina, desviando o olhar para a pequena rua, apenas para constar que nenhum veículo passava. O bairro Norte-Vila ficava completamente deserto àquela hora. Assim que voltou seu olhar para frente, ela estacou no meio da faixa de pedestres, com olhos arregalados e a boca trêmula: Ali, no fim da calçada, um estranho sujeito a observava, com um sorriso medonho na face. Vestia camisa e jaqueta pretas, em conjunto de uma calça jeans da mesma cor. Os olhos verde-oliva do pálido homem estavam fincados nos dela, observando cada pequeno movimento da mulher com atenção. O Vampiro sabia que ela era sua próxima vítima.
ㅤㅤ Estela afastou dois passos, tentando encontrar apoio para se sentar. Ela não era do tipo que sabia enfrentar situações complicadas, alias, todos no trabalho a chamavam de infantil. A Bobona. Tentava com todas as forças virar-se e correr, mas as pernas não a obedeciam.
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ㅤㅤ Ezequiel alargou seu sorriso, a presa estava desesperada. Aquela era a melhor expressão que ele podia achar em suas pobres vítimas. Avançou dois passos, descendo da calçada para o asfalto da rua. Acompanhava minuciosamente cada movimento de Estela – a mulher loira e de face bela desmanchava sua beleza com o descuido com o resto do corpo, estava gorda e com os cabelos desarrumados –, para apreciar com mais gosto o medo que ela exalava. Talvez a única coisa que se comparasse ao prazer de tomar o maldito líquido da imortalidade vampírica, fosse o terror que os meros mortais demonstravam perante a morte certa nas garras do Eterno.
ㅤㅤ – O medo é tanto que não se move, querida? - Indagou Ezequiel. - O que me diria caso seus olhos encarassem algo ainda pior?
ㅤㅤ E, mantendo ainda a expressão maldosa na face, o vampiro abriu a boca ao mesmo tempo que deixava os caninos pontiagudos crescerem absurdamente. Seus olhos fluíram do verde-oliva para o vermelho-brasil em segundos. Ezequiel rosnou para Estela, enquanto encarava a face da mulher.
ㅤㅤ A Loira deixou os olhos crescerem ainda mais para fora das órbitas quando o estranho revelou sua paranormalidade. Ela novamente perdeu a força nas pernas, agora bambeando-as a ponto de não conseguir nem ao menos manter-se de pé. Ficou ali, de boca aberta, definindo os traços da horrível criatura.
ㅤㅤ – Meu deus.... - Balbuciou ela.
ㅤㅤ – Agora sabe que sua vida está selada às minhas garras!
ㅤㅤ – Vampiro... - Ela continuou no quase transe. - É mesmo... um vampiro?
ㅤㅤ Ezequiel riu alto, aproximando-se mais alguns passos da loira.
ㅤㅤ – Ainda tem dúvidas!?
ㅤㅤ – Ai, meu deus.... - Ela disse novamente, para a felicidade do vampiro que adorava sem entorpecer do medo dos outros. Então, subitamente, ela formou um sorriso enorme na face. - Eu sabia! Eu sabia que vocês existiam! Que demais!
ㅤㅤ Confuso, o vampiro desfez o cenho feroz e ameaçador. Agora encarando a vítima com clara irritação, aquela não era a resposta esperada. Estela levantou-se e aproximou-se dele em passos rápidos, enquanto mexia na bolsa.
ㅤㅤ – Olha! Olha! - E puxou da bolsa um pequeno pedaço de papel plastificado: “Fã n°99, Twilight Lovers”, empurrando na face do eterno noturno. A excitação da garota era quase doentia, os olhos continuavam arregalados e os dedos tremiam, mas agora eram de uma felicidade sádica. - Eu A-M-O vampiros, sério! Nossa, sua pele é tão branca, parece que é até mais que a do Ed.
ㅤㅤ – Ed?
ㅤㅤ – Edward Cullen, nossa, o melhor de todos os vampiros. Hah! Mas que se dane o Ed, agora eu estou aqui, de frente pra um vampiro de verdade!
ㅤㅤ Um tapa foi desferido pelo furioso Ezequiel na face de Estela, jogando a mulher no chão de uma única vez. O golpe foi tão forte que abriu dois largos arranhões na face dela. Ele, Ezequiel, já obviamente procurou saber sobre aquela nova crônica vampírica que se popularizara tanto. Não gostou de nada, não eram aqueles os vampiros reais. E aquela mulher caída na sua frente, aquela Estela, ela não era para ser uma doente daquelas. Já tinha mais de trinta anos, deveria estar com um namorado e uma vida boa pela frente, não mergulhando de cabeça em febres adolescentes.
ㅤㅤ Ela demorou alguns segundos, a dor que sentia não era reprimida, e sim recebida com um sorriso alargado. Fora um tapa dado por um noturno, um imortal! Um vampiro deixara sua marca nela! Olhou para o pálido homem novamente, arranjando forças para se levantar sorridente.
ㅤㅤ – Insolência! O que tem na cabeça, Mulher!? - E empurrou-a para cair novamente. - Não vê!? Vim aqui para açoitar sua vida! Vim aqui para arrancar cada gota de seu sangue! Pouco importa os fictícios frouxos sanguinários que já viu, este, cá a sua frente, é um real. Um que deve temer!
ㅤㅤ – Temer porque!? - Ela retrucou, novamente saindo do chão. - Eu amo vocês! Daria minha vida de mão beijada para ter esse momento. O momento em que um de vocês estivesse aqui, comigo. Não ligo... Não ligo se vou morrer. - Ela alternava a fala em risadas histéricas e enlouquecidas. - É só um prazer estar aqui à sua frente. Olha, querido, olha!
ㅤㅤ E Estela levou as mãos até a borda da camisa que apertava suas gorduras saltadas. Sem qualquer cerimônia abriu os primeiros botões, enquanto deixava o sangue que brotava na sua bochecha escorrer pela face, passando pelos lábios até cair sobre a vestimenta. Ali, na frente do atordoado Ezequiel, abriu a camisa social com que trabalhava. O Vampiro transfigurou sua face em nojo. Em meio as estrias, pelos não depilados e espinhas acumuladas; se encontrava a figura de uma boca mordendo a pele de Estela. Uma tatuagem.
ㅤㅤ – Porque não me morde!? Vamos, morde! Aqui!
ㅤㅤ O Eterno desviou o olhar da grotesca visão, os mortais tornavam-se cada vez mais nojentos.
ㅤㅤ – Vamos! Estou pronta! Sugue todo meu sangue, por favor! - Os olhos dela criavam veias vermelhas saltadas, ela parecia não querer piscar para não perder um momento do vampiro. O sorriso descuidado deixava a saliva escapar pelos cantos da boca, deixando-a toda babada; o que contribuía ainda mais para o estado de loucura em que aquela loira estava para idolatrá-lo.
ㅤㅤ Ezequiel explodiu em raiva. Avançou contra ela, fincando as mãos fortes sobre o ombro e o pulso dela, e num movimento raivoso e seguido de um urro inumano, arrancou o membro de Estela. O braço caiu no meio da rua, imóvel e deixando exposto parte do osso que o ligava ao resto do corpo. O ombro de Estela encharcou-se de sangue, mas a única reação da mulher foi gargalhar histericamente com lágrimas descendo pelos olhos enquanto caía de joelhos no chão. Seu herói. Seu vilão. O motivo para sua existência estava ali lhe fazendo o mal, lhe causando emoções maiores do que seu monotonismo que geralmente só era quebrado quando mergulhava a mente no mundo deles, dos noturnos. A dor envolvia seu ser, mas mais que isso, o prazer enchia sua alma. Sentia-se excitada sexualmente, de modo que seus órgãos sexuais atingiram o orgasmo seguido pela folga onde relaxou os músculos vaginais, deixando a urina infestar o chão, mesclando-se com o sangue derramado.
ㅤㅤ O vampiro pôs a mão sobre o nariz de faro aguçado e afastou-se dois passos, olhando com desgosto para a decadente loira. A mulher chorava e ria.
ㅤㅤ – Vamos! Não espere por mais! Venha e me dê o abraço da morte, tome de meu sangue!
ㅤㅤ A raiva acobertou o nojo, e Ezequiel avançou mais uma vez sobre a mulher, agora desferindo um chute na boca do estômago dela, que a fez voar alguns centímetros para trás, cuspindo sangue pela boca. O ar lhe saiu dos pulmões e ela não podia falar, o que – pensava o vampiro – a calaria. Estela levantou o olhar sádico para ele, o sorriso agora imbuído de sangue e lágrimas.
ㅤㅤ – M...ma.... - Respirou fundo. - Mais.... S-sou... sua.
ㅤㅤ Ele avançou passos na direção dela e segurou o outro braço dela com ambas as mãos, apoiou a sola do pé sobre as costelas da moça e deu um tranco. O segundo membro dela saiu voando, esguichando sangue sobre a face do irritado Ezequiel. Agora ela havia gritado de dor, os olhos arregalaram-se ainda mais e ela encolheu-se por um breve momento, tão breve que Ezequiel mal pôde apreciar. Logo o grito emendou-se numa risada medonha.
ㅤㅤ – Venha.... antes... antes da minha... morte. - A falta de ar ainda lhe assomava. - Meu sangue... seu....
ㅤㅤ O vampiro limpou o sangue em sua face com as costas da mão e olhou diretamente sobre o olhar louco da mulher. Realmente, amava os vampiros. Ajoelhou-se ao seu lado, e envolveu com uma das mãos o pescoço dela, apertou com força e levantou-se, colocando-a de pé, mesmo que vacilante. A moça cambaleava parada, sem forças para muito mais atos, ao centro da poça de seu sangue e dejetos. O sorriso dela se alargou ao passo que os dentes pontiagudos do vampiro se aproximavam da sua jugular.
ㅤㅤ Sentiu o toque dos caninos raivosos sobre sua pele e fechou os olhos para apreciar a mordida da morte. Mas, ela não veio, não sentiu os dentes afundando na carne e o sangue vazando pelas feridas. Ezequiel era quem agora sorria.
ㅤㅤ – Seu sangue é podre. - Falou. - Viva com seus vampiros de mentira. Morra com eles.
ㅤㅤ Jogou-a na calçada – sobre o próprio sangue e urina – e virou-se, começando a caminhar. Estela, jogada para a morte no asfalto cinzento, arregalou os olhos, e pela primeira vez desde que fizera a descoberta do noturno, sua face encheu-se de terror. Ela começou um choro desenfreado, alternado com gritos e súplicas para que Ezequiel voltasse, para que seu vampiro acabasse com sua vida. O terror de não morrer como muitos morreram naqueles livros que tanto amava cobria sua mente. Será que nem na hora do abraço frígido da foice negra, ela poderia ser feliz? Será que a vida fora sempre aquele horror onde só os livros dos noturnos deixavam ela sorrir? Clamou pela sua vida, as cordas vocais ao máximo e pedindo arrego não suportaram, estouraram na garganta da moça, e ela novamente engasgou-se no sangue. No seu sangue podre.
ㅤㅤ O pálido rapaz afastou-se rapidamente, limpando o sangue nojento da mulher na camisa negra. Os gritos e grunhidos inumanos de Estela foram ficando para trás. Por fim, após alguns sórdidos minutos, abriu um sorriso. Não tomara o líquido da eternidade, mas fizera alguém sofrer, dera para alguém o tormento de uma morte lenta e horrível. Virou-se para ver se carros passavam na rua e atravessou.
ㅤㅤ O bairro Norte-Vila ficava realmente deserto àquela hora.
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domingo, 22 de agosto de 2010
As Sombras
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ㅤㅤ I
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ㅤㅤ E Corria! Hah! Como eu corria! Meu peito ia e voltava com uma constância enorme, buscando pelo máximo de ar que eu pudesse respirar. O peso da pequena Angie não ajudava muito, minha filhinha querida repousada nos meus braços, desmaiada. O corte aberto na barriga dela não ajudava em muito, o sangue, maldito sangue! Pelo que percebia, aquilo atiçava o maldito cada vez mais! A floresta não acabava, e quanto mais me embrenhava nela, menos certeza de que sairia eu tinha. Mas eu não podia simplesmente morrer. Entregar minha querida para aquele maldito.
ㅤㅤ A iluminação era cada vez mais escassa, os postes de luz colocados pelos guardas florestais agora estavam longe demais para atingir aquela área do mato. Maldito seja o momento em que decidi morar com minha família perto do campo, longe da cidade. Mas, acho que estou tão desesperado que nada ajudaria contar desta forma. O começo daquela noite foi tenso para mim, voltei do escritório extra que me faria trabalhar a noite toda. Pilhas e pilhas de relatórios a fazer. Saí do carro, carregando um maço de papéis debaixo de um braço, deixando os demais dentro do veículo. Caminhava lentamente pelo quintal vasto, já estava para subir o degrau que me separava da porta de casa, quando um mal estar percorreu todo meu corpo. Uma aura de frio apossou-se subitamente de meu corpo, mesmo que nenhuma brisa estivesse passando. Olhei em volta, sentia olhos em cima de mim. Nada. Nervosamente me voltei para a porta e abri-a, entrei e tranquei rapidamente. A sensação de terror se aquetou e a calma voltou ao meu estado. Abracei minha mulher e dei um beijo na testa da pequena Angie, que tinha completado cinco anos na semana anterior.
ㅤㅤ Jantar e o horário de dormir haviam passado a muito tempo, e eu ainda estava ali, debruçado sobre meu computador, digitando avidamente. Fones de ouvido me ajudavam a passar uma noite um pouco melhor, ao som de Ramones. Mas não chegava a amenizar tanto. Foi lá pelas três que meu horror começou.
ㅤㅤ – Charles! - Minha mulher chegou na porta da sala de estudos aos berros, tanto que pude ouvir por cima da música.
ㅤㅤ – O que foi, querida? - Respondi, enquanto retirava os fones.
ㅤㅤ – Angie! Não está no quarto dela! Também não está no resto da casa, Charles!
ㅤㅤ Subitamente eu senti novamente aquele frio sobrenatural sobre mim. Minhas pernas ficaram fracas, mas mesmo assim me levantei, correndo até minha esposa. Passei por ela, dizendo para ela vestir-se, nossa casa ficava longe por quilômetros de outras casas, ela não poderia estar longe. Peguei o telefone enquanto vestia um casaco por cima do pijama e descia as escadas, Angie passou na frente, disse já estar saindo para procurá-la.
ㅤㅤ Telefonei para a polícia e relatei rapidamente o ocorrido, logo indo para fora com o fone ainda no ouvido, preso com o ombro enquanto minhas mãos se preocupavam e pegar lanternas. Pisei para fora do gramado a tempo de ver minha mulher na divisória da floresta, bem afastada de nosso vasto quintal. Ela virou-se para falar comigo, quando finalmente o motivo de todo aquele terror que sentia veio à tona. Um vulto, acobertado pela noite se atracou a minha mulher, fincando garras tenebrosas em sua cabeça. Vi, com lágrimas e raiva nos olhos, minha amada ter a garganta rasgada por algo que não conseguia identificar.
ㅤㅤ Era completamente negro, sem silhuetas. O único ponto de destaque eram os olhos vermelho-brilhantes e malignos. Brasas de desespero na noite fria. Minha esposa estava morta, e me concentrei em tentar sair de meu estado de paralisia. Liguei a lanterna e percorri com o facho de luz a situação. O monstro ainda montado sobre ela, fixei-me na floresta e ali achei. Minha pequena estava caída, com o pijama rosa-bebê encharcado de sangue, escorado numa árvore.
ㅤㅤ Disparei em sua direção, e, não sei se por pura sorte, a criatura louca nem prestou atenção a minha presença. Deixando-me passar rapidamente por ela e agarrar minha filha. Olhei novamente para trás, minha esposa já tinha a face toda desfigurada e arrancada, dando lugar ao crânio e a carne exposta. O sacrifício dela rendeu-me a escapatória.
ㅤㅤ E lá estava eu, adentrando a floresta em sentido contrário à cidade. A próxima casa ficava longe demais para eu ter qualquer esperança de alcançá-la, mas gostaria, ao menos de salvar mina pequena. Tão inofensiva e frágil em meus braços. Foi mergulhado nesses sentimentos que ele veio. Senti garras geladas se encravarem nas minhas costas e presas se fincando em meu corpo. Caí, protegendo o corpo de minha filha.
ㅤㅤ Quando, inesperadamente, a voz veio.
ㅤㅤ – Um sopro de esperança e a presa se torna mais deliciosa.
ㅤㅤ Não! Deixara que nós escapássemos! Brincava com nossas vidas. Minha face se desfazia em lágrimas de rancor e medo enquanto ele retirava a pequena de meus braços. Fincou os dentes ferinos sobre o pequeno corpo dela e rasgou-o, mergulhando mais ainda sobre ela. Na minha frente. E dali, já não importava minha vida. Que tivesse a morte! O que não me foi negado, não por aquilo.
ㅤㅤ
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ㅤㅤ II
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ㅤㅤ O tilintar da cota de malha em atrito com a couraça de bronze fazia altos chiados nos oito soldados. Lâminas e Lanças postas prontas para o ataque. O que restara de nosso batalhão agora respirava mais lentamente, nos focalizávamos em uma coisa: Sobrevivência.
ㅤㅤ A grandiosa construção que abrigava o Bispo Benedito agora se tornava nossa masmorra. As portas grossas de madeira estavam trancadas e bloqueadas, as janelas nos levariam a uma morte certa pela queda de dez metros até o fim do barranco onde se construíra a casa nobre e o próprio Bispo já jazia nas mãos daquelas criaturas. Terríveis e sanguinárias elas eram! Mataram todo meu batalhão que protegia o sacerdote de Deus, só aqueles bravos seis restaram. Lá estávamos nós, ao centro do grande Salão de entrada, aguardando a investida do demônio.
ㅤㅤ Henrique carregava uma das duas tochas numa mão enquanto a outra segurava firmemente o escudo largo. Luís portava a outra iluminação, junto de uma espada curta. Antônio e Manuel seguravam ambos espadas e escudos, enquanto Baptista e Guilherme usavam suas lanças. Eu, como capitão, segurava uma grande espada bastarda, companheira minha em tantas batalhas na época das Guerras Santas. Completávamos um círculo ao centro do salão, cobrindo visão para todos os lados, macabras eram aquelas criaturas. Sorrateiras e amigas da escuridão.
ㅤㅤ Um Baque. As armas se voltaram para o lado do som, assim como alguns olhares. Permaneci olhando para frente, junto de Guilherme. Éramos treinados, distrações não nos fariam abaixar a guarda como idiotas. Henrique levantou mais a tocha na direção do som, um objeto estava postado, fora da visão, acobertado pela penumbra. Outro baque, um vulto passou perto do objeto circular e o chutou em nossa direção. Arregalamos nossos olhos e eu perdi meu ponto de atenção por um segundo com a cena de horror. Rolava pelo chão, depois de ter trompado no escudo de Manuel, a cabeça de Tobia, um de nossos companheiros mais fiel, desaparecido nas sombras do castelo poucos minutos antes.
ㅤㅤ – Tolos.
ㅤㅤ A voz veio rouca e grave. E então notei meu erro de abandonar meu ponto de visão. Voltei a vista a ponto de ver o monstro sem silhueta arremessar um golpe na face de Guilherme, arrancando-lhe o elmo e rasgando de sua carne com largas feridas. Investi contra a fera, mas recebi um chute da fera que me jogou metros longe, afastando-me de meus guerreiros e me levando à escuridão dos demônios.
ㅤㅤ Meus homens gritaram meu nome e saíram da formação. TOLOS! A morte era o reservado para soldados que se deixam levar por emoção. Ia me levantar para voltar à briga, quando um braço envolveu-me pelo pescoço e me travou. Uma mão apertou minha cabeça e senti as garras fazerem sangue brotar no couro cabeludo.
ㅤㅤ – Observa, Guerreiro. - Sussurrou a voz para mim. - Observa a morte de seus homens.
ㅤㅤ – Homens! Retirada! Procurem um modo de escapar! Agora!
ㅤㅤ Meu grito foi recebido por uma dor inexplicavelmente aguda, uma mordida arrancara minha orelha fora. Tentei gritar, mas o braço conteve minha boca, fazendo apenas gemidos contidos surgirem. Meus homens olhavam para mim, para a direção de meus gritos, e meu desespero aumentava cada vez mais. Os desgraçados não notavam aquele par de olhos vermelhos na escuridão atrás deles. Guilherme foi o primeiro a sucumbir, o cheiro de sangue atraíra a criatura e ele aceitou a tentação. A garra entrou pelo vão da armadura sob os ombros e agarrou a carne, puxando-a para a escuridão, ignorando os gritos do soldado. Baptista disparou sua lança contra a escuridão da onde vinha o som dos gritos e sacou sua espada.
ㅤㅤ Sua investida no escuro de nada serviu, nem um grunhido arrancara da fera que devorava sangue e carne de meu homem. Até mesmo piorara a situação. Segundos depois uma lança carregada pelo vulto assassino surgiu a luz, fincando a arma no pescoço de Henrique, que deixou a tocha cair. Antônio abaixou-se para pegar a iluminação, e distraído deixou-se levar, a sombra passou novamente e levou agora seu corpo para o escuro salão. Manuel tentou acertá-la com a lâmina da espada, e conseguira! Mas sangue nenhum pingou de ferida alguma. Invencível!
ㅤㅤ A tocha rolou longe e foi parar, rolando, perto de mim. A luz foi a suficiente para me iluminar. Iluminar a mim e a criatura que me segurava. Meus homens arregalaram os olhos para mim, estava em terrível estado e domado. O grande capitão, derrotado. A figura de terror foi suficiente para a sombra aproveitar-se novamente, saltou sobre dois ao mesmo tempo. Luís e Baptista caíram com garras atreladas aos seus pescoços. Manuel, só, investiu contra o monstro, que imediatamente lhe direcionou o olhar assassino e vermelho. O soldado recuou, assustado, tempo suficiente para o monstro saltar sobre seu corpo e ouvir seus gritos enquanto ela lhe rasgava a cota de malha e metia a mão nas entranhas, para depois retirar e lamber de seu sangue. Meus guerreiros se silenciaram, todos mortos.
ㅤㅤ A voz novamente pronunciou-se.
ㅤㅤ – Fraco é o ser humano.
ㅤㅤ – E covarde são vocês, demônios! - Retruquei na mesma hora, tentando reagir ao abraço fatal da criatura. Ela segurou meus braços malhados de guerra e me conteve ao chão. Fora vencido completamente. A outra criatura se aproximava de mim, hora iluminada pela luz de tochas, podendo ver mais do que seu contorno maldito.
ㅤㅤ – Mata-o logo e partimos assim que saciarmos nossa sede eterna.
ㅤㅤ – Sim. - Respondeu o monstro friamente.
ㅤㅤ Senti outro rasgo, agora era meu pescoço o alvo do terror, senti as presas fincarem em minha pele e minha vida começou a esvair de meu corpo, junto do sangue mortal. Falhei, humilhado, vencido, acabado. Deus não me dera a benção da vitória.
ㅤㅤ
ㅤㅤ
ㅤㅤ III
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ㅤㅤ – Consegui! Finalmente consegui, minha mãe! - Entrei sorridente na pequena casa de madeira e palha. Minha mãe, vestida como uma serva deveria portar-se abriu um sorriso e viera a me abraçar com força. Abençoado seria aquele dia se tudo fosse apenas da quela forma.
ㅤㅤ – O velho médico curador aceitara-me como discípulo. Partirei em breve, levando a ele o pagamento para ser meu tutor. Mas consegui! Finalmente serei aquilo que sempre quis ser, Mãe!
ㅤㅤ – Abençoado seja você, filho. Seu pai estaria orgulhoso. Mas em seu lugar, sua pobre mãe e seu irmão o saúdam.
ㅤㅤ Meu amado irmão estava à mesa com a mulher. Era o dono da casa, como irmão mais velho, e também o líder da pequena posse de terras que o Senhor nos dera para cuidar. Eu não poderia ficar ali por mais tempo, já era mais que hora de partir. Ele olhou para mim com sorriso na face.
ㅤㅤ – Pois finalmente partirá, Irmão. Encontra o caminho de sua vida e segue-o.
ㅤㅤ E meneei a cabeça para ele. Desde que meu amado pai morrera por falta de bens para pagar um médico e seus itens de cura, decidira ser um, para nunca mais recusar-me a atender alguém pela sua casa ser a menor dentre a dos servos. Soltei um grande suspiro e despedi-me de todos, indo a meu pequeno cômodo para arrumar minhas coisas. Morava no quarto mais afastado e pequeno, que tinha uma larga janela para a floresta.
ㅤㅤ Abri a bolsa de couro batido, e dentro comecei a colocar o pouco de pertences que tinha. E talvez, por isso, nem ao menos notara a sombra que adentrara o quarto. Notei apenas a último instante. Um forte soco atingiu minha pequena mesa, e eu saltei assustado, olhando atentamente ao invasor. Era um homem de feições fortes, pálido e aparentemente fraco. Era mais alto que eu e vestia-se de trapos piores que os escravos de guerra. Mas seu rosto exalava soberania.
ㅤㅤ – Quem... quem é? - Balbuciei.
ㅤㅤ – Então, agora se tornarás curador. - A criatura falou, caminhando pela penumbra do quarto. - Salvarás vidas, há de ser um bom homem.
ㅤㅤ – Sim... - Confirmei, perplexo. - Quem é você!?
ㅤㅤ – Apenas um observador de costumes, caro Servo.
ㅤㅤ – E o que tem a observar em uma humilde e pobre família.
ㅤㅤ – Você. - A resposta veio seca.
ㅤㅤ Respirei fundo e afastei-me um passo na direção do corredor. Provavelmente não ouviram nada, dado as altas gargalhadas e à voz grave e alta de meu irmão. Tinha e expulsar o maldito.
ㅤㅤ – O que?
ㅤㅤ – Fico pensando no que irá se tornar.
ㅤㅤ – Tornar?
ㅤㅤ – Sim. Vejamos se ainda almejará salvar vidas, servo Lien, quando ceifar a primeira delas!
ㅤㅤ As presas ferinas que saltaram da boca do monstro já estavam sobre minha jugular quando pensei em fazer algo. E, no instante seguinte, senti minha vida sendo drenada. O que estaria reservado à mim, afinal?
ㅤㅤ
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ㅤㅤ IV
ㅤㅤ
ㅤㅤ Despertei, a noite havia caído sobre a terra, e era natural de mim acordar. Mas minha cabeça em muito latejava. Deixei-me cair sobre o solado podre da casa abandonada que era o covil. Meu mestre ainda estava de olhos fechados, em seu caixão. Segurei minha cabeça com as duas mãos e gritei de raiva. Por que não paravam!? As vozes do Empresário Charles, do Guerreiro Tomé, se somavam a milhares de outras. E, junto delas, flashes e visões do passado, presente, e até do futuro. Almas malditas que teimavam e atormentar aquele que lhes ceifara a vida. Fantasmas. Assombrações que não dependiam de lugar, hora ou situação. Assombrações que sempre me tomariam em horas que me eram para ser de tranquilidade. Horas de dia alto. O descanso dos vampiros.
ㅤㅤ Isto acontece pois ainda possui parte da alma humana em suas veias mortas, tolo Lien. Sempre diz o mestre-vampiro que por séculos sigo. As vozes vinham de todo lado e eu podia ver os fantasmas na minha frente. Sentia a dor deles no fundo do coração, a dor que eu mesmo causara. Uivei para a noite como um lupino, e me contorci no chão.
ㅤㅤ Aos poucos, as vozes diminuíram. Os fantasmas se acalmavam em meu antro sem-vida.
ㅤㅤ Silêncio. Abri os olhos vermelhos. Hora de matar.
Leia até o fim...
quinta-feira, 24 de junho de 2010
A Liga dos Diamantes
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ㅤㅤ A loja nem ao menos tinha nome. Estava caindo aos pedaços, e os seus produtos – sapatos e tênis empoeirados – estavam para todos os lados, em montes que pareciam cair na cabeça do primeiro cliente que entrasse. Por sorte, não caiu quando eu pisei no tablado velho. Mas, mesmo que eu fosse engolido por um mar de ácaros, nada mais importaria. Aquele era o lugar, só podia ser lá. Tinha de ser ali.
ㅤㅤ A rua Calógeras, fazia já parte da cultura de Campo Grande, sendo uma de suas primeiras ruas, lar da primeira agência dos correios e agora, detentora das lojas mais antigas e caídas do centro. Por alguns segundos me perguntei se valeria a pena todo o caminho que percorri até ali. Já estava na metade da pequena e escura loja, e ninguém tinha vindo me atender. Mas eu pude ver a figura dele, entre algumas caixas de sapatilhas velhas. O velho moreno tinha um chapéu de palha na cabeça e usava uma calça social surrada e uma camisa branca desabotoada, que mostrava a gordura que os anos acumularam nele. Justamente quem procurava.
ㅤㅤ – Pois não, rapaz? - Foi o máximo que consegui arrancar do dono da loja.
ㅤㅤ – B-Boa tarde, Senhor. E-eu... - O nervosismo me afetava demais.
ㅤㅤ – Você é gago ou tem problema de cabeça. - Ele falou bruscamente. - Quer o que?
ㅤㅤ – Não é isso, Senhor!
ㅤㅤ – Huh, falou certinho agora. Então, o que tu quer.
ㅤㅤ – O senhor é Tobias das Claras Neves, não é?
ㅤㅤ O velho estreitou os olhos na minha direção e eu pude me sentir nu ao seu olhar.
ㅤㅤ – É. Sou mesmo. Porque?
ㅤㅤ E eu, aos tropeços nas palavras, me expliquei para ele.
ㅤㅤ Vinha de Floreal, uma pequena cidade do Interior de São Paulo. E vinha até ali porque apenas uma coisa me movia a tanto: O Sobrenatural. Sempre fui fascinado por essas coisas tenebrosas, lia contos de terror e via fotos e vídeos de fantasmas na internet desde que a operadora pôde cobrir a área da minha cidade. Meu vício se superou quando eu comecei a pesquisar sobre magia e sobre caçadores de fantasmas, e coisas do tipo. Wicca, Macumba, Satanismo, Religião de Tribos. Comecei a engolir tudo e qualquer coisa que conseguia comprar ou ler na Rede. E quando menos notei; já estava magro, pálido e estranho. As pessoas me olhavam estranho e meus pais quase cancelaram a conta de internet umas trocentas vezes, por sorte eu sempre tinha algum argumento ao meu favor.
ㅤㅤ Na internet, participava de um fórum chamado Olhos Vermelhos. Que reunia um monte de caras como eu. Alguns falavam de alienígenas e contatos de quarto grau, outros falavam de fantasmas e anomalias em casas abandonadas, ou de magia e rituais. Mas de um modo geral, todos acreditavam em todos. Me aprofundei tanto no site, que, dois anos após meu primeiro login, me indicaram para moderador. Aceitei de imediato, e logo, o próprio dono, um homem de codinome Gárgula Negro, veio falar comigo sobre alguns tópicos exclusivos da moderação. Entre eles, o que mais me intrigou foi o da Liga de Diamantes.
ㅤㅤ Dizia de um antigo grupo de apreciadores de magia e paranormal, que vinham desde a época do Brasil colônia. Eram alguns negros escravos, e alguns lacaios de senhores de terras que tinham fundado o grupo. O nome vinha porque fora feito na época do ciclo do ouro e diamante, e cada um dos poucos membros da seita, possuíam para identificar-lhes, uma lasca de diamante.
ㅤㅤ Cada membro podia escolher apenas um discípulo, ao qual devia ensinar tudo o que sabia e o caminho que devia trilhar. Até o momento em que o jovem seguidor possa caminhar com seus próprios passos, levando consigo a lasca de diamante. Pesquisei à finco sobre a Liga, e meu sonho, daquele instante em diante, foi entrar para o grupo seleto.
ㅤㅤ Anos de pesquisa, e comecei a viver sozinho. E, quando estava com vinte e poucos anos, descobri finalmente a localização de um dos membros. Era Tobias Neves. Foi apenas questão de mais alguns meses para juntar dinheiro e viajar até ele.
ㅤㅤ E foi exatamente desse jeito que contei a vocês, que falei com ele. A resposta, entretanto, veio seca e grossa.
ㅤㅤ – Cai fora daqui, guri.
ㅤㅤ – Mas, Senhor Tobias...
ㅤㅤ – Sem mais, tá olhando pra mim? O que eu tenho de especial pra tu? Pesquisei sobre macumba, sobre satanismo e até sobre sacrifícios humanos realizados pelos índios Guaicuru, que foram escondidos no tempo. Sou um poço de conhecimento mágico, moleque, mas olha pra mim. Tô aqui, empoleirado e velho, no meio desse monte de merda. - E bateu distraidamente num monte de sapatos. - Some da minha vista que é melhor pra tu.
ㅤㅤ – Não vou.
ㅤㅤ E não me perguntem da onde veio minha determinação.
ㅤㅤ – Toda minha vida baseou-se no fora do padrão, Senhor. Tudo que já fui capaz de fazer foi graças a rituais Wicca e coisas do tipo. Tenho certeza que já falei com duendes e outras criaturas mágicas durante minhas sessões!
ㅤㅤ – Baboseira! Acha que esses livros de 39,90 que vendem por aí dizem alguma coisa com coisa!? Você é só mais um babaca.
ㅤㅤ – Não! Os livros foram transcritos por um fórum confiável! Já deve ter ouvido falar! O Olhos Vermelhos! Nunca ouviu?
ㅤㅤ – Nunca ouvi! Agora, suma da minha frente, antes que eu chame a polícia!
ㅤㅤ – Não moverei um pé.
ㅤㅤ – Mas que filho da... - E ele mordeu o próprio lábio se contendo para não levantar e me encarar. Mas sua feição, de alguma forma tornou-se mais passiva. Um garoto pálido e magérrimo. - Que seja! Se você passar no meu teste, deixarei fazer qualquer coisa! Te dou até o diamante.
ㅤㅤ E retirou a dentadura, mostrando que o último dos dentes dela emanava um brilho radiante, mesmo que ofuscado com o tempo e mal tratos.
ㅤㅤ – Teste? - Eu vacilei, mas logo me recompus. - Tá, eu aceito!
ㅤㅤ – Guri burro. - E ele esboçou um sorriso de escárnio sem dente algum. - Seguindo até o início da calógeras, tu vai achar a antiga estação rodoviária abandonada. Ela é assombrada por uma porrada de espíritos, que surgem por lá na hora que o trem de cargas fazia sua parada, de madrugada. Passe uma noite em claro lá e você passou no teste.
ㅤㅤ – Só isso? - Me vangloriei, afinal de contas, já havia feito coisas parecidas milhares de vezes.
ㅤㅤ – Só. Agora some daqui.
ㅤㅤ
ㅤㅤ O resto da tarde foi de visitas. Meus pais – com quem ainda mantinha um bom contato, depois que comecei a ocultar meus hábitos incomuns – me pediram para comprar algumas lembranças da minha suposta “viagem de negócios”. Passei na Feira Central, onde comprei algumas bugigangas que nem me lembro mais o que eram e comi o Sobá Okinawano, da barraca da família que começou a vendê-las na feira. Muito melhor que qualquer lamên ou macarrão que já tenha comido em São Paulo. Passei pela frente da estação abandonada e a olhei com calma, ela ficava praticamente ao lado do Armazém Cultural, o antigo depósito da ferrovia que foi reformado e agora era um centro de cultura, que por sua vez, ficava ao lado da Feira Central, praticamente a melhor atração da cidade.
ㅤㅤ Descansei o resto da tarde e início da noite no Hotel Gaspar, que também era próximo de ambos os lugares. Eram exatas onze da noite quando saí para meu teste de aceitação para a Liga dos Diamantes. A estação ferroviária, de noite, ficava um tanto mais assustadora. Era uma grande construção com uma entrada de porta dupla mal fechada, o muro branco contrastava com o relógio que ficava alguns metros acima da porta, indicando o horário em que parou, dezenas de anos antes. A única alma viva que havia por perto eram alguns drogados, jogados do outro lado da rua, e moradores curiosos que comentavam sobre mim.
ㅤㅤ Adentrei o local com calma e sem tanto problema. Estava vazio e aos pedaços, mas havia indícios de que pessoas às vezes paravam por ali. Como uma embalagem de salgadinho jogada num canto e uma latinha de cerveja em outro. Era silencioso e escuro, e ratos passavam a todo instante. Me sentei junto a bilheteria, e apoiei minha cabeça na parede. Não seria nada difícil.
ㅤㅤ
ㅤㅤ E, por incrível que pareça, não estava sendo nada difícil. As horas passavam demoradas, é óbvio, porque afinal, eu devia passar a noite toda em claro e sem fazer absolutamente nada, a não ser ver e ouvir. Os únicos sons que pareciam altos o bastante eram o de ratos fuçando coisas antigas. Ou o de baratas passando de um lado para outro. Só uma vez ou outra, eu parecia sentir ouvir um ruído, ou voz. Mas nada que já não tenha presenciado igual ou parecido. Cocei a face e bocejei. E esse bocejo, acho que foi o meu grande erro.
ㅤㅤ Ao final dele, apoiei a cabeça para trás e fechei os olhos para um leve descansar de vista. O horror começou a aí. Cochilei por cinco minutos, ou talvez por duas horas, ou eu não faço idéia de quanto tempo. Só sei que abri os olhos com uma sensação horrível passando por todo meu corpo. A temperatura em volta estava muito anormal, parecia um deserto! Olhei para fora pela janela e notei que havia uma iluminação que antes não estava ali, e então, saí. Lá, um sol gigantesco e ardente parecia quase engolir a terra, como se eu pudesse tocar seu calor terrível sobre mim. Havia ventos fortíssimos que levantavam a poeira que os paralelepípedos preservados pelo governo na frente do Armazém guardavam em seus vãos.
ㅤㅤ De modo que, até mesmo eu estava começando a ficar com medo. Eu, que sempre quis presenciar cenas como aquelas. Eu, que sempre sonhei com algo tão anormal. Parecia o fim do mundo, olhei para os lados e as construções, que antes eram recentes, agora pareciam sofrer com mais de duzentos anos de decomposição. Tremi nas bases e recuei aos poucos para dentro da estação. Mas não antes de ver meus algozes.
ㅤㅤ Ao longe, uma mancha começou a cobrir o céu. Uma mancha tão negra e assustadora que conseguia superar até mesmo ao Sol arrebatador. A única coisa que conseguia destruir a homogeneidade daquela escuridão eram os poucos pontos vermelhos que o furavam o negro. E a massa se aproximava, inteiramente para mim. Até que os distingui. Eram pequenos demônios, de escamas negras e garras assustadoramente afiadas, portando asas fortes de uma cartilagem de mesmo tom.
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ㅤㅤ Os meus gritos de nada serviram, assim como a estação. Eles destroçaram a janela e a porta e entraram furiosamente avançando sobre mim, e apenas sobre mim. Perdi o chão para me apoiar, e senti as lâminas começarem a perfurar minhas costas enquanto me levantavam para o resto dos monstros. Em menos de cinco minutos, a maior parte de minha pele havia sido comida, e eu sentia a pura e horrível dor de sentir meus ossos e carne serem bicados e arrancados. E só sentia, pois meus olhos foram um dos primeiros itens a me arrancarem. Me perdi num universo inimaginável de dor, tanto, que até me esqueci do meu sonho e de todo o resto.
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ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ~ㅤㅤ
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ㅤㅤ – E então? - A voz jovem soou, vinda da esquina próxima à estação.
ㅤㅤ – Gostei. Guri, até que tu não é qualquer merda. - Tobias respondeu.
ㅤㅤ – É. Será que com isso eu ganho sua confiança?
ㅤㅤ – Claro. Claro. Mas o Diamante, você só ganha depois que tu me matar. De algum jeito bem terrível.
ㅤㅤ – Pode deixar. Até lá, vou aprender mais sobre os rituais de transporte de planos. O rapaz ali, foi só um primeiro teste. Tem muitos de onde aquele veio. - O homem, de cerca de trinta anos deu risada. Acompanhado do próprio Tobias. Fazia frio naquela madrugada, o motivo pelo qual ele usava aquela jaqueta de couro com a estampa da figura horrenda nas costas, um Gárgula, do mesmo tipo que devorara o Jovem desiludido em outro mundo. Já o homem da jaqueta, o Gárgula Negro preparava seus Olhos Vermelhos para mais uma vítima.
Leia até o fim...
sexta-feira, 14 de maio de 2010
Prazeres Devaneios
Não que eu não fosse capaz de sobreviver do jeito que eu era antes. É só que... eu descobri um modo melhor. Meus antigos anos de ouro vieram na época em que eu era tão gentil quanto uma serra elétrica. Em menos de duas semanas meu pseudônimo e meu apelido ficaram conhecidos por todo o Brasil. Eu era nada mais que o “Curupira”. Nunca entendi direito, mas gostava do apelido e me lembrava dele sempre que eu dilacerava uma vítima minha no meio do mato.
Mas todos meus dias de glória terminaram quando o Delegado Prado e seus puxa-sacos conseguiram me encontrar. Pensei que minha posição social pudesse me salvar, afinal de contas. Me jogaram numa sala individual e a prisão se tornou um inferno. Cheio dos gritos de tortura que os presos continham em suas celas cheias. Minha felicidade decaiu. Nunca mais consegui dilacerar ninguém e o prazer por dissecar os órgãos de um ser humano vivo iam aos poucos perecendo, assim como a fúria de um leão que é preso em cativeiro.
Continuaria pura e simplesmente assim, por muito e muito tempo. Se não fosse por aquele milagroso dia. O horário de almoço era sempre algo tenso para os presos de celas individuais. Era um horário em que nós estávamos juntos dos outros presos. Todos sedentos por te matar por seus crimes lá fora. A gororoba era a mesma de sempre, mas já estava me acostumando com aquilo. Estava me acostumando demais com tudo aquilo, tanto que nem percebi quando o ser do meu lado começou a cochichar xingamentos a mim. Os primeiros foram tão baixos que eu nem pude notar, mas conforme passaram os poucos minutos, a intensidade e deboche com a qual ele falava começou a me perturbar exageradamente. Tanto que, enraivecido, ataquei-o. Vocês não sabem como é ótimo ver uma colher de plástico enfiada no olho de alguém que você odeia.
Achei divino a cena e aquilo acendeu quase todos meus ânimos. Até os agentes chegarem, me espancarem e me jogarem na solitária. O cubículo não tinha nada, e um dos guardas, dando risada jogou um livro para dentro da cela, dizendo que seria meu único companheiro por toda minha estadia na cela. Nutrido pelos meus ânimos despertos pelo sangue do outro, peguei o livro e dei risadas enquanto o lia com o pequeno faixo de luz que adentrava a cela. A primeira semana se passou daquela forma, só lia. Lia e Relia “O Mágico de Oz”. Animado. A segunda se passou com eu admirando cada palavra do livro, a loucura tomou conta, impulsionada pela solidão e pela recente matança. E foi com ela que comecei a amar o tal livro. O restos dos dias se passaram da mesma forma, até que fora libertado.
Novamente livre, lia todos os livros que me eram dados com um prazer imensurável. Esqueci do tempo, do meu corpo e do resto de minha vida. E quando menos notei, estava livre. Pronto para ler histórias de livros para homens com sangue no lugar dos olhos e da língua. Minha nova época de ouro havia chegado.
Leia até o fim...
segunda-feira, 12 de abril de 2010
Chaves, Reflexos, Sentimentos
ㅤNão. Definitivamente não era ali que ele estava antes. Olhou para si mesmo e estranhou: Não eram aquelas roupas que ele estava vestindo. Não aqueles trapos velhos. Por um segundo, seu antigo problema mental quase o aturdiu: Pânico. Quando ele se desesperava, não havia quase nada a fazê-lo parar de tremer e implorar por ajuda.
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ㅤMas aquilo era tão antigo que não teve forças para se manifestar. Esfregou os olhos. Concentre-se, Daniel! E após pronunciar a frase para si mesmo, ele reganhou a sanidade para raciocinar. Daniel estava num corredor escuro, tinha pouco mais de um metro de largura, e parecia se estender quase que infinitamente num breu que aumentava conforme seus passos o deslocavam para frente.
ㅤNão havia saída atrás dele, apenas o muro do corredor – feito com tijolos marrons e argamassa – que o obrigava a seguir em frente rumo ao que a escuridão lhe ocultava. Ou melhor, até havia luz. O local estava fracamente iluminado por lâmpadas incandescentes presas ao teto que ficavam falhando a todo momento. Aquilo e nada eram quase a mesma coisa.
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ㅤPor fim da análise; percebeu que, preso no cinto surrado de couro que segurava as maltratadas calças que vestia, havia uma argola de ferro com pequenas peças metálicas articuladas a ela. Um molho de chaves com exatas treze chaves. As chaves eram feitas à moda antiga, com detalhes e relevos que as enfeitavam. Seis tinham uma pedra vermelha brilhante fincada no apoio para os dedos, outras seis tinham pedras verdes. E uma, última, tinha um cristal negro acoplado a ele.
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ㅤTreze.
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ㅤUm calafrio lhe subiu pela espinha ao pensar no número. Lembrando-se vagamente da adolescência, onde ele acreditava piamente em números da sorte e do azar. Novamente, conteve uma crise de pânico e respirou fundo. Ele não tinha idéia de como chegou ali, assim como não se lembrava de nada, mas não poderia ficar ali para sempre.
Começou a andar.
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ㅤMinutos, horas, dias. Ele parecia ter perdido completamente a noção do tempo enquanto caminhava, com seus sapatos esfolados se arrastando pelo chão. Já estava para parar, quando avistou um diferencial: Ao longe, pareciam haver pequenos borrões negros nas paredes de ambos os lados. Portas! Pensou ele e disparou.
ㅤDe fato, ali haviam portas. Eram seis de cada lado do corredor todas simples, e uma numa parede que bloqueava o caminho. Daniel chegou ao fim do corredor. Poderia simplesmente se dirigir a qualquer uma delas e abri-la, para descobrir o que o futuro lhe reservava. Mas algo lhe dizia para abrir todas. Uma a uma.
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ㅤA primeira porta foi aberta com uma chave de Pedra Verde. Ela se alongou para dentro sem fazer ruído algum. Ali, havia um espelho. Daniel olhou sua imagem por apenas um segundo, vendo como estava deplorável. No instante seguinte, a imagem refletida mudou.
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ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ~ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ
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ㅤViu sorrisos e sentiu a alegria o inundar. E, num piscar de olhos, ele não estava mais no corredor escuro. Agora estava no seu quarto. Um peso considerável estava sobre seu corpo e ele retirou o cobertor para dar de cara com Laura. Sua queria esposa estava ali, deitada sobre seu peitoral com um sorriso a lhe receber.
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ㅤ- Demorou para acordar, amor. - Disse ela.
ㅤ- É, os processos me matam. - Ele respondeu, mesmo que na realidade, Daniel nada tenha dito.
ㅤㅤ
ㅤA imagem mudou no segundo seguinte, e assim prosseguiu por minutos indeterminados. Imagens de felicidade com sua mulher. Viu a cena do casamento, sua primeira noite de amor com ela e até mesmo o dia em que ele fora conversar com os pais dela sobre seu compromisso com a mulher de sua vida.
ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ~
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ㅤMas os minutos são cruéis e passam rápido na beleza. E logo, num seguinte piscar de olhos, Daniel estava ali novamente, no corredor escuro, olhando para um espelho que apenas refletia um negro que inexistia na realidade.
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ㅤFoi para a porta do outro lado. E ali colocou outra chave de Pedra Verde. A porta foi destrancada. Ela se alongou para dentro sem fazer ruído algum. Ali, havia um espelho. Daniel olhou sua imagem por apenas um segundo, vendo como estava deplorável, mas agora resguardando um sorriso pelas imagens relembradas. No instante seguinte, a imagem refletida mudou.
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ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ~
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ㅤ- Um grande viva para nosso grande Daniel aqui!
ㅤE seguido ao grito, vários urros soaram. Daniel estava agora num outro lugar familiar, o pub que sempre ia com os amigos surgiu a sua frente. Ao seu lado, um homem com as mãos enfaixadas devido a um acidente recente, era aquele que gritava em sua homenagem: Thomas, seu melhor amigo estava feliz, mesmo quando deveria não estar tanto assim. Ambos competiram para a mesma vaga na empresa, mas Daniel venceu Thomas por um número quase irrelevante de pontos. Ainda sim, Daniel havia ganho. E lá estavam eles comemorando sua vitória junto de mais uma dúzia de amigos.
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ㅤA imagem trocou no instante seguinte, mostrando cenas das noitadas que Daniel teve com seus companheiros, sobretudo com Thomas, que conhecera desde a faculdade. A época da liberdade de ser solteiro e das aventuras de uma só noite. Thomas era um dos únicos testemunhos de muitas de suas loucuras.
ㅤE assim mais longos minutos tomaram forma com as imagens. Sólidas, quase como se Daniel pudesse tocá-las. Mas ao mesmo tempo, ilusórias, como se Daniel soubesse que voltaria para o terror de um metro e meio silencioso do corredor.
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ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ~
ㅤㅤ
ㅤComo que lendo aos pensamentos de Daniel, a imagem se despedaçou e ele voltou a realidade – se é que era real – das portas que lhe mostravam a vida. Sentiu-se um pouco mais revigorado, talvez eu tenha interpretado mal todo esse lugar surreal, pensou ele.
ㅤㅤ
ㅤAvançou para o parde portas seguintes, desta vez, usando uma chave de pedra vermelha. A porta foi destrancada. Ela se alongou para dentro sem fazer ruído algum. Ali, havia um espelho. Daniel olhou sua imagem por apenas um segundo, vendo como estava deplorável, mas agora resguardando um nostálgico ar de lembranças antigas. No instante seguinte, a imagem refletida mudou.
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ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ~
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ㅤUm mal-estar cobriu completamente toda sua aura. E, mesmo sem a imagem ainda não ter mostrado nada, ele sabia que odiaria o que estava para ver. Algo sinistro, algo aterrorizante. Algo que ele não deveria ter visto. Contudo, não teve tempo de pensar mais nada, a escuridão continuou a cobrir tudo e só então notou que a visão já tinha começado.
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ㅤEstava tudo escuro, porque era noite e luzes não estavam acesas. Mesmo assim, Daniel podia ouvir ruídos e baixos gemidos. Demorou poucos segundos para sua visão se acostumar com a baixa iluminação e ele pôde ter um vislumbre do que assistia. Ele via uma orgia carnal.
ㅤSobre uma cama, estavam uma mulher, amontoada no meio de dois grandes corpos que não paravam de se mover. A mente de Daniel tentou arrumar alguma explicação para a cena, mas era quase impossível saber o que estava acontecendo ali. Tentou, então, apenas observar. O brutamontes montado sobre a mulher não parecia ser ninguém que conhecia, não pela estatura física do homem. ㅤTambém, o que estava abaixo tinha cabelos negros longos que se destacavam sobre as almofadas brancas, ninguém que conhecia era daquela forma. Mas a mulher tinha algo de familiar. Seus cachos amontoados sobre os ombros pareciam de... Não. Não pode ser.
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ㅤA perna de alguém esbarrou sobre o criado-mudo acendendo a cena que Daniel não gostaria de acreditar. Laura estava delirando de prazer com gemidos que se faziam mais altos a cada segundo, ela tinha um sorriso estampado na face enquanto suas mãos arranhavam os largos ombros do homem montado sobre ela. E, o que era incrível para o trio, era o terror de Daniel.
Sentiu o ar escapar de seus pulmões, assim como sua vontade de fechar os olhos para aquilo se fez presente. Mas era impossível, os minutos, novamente cruéis o obrigavam a alongar a cena por uma eternidade.
ㅤMinutos estes que o fizeram notar mais cenas que fizeram sua raiva e desprazer crescerem: Aquela, era sua casa. A mesma almofada branca aonde Laura e eles se amaram tantas vezes era o berço da traição da mulher. Notara também a aliança, jogada ao lado do Criado-mudo, como se nunca realmente desejasse aquilo, mesmo tendo uma linda filha e filho com Daniel.
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ㅤJá estava para notar mais detalhes doloridos, quando o espelho o salvara do sacrifício.
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ㅤMais uma vez voltara ao corredor. Mas agora, sentia-se fraco e despreparado, frente ao espelho enegrecido. As mãos tremiam em volta do molho de chaves, desviou o olhar para frente: Haviam mais dez portas. E ele mal sabia o que poderia esperar por ele em cada uma delas. Respirou fundo e, abatido, foi para a próxima das portas, do outro lado do corredor.
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ㅤSobre a tranca, novamente uma chave de pedra vermelha. A porta foi destrancada. Ela se alongou para dentro sem fazer ruído algum. Ali, havia um espelho. Daniel olhou sua imagem por apenas um segundo, vendo como estava deplorável, agora com lágrimas na face triste. No instante seguinte, a imagem refletida mudou.
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ㅤUm estrondoso barulho soou, junto a imagem de um grande vaso sendo jogado furiosamente ao chão. Thomas, arfava pesadamente enquanto procurava mais itens nos quais descontar sua raiva. Seus olhos pareciam pegar fogo enquanto ele agora chutava com toda a sua força algumas vassouras que estavam no canto de sua garagem.
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ㅤ- Como o desgraçado filho-da-puta conseguiu!? Argh!
E desferiu um chute no carro. Um chute furioso, que fez o alarme acionar. Mas Thomas pareceu não ligar para o barulho altíssimo e irritante, sentou-se no canto da garagem e tomou fôlego.
ㅤ- Que diabos! O que o maldito tem a mais que eu!? - Vociferou para o nada. - Desde a faculdade era assim! Ele sempre pegava as melhores garotas! Era o preferido dos professores! Sempre! Argh! E agora isso!? Aquela promoção era minha! Minha!
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ㅤE só então, Daniel pôde entender o que estava acontecendo ali. Sentiu um aperto no coração e uma mágoa o recheou, uma mágoa que crescia ainda maior por causa da dupla cena de traição, uma seguida da outra. O seu melhor amigo estava lá, esbanjando ódio após perder para ele. E não só isso, o que Daniel observava era uma raiva contida, como se todas as horas que eles passavam juntos fossem apenas sacrifícios irremediáveis.
ㅤFicou observando-o; calado, incrédulo. Thomas balbuciava palavras a torto e a direito, sempre denegrindo e esmagando a imagem de Daniel. Cada palavra parecia pesar mais e mais sobre os ombros do amigo.
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ㅤDepois de algum tempo na cena, Thomas levantou-se e virou-se para a parede. Pareceu ter se acalmado a ponto de agora respirar regularmente. Quando, de súbito ele desferiu dois socos contra a parede da garagem. Sangue escorreu dos punhos, mas ele pareceu não ligar.
Finalmente, entrou na casa e voltou em instantes, com as mãos enfaixadas. Desligou o alarme do carro e entrou no mesmo. Tinha uma comemoração para ir, para resguardar mais do seu ódio.
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ㅤAquela fora uma cena que passou rapidamente. Talvez, pela intensidade de cada ação que Thomas havia feito. Daniel sentiu-se sozinho, sentiu-se cansado e com vontade alguma de voltar para o meio daqueles que uma vez ele considerou o maior marco de Paixão e Companheirismo em sua – agora mísera – vida. Foi quando um aperto lhe fustigou o coração, e ele raciocinou algo que deveria ter pensado muito antes. Haviam mais oito portas paralelas, assim como mais quatro chaves enfeitadas de verde e quatro de vermelho. Olhou para trás, para as portas que já passaram e depois voltou-se para frente. Meu deus, não. Não faça isso comigo.
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ㅤTinha uma teoria a testar. Com certa urgência, Daniel se apressou para a próxima porta e enfiou nela a chave de pedra verde. E, ao contrário dele, ela se alongou para dentro sem pressa alguma. Ali, havia um espelho. Daniel olhou sua imagem por apenas um segundo, vendo como estava desesperado. No instante seguinte, a imagem refletida mudou.
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ㅤVia-se diante de um quarto, como se fosse um observador invisível. O pequeno cubículo era branco e parecia ser completamente confortável. Ele conhecia aquele lugar, mesmo estando vazio. Contemplou-o com certos suspiros, enquanto sua mente ainda não se preocupava com o que estava por vir depois da visão. Pensou sobre ele pelos segundos que pôde, até ouvir passos no corredor. ㅤㅤUma voz familiar: A dele.
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ㅤ- ...Afinal, hoje foi um incrível dia, não?
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ㅤDaniel entrou no quarto sorridente, levava com as mãos uma cadeira de rodas que carregava uma idosa mulher. A velha parecia, mesmo estando no tão arejado lugar, como se estivesse na mais terrível masmorra. Tinha os mesmos cabelos castanhos de Daniel e os traços dos rostos também era familiares.
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ㅤA face dela era enrugada, tanta que os olhos triste quase se perdiam no meio de tantas dobraduras da velha pele. Mas Daniel, ali, não parecia nem ligar. Afinal, estava feliz. Estava com aquela que o pôs no mundo. Mãe. Pensou o Daniel observador enquanto fitava a cena toda com olhos marejados.
ㅤO Daniel das lembranças acariciou a face da velha e foi para a janela, abrindo as cortinas para deixar a luz entrar com mais intensidade na pequena sala. Sua velha mãe sempre estava daquela forma, inerte e quase vegetativa. Fora assim desde que nascera e fora criada pela assistente social, fazendo apenas poucas visitas a mãe. Mesmo assim, Daniel não se deixara levar por qualquer outra coisa, após ser de maior, tomou responsabilidade por tomar conta e bancar as contas que a mãe acumulava com o governo enquanto internada naquele centro de reabilitação. E ia lá, sempre que podia.
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ㅤDe súbito, a imagem se contorceu e mudou, agora mostrando a primeira vez que ele encontrara a mãe, cinco anos depois de nascer. Com lágrimas nos olhos, o pequeno Daniel abraçou a mulher opaca deitada na cama. Ela, só pôde soletrar uma palavra.
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ㅤ- A...
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ㅤNem notou quanto tempo havia se passado naquelas curtas visões do passado. Uma brisa fria saiu por debaixo da décima terceira porta e trouxe de volta todas as preocupações e angústias de Daniel. O encanto fora quebrado e agora ele sabia que deveria seguir em frente. Tomou coragem na imagem da mãe, que não via já fazia muito tempo e seguiu para a porta do outro lado, deixando para trás o espelho, que assim como os outros se tornara negro.
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ㅤBotou novamente uma chave de pedra verde nela. Ela se alongou para dentro sem fazer ruído algum. Ali, havia um espelho. Daniel olhou sua imagem por apenas um segundo, notando o receoso e hesitante traço de preocupação na cara carcomida por leves maltratos. No instante seguinte, a imagem refletida mudou.
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ㅤ- ...!!!
ㅤDaniel assustou-se, sendo recepcionado pelo choro de um bebê. A visão se clareou e ele se viu na sala de parto do hospital. Novamente, via a si mesmo no passado, com os músculos rijos de nervosismo ao lado da mulher, Laura, deitava na cama. Sentiu um desgosto ao vê-la, mas o som do choro se fez mais alto e ele deu a este, a atenção devida.
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ㅤMarco, seu primeiro filho nascia naquele momento. E desta vez Daniel não esboçou nenhum sorriso vendo a cena de suas memórias. Ao invés disso, uma maré de preocupação o cercou, uma maré de medo e desespero. A visão do paraíso se distorceu para se tornar uma cena do inferno, ele queria que aquilo acabasse para ele finalmente sanar a dúvida que lhe matava. Precisava testar a próxima chave. Uma chave verde na próxima porta. Com Marco e sua mãe, ele não gostaria de se arriscar.
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ㅤDe modo que assim, todas as cenas de felicidade; como os primeiros passos de Marco e sua primeira palavra, foram inundadas em uma pressa bárbara. Não que Daniel não deixou de observar: Ele até tentava sorrir, mas sua preocupação era tamanha que os minutos da visão daquele espelho se passaram rapidamente. Embora para Daniel, uma eternidade seja o tempo mais definido.
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ㅤQuando sentiu-se novamente no corredor de tijolos marrons, ele prendeu a respiração, tentando conter uma crise de pânico que se abrandava dentro dele. Com ela contida, foi para próximo par de portas viradas uma para a outra. Era ali que ele queria mudar as leis do jogo. Desde o seu início, algo o dizia para colocar a chave, não era simplesmente sua intuição. Era como se Algo estivesse dentro de sua mente, lhe sussurrando o que deveria fazer. Cada escolha, cada chave. Mas agora seria diferente.
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ㅤContrariou o pedido desconhecido e avançou para a próxima porta, colocando sobre sua fechadura uma chave de pedra verde que já usara antes. O item destravou a porta e ela se abriu lentamente, assim como todas as outras. Mas o espelho agora se alterara. Não estava mais refletindo sua imagem. Distorcido, seu novo eu que aparecia sobre o utensílio parecia destruído e arregaçado de vermelho. De sangue. Daniel olhou para a imagem por um segundo, antes de desviar seu olhar. ㅤNeste exato instante, a pedra verde da chave pendurada na porta começou a deformar-se. Assim como uma gota de sangue manchando um copo d'água, um fluido vermelho surgiu e envolveu o antes verde ornamento. Daniel nem havia notado, quando voltou-se a virar para o espelho e encontrou-o refletindo sua imagem assustada. No instante seguinte, a imagem refletida mudou.
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ㅤO som de uma festa alegre e divertida podia ser ouvida de longe, mesmo que Daniel observasse agora um pequeno beco escuro e úmido. Os fogos podiam ser ouvidos ao longe, talvez fosse ano novo, talvez fosse qualquer outra comemoração digna. Contudo, os ruídos de alegria logo foram substituídos por passos. Passos apressados vindos de um salto digno a se fazer o barulho.
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ㅤUma mulher surgiu na calçada, desesperada e arfante, entrou no beco sem hesitar, enquanto olhava para trás a cada segundo. Tensa, ela se escondeu atrás de caixotes de lixo e tentou controlar a respiração, sem sucesso. Mesmo no escuro, Daniel conseguiu notar alguns poucos detalhes dela. Estava com uma maquiagem borrada na face e vestia-se como que para a festa cujo os sons ouvira, seu peito enchia e e esvaziava a cada meio segundo, mostrando o desregulado resultado de uma fuga. Olhou para a entrada do beco novamente enquanto pegava o celular na bolsa prateada, temia alguém.
ㅤDiscou números freneticamente com os dedos trêmulos e pôs o celular no ouvido enquanto deixava a cabeça pender sobre um monte de lixo. Talvez tivesse finalmente encontrado segurança ali. Neste meio tempo, Daniel pôde observar mais traços dela. Tinha um cabelo liso, cujo a cor ainda não conseguia definir devido a baixa luminosidade. Devia ter pouco mais de vinte e cinco anos, e definitivamente não era feia.
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ㅤSeus pensamentos foram interrompidos. Não só os seus, como os da mulher. Uma mão segurou o celular e jogou-o no chão com força. Um brutamontes embriagado estava sobre ela, segurando seus braços com tanta força que Daniel podia notar. E foi então que sentiu um aperto no coração. Já era mais que claro. Aquele monstro que violava sua mãe era seu pai. Ele simplesmente soube, como se algo soprasse as palavras ao vento. E Daniel, num estado de choque, ficou a observar a noite em que fora gerado.
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ㅤDali em diante, seus sentimentos murcharam com tal rapidez que ele sentiu-se desnorteado, e por isso, não emanou mais nenhum tipo de manifesto. Só ficou observando a imagem mudar. Agora vendo sua mãe, chorando sentada à maca de um médico. Abraçava a barriga com força, quase fincando as unhas por cima do vestido que usava. Os olhos estavam turvos e ela soletrava palavras baixas, mas que Daniel – por algum motivo – fora capaz de ouvir.
ㅤ- Não... Não quero essa aberração. Filho de um monstro!
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ㅤJá não havia muito ao que Daniel se prender. Tentou fechar os olhos novamente, mas era como se algo o direcionasse para ver tudo aquilo. As cenas seguintes foram umas mais chocantes que as anterior. Uma discussão de sua mãe com seus avós – que alias, nunca conhecera – sobre ter ou não o filho lhe salvou a vida antes mesmo dela brotar.
ㅤDaniel pôde sentir na pele a raiva e o rancor que sua mãe tinha dele. Um ódio de um filho que nunca deveria ter existido. E assim as cenas mudavam, mostrando cada sofrimento solitário da mulher, até a cena do parto. Daniel nascera de cesariana, e sua mãe estava jogada na cama, com os olhos vidrados no nada, opacos. Como os que conhecia ao vê-la no quarto do centro de reabilitação. E enfim, a cartada final:
ㅤ- A... - Disse sua mãe. Como ela dizia a anos para ele, mas nunca completava a frase ou sequer a palavra. - Afaste-o de mim. Afaste o inferno.
ㅤCada palavra veio como uma lança no coração dele. Como se imaginasse cada segundo que passara dedicado a sua mãe fosse em vão. Como que cada segundo que passara com ela, não passasse de um terror na vida daquela que lhe deu a vida. Como se seria muito melhor se ele não existisse.
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ㅤCaiu no chão, os joelhos falharam e lágrimas silenciosas caíram sobre sua face. Não era aquilo que ele queria ter visto ali. A chave que ele colocara era com uma pedra verde. Como se tornara vermelho? As perguntas rondaram a sua cabeça por pouco mais que um segundo. Quando ele mesmo soube a resposta: Não havia como mudar a ordem dos fatos. Por mais sofrido que seja, ele teria de ir até o fim.
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ㅤLevantou-se e virou para a outra porta. Ali estaria algo terrível relacionado a Marco. Já tinha certeza. Puxou o último resquício de coragem que tinha e afundou sobre a fechadura a chave certa: Uma com pedra vermelha. Ela se alongou para dentro sem fazer ruído algum. Ali, havia um espelho. Daniel olhou sua imagem por apenas um segundo, vendo o quão opaco ele parecia estar. No instante seguinte, a imagem refletida mudou.
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ㅤAquela talvez fora a cena mais rápida de todas as portas, ou talvez seja porque Daniel se recusou a gastar os cruéis minutos vendo aquela cena tão maldita para ele. Daquela vez, o tempo tinha avançado.
ㅤVira Marco mais velho, provavelmente tinha ali dezoito anos ou mais. Já era um homem e Daniel, em alguma parte de sua já desgastada alma, sentiu orgulho daquele homem com os mesmo cabelos castanhos que os dele. Mas, qualquer orgulho desmoronou no instante seguinte.
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ㅤComo um turbilhão de terror, Marco – que estava sentado na cama de seu quarto – puxou de debaixo do travesseiro uma pistola. Colocou-a dentro da boca e disparou um único tiro. Daniel não podia acreditar. Ele não sabia de nada. Não sabia o que tinha acontecido. Não sabia do que Marco estava sofrendo. Não sabia se podia ajudá-lo. Simplesmente viu se filho se matar na sua frente.
ㅤOs miolos explodiram dentro da boca de seu filho e espirraram, tanto para frente, sujando a camiseta branca, quanto para trás, abrindo um buraco acima da nuca dele.
Sangue começou a jorrar incessante enquanto o corpo, aparentemente inerte tombava sobre a cama de lençóis limpos. Daniel não tinha mais lágrimas e mais forças. Toda sua esperança se desfragmentou ao ver tal cena bem a frente de seu olhar. Já não podia aguentar. Haviam ainda mais dois sofrimentos antes da porta do fim do corredor, e ele não tinha certeza se aguentaria ambos. Sua mente divagou, quando os olhos lhe chamaram a atenção para a cena de seu filho sobre a cama.
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ㅤO pé dele tremia, assim como a mão mexia de leve e o peito mexia-se num ritmo lento e sofrido. Marco piscou. A tentativa de suicídio não funcionara como devido. Uma dor fustigante veio a Daniel, imaginando o quanto seu filho estaria sofrendo naquela situação. E assim novas lágrimas brotaram enquanto ele estava mergulhado na visão do espelho.
Agora, ele tinha de esperar. Tinha de ver seu filho morrer e seu sofrimento acabar. Precisava ter certeza que ele iria em paz. E foi exatamente nessa hora, que a imagem falhou e sumiu.
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ㅤRetirou a chave da porta e foi em direção a próxima. Decidiu que, já não valia a pena tentar expressar-se. Todo o sentimento que tinha fora esmagado, estraçalhado e incinerado. Ele agora era um corpo sem vida. Uma alma sem sentidos. Já não valia mais nada, e deveria terminar aquilo da maneira mais rápida possível, para finalmente saber do que se tratava tudo aquilo.
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ㅤColocou a chave de pedra verde na fechadura da próxima porta, assim como pedia aquele corredor maldito que sugava sua existência. Ela se alongou para dentro sem fazer ruído algum. Ali, havia um espelho. Daniel olhou sua imagem por apenas um segundo, dando de cara com sua desamparada feição pela vida. No instante seguinte, a imagem refletida mudou.
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ㅤE daquela vez, as cenas passaram tão rápido que nem vale a pena narrar em detalhes. Preparado para a dor e para o sofrimento, Daniel apenas deixou circular as figuras de sua vida. Aquela porta lhe mostrou seus momentos solitários. Suas horas de leitura e suas reflexões que fazia, vez ou outra, consigo mesmo. Mostrou os minutos que esperava na volta do trabalho durante um engarrafamento, assim como horas de lazer ouvindo a música de seu agrado. Aquela fora a mais leve visão dos espelhos. Daniel já não ligava para si mesmo. Aquilo já não importava.
ㅤQuando o espelho se tornou negro e as visões terminaram, ele simplesmente se dirigiu para a próxima porta, e ali enfiou a última chave verde. Girou, abriu a porta e esperou para ver mais alguma cena de sua vida que valesse a pena perder.
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ㅤDaniel estava bem vestido. Usava seu melhor terno e se portava ao lado de Laura. Ambos sentados no meio de uma platéia grandiosa. Ao lado deles, só haviam homens notórios em trajes de gala e mulheres recheadas de peças de ouro. E mesmo assim, eles estavam no melhor camarote da festa.
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ㅤEle parecia alguns anos mais velho do que lembrava ser, então supôs que aquela visão fosse de algo que ainda não acontecera. Algo que ele sentiria prazer ao ver, mas que odiaria por saber que por trás disso, o terror esticava suas garras. E foi então que uma salva de palmas recheou o auditório luxuoso, junto do abaixar das luzes. Escuro ficou por apenas alguns segundos, e Daniel sentiu a mão de Laura apertar a sua.
ㅤ- Lá está.
ㅤ- Sim.
ㅤ- Ela está linda.
ㅤ- Sim.
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ㅤAquele fora o maior misto de prazer e desprazer já feito na mente de Daniel. Que explodiu por dentro ao mesmo tempo em que se retraía para seu excluso mundo. Ana estava lá, no meio do palco com um vestido preto que não combinava com sua idade, mas que mesmo assim estava lindo. A jovem prodígio de oito anos segurava, entre o queixo e o peito, um violino ornamentado e envernizado. Ela sorriu para a platéia, e após um leve aceno para Daniel e Laura, começou a tocar.
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ㅤA filha de Daniel surgiu em todo mundo como sendo o novo nome da música clássica. A menina simplesmente tinha o dom para as cordas e o usava ao seu bel prazer. A música soou por todo o lugar e encheu os ouvidos de Daniel com sua melodia. E assim, seu olhos encheram de lágrimas. Sua filha, com os cachos da mãe e os cabelos castanhos do pai, havia se tornado seu maior orgulho e a melodia do violino era o que transmitia aquilo. Aquele misto de Raiva e Amor. De Ódio e Paixão. De Morte e Vida.
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ㅤDaniel gritou, gritou e gritou. Clamava para fazer parar aquela cena, aquela era era sua pior cena. Abraçou sua crise de pânico e usou dela como um viciado usa de craque. Para se destruir com prazer. Ele balbuciou e vociferou alternadamente, xingando a si próprio, xingando a filha e a todo resto enquanto via a belíssima melodia. Mas como sempre, os minutos eram cruéis nas horas mais oportunas. E aquela, no ponto de vista de Daniel, foi a visão mais demorada de todas.
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ㅤ- NÃO! NÃO PODE SER!
ㅤEle gritou, enquanto esmurrava o vidro negro que nada refletia a sua frente. Fluido escorria de seu nariz, ele babava e chorava ao mesmo tempo também. Pânico e horror se juntaram enquanto ele tentava destruir aquele instrumento do diabo. Ficou minutos espancando o espelho, sem sucesso, até finalmente, com o punho em carne viva e sangrando, parar e respirar fundo.
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ㅤ- Não... Não... Não.... - Repetiu para si, enquanto lembrava-se da cena do espelho anterior. Ele tinha vistos cenas de si próprio. E se morresse? E se não estivesse presente quando sua filha precisasse dele, igual acontecera com Marco? E se o próximo espelho que abrisse fosse o seu fim? Ele não conseguiria salvar Ana.
ㅤDesejou viver. Desejou com todas as suas forças viver.
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ㅤLevantou-se e correu até o último par de portas. Segurou as duas últimas chaves de pedra vermelha e puxou-as em direções opostas, arrebentando o molho de chaves. Cobriu a fechadura das duas últimas portas e abriu-as, juntas. Não aguentaria ver uma por uma. Elas se alongaram para dentro, fazendo um forte baque ao se chocarem com a parede de trás. Ali, haviam dois espelhos o refletindo. Daniel olhou sua imagem por apenas um segundo, ela estava desfigurada, como imaginava. No instante seguinte, a imagem refletida dos espelhos mudaram.
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ㅤVoltava para casa, como sempre fizera nos últimos três anos, pela avenida central da cidade. Daniel se lembrava daquela cena. Se lembrava com perfeição da memória que lhe era fresca na mente, embora não lembrasse como acabava.
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ㅤAquele dia em especial, não havia engarrafamento. Ou melhor, já havia tido, mas Daniel ficara até tarde no trabalho, prestando hora extra. E agora quando voltava encontrara um transito livre. De modo que ele podia acelerar enquanto ouvia a boa música que o rádio tocava. No banco de trás, presentes para as crianças. Ele sempre trazia algo quando vinha tarde para casa. Como uma forma de compensá-los pela preocupação.
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ㅤVirou-se para ver se estavam todos bem. E no instante em que voltou o olhar para frente, míseros segundos, deu de cara com uma caminhonete a engolir seu carro. O monstruoso veículo engoliu se carro e ao amassou até se tornar irreconhecível com apenas uma única batida que fez ele capotar. ㅤㅤDaniel pôde sentir todas as dores daquele dia. Pode notar como o para-choque da caminhonete afundou sobre seu ombro após romper a porta sem dificuldade alguma. E notou quando, ainda dentro do carro, sentiu-se vivo o bastante para sofrer com barras de ferro atravessadas em seu corpo. Era claro. O Corredor maldito preparara tudo com a atenção devida. Eu morro aqui. E não verei o conserto da minha filha. Eu morro aqui e não a salvarei do que quer que ocorra. Eu morro aqui.
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ㅤRepetiu-se para si mesmo enquanto os minutos cruéis se passavam aumentando sua dor e reduzindo seu brilho.
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ㅤSua sala de estar nunca pareceu mais assombrosa que aquela que ele via. Daniel já tinha perdido completamente a esperança perante o que iria ver, mas mesmo assim, não deixava de tentar contrariar o destino. Gritava, Clamava, Implorava, Ameaçava, Xingava e Açoitava com as palavras enquanto era obrigado a ver a cena mais marcante de sua vida – se bem que, ele já estava morto.
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ㅤNão havia nenhuma luz ligada no cômodo, mas a luz dos postas da rua entravam pela janela após trespassarem a cortina fina e avermelhada, dando um tom ainda mais sombrio para o lugar. Mesmo não tentando prestar atenção, era impossível deixar de notar. Ele já via uma parte do horror que provavelmente estava para acontecer: Demoraria poucos segundos para uma pessoa notar que houve um grande tumultuo ali.
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ㅤO sofá estava fora do lugar normal, lampadas estavam tombadas assim como diversos móveis do lugar. Todo o armário de louças estava caído, espalhando cacos de vidro e cerâmica para toda a sala. Daniel sentiu um aperto maior ainda quando, de súbito, a imagem começou a caminhar pela sala. Como se ele pudesse sentir suas pernas tocando o chão, mas sem que tivesse controle algum sobre elas.
ㅤAgora também acostumado com a falta de iluminação podia ver melhor. Piscou os olhos, como que para ver se ajudasse, e viu com o canto do olho um vulto tombado no chão. Não! Espere! Uma intensa vontade de voltar e olhar o que era aquilo lhe veio a mente. Mas a imagem não voltou. Sua angústia aumentou enquanto ele tremia torcendo para – mesmo que sem utilidade alguma – não ver sua filha.
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ㅤVirou-se para a escada e ali, mais o horror acentuou-se, evidenciando-se pela trilha de sangue que percorria cada um dos degraus e ia para sala. Foi então que voltou o olhar para a sala e mostrou o vulto caído no chão. A silhueta era clara: Havia um corpo jorrando de sangue capotado perto à parede.
ㅤEra muito pequeno para ser um homem, e – felizmente – muito grande para ser o de uma menina. Ia tomar um ar de suspiro quando o vento entrou pela janela aberta e balançou os cabelos do morto. Cachos. Cachos arredondados e perfeitos. Era Laura. E, mesmo que ela o tivesse traído, ele sentiu-se mal por ver a cena. Ainda a amava.
ㅤㅤ
ㅤA visão do espelho pareceu se dar conta dos sentimentos de Daniel e abruptamente virou-se para a escada, começando a subi-la em passos acelerados. Acelerados, assim como ficou o coração de Daniel, que parecia saltar pela boca. Queria refrear seus pés, mas eles simplesmente não o obedeciam. Queria, pela centésima vez, fechar os olhos, mas eles nem piscavam mais. Desejava apenas sair dali, quando finalmente sua visão virou-se para uma porta rosa.
Ana. Sussurrou ele enquanto o pânico abraçava toda sua existência.
ㅤUma mão foi a fechadura e abriu-a sem fazer barulho algum. Ali dentro, o silêncio parecia reinar, assim como todo o ar de um quarto de menina. Não havia barulho algum e Ana dormia, tranquila, na cama. Milagrosamente, toda a confusão no andar de baixo não acarretou no distúrbio de seu sono, que continuava pesado como Daniel lembrava-se. Aproximou-se da filha e, por um momento, apreciou vê-la. Pois ver a filha era sempre uma benção. Apenas por um momento.
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ㅤMãos surgiram, e Daniel podia sentir o que elas sentiam. Elas foram sem dó contra a garota. E só então percebeu: Aquelas não eram suas mãos. Grandes demais para serem elas. A imagem que via não era a de Daniel. Ele estava vendo o que o carrasco de sua filha via.
ㅤSegurou os dois braços da garota, aproveitando que dormia tranquilamente. Forçou-os para cima e ali, amarrou rapidamente com uma corda, que parecia estar pendurada em seu pescoço, especialmente para aquela ocasião. Quando Ana despertou, ela já estava com as mãos presas na quina da cama, com o gigantesco homem a observando por cima.
ㅤ- O... o que é isso!? Quem é você!? - E forçou os braços. - Me tire daqui! Socorro! Socorro!
ㅤA angústia de Daniel aumentou ao ouvir a filha clamando por ajuda. Aquela voz ainda fina e suave de uma garota que nem na adolescência havia ainda entrado. Ela debatia-se com todas as suas forças, chacoalhando as pernas e movendo o corpo na direção contrária dos braços enquanto gritava pela mãe ou pelo irmão. Mas ninguém além da pobre mente de Daniel respondia aos seus pedidos.
ㅤO maníaco passou em frente ao espelho do quarto da menina e Daniel teve um vislumbre da pessoa. Um monstro contido num corpo comum. O homem tinha mais de quarenta anos e pele escura, não era grande ou musculoso, só tinha mãos grandes e uma mentalidade engenhosamente maléfica. Ele foi até a escrivaninha da garota e sentou-se sobre a cadeira, para observá-la se debater.
ㅤ- Socorro! Mamãe! Marco! Socorro!
ㅤFilha! Por favor! Não faça nada com ela! Por favor! Implorava Daniel. Mas o homem simplesmente desviou o olhar, vendo o quão organizado era a mesa onde a filha de Daniel fazia suas lições. Passou sua mão sobre os materiais dela, como se tivesse a escolher qual lhe fosse melhor. Até que arrancou um item do estojo rosa e levantou-se, voltando na direção da garota. Inútil, Daniel agonizava com seus olhos ardendo de desespero e loucura: O homem carregava consigo uma pequena tesoura sem ponta.
ㅤㅤ
ㅤ- O que você... Não! Não! Pare! Socorro!
ㅤMonstro! Suma daqui ou juro que vou persegui-lo e destrui-lo! Pare! Pare com isso! Pare agora! Entretanto ele não era ouvido e o maníaco sentou-se sobre a cama, com uma perna sobre cada lado da garota, ele arfava de prazer pelo seu ato e parecia não ter sequer uma hesitação em cada movimento seu. Enfiou as mãos sobre a abertura entre os botões que fechavam o pijama de Ana e deu um forte puxão arrebentando e abrindo o homem para o peito da garotinha que soltava gritos agudos entrecortados entre um choro altíssimo. O homem esboçou um sorriso e estapeou a garota, tirando dela um gemido.
ㅤ- Grite mais. Grite o quanto puder! GRITE PARA TODOS OUVIREM!
ㅤNÃO! POR FAVOR! PAREM-NO! PAREM-NO!
ㅤE dizendo isso, o homem forçou a parte laminada da tesoura sobre a barriga da menina e puxou para a esquerda, abrindo um rasgo sobre a pele dela. A menina contraiu o abdômen, o que fez a dor aumentar enquanto o sangue esbanjava-se aos montes. Daniel rompera a barreira da sanidade e agora gritava, chorava e ria ao mesmo tempo enquanto sentia tudo que as mãos do homem sentia, como se fossem suas próprias mãos. Como se ele estivesse esfolando sua filha.
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ㅤ- Não! Pare! Por favor! Pare!
ㅤE sem dó, ele desenhou mais quatro cortes sobre a barriga da garota. O líquido vermelho que antes circulava pelas veias e artérias dela agora corriam, incessantes pelo decorrer da pele até o lençol. Pelo fato da garota ser pequena, o peso do homem era mais do que suficiente para deixá-la imobilizada o suficiente. Daniel não vira, mas aquele maldito tinha um sorriso amaldiçoado na face que suava aos montes diante de suas mãos trêmulas.
ㅤDepois de doze cortes, os gritos de Ana ficavam cada vez mais fracos. Como se ela notasse que não importava o quanto gritasse, ninguém viria salvá-la. O homem parou por alguns segundos e depois soltou um rugido, seguido de um tapa na face dela.
ㅤ- PORQUE PAROU!? Grite! Implore por sua mísera vida!
ㅤE assim, passou a lâmina da tesoura infantil sobre o seio da garota. O fascínio pela desgraça era óbvio quando ele riu junto do horror que a garota expressou no mais alto grito. Quebrou a tesoura em duas, e usando as duas lâminas fraquíssimas começou a criar dezenas de cortes pelo decorrer dos braços dela fazendo questão de exigir gritos com cada um deles. Ao chegar perto dos ombros, ele novamente parou, tentando regular sua descontrolada respiração.
ㅤ- Não... Isto ainda não é seu sofrimento.
ㅤ- Por favor... Eu.... - Ela dizia com os olhos vermelhos de tanto choro.
ㅤNão pôde terminar a fala. O maníaco largou uma lâmina sobre a cama e segurou o queixo dela, enquanto sua outra mão aproximou a outra parte da tesoura sobre a boca. Uma nova gargalhada omitiu completamente os gritos de terror de Ana quando ele passou a lâmina sobre a divisão dos lábios dela. Ela voltou a debater-se com tudo.
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ㅤJá chega... Por favor... Daniel quase não conseguiu falar. Mate-a. Não. Pare de dar este sofrimento a ela. Não.. Mate-a. Por favor. Mate-a. E, como se estivesse respondendo as perguntas de Daniel, o maníaco falou.
ㅤ- Quero que guarde muito desse terrror. - O tom de escárnio era supremo na voz dele. - Temos toda esta madrugada de diversão.
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ㅤPiscou. E respirou fundo. Porque ele ainda tinha pulso? Porque ele ainda respirava? Todas as coisas que tinha de importante em sua vida lhe foram tiradas. Não havia mais porque viver. Daniel estava agora, sem alma.
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ㅤDeu as costas aos dois espelhos que agora estavam negros e avançou para a porta Treze. Arrastou do chão a chave com o cristal negro ornamentada nela e abriu a porta. A porta foi destrancada. Ela se alongou para dentro sem fazer ruído algum. Ali, não havia nada além da escuridão. Daniel avançou sobre ela. Abraçou-a como se fosse um filho. A morte o aguardava.
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ㅤPiscou os olhos uma única vez. Estava na cama de um hospital, podia definir pela predominância de itens brancos a sua volta e pelo fato de estar deitado numa perfeita cama inclinada. Tentou olhar em volta. Mas nada aconteceu. Seu olho não se moveu, assim como não mais piscou. Com medo, tentou levantar-se para chamar uma enfermeira. Saber que tudo aquilo fora só um sonho. Mas ele não se moveu. Seu corpo não o comandava. Exatamente como antes. E, mal havia recuperado suas forças, sentiu que o seu maior terror não era a morte, ele até a desejava depois de ver tantas cenas. A décima terceira porta lhe mostrava a realidade.
ㅤComo ele passaria o resto de sua vida. Uma alma viva preso dentro de um corpo que não o responde. Estado Vegetativo.
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ㅤ- ... - Observou a prancheta presa ao lado de sua cama. E novamente algo lhe indicou a verdade. Ele era o paciente do quarto Treze da ala Treze. Treze minutos fora o tempo de cada uma de suas cruéis visões. Treze seria o número de vezes que sua mulher, sádica e pervertida, faria amor com seus amantes em frente ao marido vegetativo. Treze fora o número de coisas que Thomas mais odiava por Daniel ter lhe tomado. Treze foram as vezes que sua mãe tentara abortá-lo antes mesmo de nascer. Treze seria o número de vezes que seu filho, Marco, iria ser vítima de mal-tratos ao extremo no colégio e na faculdade, causando seu suicídio. Treze horas seria o tempo que Ana sofrera nas mãos do maníaco. Sabia de tudo aquilo. E sabia que viveria para presenciar tudo aquilo, que a morte não o libertara. E por fim, é mais que óbvio, Treze é o número de anos que ele viveria naquela prisão angustiante.
ㅤE, mais que óbvio, aquilo que falava com Daniel, aquele ALGO, era nada mais que o Treze. Assim como o dia de seu fatídico acidente, Sexta Feira 13, um maldito dia para sua alma ser destinada a morte.
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