segunda-feira, 12 de abril de 2010

Chaves, Reflexos, Sentimentos

Não. Definitivamente não era ali que ele estava antes. Olhou para si mesmo e estranhou: Não eram aquelas roupas que ele estava vestindo. Não aqueles trapos velhos. Por um segundo, seu antigo problema mental quase o aturdiu: Pânico. Quando ele se desesperava, não havia quase nada a fazê-lo parar de tremer e implorar por ajuda.

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Mas aquilo era tão antigo que não teve forças para se manifestar. Esfregou os olhos. Concentre-se, Daniel! E após pronunciar a frase para si mesmo, ele reganhou a sanidade para raciocinar. Daniel estava num corredor escuro, tinha pouco mais de um metro de largura, e parecia se estender quase que infinitamente num breu que aumentava conforme seus passos o deslocavam para frente.

Não havia saída atrás dele, apenas o muro do corredor – feito com tijolos marrons e argamassa – que o obrigava a seguir em frente rumo ao que a escuridão lhe ocultava. Ou melhor, até havia luz. O local estava fracamente iluminado por lâmpadas incandescentes presas ao teto que ficavam falhando a todo momento. Aquilo e nada eram quase a mesma coisa.

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Por fim da análise; percebeu que, preso no cinto surrado de couro que segurava as maltratadas calças que vestia, havia uma argola de ferro com pequenas peças metálicas articuladas a ela. Um molho de chaves com exatas treze chaves. As chaves eram feitas à moda antiga, com detalhes e relevos que as enfeitavam. Seis tinham uma pedra vermelha brilhante fincada no apoio para os dedos, outras seis tinham pedras verdes. E uma, última, tinha um cristal negro acoplado a ele.

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Treze.

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Um calafrio lhe subiu pela espinha ao pensar no número. Lembrando-se vagamente da adolescência, onde ele acreditava piamente em números da sorte e do azar. Novamente, conteve uma crise de pânico e respirou fundo. Ele não tinha idéia de como chegou ali, assim como não se lembrava de nada, mas não poderia ficar ali para sempre.

Começou a andar.

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Minutos, horas, dias. Ele parecia ter perdido completamente a noção do tempo enquanto caminhava, com seus sapatos esfolados se arrastando pelo chão. Já estava para parar, quando avistou um diferencial: Ao longe, pareciam haver pequenos borrões negros nas paredes de ambos os lados. Portas! Pensou ele e disparou.

De fato, ali haviam portas. Eram seis de cada lado do corredor todas simples, e uma numa parede que bloqueava o caminho. Daniel chegou ao fim do corredor. Poderia simplesmente se dirigir a qualquer uma delas e abri-la, para descobrir o que o futuro lhe reservava. Mas algo lhe dizia para abrir todas. Uma a uma.

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A primeira porta foi aberta com uma chave de Pedra Verde. Ela se alongou para dentro sem fazer ruído algum. Ali, havia um espelho. Daniel olhou sua imagem por apenas um segundo, vendo como estava deplorável. No instante seguinte, a imagem refletida mudou.

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Viu sorrisos e sentiu a alegria o inundar. E, num piscar de olhos, ele não estava mais no corredor escuro. Agora estava no seu quarto. Um peso considerável estava sobre seu corpo e ele retirou o cobertor para dar de cara com Laura. Sua queria esposa estava ali, deitada sobre seu peitoral com um sorriso a lhe receber.

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- Demorou para acordar, amor. - Disse ela.

- É, os processos me matam. - Ele respondeu, mesmo que na realidade, Daniel nada tenha dito.

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A imagem mudou no segundo seguinte, e assim prosseguiu por minutos indeterminados. Imagens de felicidade com sua mulher. Viu a cena do casamento, sua primeira noite de amor com ela e até mesmo o dia em que ele fora conversar com os pais dela sobre seu compromisso com a mulher de sua vida.

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Mas os minutos são cruéis e passam rápido na beleza. E logo, num seguinte piscar de olhos, Daniel estava ali novamente, no corredor escuro, olhando para um espelho que apenas refletia um negro que inexistia na realidade.

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Foi para a porta do outro lado. E ali colocou outra chave de Pedra Verde. A porta foi destrancada. Ela se alongou para dentro sem fazer ruído algum. Ali, havia um espelho. Daniel olhou sua imagem por apenas um segundo, vendo como estava deplorável, mas agora resguardando um sorriso pelas imagens relembradas. No instante seguinte, a imagem refletida mudou.

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- Um grande viva para nosso grande Daniel aqui!

E seguido ao grito, vários urros soaram. Daniel estava agora num outro lugar familiar, o pub que sempre ia com os amigos surgiu a sua frente. Ao seu lado, um homem com as mãos enfaixadas devido a um acidente recente, era aquele que gritava em sua homenagem: Thomas, seu melhor amigo estava feliz, mesmo quando deveria não estar tanto assim. Ambos competiram para a mesma vaga na empresa, mas Daniel venceu Thomas por um número quase irrelevante de pontos. Ainda sim, Daniel havia ganho. E lá estavam eles comemorando sua vitória junto de mais uma dúzia de amigos.

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A imagem trocou no instante seguinte, mostrando cenas das noitadas que Daniel teve com seus companheiros, sobretudo com Thomas, que conhecera desde a faculdade. A época da liberdade de ser solteiro e das aventuras de uma só noite. Thomas era um dos únicos testemunhos de muitas de suas loucuras.

E assim mais longos minutos tomaram forma com as imagens. Sólidas, quase como se Daniel pudesse tocá-las. Mas ao mesmo tempo, ilusórias, como se Daniel soubesse que voltaria para o terror de um metro e meio silencioso do corredor.

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Como que lendo aos pensamentos de Daniel, a imagem se despedaçou e ele voltou a realidade – se é que era real – das portas que lhe mostravam a vida. Sentiu-se um pouco mais revigorado, talvez eu tenha interpretado mal todo esse lugar surreal, pensou ele.

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Avançou para o parde portas seguintes, desta vez, usando uma chave de pedra vermelha. A porta foi destrancada. Ela se alongou para dentro sem fazer ruído algum. Ali, havia um espelho. Daniel olhou sua imagem por apenas um segundo, vendo como estava deplorável, mas agora resguardando um nostálgico ar de lembranças antigas. No instante seguinte, a imagem refletida mudou.

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Um mal-estar cobriu completamente toda sua aura. E, mesmo sem a imagem ainda não ter mostrado nada, ele sabia que odiaria o que estava para ver. Algo sinistro, algo aterrorizante. Algo que ele não deveria ter visto. Contudo, não teve tempo de pensar mais nada, a escuridão continuou a cobrir tudo e só então notou que a visão já tinha começado.

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Estava tudo escuro, porque era noite e luzes não estavam acesas. Mesmo assim, Daniel podia ouvir ruídos e baixos gemidos. Demorou poucos segundos para sua visão se acostumar com a baixa iluminação e ele pôde ter um vislumbre do que assistia. Ele via uma orgia carnal.

Sobre uma cama, estavam uma mulher, amontoada no meio de dois grandes corpos que não paravam de se mover. A mente de Daniel tentou arrumar alguma explicação para a cena, mas era quase impossível saber o que estava acontecendo ali. Tentou, então, apenas observar. O brutamontes montado sobre a mulher não parecia ser ninguém que conhecia, não pela estatura física do homem. Também, o que estava abaixo tinha cabelos negros longos que se destacavam sobre as almofadas brancas, ninguém que conhecia era daquela forma. Mas a mulher tinha algo de familiar. Seus cachos amontoados sobre os ombros pareciam de... Não. Não pode ser.

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A perna de alguém esbarrou sobre o criado-mudo acendendo a cena que Daniel não gostaria de acreditar. Laura estava delirando de prazer com gemidos que se faziam mais altos a cada segundo, ela tinha um sorriso estampado na face enquanto suas mãos arranhavam os largos ombros do homem montado sobre ela. E, o que era incrível para o trio, era o terror de Daniel.

Sentiu o ar escapar de seus pulmões, assim como sua vontade de fechar os olhos para aquilo se fez presente. Mas era impossível, os minutos, novamente cruéis o obrigavam a alongar a cena por uma eternidade.

Minutos estes que o fizeram notar mais cenas que fizeram sua raiva e desprazer crescerem: Aquela, era sua casa. A mesma almofada branca aonde Laura e eles se amaram tantas vezes era o berço da traição da mulher. Notara também a aliança, jogada ao lado do Criado-mudo, como se nunca realmente desejasse aquilo, mesmo tendo uma linda filha e filho com Daniel.

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Já estava para notar mais detalhes doloridos, quando o espelho o salvara do sacrifício.

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Mais uma vez voltara ao corredor. Mas agora, sentia-se fraco e despreparado, frente ao espelho enegrecido. As mãos tremiam em volta do molho de chaves, desviou o olhar para frente: Haviam mais dez portas. E ele mal sabia o que poderia esperar por ele em cada uma delas. Respirou fundo e, abatido, foi para a próxima das portas, do outro lado do corredor.

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Sobre a tranca, novamente uma chave de pedra vermelha. A porta foi destrancada. Ela se alongou para dentro sem fazer ruído algum. Ali, havia um espelho. Daniel olhou sua imagem por apenas um segundo, vendo como estava deplorável, agora com lágrimas na face triste. No instante seguinte, a imagem refletida mudou.

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Um estrondoso barulho soou, junto a imagem de um grande vaso sendo jogado furiosamente ao chão. Thomas, arfava pesadamente enquanto procurava mais itens nos quais descontar sua raiva. Seus olhos pareciam pegar fogo enquanto ele agora chutava com toda a sua força algumas vassouras que estavam no canto de sua garagem.

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- Como o desgraçado filho-da-puta conseguiu!? Argh!

E desferiu um chute no carro. Um chute furioso, que fez o alarme acionar. Mas Thomas pareceu não ligar para o barulho altíssimo e irritante, sentou-se no canto da garagem e tomou fôlego.

- Que diabos! O que o maldito tem a mais que eu!? - Vociferou para o nada. - Desde a faculdade era assim! Ele sempre pegava as melhores garotas! Era o preferido dos professores! Sempre! Argh! E agora isso!? Aquela promoção era minha! Minha!

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E só então, Daniel pôde entender o que estava acontecendo ali. Sentiu um aperto no coração e uma mágoa o recheou, uma mágoa que crescia ainda maior por causa da dupla cena de traição, uma seguida da outra. O seu melhor amigo estava lá, esbanjando ódio após perder para ele. E não só isso, o que Daniel observava era uma raiva contida, como se todas as horas que eles passavam juntos fossem apenas sacrifícios irremediáveis.

Ficou observando-o; calado, incrédulo. Thomas balbuciava palavras a torto e a direito, sempre denegrindo e esmagando a imagem de Daniel. Cada palavra parecia pesar mais e mais sobre os ombros do amigo.

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Depois de algum tempo na cena, Thomas levantou-se e virou-se para a parede. Pareceu ter se acalmado a ponto de agora respirar regularmente. Quando, de súbito ele desferiu dois socos contra a parede da garagem. Sangue escorreu dos punhos, mas ele pareceu não ligar.

Finalmente, entrou na casa e voltou em instantes, com as mãos enfaixadas. Desligou o alarme do carro e entrou no mesmo. Tinha uma comemoração para ir, para resguardar mais do seu ódio.

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Aquela fora uma cena que passou rapidamente. Talvez, pela intensidade de cada ação que Thomas havia feito. Daniel sentiu-se sozinho, sentiu-se cansado e com vontade alguma de voltar para o meio daqueles que uma vez ele considerou o maior marco de Paixão e Companheirismo em sua – agora mísera – vida. Foi quando um aperto lhe fustigou o coração, e ele raciocinou algo que deveria ter pensado muito antes. Haviam mais oito portas paralelas, assim como mais quatro chaves enfeitadas de verde e quatro de vermelho. Olhou para trás, para as portas que já passaram e depois voltou-se para frente. Meu deus, não. Não faça isso comigo.

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Tinha uma teoria a testar. Com certa urgência, Daniel se apressou para a próxima porta e enfiou nela a chave de pedra verde. E, ao contrário dele, ela se alongou para dentro sem pressa alguma. Ali, havia um espelho. Daniel olhou sua imagem por apenas um segundo, vendo como estava desesperado. No instante seguinte, a imagem refletida mudou.

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Via-se diante de um quarto, como se fosse um observador invisível. O pequeno cubículo era branco e parecia ser completamente confortável. Ele conhecia aquele lugar, mesmo estando vazio. Contemplou-o com certos suspiros, enquanto sua mente ainda não se preocupava com o que estava por vir depois da visão. Pensou sobre ele pelos segundos que pôde, até ouvir passos no corredor. ㅤㅤUma voz familiar: A dele.

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- ...Afinal, hoje foi um incrível dia, não?

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Daniel entrou no quarto sorridente, levava com as mãos uma cadeira de rodas que carregava uma idosa mulher. A velha parecia, mesmo estando no tão arejado lugar, como se estivesse na mais terrível masmorra. Tinha os mesmos cabelos castanhos de Daniel e os traços dos rostos também era familiares.

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A face dela era enrugada, tanta que os olhos triste quase se perdiam no meio de tantas dobraduras da velha pele. Mas Daniel, ali, não parecia nem ligar. Afinal, estava feliz. Estava com aquela que o pôs no mundo. Mãe. Pensou o Daniel observador enquanto fitava a cena toda com olhos marejados.

O Daniel das lembranças acariciou a face da velha e foi para a janela, abrindo as cortinas para deixar a luz entrar com mais intensidade na pequena sala. Sua velha mãe sempre estava daquela forma, inerte e quase vegetativa. Fora assim desde que nascera e fora criada pela assistente social, fazendo apenas poucas visitas a mãe. Mesmo assim, Daniel não se deixara levar por qualquer outra coisa, após ser de maior, tomou responsabilidade por tomar conta e bancar as contas que a mãe acumulava com o governo enquanto internada naquele centro de reabilitação. E ia lá, sempre que podia.

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De súbito, a imagem se contorceu e mudou, agora mostrando a primeira vez que ele encontrara a mãe, cinco anos depois de nascer. Com lágrimas nos olhos, o pequeno Daniel abraçou a mulher opaca deitada na cama. Ela, só pôde soletrar uma palavra.

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- A...

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Nem notou quanto tempo havia se passado naquelas curtas visões do passado. Uma brisa fria saiu por debaixo da décima terceira porta e trouxe de volta todas as preocupações e angústias de Daniel. O encanto fora quebrado e agora ele sabia que deveria seguir em frente. Tomou coragem na imagem da mãe, que não via já fazia muito tempo e seguiu para a porta do outro lado, deixando para trás o espelho, que assim como os outros se tornara negro.

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Botou novamente uma chave de pedra verde nela. Ela se alongou para dentro sem fazer ruído algum. Ali, havia um espelho. Daniel olhou sua imagem por apenas um segundo, notando o receoso e hesitante traço de preocupação na cara carcomida por leves maltratos. No instante seguinte, a imagem refletida mudou.

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- ...!!!

Daniel assustou-se, sendo recepcionado pelo choro de um bebê. A visão se clareou e ele se viu na sala de parto do hospital. Novamente, via a si mesmo no passado, com os músculos rijos de nervosismo ao lado da mulher, Laura, deitava na cama. Sentiu um desgosto ao vê-la, mas o som do choro se fez mais alto e ele deu a este, a atenção devida.

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Marco, seu primeiro filho nascia naquele momento. E desta vez Daniel não esboçou nenhum sorriso vendo a cena de suas memórias. Ao invés disso, uma maré de preocupação o cercou, uma maré de medo e desespero. A visão do paraíso se distorceu para se tornar uma cena do inferno, ele queria que aquilo acabasse para ele finalmente sanar a dúvida que lhe matava. Precisava testar a próxima chave. Uma chave verde na próxima porta. Com Marco e sua mãe, ele não gostaria de se arriscar.

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De modo que assim, todas as cenas de felicidade; como os primeiros passos de Marco e sua primeira palavra, foram inundadas em uma pressa bárbara. Não que Daniel não deixou de observar: Ele até tentava sorrir, mas sua preocupação era tamanha que os minutos da visão daquele espelho se passaram rapidamente. Embora para Daniel, uma eternidade seja o tempo mais definido.

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Quando sentiu-se novamente no corredor de tijolos marrons, ele prendeu a respiração, tentando conter uma crise de pânico que se abrandava dentro dele. Com ela contida, foi para próximo par de portas viradas uma para a outra. Era ali que ele queria mudar as leis do jogo. Desde o seu início, algo o dizia para colocar a chave, não era simplesmente sua intuição. Era como se Algo estivesse dentro de sua mente, lhe sussurrando o que deveria fazer. Cada escolha, cada chave. Mas agora seria diferente.

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Contrariou o pedido desconhecido e avançou para a próxima porta, colocando sobre sua fechadura uma chave de pedra verde que já usara antes. O item destravou a porta e ela se abriu lentamente, assim como todas as outras. Mas o espelho agora se alterara. Não estava mais refletindo sua imagem. Distorcido, seu novo eu que aparecia sobre o utensílio parecia destruído e arregaçado de vermelho. De sangue. Daniel olhou para a imagem por um segundo, antes de desviar seu olhar. Neste exato instante, a pedra verde da chave pendurada na porta começou a deformar-se. Assim como uma gota de sangue manchando um copo d'água, um fluido vermelho surgiu e envolveu o antes verde ornamento. Daniel nem havia notado, quando voltou-se a virar para o espelho e encontrou-o refletindo sua imagem assustada. No instante seguinte, a imagem refletida mudou.

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O som de uma festa alegre e divertida podia ser ouvida de longe, mesmo que Daniel observasse agora um pequeno beco escuro e úmido. Os fogos podiam ser ouvidos ao longe, talvez fosse ano novo, talvez fosse qualquer outra comemoração digna. Contudo, os ruídos de alegria logo foram substituídos por passos. Passos apressados vindos de um salto digno a se fazer o barulho.

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Uma mulher surgiu na calçada, desesperada e arfante, entrou no beco sem hesitar, enquanto olhava para trás a cada segundo. Tensa, ela se escondeu atrás de caixotes de lixo e tentou controlar a respiração, sem sucesso. Mesmo no escuro, Daniel conseguiu notar alguns poucos detalhes dela. Estava com uma maquiagem borrada na face e vestia-se como que para a festa cujo os sons ouvira, seu peito enchia e e esvaziava a cada meio segundo, mostrando o desregulado resultado de uma fuga. Olhou para a entrada do beco novamente enquanto pegava o celular na bolsa prateada, temia alguém.

Discou números freneticamente com os dedos trêmulos e pôs o celular no ouvido enquanto deixava a cabeça pender sobre um monte de lixo. Talvez tivesse finalmente encontrado segurança ali. Neste meio tempo, Daniel pôde observar mais traços dela. Tinha um cabelo liso, cujo a cor ainda não conseguia definir devido a baixa luminosidade. Devia ter pouco mais de vinte e cinco anos, e definitivamente não era feia.

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Seus pensamentos foram interrompidos. Não só os seus, como os da mulher. Uma mão segurou o celular e jogou-o no chão com força. Um brutamontes embriagado estava sobre ela, segurando seus braços com tanta força que Daniel podia notar. E foi então que sentiu um aperto no coração. Já era mais que claro. Aquele monstro que violava sua mãe era seu pai. Ele simplesmente soube, como se algo soprasse as palavras ao vento. E Daniel, num estado de choque, ficou a observar a noite em que fora gerado.

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Dali em diante, seus sentimentos murcharam com tal rapidez que ele sentiu-se desnorteado, e por isso, não emanou mais nenhum tipo de manifesto. Só ficou observando a imagem mudar. Agora vendo sua mãe, chorando sentada à maca de um médico. Abraçava a barriga com força, quase fincando as unhas por cima do vestido que usava. Os olhos estavam turvos e ela soletrava palavras baixas, mas que Daniel – por algum motivo – fora capaz de ouvir.

- Não... Não quero essa aberração. Filho de um monstro!

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Já não havia muito ao que Daniel se prender. Tentou fechar os olhos novamente, mas era como se algo o direcionasse para ver tudo aquilo. As cenas seguintes foram umas mais chocantes que as anterior. Uma discussão de sua mãe com seus avós – que alias, nunca conhecera – sobre ter ou não o filho lhe salvou a vida antes mesmo dela brotar.

Daniel pôde sentir na pele a raiva e o rancor que sua mãe tinha dele. Um ódio de um filho que nunca deveria ter existido. E assim as cenas mudavam, mostrando cada sofrimento solitário da mulher, até a cena do parto. Daniel nascera de cesariana, e sua mãe estava jogada na cama, com os olhos vidrados no nada, opacos. Como os que conhecia ao vê-la no quarto do centro de reabilitação. E enfim, a cartada final:

- A... - Disse sua mãe. Como ela dizia a anos para ele, mas nunca completava a frase ou sequer a palavra. - Afaste-o de mim. Afaste o inferno.

Cada palavra veio como uma lança no coração dele. Como se imaginasse cada segundo que passara dedicado a sua mãe fosse em vão. Como que cada segundo que passara com ela, não passasse de um terror na vida daquela que lhe deu a vida. Como se seria muito melhor se ele não existisse.

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Caiu no chão, os joelhos falharam e lágrimas silenciosas caíram sobre sua face. Não era aquilo que ele queria ter visto ali. A chave que ele colocara era com uma pedra verde. Como se tornara vermelho? As perguntas rondaram a sua cabeça por pouco mais que um segundo. Quando ele mesmo soube a resposta: Não havia como mudar a ordem dos fatos. Por mais sofrido que seja, ele teria de ir até o fim.

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Levantou-se e virou para a outra porta. Ali estaria algo terrível relacionado a Marco. Já tinha certeza. Puxou o último resquício de coragem que tinha e afundou sobre a fechadura a chave certa: Uma com pedra vermelha. Ela se alongou para dentro sem fazer ruído algum. Ali, havia um espelho. Daniel olhou sua imagem por apenas um segundo, vendo o quão opaco ele parecia estar. No instante seguinte, a imagem refletida mudou.

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Aquela talvez fora a cena mais rápida de todas as portas, ou talvez seja porque Daniel se recusou a gastar os cruéis minutos vendo aquela cena tão maldita para ele. Daquela vez, o tempo tinha avançado.

Vira Marco mais velho, provavelmente tinha ali dezoito anos ou mais. Já era um homem e Daniel, em alguma parte de sua já desgastada alma, sentiu orgulho daquele homem com os mesmo cabelos castanhos que os dele. Mas, qualquer orgulho desmoronou no instante seguinte.

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Como um turbilhão de terror, Marco – que estava sentado na cama de seu quarto – puxou de debaixo do travesseiro uma pistola. Colocou-a dentro da boca e disparou um único tiro. Daniel não podia acreditar. Ele não sabia de nada. Não sabia o que tinha acontecido. Não sabia do que Marco estava sofrendo. Não sabia se podia ajudá-lo. Simplesmente viu se filho se matar na sua frente.

Os miolos explodiram dentro da boca de seu filho e espirraram, tanto para frente, sujando a camiseta branca, quanto para trás, abrindo um buraco acima da nuca dele.

Sangue começou a jorrar incessante enquanto o corpo, aparentemente inerte tombava sobre a cama de lençóis limpos. Daniel não tinha mais lágrimas e mais forças. Toda sua esperança se desfragmentou ao ver tal cena bem a frente de seu olhar. Já não podia aguentar. Haviam ainda mais dois sofrimentos antes da porta do fim do corredor, e ele não tinha certeza se aguentaria ambos. Sua mente divagou, quando os olhos lhe chamaram a atenção para a cena de seu filho sobre a cama.

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O pé dele tremia, assim como a mão mexia de leve e o peito mexia-se num ritmo lento e sofrido. Marco piscou. A tentativa de suicídio não funcionara como devido. Uma dor fustigante veio a Daniel, imaginando o quanto seu filho estaria sofrendo naquela situação. E assim novas lágrimas brotaram enquanto ele estava mergulhado na visão do espelho.

Agora, ele tinha de esperar. Tinha de ver seu filho morrer e seu sofrimento acabar. Precisava ter certeza que ele iria em paz. E foi exatamente nessa hora, que a imagem falhou e sumiu.

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Retirou a chave da porta e foi em direção a próxima. Decidiu que, já não valia a pena tentar expressar-se. Todo o sentimento que tinha fora esmagado, estraçalhado e incinerado. Ele agora era um corpo sem vida. Uma alma sem sentidos. Já não valia mais nada, e deveria terminar aquilo da maneira mais rápida possível, para finalmente saber do que se tratava tudo aquilo.

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Colocou a chave de pedra verde na fechadura da próxima porta, assim como pedia aquele corredor maldito que sugava sua existência. Ela se alongou para dentro sem fazer ruído algum. Ali, havia um espelho. Daniel olhou sua imagem por apenas um segundo, dando de cara com sua desamparada feição pela vida. No instante seguinte, a imagem refletida mudou.

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E daquela vez, as cenas passaram tão rápido que nem vale a pena narrar em detalhes. Preparado para a dor e para o sofrimento, Daniel apenas deixou circular as figuras de sua vida. Aquela porta lhe mostrou seus momentos solitários. Suas horas de leitura e suas reflexões que fazia, vez ou outra, consigo mesmo. Mostrou os minutos que esperava na volta do trabalho durante um engarrafamento, assim como horas de lazer ouvindo a música de seu agrado. Aquela fora a mais leve visão dos espelhos. Daniel já não ligava para si mesmo. Aquilo já não importava.

Quando o espelho se tornou negro e as visões terminaram, ele simplesmente se dirigiu para a próxima porta, e ali enfiou a última chave verde. Girou, abriu a porta e esperou para ver mais alguma cena de sua vida que valesse a pena perder.

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Daniel estava bem vestido. Usava seu melhor terno e se portava ao lado de Laura. Ambos sentados no meio de uma platéia grandiosa. Ao lado deles, só haviam homens notórios em trajes de gala e mulheres recheadas de peças de ouro. E mesmo assim, eles estavam no melhor camarote da festa.

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Ele parecia alguns anos mais velho do que lembrava ser, então supôs que aquela visão fosse de algo que ainda não acontecera. Algo que ele sentiria prazer ao ver, mas que odiaria por saber que por trás disso, o terror esticava suas garras. E foi então que uma salva de palmas recheou o auditório luxuoso, junto do abaixar das luzes. Escuro ficou por apenas alguns segundos, e Daniel sentiu a mão de Laura apertar a sua.

- Lá está.

- Sim.

- Ela está linda.

- Sim.

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Aquele fora o maior misto de prazer e desprazer já feito na mente de Daniel. Que explodiu por dentro ao mesmo tempo em que se retraía para seu excluso mundo. Ana estava lá, no meio do palco com um vestido preto que não combinava com sua idade, mas que mesmo assim estava lindo. A jovem prodígio de oito anos segurava, entre o queixo e o peito, um violino ornamentado e envernizado. Ela sorriu para a platéia, e após um leve aceno para Daniel e Laura, começou a tocar.

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A filha de Daniel surgiu em todo mundo como sendo o novo nome da música clássica. A menina simplesmente tinha o dom para as cordas e o usava ao seu bel prazer. A música soou por todo o lugar e encheu os ouvidos de Daniel com sua melodia. E assim, seu olhos encheram de lágrimas. Sua filha, com os cachos da mãe e os cabelos castanhos do pai, havia se tornado seu maior orgulho e a melodia do violino era o que transmitia aquilo. Aquele misto de Raiva e Amor. De Ódio e Paixão. De Morte e Vida.

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Daniel gritou, gritou e gritou. Clamava para fazer parar aquela cena, aquela era era sua pior cena. Abraçou sua crise de pânico e usou dela como um viciado usa de craque. Para se destruir com prazer. Ele balbuciou e vociferou alternadamente, xingando a si próprio, xingando a filha e a todo resto enquanto via a belíssima melodia. Mas como sempre, os minutos eram cruéis nas horas mais oportunas. E aquela, no ponto de vista de Daniel, foi a visão mais demorada de todas.

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- NÃO! NÃO PODE SER!

Ele gritou, enquanto esmurrava o vidro negro que nada refletia a sua frente. Fluido escorria de seu nariz, ele babava e chorava ao mesmo tempo também. Pânico e horror se juntaram enquanto ele tentava destruir aquele instrumento do diabo. Ficou minutos espancando o espelho, sem sucesso, até finalmente, com o punho em carne viva e sangrando, parar e respirar fundo.

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- Não... Não... Não.... - Repetiu para si, enquanto lembrava-se da cena do espelho anterior. Ele tinha vistos cenas de si próprio. E se morresse? E se não estivesse presente quando sua filha precisasse dele, igual acontecera com Marco? E se o próximo espelho que abrisse fosse o seu fim? Ele não conseguiria salvar Ana.

Desejou viver. Desejou com todas as suas forças viver.

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Levantou-se e correu até o último par de portas. Segurou as duas últimas chaves de pedra vermelha e puxou-as em direções opostas, arrebentando o molho de chaves. Cobriu a fechadura das duas últimas portas e abriu-as, juntas. Não aguentaria ver uma por uma. Elas se alongaram para dentro, fazendo um forte baque ao se chocarem com a parede de trás. Ali, haviam dois espelhos o refletindo. Daniel olhou sua imagem por apenas um segundo, ela estava desfigurada, como imaginava. No instante seguinte, a imagem refletida dos espelhos mudaram.

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Voltava para casa, como sempre fizera nos últimos três anos, pela avenida central da cidade. Daniel se lembrava daquela cena. Se lembrava com perfeição da memória que lhe era fresca na mente, embora não lembrasse como acabava.

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Aquele dia em especial, não havia engarrafamento. Ou melhor, já havia tido, mas Daniel ficara até tarde no trabalho, prestando hora extra. E agora quando voltava encontrara um transito livre. De modo que ele podia acelerar enquanto ouvia a boa música que o rádio tocava. No banco de trás, presentes para as crianças. Ele sempre trazia algo quando vinha tarde para casa. Como uma forma de compensá-los pela preocupação.

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Virou-se para ver se estavam todos bem. E no instante em que voltou o olhar para frente, míseros segundos, deu de cara com uma caminhonete a engolir seu carro. O monstruoso veículo engoliu se carro e ao amassou até se tornar irreconhecível com apenas uma única batida que fez ele capotar. ㅤㅤDaniel pôde sentir todas as dores daquele dia. Pode notar como o para-choque da caminhonete afundou sobre seu ombro após romper a porta sem dificuldade alguma. E notou quando, ainda dentro do carro, sentiu-se vivo o bastante para sofrer com barras de ferro atravessadas em seu corpo. Era claro. O Corredor maldito preparara tudo com a atenção devida. Eu morro aqui. E não verei o conserto da minha filha. Eu morro aqui e não a salvarei do que quer que ocorra. Eu morro aqui.

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Repetiu-se para si mesmo enquanto os minutos cruéis se passavam aumentando sua dor e reduzindo seu brilho.

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ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ~

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Sua sala de estar nunca pareceu mais assombrosa que aquela que ele via. Daniel já tinha perdido completamente a esperança perante o que iria ver, mas mesmo assim, não deixava de tentar contrariar o destino. Gritava, Clamava, Implorava, Ameaçava, Xingava e Açoitava com as palavras enquanto era obrigado a ver a cena mais marcante de sua vida – se bem que, ele já estava morto.

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Não havia nenhuma luz ligada no cômodo, mas a luz dos postas da rua entravam pela janela após trespassarem a cortina fina e avermelhada, dando um tom ainda mais sombrio para o lugar. Mesmo não tentando prestar atenção, era impossível deixar de notar. Ele já via uma parte do horror que provavelmente estava para acontecer: Demoraria poucos segundos para uma pessoa notar que houve um grande tumultuo ali.

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O sofá estava fora do lugar normal, lampadas estavam tombadas assim como diversos móveis do lugar. Todo o armário de louças estava caído, espalhando cacos de vidro e cerâmica para toda a sala. Daniel sentiu um aperto maior ainda quando, de súbito, a imagem começou a caminhar pela sala. Como se ele pudesse sentir suas pernas tocando o chão, mas sem que tivesse controle algum sobre elas.

Agora também acostumado com a falta de iluminação podia ver melhor. Piscou os olhos, como que para ver se ajudasse, e viu com o canto do olho um vulto tombado no chão. Não! Espere! Uma intensa vontade de voltar e olhar o que era aquilo lhe veio a mente. Mas a imagem não voltou. Sua angústia aumentou enquanto ele tremia torcendo para – mesmo que sem utilidade alguma – não ver sua filha.

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Virou-se para a escada e ali, mais o horror acentuou-se, evidenciando-se pela trilha de sangue que percorria cada um dos degraus e ia para sala. Foi então que voltou o olhar para a sala e mostrou o vulto caído no chão. A silhueta era clara: Havia um corpo jorrando de sangue capotado perto à parede.

Era muito pequeno para ser um homem, e – felizmente – muito grande para ser o de uma menina. Ia tomar um ar de suspiro quando o vento entrou pela janela aberta e balançou os cabelos do morto. Cachos. Cachos arredondados e perfeitos. Era Laura. E, mesmo que ela o tivesse traído, ele sentiu-se mal por ver a cena. Ainda a amava.

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A visão do espelho pareceu se dar conta dos sentimentos de Daniel e abruptamente virou-se para a escada, começando a subi-la em passos acelerados. Acelerados, assim como ficou o coração de Daniel, que parecia saltar pela boca. Queria refrear seus pés, mas eles simplesmente não o obedeciam. Queria, pela centésima vez, fechar os olhos, mas eles nem piscavam mais. Desejava apenas sair dali, quando finalmente sua visão virou-se para uma porta rosa.

Ana. Sussurrou ele enquanto o pânico abraçava toda sua existência.

Uma mão foi a fechadura e abriu-a sem fazer barulho algum. Ali dentro, o silêncio parecia reinar, assim como todo o ar de um quarto de menina. Não havia barulho algum e Ana dormia, tranquila, na cama. Milagrosamente, toda a confusão no andar de baixo não acarretou no distúrbio de seu sono, que continuava pesado como Daniel lembrava-se. Aproximou-se da filha e, por um momento, apreciou vê-la. Pois ver a filha era sempre uma benção. Apenas por um momento.

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Mãos surgiram, e Daniel podia sentir o que elas sentiam. Elas foram sem dó contra a garota. E só então percebeu: Aquelas não eram suas mãos. Grandes demais para serem elas. A imagem que via não era a de Daniel. Ele estava vendo o que o carrasco de sua filha via.

Segurou os dois braços da garota, aproveitando que dormia tranquilamente. Forçou-os para cima e ali, amarrou rapidamente com uma corda, que parecia estar pendurada em seu pescoço, especialmente para aquela ocasião. Quando Ana despertou, ela já estava com as mãos presas na quina da cama, com o gigantesco homem a observando por cima.

- O... o que é isso!? Quem é você!? - E forçou os braços. - Me tire daqui! Socorro! Socorro!

A angústia de Daniel aumentou ao ouvir a filha clamando por ajuda. Aquela voz ainda fina e suave de uma garota que nem na adolescência havia ainda entrado. Ela debatia-se com todas as suas forças, chacoalhando as pernas e movendo o corpo na direção contrária dos braços enquanto gritava pela mãe ou pelo irmão. Mas ninguém além da pobre mente de Daniel respondia aos seus pedidos.

O maníaco passou em frente ao espelho do quarto da menina e Daniel teve um vislumbre da pessoa. Um monstro contido num corpo comum. O homem tinha mais de quarenta anos e pele escura, não era grande ou musculoso, só tinha mãos grandes e uma mentalidade engenhosamente maléfica. Ele foi até a escrivaninha da garota e sentou-se sobre a cadeira, para observá-la se debater.

- Socorro! Mamãe! Marco! Socorro!

Filha! Por favor! Não faça nada com ela! Por favor! Implorava Daniel. Mas o homem simplesmente desviou o olhar, vendo o quão organizado era a mesa onde a filha de Daniel fazia suas lições. Passou sua mão sobre os materiais dela, como se tivesse a escolher qual lhe fosse melhor. Até que arrancou um item do estojo rosa e levantou-se, voltando na direção da garota. Inútil, Daniel agonizava com seus olhos ardendo de desespero e loucura: O homem carregava consigo uma pequena tesoura sem ponta.

ㅤㅤ

- O que você... Não! Não! Pare! Socorro!

Monstro! Suma daqui ou juro que vou persegui-lo e destrui-lo! Pare! Pare com isso! Pare agora! Entretanto ele não era ouvido e o maníaco sentou-se sobre a cama, com uma perna sobre cada lado da garota, ele arfava de prazer pelo seu ato e parecia não ter sequer uma hesitação em cada movimento seu. Enfiou as mãos sobre a abertura entre os botões que fechavam o pijama de Ana e deu um forte puxão arrebentando e abrindo o homem para o peito da garotinha que soltava gritos agudos entrecortados entre um choro altíssimo. O homem esboçou um sorriso e estapeou a garota, tirando dela um gemido.

- Grite mais. Grite o quanto puder! GRITE PARA TODOS OUVIREM!

NÃO! POR FAVOR! PAREM-NO! PAREM-NO!

E dizendo isso, o homem forçou a parte laminada da tesoura sobre a barriga da menina e puxou para a esquerda, abrindo um rasgo sobre a pele dela. A menina contraiu o abdômen, o que fez a dor aumentar enquanto o sangue esbanjava-se aos montes. Daniel rompera a barreira da sanidade e agora gritava, chorava e ria ao mesmo tempo enquanto sentia tudo que as mãos do homem sentia, como se fossem suas próprias mãos. Como se ele estivesse esfolando sua filha.

ㅤㅤ

- Não! Pare! Por favor! Pare!

E sem dó, ele desenhou mais quatro cortes sobre a barriga da garota. O líquido vermelho que antes circulava pelas veias e artérias dela agora corriam, incessantes pelo decorrer da pele até o lençol. Pelo fato da garota ser pequena, o peso do homem era mais do que suficiente para deixá-la imobilizada o suficiente. Daniel não vira, mas aquele maldito tinha um sorriso amaldiçoado na face que suava aos montes diante de suas mãos trêmulas.

Depois de doze cortes, os gritos de Ana ficavam cada vez mais fracos. Como se ela notasse que não importava o quanto gritasse, ninguém viria salvá-la. O homem parou por alguns segundos e depois soltou um rugido, seguido de um tapa na face dela.

- PORQUE PAROU!? Grite! Implore por sua mísera vida!

E assim, passou a lâmina da tesoura infantil sobre o seio da garota. O fascínio pela desgraça era óbvio quando ele riu junto do horror que a garota expressou no mais alto grito. Quebrou a tesoura em duas, e usando as duas lâminas fraquíssimas começou a criar dezenas de cortes pelo decorrer dos braços dela fazendo questão de exigir gritos com cada um deles. Ao chegar perto dos ombros, ele novamente parou, tentando regular sua descontrolada respiração.

- Não... Isto ainda não é seu sofrimento.

- Por favor... Eu.... - Ela dizia com os olhos vermelhos de tanto choro.

Não pôde terminar a fala. O maníaco largou uma lâmina sobre a cama e segurou o queixo dela, enquanto sua outra mão aproximou a outra parte da tesoura sobre a boca. Uma nova gargalhada omitiu completamente os gritos de terror de Ana quando ele passou a lâmina sobre a divisão dos lábios dela. Ela voltou a debater-se com tudo.

ㅤㅤ

Já chega... Por favor... Daniel quase não conseguiu falar. Mate-a. Não. Pare de dar este sofrimento a ela. Não.. Mate-a. Por favor. Mate-a. E, como se estivesse respondendo as perguntas de Daniel, o maníaco falou.

- Quero que guarde muito desse terrror. - O tom de escárnio era supremo na voz dele. - Temos toda esta madrugada de diversão.

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ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ~

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Piscou. E respirou fundo. Porque ele ainda tinha pulso? Porque ele ainda respirava? Todas as coisas que tinha de importante em sua vida lhe foram tiradas. Não havia mais porque viver. Daniel estava agora, sem alma.

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Deu as costas aos dois espelhos que agora estavam negros e avançou para a porta Treze. Arrastou do chão a chave com o cristal negro ornamentada nela e abriu a porta. A porta foi destrancada. Ela se alongou para dentro sem fazer ruído algum. Ali, não havia nada além da escuridão. Daniel avançou sobre ela. Abraçou-a como se fosse um filho. A morte o aguardava.

ㅤㅤ

ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ~

ㅤㅤ

Piscou os olhos uma única vez. Estava na cama de um hospital, podia definir pela predominância de itens brancos a sua volta e pelo fato de estar deitado numa perfeita cama inclinada. Tentou olhar em volta. Mas nada aconteceu. Seu olho não se moveu, assim como não mais piscou. Com medo, tentou levantar-se para chamar uma enfermeira. Saber que tudo aquilo fora só um sonho. Mas ele não se moveu. Seu corpo não o comandava. Exatamente como antes. E, mal havia recuperado suas forças, sentiu que o seu maior terror não era a morte, ele até a desejava depois de ver tantas cenas. A décima terceira porta lhe mostrava a realidade.


Como ele passaria o resto de sua vida. Uma alma viva preso dentro de um corpo que não o responde. Estado Vegetativo.

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- ... - Observou a prancheta presa ao lado de sua cama. E novamente algo lhe indicou a verdade. Ele era o paciente do quarto Treze da ala Treze. Treze minutos fora o tempo de cada uma de suas cruéis visões. Treze seria o número de vezes que sua mulher, sádica e pervertida, faria amor com seus amantes em frente ao marido vegetativo. Treze fora o número de coisas que Thomas mais odiava por Daniel ter lhe tomado. Treze foram as vezes que sua mãe tentara abortá-lo antes mesmo de nascer. Treze seria o número de vezes que seu filho, Marco, iria ser vítima de mal-tratos ao extremo no colégio e na faculdade, causando seu suicídio. Treze horas seria o tempo que Ana sofrera nas mãos do maníaco. Sabia de tudo aquilo. E sabia que viveria para presenciar tudo aquilo, que a morte não o libertara. E por fim, é mais que óbvio, Treze é o número de anos que ele viveria naquela prisão angustiante.

E, mais que óbvio, aquilo que falava com Daniel, aquele ALGO, era nada mais que o Treze. Assim como o dia de seu fatídico acidente, Sexta Feira 13, um maldito dia para sua alma ser destinada a morte.

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Leia até o fim...

terça-feira, 23 de março de 2010

Nuvem Bela

- Que deus abençoe suas colheitas, Senhor.

ㅤ ㅤ E com um leve aceno, o Padre Luís despediu-se dos fazendeiros que lhe deram a condução até Nuvem Bela. Não precisou pagar nada, mas em troca do caminho percorrido na pequena carroça, deu apenas a benção para o árduo trabalho daquela família que vivia do que o campo lhe dava. Nuvem Bela ficava mais a frente, era um pequeno vilarejo que surgiu abaixo após alguns passos, Luís fora deixado no alto de um morro, ao qual na sua base ela se encontrava. Um emaranhado de pequenas casas feitas sem nenhuma estrutura mais forte. Talvez uma forte ventania fizesse tudo ali desabar sem muito esforço.
ㅤ ㅤ No meio das poucas dezenas de telhados, duas construções se destacavam. Uma era um grande depósito, que parecia ser consideravelmente mais bem construída. E a outra era a capela, instalada na parte mais ao sul do vilarejo agrícola, sendo a única construção feita com dois andares. Luís passava a maior parte do seu tempo na cidade, e ficou feliz por poder respirar um pouco daquele ar puro. Segurou firme a pequena mala e começou a descer o morro sem pressa.

ㅤ ㅤ Durante a curta caminhada, o sol já estava quase a se ocultar no horizonte, o que deu a Luís uma das visões que mais tarde ele descreveria como uma das mais lindas que já tinha visto: O amarelado brilhante se escondia atrás de umas poucas nuvens, espalhando assim toda sua luminosidade por entre elas, deixando todo o ambiente exuberante. A luz pousava sobre as telhas de Nuvem Bela criando longas sombras estendidas no chão, deixando o vilarejo com um acolhedor ar de fim de tarde. Perdido nesta beleza toda, o Padre mal notou quando estava já chegando as primeiras casas. E só então, notou algo curioso, algo que a beleza do Sol omitiu: Todas as casas estavam com portas e janelas trancadas. E não havia uma viva alma pelos arredores das casas. ㅤ
ㅤ ㅤ Geralmente, aquele era um momento de diversão para crianças. Quando o trabalho chegava ao fim e eles retornavam cansados para suas casas e encontravam os amigos das redondezas. Luís criou várias hipóteses, mas nenhuma lhe pareceu conveniente para a situação. Talvez João saiba de algo. Foi o que seu pensamento finalmente concluiu, e assim seguiu seu rumo até a igreja.

ㅤ ㅤ Conforme a construção surgia entre as casas, Luís fora ficando mais calmo. Não era nenhuma catedral, mas a pequena capela tinha um ar de tranquilidade e paz. E, sentado numa cadeira de balanço em frente a porta de entrada, estava João. Luís alargou um pouco sorriso e foi ao seu encontro para lhe dar um forte abraço. O Padre João não tinha mudado muito desde a última vez que se encontraram, quando ainda nem Servos de Deus sacramentados eles eram. Sua pele morena envelhecera e criara algumas poucas rugas, mas as felpudas sobrancelhas e o sorriso branco ao extremo ainda eram suas características.


- Quanto tempo, meu velho amigo! - João tomou a iniciativa na fala.
- Sim. Sim. Anos sem nem ao menos trocarmos cartas, caro João.
- Quando recebi a mensagem dizendo que viria, preparei nosso quarto de hóspedes da melhor maneira possível. Não é muito grande, mas irá gostar do aconchego de minha pequena capela.
- Ora, João, foi ao seu lado que aprendemos sobre a Beleza do Senhor estar no Abstrato e não no Físico. Sua capela me fez sorrir desde o topo do morro.
- Hah. - E João riu. - Suas palavras me caem como elogios valiosíssimos, Luís. Venha, vamos entrando.

ㅤ ㅤ E assim João abriu a porta de entrada para seu visitante. Entrou e João foi em seguida, fechando a porta atrás de si. Luís pensou ter visto uma cabeça saltar para fora da primeira casa a frente da igreja. Mas a porta se fechou antes de confirmar qualquer coisa.

- Soube que está ajudando o Bispo Miguel. Deve ser árdua sua tarefa.
- Sim, João, algumas vezes chego a pensar se não valeria a pena ir para uma capela numa pequena vila como esta. A vida na cidade cansa e nos deixa cheio de medos indesejados.
- Mas ora, ainda sim, é uma honra estar na presença do Grande Servo que é Miguel.
- Sim.
- Então, se conforme em vir a uma pequena vila apenas quando vier me visitar novamente, está bem? - E Sorrindo, João tomou a mala de Luís em mãos. - Deixe que carrego.
- Como quiser, como quiser. - Fora tudo que Luís respondeu.

ㅤ ㅤ A Capela, por dentro, tinha um ar inesperado. As fileiras de bancos eram impecáveis em madeira nobre, mas não pareciam ser tão usadas como imaginado. O Mosaico na janela atrás do altar refletia uma luz que, naquela hora do entardecer, deixava a figura de Jesus um tanto assustadora. Luís se pegou pensando naquilo e logo em seguida excluiu seus pensamentos negativos, para logo entrar num corredor e seguir João. Decidiu, por fim, puxar um assunto para conversar. O tópico que primeiro lhe surgiu em mente era óbvio.

- Diga-me, João...
- Sim?
- Porque todos da cidade estavam dentro de suas casas? É um costume do local?
ㅤ ㅤ João virou-se para Luís de súbito, como se tivesse sido pego fazendo algo errado. Mas a expressão só durou uma parte de segundo, para em seguida o Padre sorrir para Luís.
- É. Eles dormem muito cedo e acordam muito antes do alvorecer.
- Entendo. Então é por isso que não vi ninguém na minha vinda.
- Exato, meu irmão. Mas eles ainda são Cristãos dos quais me orgulho muito.

ㅤ ㅤ Passaram por um corredor mínimo que tinha apenas três portas. As duas do lado direito não chamaram atenção alguma. Entretanto, a única do lado esquerdo fisgou os olhos do Padre Luís. A porta parecia ter sido feita sob medida para nada acontecer a ela. Tinha cinco travas de chaves que, pelo que Luís conhecia do ofício, eram das mais difíceis de serem arrombadas.
ㅤ ㅤ Seus olhos apenas não comeram mais ainda a porta porque João já o esperava na pequena escada. Alcançou seu amigo e juntos subiram os degraus até o segundo andar, que parecia ser menor que o primeiro. João abriu a primeira porta do corredor e deixou espaço para Luís entrar, com um sorriso na face.
- O melhor cômodo da casa para um melhor amigo.
- Assim me deixa sem jeito, João. - E com um aceno de cabeça entrou no pequeno quarto.
ㅤ ㅤ Não era maior do que um pequeno depósito. Havia apenas a cama, um armário e uma escrivaninha com cadeira. Luís entrou no quarto e sentou-se na cama, relaxando finalmente as pernas que já haviam sofrido muito naquele dia de viagem. João deixou a mala ao lado da cama.
- Vou deixar você descansar um pouco. Daqui umas duas horas o chamarei para o jantar e botamos os assuntos em dia. Acho que poderemos conversar noite adentro.

ㅤ ㅤ Dito e feito, o jantar fora um belo cozido de legumes com carne de boi. João, pelo que contou a Luís na mesa, havia aprimorado suas técnicas culinárias desde que viera morar sozinho naquela capela em Nuvem Bela. O que fora comprovado pelo fulgor com o qual comeram.
ㅤ ㅤ O jantar foi acompanhado apenas por água fresca, e logo depois eles se sentaram na sala de estar e conversaram por um bom tempo. Tanto a cozinha quanto a sala de estar eram as duas portas normais do primeiro andar, mas João nem chegou a mencionar a terceira porta. E também, não houve tempo. Muitas foram as histórias, e Luís descobriu mais um pouco sobre como o vilarejo trabalhava.
ㅤ ㅤ Segundo João, todos trabalhavam nos campos de plantação, que ficavam mais ao leste. A produção era de subsistência e eles apenas comiam o que colhiam. Era uma vila feliz, embora parecesse tão pacata e quieta. Luís também contou sobre seu trabalho, auxiliando o Bispo Miguel com papeis e outras coisas mais burocráticas. Parecia até mesmo que, às vezes, o nome da Igreja se erguia mais como uma instituição financeira do que como a casa que espalha a palavra do Senhor. Felizmente, Luís ainda se mantinha como o que seus pais o moldaram. Um homem Justo e honesto, assim como João.
ㅤ ㅤ Trocaram palavras por mais de quatro horas, até que finalmente, Luís se queixou de cansaço e subiu para dormir. João o acompanhou até o quarto, subindo as escadas da pequena capela, que parecia ser a única que ainda tinha suas velas acesas no vilarejo.
- Durmo no quarto em frente. Caso precisar de qualquer coisa, bata na porta três vezes bem forte e lhe atenderei. Ultimamente meu sono está pesado demais.
- Não acho será desta vez que baterei, João. Meus pés precisam urgentemente de repouso.
- Tudo bem, então durma bem. E que Deus esteja contigo.
- Contigo também, irmão.
ㅤ ㅤ E assim a porta do quarto se fechou e Luís folgou-se na cama. Dois segundos depois e ele estava dormindo profundamente. Fora um dia em tanto para um Padre que normalmente ficava sentado em uma cadeira a maior parte do dia. Teria uma ótima noite de sono.


ㅤ ㅤ Ou pelo menos, era o que queria. Talvez tivesse sido por vontade de Deus, ou talvez tivesse sido por pura coincidência. Luís abriu os olhos no meio da noite, acordado depois de um sonho conturbado que, agora, não se lembrava mais. Seus quase trinta e cinco anos sempre o deixavam com marcas de uma velhice que chegará mais cedo.
ㅤ ㅤ Levantou-se lentamente e pensou em tomar água na cozinha. Mas temeu por acordar João e dá-lo o trabalho de se levantar a toa. Então, ele se limitou a caminhar até a janela de seu quarto. Abriu-a um pouco mais, de modo que pudesse se escorar nela e botou a cabeça para fora, respirando o ar gelado da madrugada. Permaneceu imóvel por mais de cinco minutos, notando alguns pontos da cidade que nunca tinha percebido antes. E foi então que algo tragou a atenção do seu olhar:

ㅤ ㅤ No meio da Penumbra, um fraco amarelado emanava de uma construção. Luís forçou os olhos até que finalmente pôde notar que era o grande armazém que vira do alto do morro. Uma luz de lamparina estava acesa dentro dele, e agora, com sua atenção voltada à construção, pôde também ouvir cochichos vindo de dentro. A luz fraca e baixa balançava e formava sombras nas pequenas janelas com grade da construção enquanto, ao que pareciam, várias pessoas conversavam lá dentro.
ㅤ ㅤ Padre Luís ficou observando por pouco mais de vinte minutos, até que a luz se apagou. Instintivamente, abaixou-se e ficou no canto da janela a observar: Alguém abriu a porta do depósito e botou a cabeça para fora, olhando para todos os lados, mas principalmente, para a capela. Ficaram daquela forma por um bom tempo, até ganharem coragem e saírem, um por um. Eram oito homens grandes que saíram dali e foram se espalhando pelas casas do vilarejo. Até encontrarem seus lares. Pelo amor de Deus, o que conversavam a esta hora? Era sua pergunta. E iria tirar suas dúvidas na manhã seguinte. Deitou-se na cama e tentou relaxar.

ㅤ ㅤ Quando abriu os olhos, descobriu que tinha dormido demais. Dormido de um sono novamente perturbado. O sol já se manifestava com sua luminosidade para qualquer canto que olhasse. Levantou-se rapidamente vestindo a batina e saiu do quarto de encontro com as escadas. Encontrou João no meio da missa. E por isso deixou para fazer as perguntas depois, e observar primeiro.
ㅤ ㅤ Era uma missa simples, e grande parte dos presentes eram mulheres, pois seus maridos já haviam ido para a roça trabalhar. Mas uma coisa chamou a atenção de Luís: O comportamento dos Fiéis. Eles pareciam estar como quando recebiam broncas dos pais. Quietos e de cabeça baixa, se limitando apenas a responder aos sermões de João. Era como se não quisessem estar ali.

ㅤ ㅤ A missa terminou e todos saíram, enfileirados, sem nenhum ânimo. Não foi uma primeira boa impressão para Luís. Que se encontrou com João logo depois e conversou com ele rapidamente. Numa troca de palavras, João explicou que o vilarejo sempre fora daquele jeito. E que por mais que ele tentasse animar as coisas, as pessoas continuavam da mesma forma. Acabou que, no meio termo, Luís esqueceu-se de perguntar sobre a reunião de madrugada e deixou João partir para suas tarefas sem saciar sua curiosidade. Tratou de tentar esquecer o ocorrido e resolveu, por não ter mais muito o que fazer. Dar uma volta pelos arredores do vilarejo.
ㅤ ㅤ Saiu para caminhar pela porta da frente. Duas mulheres passavam carregando roupas enquanto conversavam no exato instante. Elas, que já estavam afastadas da capela, viraram o rosto para Luís perplexas e logo depois se afastaram apressadas e caladas. O Padre não conseguiu entender nada. Nuvem Bela começava a se tornar um mar de dúvidas para o Apóstolo de deus. Mesmo assim, não desistiu de sua caminhada, ela poderia quem sabe sanar algumas dúvidas.
ㅤ ㅤ
ㅤ ㅤ E fora justamente o contrário que ocorreu. Seus questionamentos só aumentavam conforme ele andava no vilarejo. Caminhava pela trilha de terra, e sempre seus passos chamavam a atenção de todos. Que se calavam e limitavam-se a observar. Quando Luís olhava para eles, desviavam o olhar e continuavam fazendo o que faziam com rostos perturbados. Aquilo já ocorria na catedral onde trabalhava, as pessoas geralmente não gostavam de encará-lo por muito tempo. Mas, ali, em Nuvem Bela, havia um exagero. Não ousavam nem cruzar com ele no caminho de terra.
ㅤ ㅤ Desapontado, consigo mesmo e com o vilarejo, o Padre sentou-se a beira do rio que passava perto do vilarejo. Era graças a ele que as colheitas ali eram boas e fartas. Apoiou-se nos braços e relaxou o corpo, deixando a cabeça pender para trás enquanto respirava calmamente. Ali, encontrou a Paz por um segundo e agradeceu a Deus por ela. Mas como dito, não mais que um segundo. No seguinte, ouviu gritos estéricos de socorro vindos do ponto alto do rio. Olhou para a correnteza dele até avistar quem clamava pela ajuda. Uma pequena garota estava ali, lutando para conseguir respirar e se manter na superfície.
ㅤ ㅤ Luís saltou no rio sem pensar duas vezes e nadou vigorosamente até a garota para salvá-la. A força da correnteza era grande, mas com certeza a determinação do Padre em salvar uma pequena menina era mais. Dez minutos depois, os dois estavam na beira do rio arfando pesadamente pelo ocorrido. A garota não tinha mais que dez anos e vestia roupas de filhos de camponesa. Tinha cabelos longos presos em duas tranças. Assim que teve tempo, olhou para ele para agradecer com um sorrio. Que esmoreceu ao notar as vestimentas de Luís. Um Padre.
ㅤ ㅤ
- Como foi parar ali? - Luís cortou o medo da garota.
- Eu... eu tropecei e caí. - Ela respondeu, se encolhendo.
- Tome mais cuidado da próxima vez. Já pensou o que aconteceria caso...
ㅤ ㅤ Luís parou a fala. A garota estava quase para fugir dele, de tão longe que tinha se postado.
- Pelo amor de Deus. Porque está com medo de mim? Salvei tua vida!
- Eu sei mas...
- E além do mais, sou um Padre. Digo a palavra de Deus, mocinha!
- Eu sei mas...
- Mas?
- Mamãe diz que não devemos nos aproximar dos padres. Dizem que são maus e só servem para nos ameaçar de ir para o inferno.
- Ora! Quanta blasfêmia! Eu pareço mal para você?
ㅤ ㅤ Um longo silêncio se seguiu, no qual a garota parava para analisá-lo. Depois de alguns segundos, ela balançou a cabeça negativamente.
- Então porque me teme?
- Não sei...
ㅤ ㅤ Luís bufou e se ajeitou, sentado.
- Qual o teu nome?
- Alicia.
- Então, Alicia, sou Padre Luís. E diga para sua mãe que eu sou um bom homem.
- Eu... Eu direi!
ㅤ ㅤ E assim ela se postou de pé e começou a correr na direção do vilarejo. Mas antes que se perdesse de vista, virou-se e sorriu para Luís. O primeiro que recebera daquele vilarejo.
- Os líderes da colheita estão decidindo o que fazer. É de noite, no armazém.
ㅤ ㅤ Após dar o voto de confiança a garota voltou a correr. Mal sabia ela que suas palavras não clarearam nada das dúvidas de Luís. Em apenas um dia sua mente se encontrava mais cheia de confusões do que em toda a sua vida trabalhando para o Bispo. Agora, já não sentia confiança em falar com João. Se ele era o Padre designado para aquele vilarejo, as pessoas não deveriam temê-lo. Deviam adorá-lo. As palavras de Alícia zanzaram por sua mente durante o resto do dia. Que fez questão de passar longe de qualquer outra pessoa. Tão desatento que não notou o pequeno vulto a se mover, na outra margem, um tanto distante.
ㅤ ㅤ Quando o sol já vinha a se por, voltou novamente para a capela. João o esperava a entrada, sua cara estava claramente escondendo nervosismo, que se aliviou ao vê-lo surgir de trás de algumas casas. O Padre foi até o amigo correndo.
- Onde estava? Procurei-te o dia todo!
- Parei para descansar, amigo. Foi para isso que vim, afinal. Fiquei as margens do rio.
ㅤ ㅤ João olhou para ele de cima para baixo.
- Parece-me mais que estava dentro dele.
- Hah. - E riu. - Pequenos acidentes me fizeram dar um mergulho. Mas até me ajudou a refrescar-me. Agora está tudo bem, e a batina está quase seca. Vamos entrar, João.

ㅤ ㅤ E dado o assunto por terminado, assim passaram mais uma noite juntos. O Jantar foi delicioso como sempre, e logo depois conversaram por mais algumas horas. Mas não tanto quanto da última vez. Luís tinha planos para aquela madrugada. Ele subiu para sua cama cedo, alegando estar novamente cansado pelo dia fora, e trancou-se no quarto de hóspedes com as luzes apagadas. Não pregou os olhos naquela noite, e após ouvir os passos do Padre João seguirem até o quarto dele, grudou-se na janela de modo a observar tudo sem ser notado. E assim viu a hora em que os homens grandes novamente se moviam para dentro do armazém. Chegavam um a um, se ocultando atrás das casas em volta. O Padre Luís contou atentamente, até que os oito houvessem entrado. Depois, esperou mais alguns minutos para ver se não havia mais ninguém a aparecer. Cautela que fora recompensada. Dez minutos depois, mais um homem veio e entrou no armazém.
ㅤ ㅤ Mais da metade da noite já havia passado e Luís não ouvia mais nenhum ruído dentro da casa. Desceu as escadas com extremo cuidado e suavizava seus passos o máximo que conseguia. A luz no quarto de João estava apagada, ele já estava dormindo. Passou pelo corredor de baixo, pela porta misteriosa que também não tinha luz alguma emanando por debaixo dela. Chegou até a porta de entrada e de lá, saiu para o ar gélido.
ㅤ ㅤ
ㅤ ㅤ Talvez aquele não fosse o estereotipo de todos os padres, mas Luís sempre fora diferente. Seus pais o ensinaram a ser um bom homem e entrara na igreja porque desejava realmente disseminar a palavra de deus. Não era o caso da maioria dos que faziam parte do clero naquela época. Filhos forçados. Padre Corruptos e porcos eram encontrados. Mas Luís sabia que João não era um deles. O que fazia sua curiosidade crescer ainda mais.
ㅤ ㅤ Seus passos cuidadosos sobre a grama baixa renderam uma boa resposta: Lá estava ele, postado ao lado da porta, ouvindo o que diziam ali dentro. Pegou a conversa num ponto alto.
- Temos de fazer algo! Ele pegou minha filha! Foi hoje! Ela não voltou para casa!
- Calma, não podemos fazer nada contra ele porque...
- Shhh! ...Querem que nos ouçam? Falem baixo!
- Como posso falar baixo!? Nunca participei desta reunião, só estou aqui por minha filha!
ㅤ ㅤ Luís concluiu claramente que aquele era o nono a entrar. O que não estava nos planos.
- Tenha calma. Muitos já sofreram o que você também sofreu.
- E nada foi feito! Já está na hora de acabar com isso! - Retrucou ele.
- Não vou me arriscar! Não quero passar a eternidade no inferno! - Disse uma voz.
- Ele sempre diz as mesmas coisas. Que leva os que escolhe para o caminho de Deus. E que aqueles que vão contra, devem sofrer nas mãos do Diabo! E depois disso, nunca mais sabemos onde estão nossos pobres filhos!
- Vamos nos levantar contra ele.
- Vamos!
- Não! É arriscado demais.
ㅤ ㅤ Aquilo já era demais. Um baque potente contra sua mentalidade. João? João está fazendo coisas deste tipo? Impossível! Sua mente caducou, enquanto ele pensava e voltava para casa com os mesmos passos sofridos. Já ia se virar para subir as escadas da entrada da capela, quando notou algo que não notara antes: Vindo de trás da capela, uma luz tênue chamava a atenção de seus olhos. Um impulso o mandou seguir a luz e ele redirecionou seus passos. Nunca havia ido até o fundos da capela. Botou os olhos ali atrás e viu uma porta, da qual a luz saía por uma janela embaçada.
ㅤ ㅤ Luís demorou apenas poucos segundos para mentalizar um esboço de mapa da capela na mente. Aquela sala ali só poderia dar a um lugar: A sala misteriosa do primeiro andar. A sua curiosidade agora já não era contida. Talvez porque sua mente já não trabalhava direito. Palavras e imagens surgiam e desapareciam dentro dela deixando o pobre Luís a beira da loucura. Quando deu-se por si. Lá estava ele, correndo irrefreado contra a porta.
ㅤ ㅤ
ㅤ ㅤ Escancarou-a com um só chute. Abrindo para seu interior. Abrindo também, para o interior de sua própria mente. Para fragmentos esquecidos. Ali dentro encontrou João. A Sala era iluminada por quatro lamparinas postas nos cantos da sala, uma grande mesa retangular se estendia pelo centro do cômodo, fincadas nela haviam diversas facas de vários tipos e tamanhos. E em frente a ela estava João de costas para a porta. Não se virou com ela se arrebentando. Não podia se virar, afinal de contas. Luís tremeu ao olhar em volta.
ㅤ ㅤ Aquele pequeno cubículo tinha um ar tenebroso e cheiro de carniça chegou as suas narinas assim que deu o primeiro passo para dentro dela. Seus olhos se adaptaram a nova luminosidade e então, notou a abundância horrível: Sangue. Havia sangue para todo o lado ali dentro. O líquido vermelho pingava do cando da mesa e ia formava enormes poças pelo chão do lugar.
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- João!?
ㅤ ㅤ O Padre não respondeu ao amigo de imediato. Ficou de costas por um bom tempo, rindo para si mesmo enquanto seus ombros grandes mexiam em sincronia com as gargalhadas. Até que se virou. O Padre nem de longe parecia um servo de Deus. Mantinha agora seu rosto frente ao amigo. A barba estava má cortada, e seus olhos arregalados ao máximo, junto a um cínico sorriso.
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ㅤ ㅤ[b]A barba estava má cortada, e seus olhos arregalados ao máximo, junto a um cínico sorriso. [/b] João não parava, não importa o quanto o jovem Luís chorasse.
- Pare, João! Pare com isso!
ㅤ ㅤE a única resposta que o pobre discípulo da Igreja tinha eram as risadas daquele que tinha se declarado seu amigo. E agora o aprisionava no porão do monastério. O rosto estava vermelho de tantas lágrimas que ele já tinha derramado, mas agora, já não sentia a dor. Apenas a dormência. Também, evitava olhar para qualquer coisa que não fosse a face de João em cima dele. Ao olhar para o lado, se deparava com o que havia de mais horrível. Suas mãos e pernas acorrentadas com grilhões vermelhos em brasa. As queimaduras só aumentavam e se intensificavam pelas costas do homem estarem apoiadas na grande fornalha que aquecia o monastério. Mas a dor já não era grande. Não a dor física. Maior era a dor emocional. Porque Justo João?
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- Pare.... Pare.....
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ㅤ ㅤTentou implorar uma última vez. E daquela, obtivera uma resposta.
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- É apenas a vontade de Deus. Luís.
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ㅤ ㅤE antes que mais algo pudesse ser dito, João o virou. Um novo grito agudo de dor ecoou pelo porão. Mais um grito que não poderia ser escutado. Agora, o que queimava era seu peito, ardia em chamas em contato com a fornalha. Novas lágrimas se formaram, usando o que restava delas. Sentiu as roupas serem rasgadas e uma dor fulgurosa invadir-lhe pelo reto. Mas nada que fosse pior ao sentimento de traição e as queimaduras.
ㅤ ㅤminutos depois, mais nada ele podia sentir. João o deixou ali e ele apenas desejava esquecer tudo aquilo. Desejou tanto que, após ser socorrido por um Padre que conferia o estoque de vinho, deletou a imagem de sua mente. Fazendo com que João voltasse a ser apenas o amigo de sempre. Fazendo com que as queimaduras desaparecessem, em meio uma ilusão de si próprio. Fazendo com que toda aquela noite fosse apenas um sonho. Um Pesadelo que o perturbaria em poucas noites.
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ㅤ ㅤLembrou-se de tudo. Luís. O pesadelo que o acordara, um dia antes agora estava claro em sua mente. E não era ilusão, fora seu passado. Aquilo que quis esquecer e agora veio a tona. Agora já sabia porque as pessoas se afastavam dele, podia novamente ver as queimaduras que lhe cobriam todo o corpo, incluindo a face, pulsos e mãos. E agora, podia ver o verdadeiro João em sua frente. O cínico. O odiável. Veias de raiva saltaram de seu corpo e ele avançou contra João pegando a primeira coisa que pudera pegar: Uma cadeira que estava ao lado da porta. Quebrou-a contra o lado direito de João que fora jogado sem nenhuma resistência pra um canto. Batendo em alguns barris, que envolviam toda a sala.
ㅤ ㅤOlhou novamente para aquele que se dizia Padre. João estava enlambuzado de Sangue até a face. Em suas mãos, ele carregava as tripas de uma pobre menina que não fazia idéia de quem era, mas cujo pai agoniava no armazém mais ao lado.

- Você nunca foi meu amigo, crápula sinistro!
- Claro que fui, Luís! Fiz apenas a vontade de Deus!
- E desde quando isto é Deus!?
- Desde que ele falou comigo.
ㅤ ㅤ
ㅤ ㅤDesistiu de conversar. João não estava mais simplesmente descontrolado. Ele era um louco. E alguém precisava dar um fim nele e naquele sorriso demoníaco. Atacou com os restos da cadeira contra ele. Mas daquela vez o moreno reagiu, rolando de lado e passando uma rasteira contra Luís, que caiu bruscamente no chão. João agiu mais que rápido, levantou-se e pegou uma faca de serra que estava fincada na mesa. E antes que mais alguma coisa pudesse ser feita, avançou contra Luís com a faca em punho.
ㅤ ㅤO Padre se defendeu como pôde, colocou uma mão em frente ao rosto, bem na frente de onde a lâmina iria trespassá-lo. E assim, a faca atravessou sua mão. Gritou agoniado de dor, mas manteve seu raciocínio. Chutou seu algoz brutalmente. João perdeu o fôlego e caiu para trás soltando a faca. Rapidamente, o Padre puxou a faca de serra de sua mão e fincou-a contra Luís. A lâmina atravessou a perna dele e travou no chão do cômodo. O moreno urrou numa mescla de alegria e dor.
ㅤ ㅤAgora não era mais hora para se conter. Rapidamente Luís puxou mais duas facas da mesa, que estava ao seu lado e afundou-as contra João. As lâminas trespassaram, respectivamente, o calcanhar e uma mão e também afundaram no chão. Mais gritos eram emitidos furiosamente do Padre Assassino que agora formava poças de sangue no chão que se juntavam com as das suas vítimas. Ele já não podia se mover. Não sem um pulso e com o calcanhar de Aquiles sangrando fervorosamente. Luís sorriu, com o mesmo cinismo de João e puxou mais uma faca.

- Vá ao seu Deus, João. Que o Diabo o carregue!

ㅤ ㅤE assim afundou a última lâmina no meio da cabeça de João. Seus olhos estavam arregalados e um sorriso mergulhado em sangue estava formado na sua face. Ele morrera do jeito que desejou: Da mesma forma que suas vítimas. Luís ficou postado em frente ao corpo dele, observando-o por alguns longos minutos, até finalmente desmoronar apoiando-se em um dos barris ao lado.
ㅤ ㅤO Barril mal colocado saiu do lugar e tombou no chão, abrindo sua tampa e despejando seu conteúdo no chão do lugar, além de recair parte sobre o próprio Luís. Dentro do barril, havia muito sangue, e mergulhado nele, partes de corpos humanos. Todos pertencentes a uma mesma criança, cuja a cabeça fora a última a sair do rio de sangue do barril, partida ao meio. Luís alargou o sorriso de loucura que formava um bolo na sua mente e olhou em volta. Haviam dezenas de barris idênticos naquele lugar. Aquilo não era seu lugar. Ele... Ele precisava sair dali.
ㅤ ㅤ
ㅤ ㅤPressionou o pano sujo da roupa contra a mão e começou a mancar em direção a saída. Já estava para respirar o ar fresco que tanto desejava, quando uma voz saiu de dentro da Sala. Bem atrás de Luís.
ㅤ ㅤ
- Você disse que era um bom homem.
ㅤ ㅤ
ㅤ ㅤE logo em seguida uma dor aguda se formou nas suas costas e percorreu todo o corpo. Uma longa faca de cortar porco perfurou seu corpo. Luís empalideceu e se ajoelhou enquanto o sangue começou a jorrar de sua boca, junto de lágrimas dos olhos. Ainda teve forças de olhar para trás.
ㅤ ㅤAli estava Alicia, com as roupas com as quais vira naquela tarde. Mas as roupas estavam rasgadas e ela estava com o peitoril nu. Um buraco se fazia no meio do abdômen, do qual as tripas que faltavam estavam impregnadas nas mãos de João, morto mais atrás. Ela tinha marcas na face. Marcas de vermelho de tanto chorar. Mas diferente dele, ela não pudera nem gritar, com um pano na boca que retirou instantes depois de Luís aparecer. A mente de Alicia não estava mais nada bem. Para ela, agora todos os padres eram João. Eram assassinos estupradores. E assim ela considerou Luís que a salvou. O Padre, cheio de cicatrizes de queimaduras estendeu a mão para acariciar a face da menina, mas sua mão não a alcançou a tempo. Mais de cinco forquilhas perfuraram suas costas. Atrás dele, estava uma multidão enraivecida. Que havia finalmente aberto o olhos para aqueles Padres malvados.
ㅤ ㅤAlicia fora salva a tempo e viveu feliz. Teve filhos e uma vida normal depois do incidente. Embora sempre se encolhesse ao ouvir qualquer coisa vinda da igreja. O resto do vilarejo. Nuvem Bela, se orgulhava de seu povo. Daqueles que confrontaram a igreja e os dois Padres do Demônio. João e Luís. Leia até o fim...

quarta-feira, 3 de março de 2010

Obrigado

Eu sei. Eu sei. Ultimamente estou fazendo poucos contos e pouquíssimos poemas. E estou exagerando quando venho falar diretamente com vocês. Mas é que, dessa vez me caiu a ficha sobre algo muito importante. Algo a que eu nunca dediquei uma postagem inteira para falar sobre. E não é mais que óbvio?

Eu gostaria de agradecer a vocês.

É um ato bobo e emocional, mas eu nunca deixei um cara bobo e emocional. Então, acho que posso fazer isso. Sabe, estava voltando para casa hoje quando parei para notar. Notei que o meu sonho de ser um escritor é algo que já foi realizado a muito tempo. Quando vocês começaram a ler o que eu escreto. O meu sonho, de emocionar – ou tentar – emocionar os outros com o que eu escrevo, eu já realizei faz tempo. Não que isso significa que eu deveria parar com meu sonho. Muito pelo contrário. A única coisa que vocês me deram, foi força. Força para continuar escrevendo sempre mais e mais. Vocês não sabem como eu me enchia de felicidade e meu ego subia toda vez que vocês vinham comentar comigo sobre os meus escritos. E não vou negar; eu ficava, fico e sempre ficarei um pouco metido quando ouço os outros falando assim. Quem diz que não fica é um hipócrita mentiroso. Mas mais do que esse sentimento tantas vezes inútil, vocês me impulsionaram. Talvez o blog seja a melhor coisa que eu tenha feito nos últimos tempos.

Vocês são os únicos que ajudam-me a nutrir meu maior sonho: De me tornar um grande escritor. De ter meus livros sendo comentados por críticos de todas as partes do mundo. E eu percebi que grande pilar vocês formaram no meu pensamento. Como retribuição, não me resta nada. Nada além de promessas. De que nunca esquecerei de vocês. De que sempre tentarei escrever uma linha melhor que a anterior. De que mesmo longe ou sem nos falarmos muito, eu tentarei sempre manter contato para saber se precisam das minhas palavras para mais que um conto ou que um poema, para um conselho. Sim. Mais do que como um escritor, eu gostaria que você me vissem como um amigo com quem sempre podem contar. Alguém em quem sempre podem se apoiar para se levantar. Não guardem para vocês seus sentimentos. É doloroso demais. A minha principal promessa então, é óbvia: Eu nunca deixarei de ser o amigo de vocês. Contem com isso, sempre. Porque afinal, se fosse por algum de vocês, eu abandonaria meu dom com as palavras sem pensar duas vezes.



Muito obrigado. Mesmo.
Leia até o fim...

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