segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Monólogo - 4

Postagem dedicada para Thais Akina, como presente de aniversário. Parabéns Akina! 8D





Preso em seu pequeno mundo de luz, o Pierrot. A cara pintada de branco, com contornos vermelhos exagerados em volta da boca e dos olhos. O espalhafatoso chapéu de Bufão, feito em cores alternadas de azul e amarelo; e a roupa, larga e folgada com grandes botões decorados. E também seu sapato com ponta empinada para cima e as luvas brancas gigantescas nas mãos. Desta vez o protagonista da peça única estava sorrindo. Sorria como talvez nunca fizera antes. Se postava de pé e tinha os braços dobrados atrás do corpo.

- Sabe, um sopro de vida me invadiu. - Disse ele, apenas se contentando em se contorcer, quase como uma garota faria ao falar de seu primeiro amor. - Um sopro de vida que eu nunca pensava que poderia vir a mim novamente. Mas veio, e cá estou, agora alegre. Agora quase feliz. Sinto-me como se parte de tudo que perdi pudesse estar ao meu alcance novamente, algum dia. Isto não é ótimo? Tudo por causa de uma agradável companhia.

Finalizando a fala, O Pierrot trouxe suas mãos para a frente, mostrando, para quem quer que o observasse, uma pequena boneca. Uma daquelas que se dava para uma garota no dia de seu aniversário. Era feita de pano, tinha um vestido azul bordado e cabelos dourados feitos de fios de linha. A boneca sorria, e assim o Pierrot imaginava que ela sorria para ele. Que fosse a única que um dia se importou com ele e agora estava ali, lhe acompanhando naquela jornada escura de solidão. Levantou-a para cima com os braços esticados e começou a saltitar rindo pelo palco de tablados de madeira. Seus passos ecoavam alto no mundo onde apenas ele existia dentro da luz. Mas agora não era apenas ele. Tinha uma companhia, uma doce companhia. E a ela, ele abraçou enquanto dançava. Como se fosse sua amada. O ritmo dos passos foi, lentamente, se tornando mais calmo e manso, até que finalmente o Pierrot parou, de costas para o imaginário público, apenas acolhendo nos braços sua pequena.

- Mas tudo não passa de uma ilusão, não é mesmo? - Disse quase num sussurro para si mesmo. - Não passa de uma doce e agradável ilusão, não é? Você na verdade não liga para mim e eu estou, sem dúvida alguma, isolado mais do que nunca. Porque me agarrei a uma ilusão para poder seguir em frente. E assim como um apoio falho, quando nos damos esperanças numa ilusão, apenas tornamos nossas quedas ainda mais doloridas e nosso sofrimento maior.

E lentamente o palhaço levantou-se enquanto desfazia o abraço sobre a boneca. Deixou-a no chão, ao seu lado. Como se estivesse sentada sorrindo para o nada. E em seguida deu alguns leves passos para a direita. Fazendo assim com que seu pequeno mundo de luz excluísse a sua única companhia. E quando ela desapareceu de vista, ele abriu as mãos na direção da face e cobriu-a.
- E quantas vezes já não fizemos isso!? Quantas vezes não nos deixamos levar pelo momento, pelo pensamento, pelo coração. E então notamos o quanto sofremos à toa, o quanto choramos à toa, o quanto lamentamos à toa. O mundo nos trás a uma realidade diferente, mostra como na verdade, bem no fundo, estamos sozinhos e sempre estaremos. Algo duro de aceitar, algo que provavelmente faria você chorar. Mas talvez não seja mais do que a realidade. E talvez assim, eu não seja nada mais que a verdadeira forma do ser humano. Talvez eu esteja aqui justamente para lhes mostrar o quão porco e imundo nós podemos ser. Porque eu. Eu enxergo a realidade. E ela me deixou isolado. Isolado num pequeno círculo de luz, que ainda se sustenta pelas minhas poucas esperanças que estão guardadas no âmago das ruínas de minha alma. Numa parte minha que ainda é humana e tem sentimentos. Mas é só isso... só isso...

E assim, lentamente ele retirou as mãos da face e olhou em volta. Como imaginado, nada havia mudado. Tudo era o mesmo mundo de sempre. De leve, dois pingos de lágrimas saltaram dos olhos do Pierrot. Duas gotas que desceram, borrando a maquiagem tão bem feita de palhaço. Ele as deixou escorrer, não limparia, pois poderia borrar ainda mais a maquiagem, deixando assim a marca de seu sofrimento estampada na face.
Ficou alguns bons minutos daquela forma, com uma cara de incrédulo enquanto olhava apenas para o tablado de madeira. Aquele que ressoava para ele os sons de uma vida que jamais teve. E foi então que um sorriso formou-se. Um sorriso sádico. Um sorriso sarcásticos e aterrador. O palhaço dei passos pelo palco até que novamente a boneca fora iluminada. Se deitou no chão ao lado dela e a abraçou enquanto se encolheu como se fosse um neném no ventre de sua mãe. E assim seu sorriso foi florido com tons de tristeza e felicidade, juntas.

- Mas às vezes, o que custa viver na ilusão? Às vezes a ilusão vale mais a pena que a realidade, e, quando não queremos realmente enxergá-la ela se desfaz e a ilusão se torna o real. Queria eu acreditar que esta boneca um dia sorrisse e me desejasse um bom dia. Queria eu que um dia ela se tornasse uma mulher que poderia amar. Queria eu que ela se tornasse a mão que jamais tive a chance de ter. São ilusões. Ilusões que nunca vão acontecer, mas que, só por imaginá-las, já me deixam mais feliz. Se é que posso chamar o que possuo de felicidade. - O Palhaço fechou ainda mais a boneca sobre o próprio peito.

- Só que, como disse. Quando uma ilusão se mostra sendo uma, você tem a pior queda da sua vida. Nada durará para sempre, e desta forma eu penso. Esta boneca irá se sujar, rasgar-se, e logo, não haverá mais nada além de espuma e pano perto de mim. E assim toda a minha pseudo-felicidade iria se esvair como se nada tivesse acontecido. Estaria novamente sozinho. Então, aqui está a dúvida que me corrói, aquela que me prende e não me prende. - Ele se levantou, segurando a boneca numa única mão. - O que mais vale a pena? Sofrer de uma realidade dura e fria? Ou talvez, se deixar levar uma uma ilusão que poderia se desestabilizar a qualquer instante, mas que me dá um pouco de felicidade?

- O que vocês fariam nessa hora? Não é meio óbvio? Pediriam conselho. Uma ajuda. Pediriam por uma mão estendendo para lhes oferecer apoio! Este é o problema, meus queridos. - E ele, foi soltando, aos poucos a boneca, até que ela caísse no chão de mal jeito. - Eu não tenho e nunca terei ninguém. Tudo o que resta de mim são ruínas. Deformações que o tempo transformou num palhaço. Não é irônico? Uma figura tão triste trabalhar tentando fazer alguém rir? Pois é.

- Que isso, fique de aviso para vocês. Nunca mais se odeiem. Nunca mais queiram estar mortos. Nunca mais desejem não fazer mais nada quando algo de mal lhes acontece. Vocês. Pelos menos, tem alguém a ajudá-los nessas horas. - E pegou a boneca como se fosse uma bebê no colo. - Não é mesmo, Mary? - E roçou sua bochecha na da boneca, suavemente. As luzes foram aos poucos se encolhendo. Até só sobrar um resquício, que iluminava nada mais que um dos olhos do Pierrot. Cujo a lágrima ainda trilhava seu caminho por cima das máscaras das máscaras de um palhaço.


Imagem: The Stage By Peacewisher222
Leia até o fim...

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Sem postagens

Essa é só uma notinha que eu queria deixar para as pessoas que devotam parte de seu tempo para ler o que escrevo. Claro que não são muitos, mas para os poucos que lêem. Antes de mais nada, queria agradecer pelo tempo gasto comigo. E se puder sempre estarei trazendo melhores escritos meus para cá. E em segundo, gostaria de me desculpar pela falta de postagens. E é sobre isso que vim falar.


Estou desativando temporariamente a história "Os 8 Escolhidos" porque preciso estudar mais para fazê-la, além de estruturar melhor a história. Possivelmente quando eu voltar a me concentrar nela, irei reescrever ela desde o início. Também, contos e poemas estão deixados para segundo plano. O porque de tudo isso? Simples: Estou me concentrando num grande projeto.

Fora o fato de eu ter de me concentrar nos Estudos neste ano. Minha atenção também está voltada para um antigo escrito meu, que venho formulando já faz 2 anos. Se chama "A Flecha de Três Penas", e é um épico. Já tem mais de 75 páginas, e isto não é nem 10% do que planejo fazer. A história é longa e planejo escrevê-la por inteiro. Mesmo que isso demore mais de quatro ou cinco anos. Atualmente, estou relendo e editando a história toda, estando na página 34 do processo. Até eu terminar de revisar o "A Flecha das Três Penas" provavelmente não postarei muito aqui. E depois que terminar de revisá-lo, também darei mais importância para escrevê-lo nas horas vagas. Só abrindo a exceção para quando alguma boa idéia me surgir para contos ou poemas.

Então, peço encarecidamente que aguardem. Talvez não poste mais este mês.
Leia até o fim...

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Liberdade

Leiam ouvindo Overflow da banda Kobukuro.




Desde o simples florescer
de uma flor de primavera.
Até o bobo ato de viver
como se a vida fosse bela.

É ainda possível, encher-me de vida.
Mesmo que os de sempre pilares
Ainda ante a felicidade se postem como ferida.
Não deixarei de usar, de esperança, os colares.

Um pássaro. Aventurarei-me aos céus.
Um pirata. Explorarei os sete mares
Pelo confuso fazer, que me lembra mel,
de estar fora de outros olhares. Leia até o fim...

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Postagem de Aniversário

Agora; neste momento, neste dia; eu estou fazendo dezessete anos de vida. Dia 25 de Janeiro. A maioria de vocês provavelmente não sabe, até porque nunca dei enfase e nunca pedi pra nenhum lugar divulgar, ainda mais na internet. Entendam, apenas nunca quis um monte de mensagens hipócritas me desejando felicidades e me dando parabéns.

Até porque, nunca considerei meu aniversário como uma data comemorativa. Alias, é claro que já considerei assim. Toda criança deve pensar assim afinal. Mas eu já deixei de ser uma, e com isso, acho que amadureci a ponto de usar essa data de uma melhor maneira.
Não há nada para comemorar, mas definitivamente é um marco. Completo mais um ciclo de vida em todo dia 25 de Janeiro e isto é uma boa data para fazer algo prestativo para a própria vida. Então, estou utilizando parte desse dia prestativo para escrever algo de útil para vocês. Vocês que lêem meu blog e merecem minha atenção. O que? É um conselho.

Hoje, usei grande parte do dia pra fazer uma coisa: Nada. Fiquei a maior parte da manhã e tarde morgando, perto da janela com vento bom e ouvindo uma música boa. E isto é o que digo para vocês fazerem. Quando vocês estiverem passando por grandes dificuldades, ou quando simplesmente quiserem ter um tempo para organizar suas mentes. Simplesmente Parem. Respirem fundo e deixem seu corpo apenas respirar. Ouça uma música boa, ou fique no mais absoluto silêncio. E logo vocês vão notar: Como vocês estarão leves. Como vocês estarão tranquilos e felizes. Tentarão pensar nos seus problemas, e até conseguirão, pois a mente humana é surpreendentemente indomável, mas vão notar que eles não te preocupam. Apenas passam como uma parte da sua vida. Uma parte a ser vencida, superada.
Hoje, aqui no Rio de Janeiro, está chovendo o que me ajudou mais ainda. Eu sorri, enquanto notava que de agora em diante vou ter que começar a realmente me dedicar aos estudos. E eu dei gargalhada ao notar que as responsabilidades estão pesando cada vez mais nas minhas costas. Simplesmente não liguei, não dei a mínima para meus problemas e respirei.
Até chorei, pensando no que eu já fiz de merda, e no que eu já deixei de fazer e acabou se tornando uma merda mais ainda. Notei que muita dessas coisas poderiam e ainda podem ser arrumadas no futuro. E decidi qual delas tomarei como meta, ou como parte de um sonho maior para mim mesmo.
Pensei nos meus defeitos, e pensei nos meus dons, na capacidade que eu tenho e em que poderia me esforçar para melhorar. Naquilo que eu fiz, a início por obrigação, e agora eu faço por puro prazer. Como o Karate, como Escrever. A vida acaba te mostrando que não há nada que você amará para sempre, nada que você odiará para sempre, nada que você saberá fazer para sempre e nada que você deixará de aprender. Pensem em como nunca poderão conhecer tudo de belo, mas que poderão aproveitar o máximo o que conhecerem. Tenham sonhos, não sonhos bobos ou materiais, tenham reais sonhos, pois eles moverão montanhas se você lutar por eles. E também, saiba desistir, saiba quando é a hora de parar de sofrer por algo que não dará certo e note como muitas outras coisas podem tomar o lugar desta.

Também não deixei de simplesmente deixar minha mente viajar. Afinal carregamos um infinito mundo dentro de nós mesmos, e deveríamos aprender a se aventurar dentro deles. Vi dragões e dei risada quando notei que um deles deu um nó em si mesmo enquanto voava no teto do quarto. Vi todo o mundo que criei em minhas histórias. Vi meus personagens e notei em como vários deles tem traços meus. E como vários deles poderiam ser grandiosos amigos meus. E são.
Percebi que o mundo real nunca será como nos desenhos, como nos filmes. Sempre tem um tom duro e frio que não se poderá retirar. Entretanto, se você mesmo não desejar que sua vida seja mais que algo comum, quem mais irá desejar? Sonhadores, mas com o pé no chão. É o perfeito equilíbrio, mas que raramente pode ser alcançado. Afinal é um complexo paradoxo.

Fiquei minutos imaginando o que seria de mim caso eu parasse certas coisas e caso eu deixasse de conhecer outras. Como eu seria se não tivesse começado a treinar Taiko? Eu seria o mesmo cara calmo caso não tivesse treinado Karate por mais de dez anos de minha vida? Será que eu teria forças para continuar sem alguns amigos que me deram forças em horas críticas? Provavelmente minha vida tomaria rumos completamente diferentes, caso eu simplesmente desse um passo para outro caminho. Poderia encontrar a morte ou o amor da minha vida. E novamente voltei ao pensamento que disse antes, que nunca poderemos ver tudo e conhecer tudo. Mas que podemos ver e conhecer o máximo que pudermos. E talvez isto seja mais do que suficiente para continuar seguindo.
Na minha família eu dei um especial momento para imaginar. Lembrei da minha infância, em que tinha sempre ao meu lado um Primo meu, e em como hoje estamos mais distantes. Como nossas mentes foram em opostas direções, mas em como eu ainda o considero, mesmo assim. Pensei nas discussões constantes que tenho com meu pai e notei que nossos momentos de risadas compensam em muito por todos estes instantes. E até pensei nos momentos em que minha mãe deixa de considerar minha opinião, mas em troca sempre se dedicou mais do que o possível por mim. Nos meus outros primos, nas minhas tios e tias. Como eu seria caso não tivesse nenhum deles ao meu lado? É algo duro de imaginar.

Pensei nas minhas conquistas. Nas minhas perdas. E nas coisas que eu deixei de conquistar por pura preguiça. Ou nas perdas que eu tive por simplesmente não fazer nada sobre. Notei como sou hesitante em certas ocasiões, e como nestes momentos necessito de pessoas para em quem me apoiar. E como em outros momentos eu tenho uma força de vontade gigantesca para fazer o que desejo.
Imaginei como eu seria se fosse outra pessoa. Percebi como isso é impossível. Pois eu sou eu, e apenas tendo meu corpo e minha personalidade eu seria quem seria. Imaginei meu futuro e lembrei do passado. Percebi como que às vezes deixava de aproveitar o presente por causa deles.
Relembrei de todos os amigos que tive. Não alias, isso é impossível, mas com certeza lembrei dos que mais me marcaram. De pessoas que conheço a mais de anos e ainda me suportam. De pessoas que conheço a poucos meses mas já se tornaram tão importantes. E é por estas amizades que eu escrevo esta postagem. Para dar-lhes meus conselhos. Pois percebi como que muitas vezes eles já puderam ajudar alguém necessitado.

O meu conselho é este. Reservem um momento só para vocês, e ao mesmo tempo, deixem que este momento se torne de tudo e todos a sua volta. Deixem os problemas de lado e depois analise-os de uma forma que você possa superá-los. Note como a vida é simples e complicada ao mesmo tempo. Como ela é cheia de felicidade e tristeza ao mesmo tempo.
Hoje é meu aniversário, mas eu não estou aqui pedindo nada. Não, hoje é meu dia de dar-lhes algo importante de mim. Algo que possa ser útil dentro de vocês e que tenha saído de mim. Gostaria que todos aqueles por quem tenho consideração lessem isto. Todos que me aconselharam. Todos que me ouviram. Todos que me fizeram rir. Todos que gastaram parte de seu tempo ao meu lado. Mas infelizmente não é possível. Então deixo apenas a vocês. Meus caros e fiéis leitores.

De coração, um grande abraço para cada um de vocês. Leia até o fim...

Che Guevara 78




Mesmo com todos insistindo pelo contrário, Julio continuou com a louca idéia de comprar a casa. Ela tinha dois andares; cinco quartos e dois banheiros na parte superior, enquanto a parte inferior abrigava uma sala de estar, hall de entrada, cozinha e mais um banheiro. Número 78 da rua Che Guevara. Ou, como era conhecida, Che 78.
A casa tinha uma fama que toda a pequena cidade conhecia, ela era assombrada. E se não fosse isso, talvez alguma antiga maldição tenha caído sobre ela algumas várias décadas antes. Várias eram as hipóteses, várias eram as lendas; mas o que importa é que, por causa delas, a casa nunca ficou habitada por mais de um mês. Os moradores sempre morriam ou deixavam a casa com olheiras brutais na face. Era tão conhecida que por causa disso, o preço dela caiu bruscamente, ninguém queria comprá-la.
Entretanto, mais conhecida que o terror daquela casa, era a teimosia de Julio. O arquiteto de quarenta anos tinha um histórico de encrencas que poderia cobrir toda a extensão da Muralha da China. Era cabeça-dura e nunca admitira isso, e seus poucos amigos também deixaram de tentar fazê-lo pensar diferente. Mas abriram uma exceção para fazer uma tentativa de convencê-lo a não viver naquela casa.

“Ela é grande, clássica e silenciosa. O que há de mal nela?”. Fora a resposta imediata de Julio. E quando os amigos rebateram contando as terríveis histórias; como a da Senhora Melissa que caiu da escada, e a do Casal Lima que queimou na lareira; ele simplesmente rebateu com um “Pura coincidência. Nada de mal vai acontecer.”. E desta forma ele comprou a casa.
Uma semana depois, mais da metade de sua mobília já estava dentro dela e a casa já tinha ganhado o seu ar. Estava chato e carrancudo. Assim como ele. Sofás duros e de estofa velha, poltronas de madeira nobre, tapetes persas empoleirados e outros móveis que rangiam a cada toque se faziam neles. Realmente, agora aquela casa parecia totalmente com seu dono. Parecia até ter personalidade.
E a partir daí, Julio começou a viver na casa. Trabalhava quase o dia todo, e de noite, se divertia um pouco na internet ou vendo televisão e ia dormir. Monótono como sempre. Talvez fosse por isso que nunca teve uma namorada. E se teve chances, passaram despercebidas. Os amigos raramente se arriscavam a passar muito tempo na casa dele, o que vez o arquiteto parecer ainda mais carrancudo. Os boatos rolaram soltos na pequena cidade conforme a paz circulava em torno da Che 78, e logo diziam que a casa havia finalmente achado seu perfeito dono e agora não fazia mais mal algum.

Mas aquilo não durou para sempre. Na verdade, nunca havia durado um único dia. Aqueles que pernoitavam na casa sempre juravam dizer que ouviam sons estranhos de noite. Sons que não os deixavam dormir. Julio não tinha sido exceção, logo na primeira noite, ele foi infestado de rangidos de madeira velha que duraram a noite toda. Mas sua teimosia era persistente, e ele apenas fechou os olhos para o som, dizendo baboseiras. “É apenas a idade da casa clamando pela sua atenção.” dizia ele “Sou arquiteto, sei dessas coisas, afinal.” E com isso a casa de calou e nunca mais rangeu para ele.
Isso não significava o fim das anormalidades. Logo na semana seguinte, enquanto Julio mexia na internet com toda a tranquilidade que tinha, ele teve a estranha sensação de estar sendo observado. Como se um binóculos estivesse posto bem atrás de sua nuca, e quando virasse para ver, não houvesse nada. Tentou ignorar, como havia feito com os rangidos. Mas estes foram inevitáveis, até uma brilhante idéia surgir. Fechou todas as janelas da casa, e uma sensação de segurança o tomou acima da sensação de estar sendo observado. E por aquela semana, fora o fim dos pesadelos.
A casa só voltou a chamar a atenção de Julio duas semanas depois. Ele estava muito bem aconchegado na cama enquanto pulava de canal para canal tentando achar algo que prestasse naquele horário. Já passavam das meia-noite, e geralmente neste horário nunca havia coisa melhor que pornôs e documentários na televisão a cabo. Foi quando subitamente houve uma falha elétrica. A luz apagou-se e voltou num segundo, fazendo a televisão apagar para lentamente zumbir ligando novamente. Julio pensou com sua mente lógica “Deve haver algum problema na eletricidade do bairro.”. E se convenceu de que era aquilo, até que no dia seguinte, perguntou sobre a queda na conveniência, e percebeu que nenhuma casa havia sofrido daquilo. Apenas a casa dele. Cochichos no fundo diziam sobre o poder da Che 78. Mas Julio, como esperado, simplesmente deixou as palavras passarem de um ouvido para outro. Dali em diante, as quedas de luz repentinas e rápidas se tornaram mais frequentes. Quase sempre acontecendo quando ele estava sozinho e acordado de madrugada. Algumas noites eram até cômicas, quando a luz se apagava por blocos. Primeiro um quarto, depois outro, depois o hall e por assim ia. Cômico para Julio, mas não para qualquer outra pessoa da cidade. Passada uma semana daquela forma, Julio simplesmente resolveu ignorar o problema, se convencendo de que “Casas velhas tem problemas com interruptores.”. Aquele havia sido o último aviso para Julio.

A velha Senhora Melissa nunca fora uma mulher de atividades físicas, talvez por causa da vida inteira trabalhando como escritora. Não que se arrependesse por ter gastado as horas da sua vida debruçada sobre uma máquina de escrever. Mas era só que muitas ocasiões exigiam um esforço físico que a fazia enlouquecer. Ainda mais, velha como estava.
Por mais que tentasse, não acabava nunca! Melissa estava desesperada e seu coração parecia que ia saltar pela boca. “Os boatos eram verdade! Eu preciso sair dessa casa!” Pensava ela enquanto descia as escadas com calafrios subindo toda a espinha. Mas, mesmo que tentasse com todas as suas forças, ela simplesmente não conseguia descer as escadas. Parecia que a cada degrau que descia, dois a mais surgiam na extensão da escada. Ela estava presa, presa pela casa. Tentou descer lentamente, descer saltando degraus e até mesmo tentou descer correndo. Mas nada funcionava, a escada de repente virou um monstro mortífero e impiedoso. Foi então que, num lapso de distração, ela perdeu o equilíbrio e seu corpo tombou para frente. No mesmo instante a escada voltou a ser a mesma de sempre. Mas Melissa já não era a mesma.

“Corra, amor! O máximo que puder!” Gritou Henrique Lima para sua namorada, que estava alguns metros na sua frente. As panturrilhas dos dois já ardiam, e ele perdeu a contas de quantas câimbras já haviam pego ele durante a corrida. O Desespero estava estampado na face do casal.
Apenas um mês antes, tudo eram mil maravilhas. A Che 78 não tinha tanta fama e a casa foi comprada rapidamente. E logo foram morar nela. O Casal Lima tinha acabado de marcar a data para o casamento e realmente já era hora. Raro era ver um casal que conseguia vencer tanto tempo sem obstáculos. Sem obstáculos normais, diga-se de passagem. Pois a casa podia ser tudo, menos uma casa normal.
Eles estavam debruçados sobre o tapete da sala de estar, com a clareira estalando vários lenhos jovens enquanto dava calor àquela fria noite de inverno. Lá fora caía uma tempestade de neve que nunca a cidade havia antes visto. Mas de nada importava para eles, alias, para os Lima, aquela tempestade era um motivo a mais para estarem juntinhos e abraçados em frente a lareira. E assim provavelmente iria ser, caso aquilo não acontecesse.
“Socorro, querido!” Gritou Claire. Já não podendo mais correr. A macabra casa tornou a sala de estar no maior pesadelo da face da terra. Subitamente, a lareira tinha se transformado numa boca de fogo que ocupava mais da metade da parede e rugia por comida com suas fileiras de dentes afiados. Não fosse só isso, a sala de estar inclinou-se em direção a boca e tudo começou a ser sugado por ela, como se não houvesse outra escolha senão queimar nos dentes do inferno que antes era a lareira. O Casal Lima aguentou muito tempo, correndo em direção a porta com todas as suas forças. Mas o tapete que cobria seus pés parecia se alongar sempre que se aproximavam da porta. E isto acabou abrindo as portas para a fadiga e a dor nos músculos. Quando Claire tropecou e foi caindo lentamente em direção às chamas, Henrique havia conseguido se segurar na cortina com uma mão e com a outra rapidamente salvou sua amada. Por não mais que alguns segundos. A cortina cedeu e ambos foram em direção a sua morte. No outro dia, seus corpos foram encontrados dentro da lareira, com o cheiro horrível deles carbonizados subindo pela chaminé, junto com os fios de cabelo que não queimaram.

“Toc Toc”, foi o que Julio ouviu vindo da porta de entrada, ele já estava se preparando para ir dormir. Desceu as escadas e foi abrir a porta, mas não havia ninguém do lado de fora. Fechou a porta, e no mesmo instante ouviu alguém bater na janela de madeira da sala de estar, com a mesma intensidade, da mesma maneira. Foi até ela, abriu, e nada, novamente. E assim se seguiu por mais alguns poucos minutos, alguém batia em alguma abertura da casa, e quando abria, não havia nada do outro lado. A mente de Julio ainda se recusava a temer. “Garotos.” Ele pensava consigo mesmo. “Muitos Garotos.” Mas aquilo realmente estava ficando impossível.
Até que o seu ápice chegou. Todas as janelas e portas foram alvo de batidas frenéticas e poderosas que fizeram a silenciosa Che 78 se tornar um alojador de estrondo. Julio desistiu, agora já não havia o que dizer ou fazer, deixaria para pensar no que era aquilo mais tarde. Apenas tampou seus ouvidos e fechou os olhos esperando aquilo terminar.
O que eram cinco minutos pareceram uma eternidade ali. Pelo menos para o arquiteto teimoso. As batidas penetravam a madeira e penetravam seu corpo, afetando sua alma forte. A força que Julio tinha para negar tudo aquilo que queria estava enfraquecendo e uma vontade extrema de sair da casa surgia no seu lugar. “Isso é assombrado. Eu preciso sair daqui.” finalmente pensou sua mente. Mas logo depois, de uma única vez, as batidas pararam. Deixando tudo novamente em silêncio. Julio demorou para notar isso, ficando mais alguns minutos encolhido e tampando os ouvidos de olhos fechados. Tremia por dentro.

Quando abriu os olhos, já haviam se passado mais de meia hora desde o início de todo aquele pesadelo. Agora a casa era um antro de silêncio e não parecia haver mais perigo algum. Julio levantou-se lentamente de onde tinha deitado. Agora, todo aquele lugar parecia ser insuportável para ele. Pelo menos por aquela noite não moraria ali, deixaria o lugar. Esfriaria a cabeça e usaria a lógica, era o melhor a se fazer. Ele tinha tido alucinações, só podia. Era o que sua mente firmava para si mesmo. Foi em passos lentos em direção a porta de entrada, enquanto notava coisas na casa que nunca parecia ter percebido antes.
A casa parecia ter sido feita de um modo que causasse uma ilusão ótica sobre seu chão. Como se sempre faltasse quilômetros para terminar a casa. E cada passo que você desse fosse anulado. A ilusão era feita pelo piso usado e pelo modo que as paredes foram postas. O conhecimento arquitetônico de Julio denunciou aquilo para ele. “Ali está a morte de Melissa.” Virou-se para a sala de estar e notou também. Ela era levemente inclinada para a Lareira, de um modo que chamasse que morasse por ali para ficar perto dela. Talvez dois jovens bêbados poderiam ter alucinações, e a fama da casa poderia ter aumentado a história. “Ali está a morte do Casal Lima.”
De repente a paz reinou na mente de Julio e ele voltou a razão. Não havia nada a temer, era uma superstição boba de uma cidade mais boba ainda.

Será?










Imagem: My_house by twELveRN.
Leia até o fim...

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